====== ORAÇÃO ====== Teresa de Ávila , Livro da Vida **Capítulo 11** * Decidir-se a seguir o caminho da oração equivale a tornar-se servo do amor, e essa dignidade é tão grande que o temor servil logo desaparece em quem segue esse caminho como deve. * A culpa por não desfrutar imediatamente do amor perfeito é nossa, não de Deus, pois Ele não dá algo tão precioso sem um grande preço, e somos lentos e apegados demais para nos entregarmos totalmente. * Com frequência se oferece a Deus a renda e os frutos enquanto se guarda a raiz e a posse; decide-se pela pobreza mas logo se age com toda a diligência para que nada falte, até o supérfluo, caindo em maior cuidado e perigo do que antes. * O maior trabalho está no início do caminho da oração, porque é quem começa que mais trabalha, enquanto nos graus superiores predomina o gozo; mas todos os graus carregam suas cruzes, embora diferentes. * Quem começa a oração deve imaginar que está fazendo um jardim em terra infértil cheia de ervas daninhas, para que o Senhor se deleite; Deus arranca as ervas e planta as boas, mas cabe ao jardineiro regar para que as plantas cresçam e deem flores que O recreem. * Os quatro modos de regar o jardim correspondem aos quatro graus de oração: tirar água do poço com grande trabalho; usar nora com manivela, com menos esforço e mais água; aproveitar a água corrente de rio ou riacho; e receber a chuva abundante que Deus dá sem nenhum esforço do jardineiro. * Quem começa a oração é como quem tira água do poço com grande esforço, precisando reunir sentidos dispersos, afastar-se das distrações, refletir sobre a vida passada e meditar sobre a vida de Cristo até esgotar o entendimento nisso. * Quando nos dias de aridez o poço parece seco e não se consegue nenhum bom pensamento, o jardineiro deve alegrar-se de trabalhar na horta de um Imperador tão grande, louvá-Lo pela confiança depositada, carregar a cruz com Ele e jamais abandonar a oração, pois o trabalho não se perde. * Os tormentos e tentações do início servem para provar os amantes de Deus e verificar se são capazes de beber o cálice antes de receber grandes tesouros; e Deus os conduz por esse caminho para que conheçam sua própria miséria antes de receber as graças, para que não lhes aconteça o que aconteceu a Lúcifer. * Quem tem a firme determinação de não abandonar a oração nem deixar Cristo com a cruz já percorreu a maior parte do caminho e não há por que se aflgir, pois a construção já começou sobre alicerce firme. * O amor de Deus não está nas lágrimas, nos prazeres e na ternura que desejamos, mas em servir com justiça, fortaleza de alma e humildade; dar muita importância à ausência de devoção sensível é imperfeição, fraqueza e falta de liberdade de espírito. * Muitos que começam nunca conseguem terminar porque não abraçam a cruz desde o início; ao deixarem de agir com o entendimento sem conseguir suportar isso, perdem o que a vontade poderia ganhar nesse mesmo momento. * A aridez frequentemente vem de indisposição corporal, e a alma, aprisionada no corpo, participa de suas misérias; nesses casos, a solução é mudar a hora da oração, tratar a alma como doente, praticar obras de caridade ou buscar passatempos santos, servindo ao corpo por amor a Deus. * É muito importante não se angustiar nem se aflgir por causa de períodos de aridez, distração ou inquietação; quem não se assusta com a cruz verá o Senhor ajudá-lo a carregá-la com alegria, e deve permanecer atento para que, quando a água houver, possa retirá-la, pois por esse meio Deus multiplica as virtudes. **Capítulo 14. Começa a declarar o segundo grau de oração, que é já dar o Senhor à alma a sentir gostos mais particulares. Declara-o para dar a entender como são já sobrenaturais.