====== Livro 1 ====== === I, 001: O que é fino permanece. === PURA como o ouro mais fino, firme como uma rocha,\\ límpida como cristal deve ser a tua alma. ---- === I, 002: A morada da quietude eterna. === QUE outro se mortifique por seu sepulcro\\ e consagre aos seus vermes o edifício orgulhoso.\\ Eu não me preocupo com isso: meu túmulo, meu zelo e caixão,\\ no qual repousarei eternamente, deve ser o coração de Jesus. ---- === I, 003: Só Deus pode dar satisfação === FORA, fora, serafins, não podeis vós apagar a minha sede;\\ fora, fora, santos, e o que em vós resplandece;\\ de vós nada quero: apenas me lanço\\ ao mar increado da mera divindade. ---- === I, 004: Deve-se ser inteiramente divino. === SENHOR, não me basta servir-te como anjo\\ e verdejar diante de ti na perfeição divina:\\ é demasiado vil para mim e exíguo para o meu espírito:\\ quem quer servir-te retamente deve ser mais do que divino. ---- === I, 005: Não se sabe o que se é. === NÃO sei o que sou, não sou o que sei:\\ uma coisa e não uma coisa; um ponto e um círculo. ---- === I, 006: Deves ser o que Deus é. === SE devo encontrar o meu último fim e o meu primeiro princípio,\\ devo aprofundar-me em Deus, e a Deus em mim,\\ e tornar-me o que Ele é: devo ser brilho no brilho,\\ Verbo no Verbo, (a) Deus em Deus.\\ (a) Tauler, Instit. Espir. c. 39. ---- === I, 007: É preciso ainda ultrapassar Deus. === ONDE está a minha morada? Onde tu e eu não estamos.\\ Onde está o meu último fim, para o qual devo encaminhar-me?\\ Ali onde não há nenhum. Para onde devo então ir?\\ Devo marchar ainda (b) além de Deus, em direção a um deserto.\\ (b) isto é, além do que se conhece em Deus, ou do que se pode pensar d’Ele, segundo a contemplação negativa, sobre a qual cf. os místicos. ---- === I, 008: Deus não vive sem mim. === SEI que sem mim Deus não pode viver um instante;\\ *) se eu for aniquilado, Ele deve necessariamente expirar.\\ *) cf. o prólogo. ---- === I, 009: Eu o tenho de Deus, e Deus de mim. === QUE Deus seja e viva tão venturoso, sem desejo,\\ tanto Ele o recebeu de mim quanto eu d’Ele. ---- === I, 010: Eu sou como Deus, e Deus como eu === SOU tão grande quanto Deus: Ele é tão pequeno quanto eu;\\ Ele não pode estar acima de mim, nem eu abaixo d’Ele. ---- === I, 011: Deus está em mim, e eu n’Ele. === DEUS é em mim o fogo, e eu n’Ele o brilho:\\ não somos intimamente comuns um ao outro? ---- === I, 012: É preciso lançar-se mais além. === HOMEM, se lançares o teu espírito para além do tempo e do lugar,\\ podes estar na eternidade a cada instante. ---- === I, 013: O homem é eternidade. === EU mesmo sou eternidade, quando abandono o tempo\\ e me recolho em Deus, e a Deus em mim. ---- === I, 014: Um cristão tão rico quanto Deus. === SOU tão rico quanto Deus, não pode haver grão de pó\\ que (crê-me, homem) eu não tenha em comum com Ele. ---- === I, 015: A Sobre-divindade. === O que se disse de Deus ainda não me basta:\\ a Sobre-divindade é a minha vida e a minha luz. ---- === I, 016: O amor obriga a Deus. === SE Deus não quiser levar-me para além de Deus,\\ eu o obrigarei com puro amor.\\ (a) Ver n.º 7. ---- === I, 017: Um cristão é filho de Deus. === EU também sou filho de Deus; Ele me tem em suas mãos:\\ seu espírito, sua carne e seu sangue são conhecidos n’Ele em mim. ---- === I, 018: Eu me igualo a Deus. === DEUS me ama acima de si: se eu o amo acima de mim,\\ dou-lhe tanto quanto Ele me dá de si. ---- === I, 019: O silêncio bem-aventurado. === QUÃO bem-aventurado é o homem que não quer nem sabe!