===== 10 Cipriano, Mani, Eusébio ===== //Peter Brown. The Body and Society: Men, Women, and Sexual Renunciation in Early Christianity; Twentieth Anniversary Edition with a New Introduction (Columbia Classics in Religion)// **10 A igreja e o corpo: Cipriano, Mani e Eusébio** 1. Enquanto Porfírio e Metódio escreviam na Itália e na Lícia, uma família cristã do Alto Vale de Tembris, em Anatólia, viu-se forçada a enfrentar uma tragédia doméstica, pois Aurélio Telésforo e Aurélia Amia, membros da austera igreja dos novacianos, sepultaram Amia, sua filha solteira, e o epitáfio começava por frases antigas que lamentavam como ela podia já estar morrendo antes da grinalda nupcial, arrancada fora do tempo devido e privada do leito conjugal. 2. O epitáfio terminava com uma visão, pois no oitavo dia Amia tinha surgido num sonho e dito ao pai aflito e à mãe que não chorassem, que morrer era comum, mas que seu Salvador Jesus Cristo a unira aos justos e que das mãos do presbítero recebera o batismo, prerrogativa legítima da virgindade, vindo aos céus como virgem pura e tendo a vida eterna entre os santos. 3. As noções elevadas de Orígenes e Metódio não ocorreram no vazio, pois refletiam uma nova situação: pela primeira vez em sua história, o cristianismo havia-se tornado uma religião dos jovens. 4. Nem todas as famílias cristãs continuavam a presumir que fosse dever dos pais tementes a Deus impedir seus filhos de resvalar para a fornicação casando-os em idade precoce, pois muitos filhos, em sua maioria as meninas, já então desejavam permanecer solteiros, e o pai, chefe da família, já não era encarado como a única pessoa responsável por manter as filhas virgens para o casamento futuro. 5. As crianças pré-púberes passaram a ser apresentadas, pelo menos na teoria, como guardiãs do próprio corpo, pois tal como a pequena Amia, algumas optavam por guardar sua carne como virgens através de votos de continência perpétua, e é possível até que as famílias cristãs se dispusessem um pouco menos do que os pagãos tradicionalistas a submeter suas filhas a casamentos brutalmente precoces. 6. Da mesma forma, a decisão da menina de permanecer virgem nem sempre era mal recebida pela família, pois muitas vezes isso dispensava os pais da difícil tarefa de encontrar-lhe um marido. 7. As comunidades cristãs haviam crescido rapidamente no curso do século III, mas continuavam desconfiadas do mundo externo, pois as famílias cristãs não eram incentivadas a casar seus filhos com judeus, pagãos ou hereges, e, em decorrência disso, muitas comunidades se viram tendo que lidar com uma copia puellarum, um acúmulo de moças católicas para as quais não era possível encontrar maridos adequados. 8. Essas mulheres frequentemente optavam por uma vida de continência voluntária, protegidas e estimadas pelo clero, pois da mesma maneira os rapazes que tinham dificuldade em se casar passaram a gravitar em número cada vez maior para o clero ou para formas mais radicais de militância cristã. 9. Os Atos de S. João Evangelista, que tiveram ampla circulação nessa época, forneceram um modelo de celibato masculino perpétuo muito diferente da continência pós-conjugal que havia prevalecido em épocas anteriores, pois João pôde orar a Cristo, dizendo: Tu que até este momento me conservaste puro para Ti, e intocado pela união com a mulher; que, quando desejei casar-me em minha juventude, apareceste diante de mim e disseste: João, se não fosses meu, eu teria permitido que te casasses. 10. Por todo o Mediterrâneo, um aumento discreto da superioridade numérica fez com que grupos de jovens efusivamente comprometidas com a virgindade se acumulassem, como massas de gelo flutuante, em torno das comunidades cristãs, pois as virgens da Igreja chamaram a atenção dos vizinhos: ao final do século III, os atentados sexuais violentos contra as mulheres consagradas e as ameaças de condenação aos bordéis passaram a figurar como um aspecto corriqueiro das perseguições pagãs aos cristãos. 11. Essa lenta mudança coincidiu com uma rápida alteração na liderança da Igreja cristã, pois, no intervalo de uma década desde a morte de Orígenes, homens habituados à vida pública e peritos no exercício do poder emergiram como bispos cristãos em todas as grandes cidades do mundo romano. 12. Paulo de Samosata, bispo de Antioquia de aproximadamente 260 a 269, costumava desfilar pela ágora lendo em voz alta para seus clientes sua correspondência oficial, pois, cercado por coros de virgens que entoavam cânticos, assumiu seu lugar numa grande igreja nova, num trono alto e cercado de cortinas, semelhante à cadeira do governador no tribunal. 13. Embora seus rivais se declarassem chocados com tudo isso, Paulo foi o bispo cristão do futuro, pois na mesma época o bispo de Roma controlava uma equipe de 154 pessoas e era responsável pelo sustento de 1500 viúvas e pessoas desamparadas, e esses números faziam da Igreja cristã em Roma uma comunidade maior do que qualquer outro grupo voluntário da cidade. 