===== Alterego de Cristo ===== //MCGINN, Bernard. Antichrist: two thousand years of the human fascination with evil. 1. paperback ed ed. San Francisco: Harper, 1996.// === O Mistério de Jesus e as Origens do Anticristo === * O nascimento legítimo do Anticristo encontra-se vinculado de modo indissociável à crença de que Jesus de Nazaré era o messias ou Cristo. * Significado do termo grego Christos definido como o equivalente de messias ou ungido. * Condição de Jesus como um tipo de messias diferente daqueles previstos no Judaísmo do Segundo Templo, por tratar-se de alguém que não apenas viera, mas que também estava por vir. * Foco das esperanças dos primeiros seguidores na parousia, isto é, no retorno triunfante de Jesus na última hora para encerrar a história. * Identificação de Jesus com o messias que retorna atuando como a base indispensável para a criação da lenda do Anticristo. * Surgimento lógico da lenda a partir da oposição entre o bem e o mal implícita na aceitação de Jesus como o divino Filho do Homem, Cristo e Verbo de Deus. * A despeito da abundância de textos dedicados a Jesus ao longo da história, a figura do pregador da Galileia permanece misteriosa e sujeita a controvérsias. * Releitura da imagem de Jesus por cada época da história cristã de acordo com as próprias ideias sobre o que é central na religião, conforme demonstrado por Jaroslav Pelikan. * Paradoxo histórico caracterizado pela existência de mais materiais e ditos atribuídos a Jesus do que a quase qualquer outra figura de seu tempo, contrastando com a escassez de consensos sobre sua vida. * Origem de parte do problema documental localizada no fato de Jesus nada ter escrito, sendo os materiais abundantes provenientes de fontes interessadas de seus próprios seguidores. * Referências externas mais antigas encontradas em fontes romanas do final da primeira década do século segundo, especificamente em Plínio e Tácito. * O advento do método histórico-crítico de interpretação bíblica expandiu as problemáticas em torno do Jesus histórico ao buscar compreender o texto em seu contexto e intenção originais. * Redução das informações históricas seguras sobre Jesus a um mínimo pelo teólogo alemão Rudolf Bultmann em décadas passadas. * Consenso atual de que Jesus esteve ativo no início da terceira década do primeiro século e de que sua pregação centrava-se no anúncio do reino ou reinado de Deus. * Aceitação por parte dos estudiosos de que o núcleo da pregação real de Jesus sobrevive em algumas passagens evangélicas, embora a crucificação em Jerusalém seja um fato universalmente admitido. * As divergências contemporâneas concentram-se no modo como Jesus compreendia o reino de Deus, oscilando entre um evento histórico iminente ou uma nova consciência espiritual interior. * Tradição interpretativa que define a pregação do reino em sentido estritamente apocalíptico como um estágio final e iminente da história. * Mudança na maré acadêmica a partir de meados do século vinte, mitigando a visão do apocalipsismo consistente em favor de abordagens que defendem a escatologia realizada. * Uso de temas apocalípticos por Jesus para transmitir uma mensagem sobre a imanência presente em vez da iminência futura do reino. * Manutenção de pesquisas por parte de alguns investigadores que continuam a defender Jesus primordialmente como um pregador apocalíptico. * O debate sobre a originalidade e a autocompreensão de Jesus reflete-se diretamente nas disputas filológicas acerca do uso da expressão o Filho do Homem nos Evangelhos sinóticos. * Explicações cristãs tradicionais pressupondo a continuidade essencial entre a autoconsciência messiânica de Jesus e o testemunho escrito da Igreja primitiva. * Adoção de um princípio hermenêutico de dupla negação por estudiosos críticos modernos, identificando a mensagem única de Jesus naquilo que não pode ser reduzido nem ao judaísmo contemporâneo nem à pregação posterior da Igreja. * Estudos alternativos que enfatizam o Jesus judeu com base no que um judeu sectário do primeiro século sustentaria sobre a Torá, o templo e o messias. * Origem da expressão Filho do Homem localizada em um termo genérico hebraico e aramaico para designar um ser humano. * Uso do termo em Daniel 7:13 e em textos apocalípticos judeus contemporâneos — como 1 Enoque e 4 Esdras — para indicar um ser celestial apocalíptico com aparência humana. * Presença do título em dezesseis passagens sinóticas que lidam explicitamente com o fim dos tempos, refletindo a fé pós-pascoal dos primeiros crentes. * Rudolf Bultmann