** * No segundo modo de regar o jardim, comparado a uma roda com canos, a água chega com muito menos trabalho do que no poço, pois a graça se dá a conhecer mais claramente à alma. * Nesse grau, chamado oração de quietude, a vontade se ocupa e se deixa aprisionar por Deus sem saber como, enquanto as outras potências — entendimento e memória — ajudam sem se perder nem adormecer. * Quando o entendimento e a memória se dispersam, a vontade não deve tentar recolhê-los à força, pois ao fazê-lo todas as potências perderiam o bem que estão gozando; deve permanecer em seu gozo e quietude, como pombas que acabam voltando ao pombal. * A oração de quietude não cansa mesmo que dure muito tempo, porque o entendimento opera mansamente e retira muito mais água do que no poço; as lágrimas que Deus dá aqui vêm acompanhadas de gozo e não são forçadas. * As mercês recebidas nesse grau fazem crescer as virtudes de modo muito superior ao grau anterior, pois Deus começa a comunicar-se à alma e a deixá-la perceber essa comunicação, extinguindo nela a cobiça das coisas desta vida. * A satisfação que a alma recebe é tão plena e interior que ela não sabe de onde lhe vem nem o que fazer, pois tudo parece encontrado de uma vez, e nenhuma riqueza, honra ou deleite do mundo equivale a um instante desse contentamento. * Deus quer que a alma compreenda que está tão perto que não precisa de mensageiros: basta mover os lábios para ser entendida, e o que Sua Majestade quer é que a alma perceba sua presença e a diferença entre esse deleite interior e os prazeres terrenos. * A ausência de pessoas que entendam esse caminho é grande prejuízo para as almas que chegam a esses estados, pois sem orientação perdem muito tempo sem saber o que fazer; conhecer os efeitos de cada grau é essencial para progredir. * Os efeitos dessas mercês sobrenaturais devem ser reconhecidos pelos frutos que produzem, pois embora o espírito seja geralmente de Deus, o demônio pode transfigurar-se em anjo de luz, e somente almas muito experimentadas conseguem discernir a diferença. **Capítulo 16. Trata do terceiro grau de oração e vai declarando coisas muito elevadas** * No terceiro modo de regar, comparado à água corrente de rio ou fonte, o Senhor ajuda o jardineiro de tal maneira que quase é Ele mesmo quem faz tudo, pois as potências adormecem sem se perder de todo. * O gozo, a suavidade e o deleite desse grau são incomparavelmente maiores do que os anteriores; a alma não sabe se fala, se cala, se ri ou se chora, pois experimenta um desatino glorioso e uma santa loucura em que se aprende a verdadeira sabedoria. * Nesse estado as potências só têm habilidade para ocupar-se em Deus, irrompem palavras de louvor sem ordem, e a alma quereria que todos participassem de seu gozo porque não consegue contê-lo sozinha. * A alma que alcança esse grau sente que ver tormentos seria coisa suave por seu Senhor, pois percebe claramente que a fortaleza não vem dela mesma; e o trabalho que sente é ter de retornar à vida ordinária do mundo. * A cruz dos que chegam a esse estado é ao mesmo tempo leve e pesadíssima: leve porque é suave, pesada porque a alma não quereria nunca ver-se livre dela senão para estar já com Deus, e não tem em nada seu descanso se não for para prestar algum pequeno serviço ao Senhor. * A pregação sem espírito interior produz pouco fruto por mais elevada que seja a doutrina e a retórica, pois o fogo do amor apostólico é o que aquece e converte; quem prega deve ter a honra e a vida em pouca estima para poder dizer a verdade com liberdade total. **Capítulo 18. Trata do quarto grau de oração. Começa a declarar com excelência a grande dignidade em que o Senhor põe a alma que está neste estado** * No quarto grau de oração a alma não sente que está no mundo, pois goza sem entender o que goza; todos os sentidos se ocupam nesse gozo de tal modo que nenhum fica livre para outra coisa, interior ou exterior. * A união plena das potências nesse estado é tão total que, se a alma pudesse fazer algo por si mesma, já não seria verdadeira união; o corpo perde quase toda a força exterior enquanto as forças da alma se aumentam