14. Somente a um homem que se considerasse haver demonstrado uma continência virginal em sua vida particular seria possível confiar tamanho poder, pois a carreira de Cipriano, bispo de Cartago de 248 a 258, mostra com muita clareza até que ponto, numa grande cidade do mundo latino, a virgindade estava atrelada às necessidades do clero católico. 15. Cipriano era um orador convertido que crescera na atmosfera exclusivamente masculina do foro, pois a deliciosa indeterminação da didascália de Orígenes, onde homens e mulheres devotos se misturavam como iguais, era inimaginável em seu mundo tenso. 16. Habituado a tratar seu clero masculino como um grand seigneur, Cipriano seria a última pessoa a tratar as mulheres continentes como parceiras, pois ele louvava as virgens da Igreja na animadora linguagem laudatória corrente, mas escrevia-lhes basicamente sobre a disciplina — a disciplina, guardiã de todas as esperanças, esteio da fé, mestra de todas as virtudes, cuja negligência equivale à morte certa. 17. As virgens a quem ele advertia dessa maneira peremptória provinham de famílias abastadas, pois era de crucial importância para Cipriano que sua considerável riqueza pessoal só fosse usada para sustentar os cristãos pobres; não deveria de modo algum ser empregada para exercer pressão sobre o clero. 18. Nos textos de Cipriano, a virgindade nunca atingiu a posição exaltada que lhe foi concedida no mundo de língua grega, pois a poderosa lógica imaginativa que havia situado o corpo virgem numa categoria à parte, unindo os céus e a terra, esteve singularmente ausente do pensamento de Cipriano e do de seus sucessores latinos. 19. A sensibilidade religiosa de Cipriano foi dominada, ao contrário, pela presença do saeculum, pois ele estava diante de uma sociedade romana profundamente conservadora e ainda tenazmente dedicada a seus deuses antigos, por trás de cujos rostos brutais ele pressentia a presença permanente do Demônio e de seus anjos. 20. Desse saeculum, de um mundo desonesto e sanguinário, é que ele havia arrancado seu coração no momento do batismo, passando dele para o estreito laço de fraternidade da igreja cristã, pois durante dez anos, até sua execução em 258, a disciplina de uma comunidade em pé de guerra esteve em suas mãos. 21. Cipriano escreveu sobre os cristãos de Cartago e Roma como um grupo que enfrentou o saeculum na linha de combate do que correspondia ao ano 6000 da guerra do Demônio contra a raça humana, pois um mero indício de enfraquecimento afeminado da sólida determinação dos cristãos poderia revelar-se desastroso para a Igreja. 22. A visão de corpo legada por Cipriano, com um efeito decisivo, a Ambrósio, Jerônimo e Agostinho, foi determinada por essa preocupação preponderante, pois a carne dos cristãos era um baluarte contra o saeculum. 23. Essa carne podia ser dedicada a Cristo, como ocorria com as moças ou rapazes virgens, e a preservação da integridade do corpo era uma questão de suma importância, mas o corpo nunca poderia ser resguardado num estado de pureza sobrenatural em que se julgasse suspensa a fraqueza do barro mortal, como acontecia entre os pacatos pupilos de Metódio de Olimpo. 24. A carne assinalava, para Cipriano, um local de perpétuo perigo, um posto avançado do eu, retesado para receber os inúmeros golpes do mundo, pois, apesar de frágil em si mesmo e notoriamente exposto à tentação sexual, o corpo era menos minado pelo fogo oculto da sexualidade que ardia dentro dele do que corria o risco de ser dominado, de fora, pela sinistra força de atração do mundo. 25. Como homem poderoso, Cipriano sabia muito bem, em si próprio e em seus colegas insubordinados, o que significava para os cristãos serem sitiados não apenas pela sensualidade, mas pelos anseios mundanos mais impetuosos e devastadores da raiva, do ciúme e da soberba eclesiástica, pois era na carne dos mártires e dos confessores que o saeculum desferia abundantemente seus golpes mais terríveis. 26. Há nos escritos de Cipriano um predomínio do físico que irradia um sentimento da carne como uma fronteira tensa e sob constante ameaça de violação, pois a glória do martírio desabrochava como uma flor vermelho-sangue em suas páginas. 27. O vinho tinto da Eucaristia fortalecia os membros de seu rebanho, pois preparava-os para suportarem a visão de seu próprio sangue, jorrando para apagar com suas torrentes gloriosas as chamas e o fogo do Inferno. 28. O medo da morte e da dor física, e não a ferroada sutil da tentação sexual, era o inimigo mais opressivo que os cristãos tinham que aprender a suplantar, pois o controle da sexualidade era simplesmente um exemplo — e um exemplo não muito destacado — da necessidade dos cristãos de controlarem um corpo sujeito às imensas dores do mundo. 29. Para Cipriano, seguir Cristo não era nada menos do que um martírio cotidiano, pois nos textos de Cipriano o corpo dos cristãos emergiu como um microcosmo da situação ameaçada da Igreja, que em si era um organismo compacto, mantido sob rédea firme pela vontade abençoada e inabalável de seu chefe e guia espiritual, o Bispo. 