defendendo que Jesus utilizou a expressão para se referir a outra figura que atuaria como juiz escatológico. * Argumentação de Norman Perrin e Philipp Vielhauer sustentando que Jesus nunca empregou o termo. * Defesa do uso da expressão por Jesus avançada por pesquisadores como E. P. Sanders, M. E. Boring e Adela Yarbro Collins, sem certeza de que o termo referia-se a ele próprio. === Cristo e Anticristo no Cristianismo Primitivo === * O movimento de Jesus nos anos imediatamente posteriores à sua morte compreendeu o seu mestre em termos prioritariamente apocalípticos, atuando essa visão como a matriz da teologia cristã. * Ernst Käsemann e a máxima de que a apocalíptica foi a mãe de toda a teologia cristã. * Gerhard Ebeling e a ressalva de que o início da teologia se caracteriza pela apocalíptica modificada pela fé em Jesus. * Modificação exercida pela crença de que Jesus ressuscitara como o messias celestial, introduzindo possibilidades radicais nas especulações sobre a história e o fim dos tempos. * Desenvolvimento da lenda do Anticristo operando como a contrapartida dialética da visão emergente de Jesus como Christos. * A identificação do Jesus ressuscitado com o Filho do Homem apresenta uma distribuição documental irregular nas fontes do primeiro século. * Ausência do título nas cartas de Paulo, que constituem o estrato escrito mais antigo da cristandade. * Presença do termo na fonte perdida denominada Q, cuja existência é postulada para explicar ditos comuns em Matthew e Luke ausentes em Mark. * Atribuição a Q de um caráter representativo do cristianismo palestinense primitivo dotado de forte sabor apocalíptico. * Inclusão do título no Evangelho de Mark, comumente datado em sua forma sobrevivente após a queda de Jerusalém no ano 70. * Aparições no Evangelho de John sob acentos que assumem significados diferenciados em razão de uma cristologia altamente desenvolvida. * Menções na Apocalypse de John ao Senhor ressuscitado sob a figura do Filho do Homem. * A inserção de Jesus no meio apocalíptico judeu operou uma alteração decisiva no padrão escatológico, definindo o tempo presente pela tensão entre o já e o não ainda. * Vinculação da vida terrena do pregador da Galileia com um ser celestial cujo advento associava-se ao cenário final de crise—julgamento—vindicação. * Caráter do messias cristão definido pelo fato de já ter vindo e de ainda estar por vir. * Ressurreição tomada como o início da nova era, sem significar o seu triunfo definitivo. * Oscar Cullmann e a descrição do padrão do já e o não ainda como a marca distintiva do presente cristão. * Expectativa de que a história do presente aeon mau necessitava de eventos futuros e de outros atores antes de consumar-se pelo retorno de Cristo. === O Fim segundo os Evangelhos Sinóticos === * O texto conhecido como Pequena Apocalipse ou Apocalipse Sinótica estrutura-se como um midrash scriptural baseado nas profecias de Daniel acerca dos últimos eventos. * Lars Hartman e a demonstração das conexões desse texto com as descrições escatológicas encontradas nas cartas aos Tessalonicenses. * Versão de Mark considerada como a forma mais primitiva sobrevivente da meditação sobre o livro profético. * O cenário sinótico do fim desdobra-se em seções narrativas que alternam discussões de sinais cósmicos com conselhos morais de vigilância. * Alerta contra enganadores que virão em nome de Jesus dizendo Eu sou o Christos. * Anúncio de guerras, rumores de guerras, terremotos e famines como o início das dores de parto. * Aparição da Abominação de Desolação estabelecida onde não deveria estar, servindo de sinal para a fuga dos habitantes da Judeia para as montanhas. * Descrição de uma tribulação inédita desde o início da criação de Deus, cuja duração foi abreviada pelo Senhor para a salvação dos eleitos. * Surgimento de falsos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para desviar os escolhidos. * Sinais no céu caracterizados pelo escurecimento do sol, pela perda de luz da lua, pela queda das estrelas e pelo abalo das potências celestes. * Manifestação do sinal do Filho do Homem vindo sobre as nuvens com grande poder e glória para reunir os eleitos através dos anjos. * A Apocalipse Sinótica não apresenta uma figura nítida de um Tirano Final nos moldes de Antíoco Epifânio, mas introduz três elementos fundamentais para a tradição posterior do Anticristo. * Primeiro elemento: a multidão daqueles que virão reivindicando a identidade divina através do termo Eu sou. * Segundo elemento: a notificação da Abominação de Desolação