====== EUGENIO TRÍAS — O SÍMBOLO RELIGIOSO ====== === O ACONTECIMENTO SIMBÓLICO === O símbolo é uma unidade (sym-bólica) que pressupõe um rompimento. Em princípio, encontram-se desencaixadas nele a forma simbolizante, ou o aspecto manifesto e manifestativo do simbólico (dada a visão, a percepção e a audição), e aquilo que é simbolizado no símbolo é que constitui seu horizonte de sentido. Eles possuem certas formas, figuras, presenças, traços ou palavras, mas não dispõem das chaves que permitem orientar-se devidamente com relação ao que significam. Há, portanto, um rompimento originário, ou partição, em forma de premissa de todo o drama simbólico. Determinada aliança prévia ao desfazer dos nós de tal drama prepara e dispõe esse cenário de exílio no qual se encontram separadas as duas partes que atuam como dramatis personce: a parte simbolizante e a que se encontra subtraída. O drama orienta-se em direção ao cenário final de reunião, ou de unificação, no qual se "lançam" ambas as partes e se assiste a sua desejada união. As categorias simbólicas fornecem determinação a esse cenário dramático e ao processo ou curso que constitui seu argumento. Tais categorias revelam, ou destacam, as condições que permitem ou possibilitam o acontecimento final, ou o desenlace do drama, e encontram-se escalonadas: a primeira prepara a segunda, esta constitui a condição da terceira, etc. São diferentes revelações, em virtude das quais emergem à plena luz as condições da manifestação simbólica. Tais revelações constituem uma escala que pode figurar em forma musical, como a escala dos intervalos musicais, supondo que a primeira revelação determine a segunda, esta a terceira, etc. Destaca-se, no curso do processo, a forma ou figura simbolizante. Mas esta pressupõe uma condição que intervém como fundamento: a matriz própria de toda a manifestação simbólica. Tal matriz, ou matéria, dota o símbolo de suporte físico. Deve certamente ser tomada ou transformada, para que então se apresente como forma ou figura simbólica. Essa matéria simbólica revela-se como a primeira condição ou categoria: ela abre o caminho e o movimento que culmina no acontecer simbólico. Este não pode produzir-se sem pressupor a dimensão material, que atua como o mais baixo e fundamental intervalo da escala . Templo e festa apresentam-se, portanto, como os efeitos (no espaço e no tempo) dessa transformação da matéria em cosmos ou em mundo. Com isso se dispõe portanto do cenário que intervém como condição de possibilidade do acontecimento simbólico. Isso constitui sempre um encontro ou uma relação (sym-bálica) entre certa presença que sai das sombras e certa testemunha que a reconhece (e que determina sua forma ou sua figura). Essa presença (do sagrado) e essa testemunha (humana) compõem uma correlação: uma genuína relação presencial que sela, de forma clara, tal encontro. Em virtude dessa relação presencial, a presença adquire forma ou figura: como teofania, figura suscetível de ser representada, ou como aura de glória, ou irradiação luminosa. A referida relação presencial constitui, portanto, a condição de possibilidade de uma genuína comunicação entre a presença e a testemunha (por meio da palavra ou da escrita). Tal comunicação verbal ou escrita consuma a manifestação simbólica, ou arremata o processo simbolizante do símbolo. Surge, como resultado dessa comunicação, uma revelação em forma de palavra (sagrada) ou de escrita (santa). Com isso resulta selada e cerrada a série escalonada das categorias simbolizantes. Esta última categoria (verbal, escrita) constitui a condição (material) da primeira categoria relativa ao simbolizado. A revelação (oral, escrita), consumada por meio da comunicação, impõe agora uma exegese: um envio ou uma remissão do lado simbolizante manifesto (literalidade da palavra ou do texto) às chaves (hermenêuticas) que lhe podem revelar o sentido. Sem manifestação prévia ou revelação (poética, profética, inspirada), tal remissão é impossível. Mas, uma vez concluída essa manifestação, é necessário determinar o método (exegético, alegórico) que conduz a tais chaves, atuantes como formas ideais do sentido. Ocorre que essas formas ou ideias (platônicas, gnósticas, neoplatônicas) chocam-se preliminarmente com um obstáculo final em que o impulso exegético e alegórico é refreado. A remissão ou o envio conduz essa manifestação de ideias ou de formas até o extremo mais longínquo, no qual parece anular-se toda indagação de sentido. O símbolo (diferentemente da alegoria ou do esquema conceituai) traz sempre um resquício místico que revela seu caráter estruturalmente religado a um substrato secreto, selado, santo (ao sagrado, com sua peculiar ambivalência). As condições ideias do sentido são, portanto, as que atuam como condição dessa elevação até o místico. Mas esse encontro místico, para consumar-se como acontecer simbólico, deve, portanto, retroceder até um âmbito no qual se pode produzir o enlace entre as duas partes consideradas, a simbolizante e a simbolizada. Neste sentido, a mística abre a necessidade de um retrocesso nessa elevação, negativa e superlativa, sobre o constitutivamente transcendente, em direção ao espaço fronteiriço no qual o símbolo pode pôr-se à prova, tratando então de constituir-se como um encaixe possível, de natureza sim-bálica, entre a parte simbolizante e o que nela se simboliza. Portanto, nesse espaço fronteiriço tem lugar a consumação simbólica: as duas partes do símbolo, simbolizante e simbolizado, encontram sua conjunção e seu lugar de co-incidência. Então, por fim, o símbolo produz-se como verdadeiro acontecimento. O símbolo realiza-se como símbolo, ou alcança sua teologia imanente. Assume, assim, todas as condições que lhe são preparadas e predispostas, promovendo-se como acontecimento simbólico.