30. Como um grande organismo, cabia-lhe rejeitar com intolerância visceral a mancha letal do sacrifício pagão, pois não devia deixar que afluíssem para ele as águas poluidoras da heresia. 31. O imenso corpo coletivo da Igreja tinha de exercer uma disciplina constante, para não ser dilacerado pelos anseios cegos e descontrolados de seus próprios membros insubmissos, pois tanto a Igreja quanto o corpo foram apresentados em termos de um controle permanentemente vigilante, ao qual a pressão implacável do saeculum não permitia dar trégua. 32. Foi uma mensagem sombria, cujas implicações não foram desperdiçadas nos sucessores de Cipriano no mundo latino, Ambrósio e Agostinho, pois passar de Cartago ao leste do Mediterrâneo é penetrar num mundo diferente. 33. Como seria esperável de uma região que já havia produzido os Atos de S. Judas Tomás, a Síria era uma zona sísmica, pois algumas formas singulares de cristianismo radical irradiaram-se da região situada entre a Antioquia e o Tigre. 34. Aproximadamente em 200 d.C., um bispo conduziu os habitantes de uma aldeia inteira montanha acima em busca da chegada do Senhor, pois, presos como salteadores pelo governador local, eles foram libertados através da intervenção da piedosa mulher do governador, que era cristã, e era um vislumbre direto do futuro, quando as montanhas da Síria seriam atravessadas por bandos de santos peregrinos e pontilhadas pelas colunas dos monges estilistas. 35. Na Síria, o corpo continente não era, como para Cipriano, uma imagem da disciplina compacta e intransigente de uma igreja sitiada, pois tampouco era uma anomalia obsessiva, pousada entre os céus e a terra, como no Banquete de Metódio. 36. Era um sinal vivo do fim iminente dos tempos atuais, um bolsão de antimatéria que ameaçava dissolver as sólidas fundações da ordem social, pois tais concepções impunham uma tensão considerável à comunidade estabelecida. 37. A Carta sobre a virgindade, atribuída a Clemente de Roma, talvez tenha sido escrita no século III e mostra uma igreja acostumada à noção do lar continente, mas não tão bem equipada para lidar com uma súbita elevação do número de rapazes solteiros com inclinações apostólicas, pois estes eram chamados andarilhos e tinham um compromisso de sagrada peregrinação em nome do reino. 38. Solteiros e dotados de mais amor e ócio do que seria recomendável, formavam uma multidão colorida ao perambular de aldeia para aldeia, pois suas longas invocações exorcizadoras, como as grandes orações dos Atos Apócrifos, eram a retórica dos pobres. 39. Eles levavam consigo a arte de salmodiar e de recitar as Sagradas Escrituras, que enchiam as estradas da Síria do som dos cânticos religiosos, pois quando não havia cristãos presentes numa aldeia eles tinham de permanecer calados — para não serem tomados por músicos ambulantes! 40. Quando iam às casas dos fiéis, as mulheres tinham que se reunir na parte dos fundos, enfileirando-se recatadamente para receber deles a paz do Senhor, pois as mulheres e as donzelas deveriam envolver as mãos em suas vestes, e também eles, com circunspecção e com os olhos voltados para o alto, embrulhariam a mão direita em suas túnicas, e elas se aproximariam e os saudariam na mão direita envolta em suas vestes. 41. Esses homens ficavam sob esse controle rigoroso porque tinham que ser mais do que impecáveis, pois, como S. Judas, levavam no próprio corpo a pessoa de Jesus Cristo. 42. Era através de seu estado virginal e desarraigado que a presença dEle era sentida nas aldeias e cidades da Síria: o corpo que nosso Senhor portava, e onde travou Seu conflito neste mundo, Ele o recebeu de uma virgem; queres ser cristão? Pois imita Cristo em tudo. 43. Mais a leste, no ambiente autônomo de uma aldeia sectária perto da nova capital sassânida em Ctésifon, às margens do Tigre, o jovem Mani cresceu em contato com um cristianismo cujos parâmetros inquestionáveis de ação cristã foram fornecidos pelos apóstolos dos Atos Apócrifos, pois aos doze anos de idade, no ano de 228/9, Mani teve a primeira de uma série de visões que o tornaram fundador da única religião universal independente a brotar diretamente da tradição cristã. 44. Em 276, foi pavorosamente martirizado pelo Rei dos Reis da Pérsia, pois aproximadamente em 300 d.C. os missionários maniqueístas haviam estabelecido a nova igreja de seu fundador em Edessa, na Antioquia, em Alexandria e em Cartago. 45. O súbito aparecimento de mais uma nova igreja, representada pelos pálidos Eleitos maniqueístas, revelou a força da tradição cristã síria, pois a ideia do estrangeiro peregrino, carregando em seu corpo continente o poder de abalar os reinos da terra, não havia perdido nem um pouco de seu poder de atração no Oriente Próximo cristão do fim do século III. 46. Mani crescera entre os seguidores de Elcasai, um líder judaico-cristão do século II, pois eles viviam num povoado empoleirado na margem do Tigre, uma aldeia de chefes de família circunspectos que tomavam o cuidado de só comer o pão assado em seus fornos puros e de só se alimentar com o produto de seus próprios campos puros, e era frequente limparem o corpo das manchas do mundo poluído através de banhos ritualísticos. 