extraída diretamente de Daniel. * Terceiro elemento: a predição da ascensão de falsos cristos e falsos profetas. * Conflação posterior dos três momentos pela especulação cristã para indicar a presença simultânea de uma oposição múltipla e de um único Inimigo Final. * Ênfase do modelo focado na falsidade e no engano por meio do qual os pseudochristos buscarão desviar os eleitos, sublinhando o motivo do falso profeta. * Transformação exegética da Abominação de Desolação — originalmente ligada à estátua de Zeus e depois ao cerco romano de 70 — em uma designação simbólica do Homem do Pecado assentado no templo. === O Cenário segundo as Cartas aos Tessalonicenses === * As cartas aos Tessalonicenses fornecem evidências fundamentais para o pensamento apocalíptico na década de 50, revelando tanto a iminência do retorno quanto a necessidade de eventos preliminares. * Consenso sobre a autenticidade de 1 Tessalonicenses como o primeiro documento cristão sobrevivente, escrito por Paul por volta do ano 50. * Divisão acadêmica quanto a 2 Tessalonicenses, cindida entre defensores da autoria paulina corretiva e proponentes de uma imitação posterior de corte pseudo-apocalíptico. * Conhecimento por parte de ambas as cartas do mesmo midrash sobre Daniel que sustenta a Apocalipse Sinótica. * Instrução em 1 Tessalonicenses focada no Dia do Senhor que virá como um ladrão na noite, tratando do destino dos mortos na parousia sem mencionar a oposição ativa. * Ausência de referências diretas a um Anticristo no primeiro escrito. * O segundo capítulo de 2 Tessalonicenses estabelece a crônica detalhada do Inimigo Final, fixando os termos para toda a especulação cristã subsequente. * Proibição de alarme ou engano antes que ocorra a rebelião ou apostasia contra Deus e se revele o Homem do Pecado, o Filho da Perdição. * Caracterização do Inimigo como aquele que se eleva contra tudo o que se chama Deus e toma assento no templo reivindicando divindade para si. * Menção à existência de uma força retentora — o katechon neutro — e de um indivíduo retentor — o katechon masculino — que impedem a revelação do ímpio antes do tempo próprio. * Interpretação patrística antiga identificando o Retentor com o Império Romano e seu imperador, ou com a necessidade de pregação universal do evangelho. * Revelação final do iníquo, cuja vinda opera por meio da atividade de Satanás acompanhada de falsos milagres, prodígios e ilusões mentais. * Aniquilação do Homem do Pecado pelo sopro da boca do Senhor Jesus e pela manifestação de sua parousia. * O texto de 2 Tessalonicenses cristaliza a oposição em uma única figura humana que concentra os motivos de rebelião, blasfêmia e engano, ganhando especificidade por seu contraste apocalíptico com o Senhor Jesus. * Atribuição de uma parousia e de um kairos próprio ao Homem do Pecado de modo simétrico ao retorno de Jesus. * Assunção do centro do palco do conflito final pelo Homem da Iniquidade, enquanto Jesus assume os poderes de julgamento atribuídos a Deus no Antigo Testamento. === O Modelo Adâmico e a Necessidade do Anticristo === * O deslocamento do foco do conflito final de Satanás para o seu agente humano explica-se pela estrutura antropológica do mito cristão do mal enraizado na queda de Adão. * Importância do mito de Adão para a teologia paulina baseada no contraste formal entre o velho homem e o novo homem. * Paul Ricoeur e a demonstração de que a figura de Adão estabelece-se como o inverso de Christos, consolidando a adamologia a partir da cristologia. * Concepção de Christos como um segundo Adão simétrico, porém superior ao primeiro. * Estruturação do mito do mal pela complementação entre o erro humano original e a força preexistente simbolizada na serpente tentadora. * A emergência de Jesus como o Filho do Homem apocalíptico viabilizou a postulação lendária do Filho da Perdição, estendendo a falibilidade humana ao fim dos tempos. * Fusão de história e mito em uma narrativa onde a resistência dos fiéis é superada pela tentação máxima apresentada pelo alter ego de Cristo. * Consecução da vitória final e da salvação definitiva vinculada à derrota do último e mais perverso Adão. * Condição do Anticristo como um componente tão necessário para o mito do mal quanto as figuras de Adão e de Cristo. * Atividades de círculos escribais cristãos primitivos responsáveis pela elaboração dessas meditações apocalípticas por volta do ano 50. === O Modelo de Nero e as Tradições Visionárias === * A necessidade de novos aportes históricos para a evolução do oponente de Deus processou-se