====== Como a mística tem suas raízes nos evangelhos ====== //[[https://archive.org/details/lamystiquedivine00gr|La Mystique divine, naturelle et diabolique I]]// //[[http://lesvoies.free.fr/spip/article.php?id_article=903|TEXTO ORIGINAL]]// ==== CAPÍTULO I ==== A mística pode ser considerada sob dois aspectos; pois, por um lado, tem suas raízes na própria natureza do homem e, por outro, se estende a uma esfera muito superior à natureza. É sob este último aspecto que ela se liga à religião e que dela recebe seu caráter e sua forma. A mística é, portanto, eminentemente cristã, e a doutrina do cristianismo deve exercer sobre seu desenvolvimento uma influência profunda. Não é, aliás, o objetivo do cristianismo reproduzir, até certo ponto, em cada homem em particular, o que se realizou na pessoa de Jesus Cristo, nosso modelo? Maria a concebeu em um êxtase celestial; e já, muitos séculos antes de seu nascimento, os profetas, levados por um êxtase divino, haviam anunciado sua vinda e contemplado antecipadamente os traços principais de sua vida. Unido pessoalmente à divindade, seu espírito via as coisas com uma visão totalmente mística; pois ele não precisava, como nós, remontar dos efeitos às causas, ou das consequências aos seus princípios; mas abrangia com um simples olhar o passado, o presente e o futuro, e toda a história estava presente em seu pensamento. Sua ação também era mística; e a natureza, reconhecendo nele seu senhor, submetia-se a ele e lhe obedecia com docilidade. É assim que o vemos caminhar sobre as ondas, acalmar as tempestades com sua palavra, multiplicar os pães e os peixes, transformar a água em vinho, tornar-se invisível e, dessa forma, escapar daqueles que o procuravam, curar as enfermidades e as doenças, e ir atacar a morte até mesmo em seu próprio reino. Essa virtude divina, cujas emanacões sagradas curavam aqueles que se aproximavam dele, ele não a levou consigo ao subir ao céu; mas a deixou na terra para sua Igreja, e dela fez o prêmio e a recompensa de uma vida sobrenatural e celestial. Foi ele, portanto, quem fundou a mística cristã e nos ofereceu, em sua vida, o modelo mais perfeito dela. Ele quis, após sua morte, percorrer ele mesmo todas as regiões do mundo invisível, a fim de iluminar com sua luz esses domínios sombrios e permitir que o homem caminhasse com passos seguros por esses caminhos tenebrosos. O limbo, onde os patriarcas aguardavam sua vinda; o inferno, para onde haviam sido precipitados os espíritos rebeldes e orgulhosos que não permaneceram na verdade; e o céu, com os coros que compõem sua admirável hierarquia, viram sucessivamente aparecer Cristo, vencedor da morte, do pecado e do inferno. Foi no dia de Pentecostes, quando enviou o Espírito Santo aos seus apóstolos, que lhes comunicou a virtude divina e mística que residia nele. E já o apóstolo São Paulo, em sua Primeira Epístola aos Coríntios, enumerava todos os dons maravilhosos que compõem esse precioso tesouro que o Salvador confiou à sua Igreja. Esses dons são de dois tipos: uns têm como objetivo a santificação daquele que os recebe, os outros a educação e a utilidade do próximo. Os primeiros formam a mística esotérica ou interior, e os outros produzem a mística exotérica, que geralmente não passa de resultado e manifestação da primeira. O profeta Joel havia predito aos judeus que seus filhos e suas filhas profetizariam; que os jovens teriam visões e os idosos, sonhos maravilhosos. Essa profecia se cumpriu na Igreja desde o início; e os Atos dos Apóstolos já nos relatam as visões e os sonhos sobrenaturais dos primeiros discípulos do Salvador. É em uma visão que São Pedro aprende que não deve mais adiar a admissão dos gentios na Igreja. É em uma visão que os mistérios do futuro são revelados a São João. São Paulo é arrebatado até o terceiro céu, e não sabe dizer se foi com o corpo ou sem ele. São Irineu, em seu segundo livro das Heresias, cap. 57, afirma que, em sua época, havia na Igreja fiéis que contemplavam o futuro e tinham visões. São Justino, em sua Apologia, opõe aos pagãos, como prova da divindade do cristianismo, o dom da profecia que a Igreja havia recebido, herdando assim o poder de seus oráculos e sibilas. Orígenes, em seu primeiro livro contra Celso, afirma que um grande número de pagãos se tornara cristão em consequência das visões que haviam tido, e que o Espírito Santo havia repentinamente mudado suas disposições, de modo que, instruídos e fortalecidos por essas visões, seja durante o sono, seja enquanto estavam acordados, não temiam morrer por uma doutrina da qual até então tinham repugnância. Ele afirma ter visto pessoalmente muitos casos desse tipo e toma Deus como testemunha de que o que diz é verdade. São Justino relata o mesmo a respeito dele em seu Diálogo com Trifão; e São Gregório de Nissa diz o mesmo a respeito de São Gregório, o Taumaturgo. Mas, enquanto o Espírito de Deus derramava assim abundantemente os raios de sua luz e de seu calor sobre sua jovem noiva, a Igreja, o espírito da natureza, no meio dessa primavera sobrenatural, parecia também despertar de seu sono; e já vemos surgir em diversos lugares, e particularmente entre os gnósticos, essa mística natural que era familiar aos pagãos. Já Tertuliano, tendo-se tornado montanista e falando em nome desses hereges, dizia: «Deus se dignou nos favorecer com o dom dos profetas; pois temos entre nós uma “irmã que recebe revelações”. É geralmente no «domingo, durante o culto, que ela entra em êxtase. Ela entra então em uma comunhão íntima e familiar com os anjos e os espíritos, e às vezes até mesmo com Deus. Ela escuta os corações; ela cura os doentes. O conteúdo de suas visões é fornecido pela leitura dos livros sagrados, pelo canto dos hinos, pelas pregações e exortações, e pelas orações que se recitam pelos fiéis. Um dia, enquanto ela estava em êxtase, falou-se da alma na assembleia; não me lembro mais exatamente o que foi dito. Terminado o culto, ela deixou a multidão dispersar-se, o que faz sempre que deseja nos comunicar o que viu em seu êxtase, pois assim podemos submeter tudo a um exame sério e atento. Contou-nos, então, que havia visto, sob uma forma corpórea, uma alma que lhe parecera ser um espírito. Ela não estava desprovida de toda forma; mas parecia que se pudesse agarrá-la ou tocá-la. Era terna, radiante; tinha a cor do ar e, no restante, assemelhava-se a uma forma humana.” A severidade excessiva da seita de Montait podia tornar menos perigosas para seus adeptos esse tipo de visões. Mas quando vemos esses mesmos fenômenos se repetirem em Simão, o Mago, com sua Helena, e em Marcião, que também trouxera para Roma consigo uma clarividente, a fim de conquistar as almas ingênuas, e em Apelle com sua Filomena, e em muitos outros sectários, é impossível duvidar que já, naquela época, já se conhecessem todos os graus e todas as formas de ilusão ou de engano. É provável que seja a visões desse tipo que devemos grande parte dos escritos apócrifos que surgiram nessa época, tais como o Apocalipse de Cerinto, o de São Pedro, o de São Paulo, o de São Tomás, as revelações de Santo Estêvão e outros semelhantes, que o papa Gelásio enumera em sua bula de condenação. Mas, assim como o erro, apesar de si mesmo, dá testemunho da verdade, também essa falsa mística confirma a mística verdadeira e divina, da qual ela é a contrapartida.