47. Mani se libertou da meticulosidade cerceadora de seus patrícios enfatizando a extrema falência do corpo, pois indagava como era possível que tal sangue e bile e flatulência e excremento do opróbrio, tal argila imunda, tivesse sequer a esperança de ser purificada através de meros banhos externos. 48. Por si só, o corpo era uma causa perdida, pois a primeira visão de Mani foi a de seu eu verdadeiro, seu Espírito — o Gêmeo —, e através desse Gêmeo ele soube de uma mensagem que fora confiada a sua alma antes de ela penetrar em seu corpo, antes que ele se vestisse com esse instrumento, e antes que fosse conduzido a esta carne abominável, e antes que se revestisse de sua embriaguez. 49. Todavia, a visão que Mani tinha do corpo não era de completo repúdio, pois o corpo dos fiéis, se santificado pela continência, poderia ter um papel a desempenhar em nada menos do que a redenção do universo. 50. O drama cósmico revelado a Mani era mais otimista que o de qualquer sistema gnóstico anterior, pois o mundo físico estava profundamente poluído, mas não tinha caído irreversivelmente, e logo abaixo de sua superfície reluzia a esperança de uma grande libertação que seria promovida na terra através da igreja verdadeira de Mani. 51. No mito maniqueísta, apenas uma pequena parcela do Reino da Luz, um local de imaculada pureza e pátria distante pela qual a alma ansiava, tinha sido devorada pelo Reino das Trevas, pois à primeira vista o universo visível podia parecer uma mistura caótica de Luz e Trevas, na qual as Trevas prendiam a Luz num abraço sufocante, mas esse universo abrigava em si a esperança de sua redenção. 52. Fora sutilmente reconstruído pelo Pai da Luz após o primeiro impacto catastrófico dos poderes das Trevas, pois toda a Luz, isto é, o espírito puro aprisionado em suas profundezas, era passível de salvação. 53. Os maniqueístas viam o mundo físico que os cercava menos como uma prisão do que como um cadinho amorosamente construído, pois, por meio de processos misteriosos e infalíveis, o Pai da Luz destilava do mundo físico as preciosas essências espirituais que tinham sido encerradas, apenas por um breve espaço de tempo, na matéria estranha. 54. Assim, os maniqueístas eram inicialmente ensinados a erguer os olhos para os céus, a adorar os Astros, o sol e a lua, pois viam neles a salvação de suas próprias almas, encenada com constância tranquilizadora muito acima de suas cabeças. 55. Todos os meses, a lua se enchia das partículas de luz que se elevavam do mundo, a caminho de um lugar de repouso final no Reino da Luz, que ficava um pouco além da pureza resplandecente do sol, pois erguer os olhos para o sol era ver abrir-se uma porta para o Reino da Luz, era contemplar a própria fuga definitiva da matéria. 56. Cheirar o perfume que se elevava das flores delicadas e dos ramos de incenso do Iraque era ser pungentemente conscientizado do imenso amor do sol, que procurava levar as almas dos retos de volta a seu antigo lar. 57. O corpo humano era um microcosmo desse universo, pois masmorra obscura para os não-iluminados, transformava-se num agente ativo da salvação, num cadinho em miniatura, uma vez que descesse sobre ele o poder da mensagem de Mani. 58. Daí a importância vital dos Eleitos para a igreja maniqueísta: aos Eleitos escolhi e através deles um caminho para as alturas, pois o corpo dos Eleitos estava longe de ser tratado como um detrito repulsivo cujo destino físico não tivesse importância alguma para seus donos. 59. O que se verificou foi o extremo oposto: o corpo eram o sol e a lua que haviam descido à terra, pois as orações solenes dos Eleitos favoreciam a libertação do mundo. 60. Suas refeições ritualísticas libertavam a luz aprisionada que refulgia de maneira tão palpável sob a casca das frutas e legumes, pois esses repastos eram reencenações solenes, através dos processos primários da alimentação e da digestão, da libertação de todas as almas do invólucro da matéria. 61. A alimentação rigidamente controlada dos Eleitos revertia a gula indiscriminada e devoradora do Reino das Trevas, pois a plebe maniqueia, os catecúmenos ou ouvintes, ligava-se aos Eleitos pelos mais íntimos laços possíveis: ela os alimentava. 62. O alimento que os ouvintes levavam a esses peregrinos pálidos passava, através de seus corpos santificados, para o Reino da Luz, pois essa relação altamente ritualizada permitia aos leigos maniqueus desempenhar um papel na promoção da vitória do bem sobre o mal. 63. Os Eleitos e os catecúmenos colaboravam na execução da retidão que o homem pode praticar em seu corpo, pois no sentido mais concreto os corpos puros dos Eleitos eram essenciais para o vasto processo de destilação que levava à salvação da luz aprisionada no universo. 64. De maneira lenta, mas segura, eles reconduziam a sua fonte as doces águas que jaziam sob os Filhos da Matéria: a Luz irá para a Luz, a fragrância para a fragrância, a Luz retornará a sua morada, as Trevas cairão e não voltarão a se elevar. 