para melhor gozar de sua glória. * O que se passa interiormente nesse estado não se pode compreender nem dizer: a alma se desfaz para pôr-se mais em Deus, não é ela quem vive, mas Deus nela; todas as potências se suspendem, a memória se apaga, o entendimento não compreende o que entende, e a vontade ama sem entender como. * A duração da suspensão completa de todas as potências é muito breve, ainda que dure meia hora seja muito; a vontade é a que mantém o estado, enquanto as outras duas potências logo voltam a importunar, são suspensas novamente, e assim se alternam por algumas horas. * O estado deixa na alma grandíssimos ganhos e nenhum dano, pois por mais longa que seja a oração não cansa e a pessoa sai sempre com grande melhora; as operações exteriores são tão visíveis que não se pode duvidar de que a ocasião foi grande. * O arrebatamento é uma mercê particular distinta da união, embora seja tudo um: assim como um fogo pequeno também é fogo mas difere imensamente de um fogo grande, assim o arrebatamento supera a união em desapego das criaturas e no voo do espírito. * Diante de tão grandes mercês, a alma reconhece sua própria insuficiência e pede a Deus que não ponha tão precioso licor em vaso tão quebrado, desejando que essas mercês sirvam antes a quem possa aproveitá-las para o bem de muitas outras almas. **Capítulo 22. Declara o que é oração mental** * A diferença entre oração mental e vocal não está em ter a boca fechada ou aberta, mas em que quem ora entenda e perceba com quem está falando; falar com Deus enquanto o pensamento está no mundo não é oração de nenhum dos dois tipos. * Para falar com um rei é preciso saber quem ele é e quem se é, pois o acatamento deve ser proporcional à grandeza de quem se dirige; rezar sem saber com quem se fala é tão inconveniente quanto abordar um rei sem conhecer as cerimônias devidas. * Quem condena a oração mental enquanto louva a vocal não entende nenhuma das duas; toda oração vocal bem rezada exige saber com quem se fala, e isso já é oração mental. * Deus gosta mais da rudeza humilde de um pastorzinho do que dos arrazoados elegantes dos sábios quando estes não vêm acompanhados de humildade; e sequer para agradecer o que Ele suporta ao ter almas tão imperfeitas ao pé de Si é bem procurar conhecer quem Ele é. * Assim como uma noiva procura conhecer quem é seu esposo, qual é sua terra e quais são seus bens antes de ir viver com ele, é natural e necessário que a alma procure entender quem é esse Esposo divino e como pode agradá-Lo; entender essas verdades é oração mental. **Capítulo 24. Trata de como se há de rezar com perfeição a oração vocal e quão unida anda esta com a mental** * Para as almas que não conseguem recolher o pensamento em oração mental, o conselho é que aprendam ao menos a rezar vocalmente com perfeição, entendendo o que dizem; rezar o Pai Nosso e a Ave-Maria sem compreendê-los não basta para quem quer mais do que o mínimo. * Ao dizer o Pai Nosso, convém lembrar quem é o Mestre que ensinou essa oração e com quanto amor o fez; nunca seria bom esquecer um mestre tão próximo, e lembrá-Lo muitas vezes ao rezar suas palavras é obrigação de bom discípulo. * O Senhor ensinou a rezar a sós, afastando-se para orar não por necessidade sua mas para ensinar; não se pode falar com Deus e com o mundo ao mesmo tempo, e quem reza enquanto pensa em outro assunto não entende o que é oração de nenhum tipo. * Quando o entendimento anda desbaratado por humores, fraqueza ou por permissão divina para bem da alma, não se deve afligir nem forçar o que não é possível; nesse caso, basta rezar como puder ou ocupar-se em outra obra de virtude, como quem cuida de um enfermo. * O melhor remédio para manter o pensamento na oração é procurar trazê-lo n'Aquele a quem se dirigem as palavras; quem aprende esse costume descobre que oração vocal e mental são inseparáveis quando a vocal é rezada com verdadeira atenção e advertência.