===== Santifico-me, santifico-os ===== [[.:start|Logia Jesus]] — SANTIFICO-ME PARA QUE SEJAM SANTIFICADOS ([[b>João 14,6-19]]) Michel Henry: ENCARNAÇÃO Esta estrutura cristã da salvação, que se reencontra em todos os Padres e nos concílios, Agostinho a levou a esse extremo em que o tornar-se-homem de Deus, que possibilita por sua vez o tornar-se-Deus do homem, deve ser tomada ao pé da letra, significando essa deificação, essa identificação com a vida incorruptível, a única que permite ao homem escapar da morte. Agostinho se encarrega de pôr a nu a possibilidade principal dessa identificação, explicando uma das proposições mais enigmáticas de João, ao citar as palavras de Cristo em sua última oração ao Pai. Esse texto, que desvela os arcanos da missão de Cristo sobre a terra, põe em jogo uma dupla relação: a de Cristo com seu Pai, e a de Cristo com aqueles que seu Pai lhe confiou com vistas à salvação deles. Recordem-se alguns elementos do contexto joanino: «Não peço que os tires do mundo, mas que os defendas do maligno. Eles não pertencem ao mundo, assim como eu também não pertenço [...]. Eu os enviei ao mundo, como tu me enviaste a mim. Por eles eu me ofereço a ti, para que eles se ofereçam inteiramente a ti». Deste texto imenso, do qual não é possível analisar aqui todos os componentes, retomemos a proposição sobre a qual medita Agostinho: «Por eles eu me ofereço a ti». Nessa proposição estão implicados: por um lado, a relação com os homens dessa operação que Cristo opera («por eles», ele a realiza por eles); por outro, a própria operação: («eu me ofereço a ti»). Agostinho compreende desde o princípio a relação com os homens como a identidade entre Cristo e os homens. Pois como, pergunta-se ele, poderia Cristo santificar os homens santificando-se a si mesmo, senão porque os homens estão nele: «Porque eles mesmos sou eu». É evidente que, se em Cristo se produz uma santificação, aqueles que estão nele resultam santificados ao mesmo tempo. «Santificados» em sentido radical, no sentido de se tornarem não santos, mas Aquele que é o único Santo: Deus. Santificados, isto é, deificados, e somente como tais, salvos. A segunda implicação, de fato, a implicação fundadora, apresenta-se à maneira de um enigma: é a operação de Cristo, a santificação que ele mesmo cumpre, mas em relação a si mesmo, uma santificação que lhe concerne, dirigida para si, que tem Cristo por objeto. «Ninguém faz justiça a si mesmo», havia reconhecido Cristo diante dos doutores, escribas, sacerdotes e sumos sacerdotes que lhe dirigiam — em um diálogo de tensão trágica, relatado tanto pelos Sinópticos como pelo texto joanino — essa gravíssima censura, conforme, de resto, à Lei. A resposta de Cristo consiste em uma dessas declarações radicais que não podem senão agravar seu caso: que não era ele, mas Deus quem lhe fazia justiça — o que leva a supor que entre Ele e Deus existe uma relação tão íntima que é blasfema. Transpondo para a santificação o que acaba de ser dito da justificação (não são o Mesmo santificação e justificação?), não se poderia pensar de maneira análoga: «Ninguém se santifica a si mesmo» — e, entretanto, é isso que Cristo faz. Agostinho arrisca-se a explicar essa santificação de Cristo por ele mesmo, e o faz a partir da Encarnação e como explicação da própria Encarnação. Com efeito, uma vez que é o Verbo — que é Deus, que está no princípio junto de Deus — que se encarna, isto é, que se faz homem tomando a carne de um homem, então santifica esse homem no qual se encarna, na pessoa única de Cristo, que se fez Verbo e homem. Ou, para considerar as coisas já não do ponto de vista do Verbo, mas do homem no qual ele se encarnou, este foi santificado desde o início de sua existência histórica, porque é o Verbo que tomou carne nele, em sua