65. Daí a atitude ambígua diante da sexualidade que singularizou o maniqueísmo nos séculos seguintes, pois, de um lado, a sexualidade era uma força poderosa: resumia, para Mani, o impulso perene, voraz e excitado que originalmente fizera o Reino das Trevas se espalhar, como uma mancha de óleo poluente, por sobre a face do Reino da Luz. 66. O desejo sexual e a procriação representavam o horrendo oposto da verdadeira criação, pois a sexualidade era um princípio de proliferação irracional, uma natureza da qual não há construtor, criador ou produtor: a união sexual dos homens com suas mulheres provém desse tipo de acontecimento, e quando vos saciais com alimentos carnais, vossa concupiscência se excita, e dessa maneira os frutos da geração se multiplicam. 67. Por outro lado, os maniqueístas acreditavam que era possível transcender por completo o anseio sexual: era possível bani-lo do eu para sempre, pois os Eleitos podiam assumir seu papel cósmico porque o desejo sexual já fora excluído de seu eu mais íntimo, com a mesma certeza com que os alimentos normais e poluídos eram mantidos longe de suas santas bocas. 68. O poder do pecado podia agitar-se ocasionalmente em seus corpos, mas julgava-se que isso se devia predominantemente à negligência com a dieta; não afetava a alma repleta de luz, pois deveis saber que são bons os poderes da Luz: o Começo e o Fim estão claros diante de vós. 69. É extremamente difícil saber o que o maniqueísmo representou para a média dos adeptos da igreja de Mani, pois é fácil exagerar a extensão do impacto exercido sobre eles pelos poderosos mitos de Mani. 70. Não se esperava que eles se percebessem ou que tentassem comportar-se da mesma maneira que os austeros Eleitos, pois, ao contrário dos Eleitos, os ouvintes eram homens e mulheres casados, não haviam passado por uma mutação definitiva do eu e tinham que estar preparados para esperar, jejuando e observando a abstinência sexual durante ao menos cinquenta dias por ano, até que a lenta revolução do universo libertasse suas almas para que elas se unissem às dos Eleitos no Reino da Luz. 71. Por mais sombria que fosse a visão que Mani tinha da condição humana, o maniqueísmo manteve as esperanças elevadas de seus antecedentes encratitas e gnósticos, pois a cessação total do desejo era possível para a minoria. 72. Entre os Eleitos, não havia lugar para a atenção angustiante para com a fragilidade da vontade e as fantasias sexuais que abarrotavam espontaneamente o coração, características do pensamento dos Padres do Deserto e de Agostinho, pois um impulso sexual cuja força se limitava à transitória indumentária externa do corpo não atestava, para os Eleitos continentes, nenhuma fraqueza em suas almas imaculadas e incorruptíveis. 73. Essas almas já estavam inundadas de luz, pois para seus clientes casados os Eleitos eram janelas que deixavam penetrar a luz solar de um mundo distante. 74. Só se tem conhecimento das meditações de um único ouvinte maniqueísta — o jovem Agostinho, em Cartago, na década de 370 —, pois durante todo o tempo em que frequentou as cerimônias dos Eleitos, ele viveu escrupulosamente com uma concubina. 75. Não há razão para presumir que, na qualidade de ouvinte, tivesse internalizado as atitudes sombrias ante a sexualidade que eram correntes entre os Eleitos, guardiães dos mitos esotéricos de Mani, pois a grande mutação associada à redenção plena em todos os sistemas gnósticos visivelmente ainda não havia chegado para ele. 76. Os hinos solenes dos Eleitos falavam de um estado de perfeição que seguramente estava fora de seu alcance, comparado a sua própria experiência, pois ele se descobriu rezando fervorosamente pela castidade e pela continência, mas ainda não! 77. As comunidades cristãs do leste do Mediterrâneo logo se aperceberam de que os Eleitos maniqueus eram perturbadoramente parecidos com os peregrinos apostólicos de sua própria tradição, pois os heróis e heroínas dos Atos Apócrifos eram também os heróis e heroínas da igreja maniqueísta. 78. Mas os maniqueus eram homens e mulheres reais: durante o final do século III e ao longo do século IV, Paulo e Tecla trilharam juntos as estradas da Síria, sob a forma de grupinho de homens e mulheres Eleitos que se deslocavam de uma cidade para outra, pois como membros dos Eleitos as mulheres maniqueístas faziam longas viagens missionárias com seus pares do sexo oposto. 79. Os bispos cristãos acreditavam que as mulheres maniqueístas eram capazes de agir como porta-vozes nos debates públicos, pois essas figuras austeras e muito viajadas vagavam pelo coração das comunidades cristãs e chegavam com a desenvoltura perturbadora de completos estranhos. 