após a separação do movimento cristão em relação ao templo e após a destruição de Jerusalém em 70. * Deslocamento das imagens de Antíoco IV para uma nova figura imperial que não correspondeu a Vespasiano ou Tito, mas ao Imperador Nero. * Reputação de Nero marcada por megalomania, crueldade, crime de matricide e reivindicações de status divino perante historiadores romanos, judeus e cristãos. * Identificação de Nero como o primeiro perseguidor imperial da seita cristã e a subsequente transformação de seu nome em sinônimo de tirano. * O mistério em torno do suicídio de Nero em 68 alimentou a crença de que o imperador não falecera, evoluindo para o mito de seu retorno à frente de exércitos orientais. * Rumores de fuga para a Pártia gerando o surgimento de impostores e quase motivando uma guerra entre superpotências no ano 88. * Lendas romanas reinterpretando o conflito político entre o Oriente e o Ocidente através do retorno do imperador fugitivo. * Desenvolvimento das lendas de Nero na linguagem da escatologia apocalíptica por parte de autores judeus e cristãos. * Os Oráculos Sibilinos judeus registraram a integração de Nero no cenário apocalíptico como um agente de vingança cósmica e oponente direto do messias. * Livro 4 das Sibilas apresentando o fugitivo de Roma cruzando o Eufrates com miríades de lanças para trazer a guerra ao Ocidente. * Livro 5 descrevendo o retorno do homem de mente selvagem que se declara igual a Deus e ataca Alexandria e Jerusalém antes de ser florestado pelo rei enviado por Deus. * Mitologização no Livro 5 retratando o abalo da criação e a destruição de Corinto mediante o corte das raízes de três cabeças pelo rei ímpio. * Contraste estabelecido entre as ações do Nero que retorna e o advento do homem abençoado que desce do céu para reconstruir o templo. * A interpolação do Livro 3 dos Oráculos Sibilinos opera a fusão nominal entre o imperador romano e o anjo decaído Belial. * Vinda de Beliar a partir dos Sebastenos, realizando prodígios como o erguer de montanhas, mares, mortos, sóis e luas. * Sedução e desvio de muitos hebreus escolhidos e fiéis bem como de homens sem lei que não ouviram a palavra de Deus. * Destruição final de Beliar e de seus seguidores por uma potência ardente enviada pelo grande Deus através do mar. * O texto cristão contido no Martírio de Isaías fornece o testemunho mais antigo do descenso de Beliar na forma de um homem encarnado, identificando-o explicitamente com Nero. * Composição da interpolação datada entre os anos 80 e 100, inserindo a descrição do reino de Beliar antes da parousia do Amado. * Descenso do grande anjo e rei deste mundo a partir de seu firmamento na forma de um rei de iniquidade e assassino de sua própria mãe. * Perseguição contra a planta dos doze apóstolos e predição de que o iníquo falará como o Amado dizendo Eu sou o Senhor. * Fixação do tempo de governo de Beliar-Nero em três anos, sete meses e vinte e sete dias. * Isomorfismo teológico em que o anjo mau assume a forma humana de modo simétrico ao processo de encarnação do Amado para efetuar a redenção. * Rejeição pela corrente cristã majoritária da tese de Beliar encarnado, fundamentada na assimetria teológica segundo a qual apenas Deus possui o poder de assumir uma natureza humana. * Manutenção do caráter estritamente humano do Inimigo Final na tradição ortodoxa, embora totalmente possuído e habitado por Satanás. === A Besta do Apocalipse de João === * A Apocalypse de John estabelece o uso das lendas de Nero focado no contraste entre ressurreições e parousias opostas, estruturando a narrativa por meio de visões repetidas. * Autoria atribuída a um profeta cristão de nome John atuando na Ásia Menor durante a última década do primeiro século. * Defesa da unidade do texto por gerações recentes de estudiosos contra as divisões fragmentárias do século dezenove. * Caráter específico do livro determinado pelo uso do próprio nome do autor em vez de um pseudônimo antigo, refletindo a consciência da nova era cristã. * Foco da narrativa direcionado a compreender como a história do Império Romano se articulava com o cenário de crise—julgamento—vindicação. * Divisão do livro em duas grandes revelações: o rolo selado aberto pelo Cordeiro e o pequeno rolo aberto devorado pelo vidente. * O arcabouço mitológico da oposição terrena inicia-se no capítulo doze com o combate cósmico entre o Dragão vermelho de sete cabeças e a Rainha do Céu grávida. * Identificação do Dragão com o diabo, cuja derrota celeste resulta em seu lançamento à terra para guerrear contra