própria carne de homem. Dito brevemente, na qualidade de Verbo, Cristo santifica a si mesmo como homem. Portanto, Cristo santificou a si mesmo porque é ao mesmo tempo Verbo e homem, e nele o Verbo santificou o homem. Essa é a declaração explícita de Santo Agostinho: «Portanto, santificou-se Ele mesmo em si mesmo, isto é, o homem no Verbo, porque Cristo é um, Verbo e homem, santificando o homem no Verbo». Na admirável análise de Agostinho permanece um núcleo obscuro. Dizer que o Verbo santifica o homem Jesus, encarnando-se nele, porque esse homem é o próprio Verbo, situa o Verbo no fundamento da salvação, mas não explica verdadeiramente a possibilidade interna dessa relação entre o Verbo e o homem. Verbo e homem justapõem-se na pessoa de Cristo, de modo que essa justaposição, essa dupla natureza, torna a encontrar-se no centro da problemática dos grandes concílios, visto que, ao fixar o dogma, permanece totalmente, como diz, por exemplo, Cirilo de Alexandria em sua segunda Carta a Nestório, nos tempos do concílio de Éfeso, «indizível e incompreensível». Ora, no texto joanino, que repete até a evidência as palavras de Cristo, a coexistência do Verbo e do homem em Cristo não se apresenta em nenhum momento como um conjunto de duas realidades opacas e irredutíveis. Ao contrário, um único e mesmo princípio de inteligibilidade, ou antes de Arqui-inteligibilidade, atravessa o Verbo e o homem para uni-los em Cristo. Essa Arqui-inteligibilidade é a autorrevelação da Vida absoluta. O fato de ela reger a relação fenomenológica de interioridade recíproca do Pai e do Filho provém disto: da autogeração da Vida absoluta como sua autorrevelação no Si do Primeiro Vivente. A fenomenologia da Encarnação mostrou amplamente que a Arqui-passibilidade dessa Arqui-revelação é, em sua efetuação fenomenológica, a Arqui-carne suposta em toda carne. Mas tudo isso está dito no texto de João, texto que apresenta uma estrutura formal do tipo: «Assim como... assim...», cuja pretensão de dar conta dificilmente pode ser refutada. Dá conta, por um lado, da similitude estrutural entre a relação fenomenológica de interioridade recíproca da Vida absoluta e de seu Verbo e, por outro, da relação de interioridade fenomenológica recíproca entre esse Verbo e todos os viventes em Cristo. Dentre todos esses enunciados equivalentes que se referem a um Outro lado radical — a este Outro-que-o-mundo que é a Vida absoluta na parusia de sua autorrevelação radical, que é sua «glória» («eles não pertencem ao mundo, assim como eu também não pertenço») —, retenha-se o último: «Eu lhes dei a glória que tu me deste, de tal maneira que possam ser um, como nós o somos. Eu com eles e tu em mim. Para que cheguem à união perfeita». Do que se trata, em definitivo, é do corpo místico de Cristo. Essa unidade de todos os homens em Cristo constitui precisamente o primeiro pressuposto de Agostinho — «Eles mesmos sou eu» —, que, por sua vez, constitui também a primeira condição da salvação, pois somente se todos os homens estão em Cristo, um com ele, se são o próprio Cristo, santificando-se a si mesmo, Cristo os santifica a todos nele, salvando-os todos ao mesmo tempo. O corpo místico de Cristo, no qual todos os homens não são mais que um, é uma forma extrema da experiência do outro; como tal, remete a ela. Do ponto de vista fenomenológico, o corpo místico só é possível se a natureza da relação que os homens são capazes de manter entre si puder alcançar esse ponto-limite, com efeito, em que não constituem mais que um, de tal modo que, não obstante — segundo os pressupostos do cristianismo, que são igualmente os de uma fenomenologia da Vida —, a individualidade de cada um seja preservada, ou seja, exaltada e já não abolida em semelhante experiência, se esta ainda deve ser a do outro.