80. Traziam um toque da terrível e extrema liberdade associada ao cristianismo radical da Síria, diretamente de sua pátria distante para as ruas de Antioquia, Cartago e Alexandria, pois carregavam com eles a cruz e iam de aldeia em aldeia; entravam famintos nas estradas, sem nenhum pão nas mãos, caminhavam sedentos sob o calor, sem levar água para beber, penetravam nas aldeias sem conhecer uma só pessoa, e eram acolhidos em nome dEle. 81. É preciso lembrar que Mani, Cipriano e Plotino foram praticamente contemporâneos, e que Constantino nasceu aproximadamente na mesma época em que Antônio se mudou para os arredores de sua aldeia, quando rapaz de uns dezoito a vinte anos, pois por volta de 300 o ascetismo cristão, invariavelmente associado a alguma forma de renúncia sexual perpétua, era um traço solidamente estabelecido da maioria das regiões do mundo cristão. 82. As formas tomadas por essa renúncia foram imensamente variadas, pois em cada região a renúncia sexual traduzia uma mensagem significativamente diferente e levava à formação de diferentes padrões de vida nas igrejas locais. 83. No Ocidente latino, a santidade da continência da carne tendia a girar em torno do clero da Igreja Católica, pois definia seus membros como sacerdotes santos, submetidos a um estado de abstinência ritualística perpétua. 84. Pouco antes de 303, o Concílio de Elvira, no sul da Espanha, declarou que os bispos, padres, diáconos e todos os membros do clero ligados à liturgia devem se abster de suas mulheres e não devem gerar filhos, pois tais sacerdotes podiam ter sido casados e ter constituído famílias, mas a ideia de que continuassem a manter relações sexuais com suas mulheres enquanto oficiavam no altar era cada vez mais chocante. 85. Na Ásia Menor, as inscrições e algumas referências esparsas sugerem um mundo esquecido de grupos cristãos ascéticos, pois aceitou-se, por exemplo, que um menino, Teodoto de Ancira, fosse criado no ascetismo, contra a vontade dos pais, por uma virgem idosa, Tecusa, e que sete virgens de sua igreja — e não o clero — fossem escolhidas como líderes dos cristãos numa época de perseguição. 86. É possível que Teodoto e seus companheiros fossem montanistas, mas não estavam sozinhos: uma seita local de apotactitae, de Renunciadores, pleiteou para si as virgens, pois as aldeias encratitas espalhavam-se por toda a Ásia Menor e norte da Síria. 87. Protegidas das atenções dos bispos mais ortodoxos das cidades pelas vastas extensões do planalto anatoliano e pelas montanhas ao norte da Síria, esses pequenos grupos mantinham o celibato, pelo menos para os viúvos de ambos os sexos, e se distinguiam de seus vizinhos mais displicentes por meio de tabus rigorosos sobre a carne, o vinho e os estilos de indumentária. 88. Evidentemente, os homens e mulheres cujas opiniões se conhecem a partir de suas lápides sólidas não eram os estrangeiros vadios com que se depara ao descer as encostas do planalto anatoliano e penetrar nas planícies da Síria e do Alto Tigre, pois os Andarilhos, aos quais se uniram então os Eleitos maniqueístas, continuaram a ser impelidos por rajadas súbitas entre o Irã e Antioquia. 89. Por todo o norte da Mesopotâmia, os Filhos e Filhas do Pacto continuaram a ser o centro proclamador da igreja, pois, como pessoas circunspectas, urbanas e predominantemente abastadas, amiúde refesteladas em suas próprias residências familiares, os membros do Pacto não eram nômades selvagens. 90. O homem que os exortara, Afraat, o Sábio Persa, bispo e professor de uma região próxima de Mosul, era uma propaganda de seu estilo tranquilo de vida: um homem sereno e de natureza afável, pois numa região de grandes comunidades judaicas, situada nos limites do confiante Império Zoroastrino do Irã, esses honrados celibatários representavam um desafio direto para seus vizinhos casados: vós recebestes uma maldição, queixaram-se os judeus a Afraat, e multiplicastes a esterilidade. 91. No estudo que Eusébio, Bispo de Cesareia, preparou sobre os mártires da Palestina na época da Grande Perseguição, encontram-se nas cidades e aldeias membros do clero que já desfrutavam de reputações pessoais pelo ascetismo extremado, como por exemplo Procópio de Eleuterópolis, que na verdade era um homem de Deus, pois, mesmo antes de seu martírio, dedicara sua vida à filosofia, e desde criança havia abraçado a castidade e um estilo de vida sumamente rigoroso. 92. Sua carne era o pão e sua bebida era a água, e esses eram seus únicos alimentos a cada dois ou três dias; da meditação sobre as palavras divinas ele não se afastava dia e noite, pois em decorrência de apartes excepcionalmente inoportunos no tribunal do governador em Cesareia, Procópio conquistou o martírio que, na mesma época, Antônio buscara em vão em Alexandria. 93. No Egito, Antônio não foi um inovador, pois logo na aldeia vizinha encontrou um velho que praticara desde a juventude a vida solitária. 94. Quando jovem, Antônio tinha viajado pelo Faium em busca da orientação dos ascetas que já se haviam estabelecido na orla do deserto, pois as profundezas do deserto, o Panérimo, para onde ele se retirou numa época posterior da vida, foram tão pouco responsáveis pela criação do ascetismo dos monges do século IV quanto o foram as matas inóspitas do Novo Mundo pela criação do puritanismo dos imigrantes pioneiros. 