====== Teoria da Leitura e a Reedição do "Eu" em Santo Agostinho ====== //[[..:start|STOCK, Brian]]. [[.:start|Augustine the reader: meditation, self-knowledge, and the ethics of interpretation]]. Cambridge (Mass.) London: Belknap press of Harvard university press, 1996.// * Fundamentos Teológicos da Linguagem e Leitura * Agostinho considerava a leitura e a escrita como trabalhos penosos impostos à humanidade como resultado da desobediência no Éden. * Antes da queda, não havia necessidade desses instrumentos; Deus falava diretamente aos seres humanos ou manifestava sua vontade sem o uso da linguagem. * A leitura e a escrita surgiram no tempo e estão destinadas a desaparecer no fim dos tempos, quando a alma for restaurada à unidade divina. * As habilidades linguísticas e gramaticais são ferramentas temporais que permitem ao homem compreender as verdades eternas contidas na Bíblia. * O "Eu" como Narrativa e Intersubjetividade * Se a linguagem depende de uma comunidade de falantes, o "eu" e a mente também dependem de comunidades e vivem em uma "teia de interlocuções". * Nas //Confissões//, a história de Agostinho transita entre o pensamento privado e o mundo público através de palavras destinadas à interpretação de outrem. * O ato de //confessio// (confissão) torna-se //narratio// (narrativa), que é retransformada em uma confissão mental por seus leitores. * O autoconhecimento é revelado quando os padrões internos de uma vida passam do domínio privado para o público (publicação). * Diferenciação entre os eventos da vida pessoalmente recordados e o gênero literário inevitável usado para apresentá-los. * Autodefinição e o Leitor Autoconsciente * Agostinho vê o processo de escrita como uma constante autodefinição e reinterpretação, e não como uma versão definitiva e estática de sua biografia. * Ele recusa separar o valor representativo de sua vida da avaliação ética da pessoa que ele se tornou. * Sua preocupação é primariamente ética: o objetivo de viver na "casa da disciplina" é aprender a viver bem (//bene vivere//). * Introduz o conceito do leitor autoconsciente, que se estuda ao questionar autores à luz de suas próprias opiniões e experiências. * Os Três Estágios do Processo de Leitura * **Nível Empírico**: Atividade básica que envolve os sentidos físicos da audição (leitura oral) e da visão. * **Nível Cognitivo**: O leitor engaja-se no pensamento intencional e utiliza a memória para compreender o que é significado pelos signos. * **Nível Meditativo**: O leitor foca nas sensações criadas pelas palavras, desconecta as imagens mentais e é "ensinado por dentro". * A trajetória intelectual deixa o texto físico para trás, servindo como um prelúdio para a experiência mística. * A Reedição do "Eu" e a Transcendência * Viver conforme o "homem interior" é como um exercício literário: uma reedição do eu onde uma vida futura é traçada sobre a vida já vivida. * O processo de leitura é concebido como uma "odisséia" que leva o indivíduo da infância metafórica à maturidade espiritual. * A transcendência total é exemplificada na "Visão de Óstia", onde palavras, corpos e gêneros são superados simultaneamente. * Agostinho rejeita o "Pelagianismo literário", a crença de que a educação sozinha pode superar a condição humana decaída. * Debate Historiográfico e Metodológico * Críticos como Courcelle transformaram a pesquisa agostiniana ao usar ferramentas da filologia e crítica textual para testar a historicidade da narrativa. * Agostinho opera de forma interdependente entre discussões "narrativas" (histórias contadas a um público) e "analíticas" (investigações sobre cognição e interpretação).