os filhos da Mulher. * Recuperação do antigo mito do combate atuando como uma das cenas mais potentes da literatura revelatória. * O capítulo treze descreve a instrumentação terrena da guerra satânica através da emergência da Besta do Mar, cujo perfil combina os traços das quatro feras de Daniel 7. * Entrega do poder, do trono e da autoridade mundial do Dragão à Besta de sete cabeças e dez chifres. * Observação de uma das cabeças atingida por uma ferida mortal que fora curada, gerando a admiração de todo o mundo. * Identificação da Besta única com o Império Romano agindo como o emissor persecutório de Satanás, transmutando-se no plano individual em direção ao rei dotado da ferida curada. * Fixação do tempo de atividade da Besta em quarenta e dois meses e atribuição do número de um homem calculado em 666. * Solução filológica interpretando o número 666 como uma gematria baseada em letras hebraicas para designar Nero César. * A exegese do capítulo dezessete clareia o caráter polivalente do símbolo por meio do diálogo entre o vidente e o anjo interpretador diante da Prostituta Babilônia. * Definição da Besta como aquela que era, não é e está para subir do Abismo a caminho da destruição. * Identificação das sete cabeças com as sete colinas de Roma e com sete imperadores, dos quais cinco caíram, um vigora e o outro reinará por pouco tempo. * Caracterização da Besta vindoura como o oitavo rei que integra ao mesmo tempo o grupo dos sete reis anteriores. * Consenso interpretativo identificando a cabeça revivida com Nero concebido como alguém que retorna dos mortos. * Contraste de parousias em que o Nero redivivo ascende do Abismo para guerrear contra os santos e destruir Roma, sendo combatido e lançado vivo no lago de enxofre pelo Guerreiro Divino sobre o cavalo branco. * A trajetória terrena do Anticristo-Nero ganha conexão com a história de Jerusalém através da inserção da Besta do Abismo no relato das duas testemunhas do capítulo onze. * Envio das duas testemunhas para profetizar durante os mil duzentos e sessenta dias de perseguição de Jerusalém pelos gentios. * Ataque, superação e morte dos pregadores apocalípticos executados pela Besta que ascende do Abismo. * Articulação literária assegurando relevância tanto a Roma quanto a Jerusalém na biografia mística do Inimigo Final. * O cenário da oposição completa-se com o surgimento da segunda Besta vinda da terra, que atua como o falso profeta individualizado do Anticristo. * Posse de chifres semelhantes aos de um cordeiro conjugada com uma voz de dragão. * Exercício da autoridade da primeira Besta em todas as instâncias, compelindo os habitantes da terra a adorar a ferida curada e marcando-os com o sinal do iníquo. * Constituição de uma trindade profana formada pelo Dragão, pela primeira Besta e pela segunda Besta em contraposição ao dogma trinitário cristão. * Pano de fundo mitológico associado às especulações judaicas tardias sobre os monstros cósmicos Leviatã e Behemoth. === A Fixação do Termo e a Vertente Coletiva === * O vocábulo técnico antichristos manifesta-se historicamente nas duas cartas atribuídas a John, inseridas no contexto das crises internas da comunidade joanina por volta do ano 100. * Emergência do termo em meio a cisões e saídas de membros da comunidade classificados como seccionistas ou proto-gnósticos. * Identificação dos dissidentes com os falsos profetas previstos pela tradição como sinais precursores do fim. * Declaração lapidária de 1 John 2 afirmando a vigência da última hora evidenciada pelo surgimento de muitos anticristos. * Definição do Anticristo como aquele que nega o Pai e o Filho, recusando a confissão de que Jesus veio na carne. * As cartas joaninas operam uma despolitização resoluta do Inimigo, convertendo o Anticristo em uma categoria coletiva definida pelo erro doutrinário ou heresia dentro da própria Igreja. * Aplicação da escatologia realizada joanina em que a presença da mentira teológica atesta a vigência real da última hora independente das dinâmicas da história universal. * Ambiguidade da preposição anti admitindo os significados de no lugar de Cristo, falso Cristo e oposto a Cristo. * Harmonização posterior permitindo aos cristãos crer simultaneamente na ação presente de muitos anticristos heréticos e no advento futuro de um único opositor final conforme previsto em Paul e na Apocalypse. * Diversificação e resiliência das fundações apocalípicas da fé cristã que subsistiram ao longo dos séculos apesar do arrefecimento do fervor primitivo decorrente da demora da parousia.