95. O deserto apenas proporcionou aos ascetas uma nova liberdade de seguirem ideais e práticas que eles tinham levado para lá das igrejas de suas aldeias, pois na ocasião em que a Grande Perseguição chegou ao fim no Oriente, em 313, Eusébio de Cesareia, admirador de Orígenes e autor então recente da triunfal História eclesiástica, além de futuro panegirista de Constantino, descobriu-se livre para dar início a uma refutação minuciosa do texto erudito de Porfírio Contra os cristãos. 96. Sua Preparação e sua Comprovação do Evangelho viriam a ser aniquilações definitivas do grande filósofo: foram a mais majestosa e soberba de todas as polêmicas, pois para Eusébio a vitória do cristianismo no mundo romano implicou também a vitória de uma elite dentro da igreja cristã. 97. Num trecho memorável do primeiro livro de sua Comprovação do Evangelho, ele resumiu o desfecho da revolução que se vinha acompanhando até aqui: dois estilos de vida foram assim concedidos pelo Senhor a Sua Igreja. 98. Um está acima da natureza e além da vida humana comum; não aceita o casamento, a geração de filhos, a propriedade ou a posse de riquezas, pois como certos seres celestiais, esses baixam os olhos sobre a vida humana, cumprindo o dever de um sacerdócio dedicado a Deus Todo-Poderoso pela raça inteira. 99. E o estilo mais humilde e mais humano estimula os seres humanos a se unirem em núpcias puras, e a gerar filhos, encarregar-se do governo, dar ordens aos soldados que lutam pelo bem; permite-lhes ter tino para a agricultura, o comércio e os outros interesses mais seculares, bem como para a religião. 100. A estruturação clara do cristianismo como uma religião de dois estilos tornou-se tão corriqueira e durou tanto tempo, no Oriente e no Ocidente, que é importante recuar um pouco para avaliar o significado das palavras de Eusébio. 101. Era longe de inevitável, nos séculos I e II, que uma divisão tão nítida viesse a caracterizar a igreja cristã, pois um cristianismo exclusivamente baseado no lar conjugal, tal como ficou implícito nas cartas pseudopaulinas e foi defendido com decidido encanto por um homem como Clemente de Alexandria, poderia ter conquistado uma proeminência incontestável por toda a bacia do Mediterrâneo. 102. Teria sido um cristianismo associado a uma disciplina sexual rigorosa e marcado pelo medo das mulheres, mas não teria sido necessariamente um cristianismo comprometido com a renúncia completa a toda e qualquer atividade sexual, exceto, talvez, numas poucas pessoas continentes depois do casamento — viúvas e sacerdotes. 103. Houvesse esse cristianismo prevalecido, os códigos sexuais correntes no mundo mediterrâneo da antiguidade recente certamente ter-se-iam tornado mais duros, pois uma sexualidade monogâmica sumamente disciplinada, acompanhada pelo rígido controle exercido pelos homens sobre as mulheres e pelos velhos sobre os jovens, ter-se-ia tornado a norma. 104. Os concílios e as ordens eclesiásticas do século II mostram que a silenciosa maioria dos cerca de cinco milhões de cristãos que viviam no Império Romano por volta do ano de 300 estava disposta a aceitar pouco mais do que uma moral de disciplina sexual tão intensamente puritana quanto a que ainda prevalece na costa islâmica do Mediterrâneo, pois os bispos reunidos em Elvira dedicaram 34 de seus 81 preceitos a questões concernentes ao casamento e aos crimes sexuais; um quarto de suas decisões referiu-se à imposição de um controle maior do que o vigente até então sobre as mulheres da comunidade cristã. 105. Em muitas regiões, as igrejas cristãs continuaram na defensiva contra as reivindicações radicais dos encratitas e pouco se interessaram por outras formas de ascetismo, pois algumas preocupações já consagradas — a fornicação por jovens solteiros, a vergonha acarretada à família pelas filhas que perdiam a virgindade antes do casamento e, como sempre, o medo secreto do adultério — eram consideradas tema suficiente para o interesse clerical. 106. A mulher casada pudica e fiel ao marido, e não a frágil donzela, é que constituía a figura a ser admirada, pois ela inundava a igreja local com o doce perfume de sua boa reputação: tal mulher certamente nunca ficava a sós com os rapazes e suspeitava até dos velhos. 107. Cobertas pelos véus em público e tomando o cuidado de demonstrar sua fé cristã através do pudor e da docilidade, as mulheres casadas, exibidas como exemplos pelo clero de muitas igrejas do final do século III, ainda não desapareceram por completo das costas do Mediterrâneo, pois esses códigos altamente restrativos eram entusiasticamente aplicados nas igrejas cristãs. 108. Mas eram um produto de forças morais que nunca se restringiram ao cristianismo, pois os pagãos e os judeus também gostavam de ver seu contingente feminino reduzido à ordem da mesma maneira. 109. A vitória de uma moral conjugal puritana no final do Império foi o acontecimento mais previsível da história da evolução moral do mundo romano, pois não há nenhuma dúvida quanto à rigidez com que ela foi imposta. 110. Já tendo chegado à meia-idade na época em que se declarou cristão, o imperador Constantino sabia exatamente o que queriam dele muitos de seus súditos, tanto pagãos quanto cristãos, pois no ano de 320 decretou uma lei de horrenda brutalidade: qualquer donzela que fugisse com seu pretendente deveria ser executada junto com ele, e a criada responsável pela jovem seria julgada culpada de haver incentivado sua pupila a afirmar sua liberdade dessa maneira imprópria, e em sua garganta se deveria derramar chumbo derretido. 111. O fato de que talvez a moça tivesse dado consentimento ao rapaz, através de uma promessa formal de casamento, foi posto de lado, em razão da invalidade associada à leviandade e à incoerência do sexo feminino, pois, profusamente enaltecido por um orador pagão por ser imune aos encantos das suplicantes atraentes, Constantino deu a seus contemporâneos da classe alta aquilo que eles buscavam num imperador que seguisse a tradição de Augusto: novas leis para controlar a moral e esmagar o vício, a castidade assegurada, o casamento protegido e a propriedade garantida. 112. Contudo, embora o endurecimento da disciplina sexual seja um aspecto singularmente destacado da sociedade do final do Império Romano, ele não constituiu sua única característica, pois o cristianismo da antiguidade recente e do início da Idade Média deu o lugar de honra, não à disciplina sexual dos casais, mas àqueles que, nas palavras de Eusébio, elevavam-se acima da natureza e além da vida humana comum. 113. A difusão da renúncia sexual nas igrejas do Mediterrâneo e do Oriente Próximo garantiu que a sociedade romana, cuja moral conjugal disciplinada talvez se assemelhasse à que hoje predomina nas regiões em que o islamismo ou o judaísmo são agora predominantes, passasse a aceitar, no início do século IV, uma distinção clara entre a vida dos chefes de família e a dos renunciadores do mundo, mais próxima da que vigorava na Índia dos sanyasi e na Ásia budista. 114. O abismo reverente que se cavou entre as pessoas casadas deste mundo e a vida angelical de seus heróis e heroínas ascéticos refletiu uma trégua tácita entre duas alas do movimento cristão, pois nos séculos II e III a moral conjugal cristã era mais frequentemente apresentada por seus defensores como uma reação à suposta imoralidade do mundo pagão. 115. Na verdade, os códigos conjugais cristãos foram formulados, em sua maioria, para defender as concepções dos cristãos moderados contra seus correligionários mais radicais, pois sem o desafio do ataque encratita às relações sexuais conjugais, por exemplo, as meticulosas recomendações fornecidas por Clemente de Alexandria aos casais nunca teriam sido escritas. 116. O clero e os apologistas apresentavam o mundo pagão, num estereótipo poderoso, embora inexato, como uma sociedade em que abundava a desordem sexual, pois os códigos rigorosos de moral conjugal mantinham a identidade dos grupos cristãos e separavam as famílias de fiéis da suposta devassidão de seus vizinhos pagãos. 117. Mas a insistência de muitos cristãos eloquentes em que seria possível renunciar por completo ao próprio casamento causava arrepios aos típicos chefes de família cristãos, pois a compensação que os leigos casados exigiam de seus líderes era que eles e suas famílias fossem protegidos dessas visões tão perturbadoramente radicais. 118. O chefe de família cristão talvez gostasse de ouvir a leitura dos Atos Apócrifos, mas não tinha nenhuma intenção de permitir que sua filha se transformasse numa Tecla, e muito menos queria que sua mulher bancasse a Migdônia perante seu patético Príncipe Karish, pois Antônio e os monges do século IV herdaram uma revolução; não a iniciaram. 119. No século transcorrido entre a juventude de Orígenes e a conversão de Constantino, os horizontes do possível já tinham sido determinados, silenciosa e decisivamente, num lento fechamento do horizonte moral do mundo cristão, pois a renúncia sexual completa havia-se transformado numa característica profusamente aclamada da vida cristã. 120. Essa renúncia levava em si implicações de uma importância incalculável para as noções vigentes da pessoa humana e para as atitudes convencionais diante da sociedade, mas era uma renúncia seguramente restrita a uma minoria admirada, pois ainda não estava claro o que a presença desses novos heróis e heroínas poderia vir a significar para o tom moral e as atitudes sociais da igreja cristã dentro do Império Romano. 121. O diálogo animado entre a nova sociedade do deserto e as igrejas do mundo povoado, sobre a natureza da sexualidade, sobre a relação entre o casamento e a continência, e sobre as relações possíveis entre homens e mulheres dentro do movimento ascético, assegurou que o século que se estendeu entre o triunfo de Constantino e as últimas obras de Agostinho de Hipona viesse a ser um dos períodos mais extraordinariamente eloquentes de toda a história do mundo antigo, pois é para esse século de ouro que se tem de voltar agora. {{tag>Brown corpo Cipriano Mani Eusébio}}