\\ *) que não dá a Deus (compreende-me bem) nem elogio nem louvor.\\ //$1//)\\ quanto mais procuras agarrá-lo, mais Ele se subtrai a ti.\\ //$1//)\\ *) isto é, entregar corpo e alma ao mais extremo perecimento por amor de Deus: como se ofereceram Moisés e Paulo, e muitos outros santos. ---- === I, 029: A morte eterna. === A morte da qual não floresce uma nova vida\\ é aquela que a minha alma foge entre todas as mortes. ---- === I, 030: Não há morte. === NÃO creio na morte: se morro a cada hora,\\ encontro a cada vez uma vida melhor. ---- === I, 031: O morrer perpétuo. === MORRO e vivo para Deus: se quero viver para Ele eternamente,\\ também o espírito devo entregar-lhe eternamente.*)\\ *) em sentido místico, isto é, resignar. ---- === I, 032: Deus morre e vive em nós. === EU não morro nem vivo: (a) o próprio Deus morre em mim;\\ e o que eu devo viver, (b) também Ele o vive sem cessar.\\ (a) porque d’Ele flui originariamente a virtude da mortificação; do mesmo modo segundo Paulo: 2 Cor. 3, 10, a mortificação de JESUS.\\ (b) vivo, já não eu, mas Cristo vive em mim. ---- === I, 033: Nada vive sem morrer. === DEUS mesmo, se quer viver para ti, deve morrer:\\ como pensas, sem morte, herdar a sua vida? ---- === I, 033: Nada vive sem morrer. === DEUS mesmo, se quer viver para ti, deve morrer:\\ como pensas, sem morte, herdar a sua vida? ---- === I, 034: A morte te deifica. === QUANDO estás morto, e Deus se fez a tua vida,\\ só então entras na ordem dos altos deuses. ---- === I, 035: A morte é a melhor das coisas. === DIGO que, pois só a morte me liberta,\\ ela é a melhor coisa entre todas as coisas. ---- === I, 036: Não há morte sem vida. === DIGO que nada morre: apenas que outra vida,\\ mesmo a dos tormentos, é dada pela morte. ---- === I, 036: Não há morte sem vida. === DIGO que nada morre: apenas que outra vida,\\ mesmo a dos tormentos, é dada pela morte. ---- === I, 037: A inquietação vem de ti. === NADA há que te mova: tu mesmo és a roda\\ que gira por si mesma e não tem repouso. ---- === I, 038: A indiferença faz a paz. === QUANDO tomas as coisas sem nenhuma distinção,\\ permaneces calmo e igual no amor e na dor. ---- === I, 038: A indiferença faz a paz. === QUANDO tomas as coisas sem nenhuma distinção,\\ permaneces calmo e igual no amor e na dor. ---- === I, 039: O abandono imperfeito. === QUEM no inferno não pode viver sem inferno,\\ ainda não se entregou por completo ao Altíssimo. ---- === I, 040: Deus é o que Ele quer. === DEUS é algo milagroso: é o que Ele quer,\\ e quer o que Ele é, sem nenhuma meta nem medida. ---- === I, 041: Deus não conhece fim de si mesmo. === DEUS é infinitamente alto (homem, crê-o prontamente),\\ Ele mesmo não encontra eternamente o fim da sua divindade. ---- === I, 042: Como se funda Deus? === DEUS se funda sem fundamento e se mede sem medida!\\ Se és com Ele um espírito, homem, o compreenderás. ---- === I, 043: Ama-se ainda sem conhecer. === AMO uma só coisa, e não sei o que é:\\ e porque não o sei, é que a escolhi. ---- === I, 044: Deve-se deixar o algo. === HOMEM, se amas algo, por certo não amas nada:\\ Deus não é isto ou aquilo, deixa por isso o algo. ---- === I, 045: A impotência potente. === QUEM nada deseja, nada tem, nada sabe, nada ama, nada quer,\\ ainda assim muito tem, sabe, deseja e ama. ---- === I, 046: A nada venturosa. === SOU algo bem-aventurado, se posso ser um nada,\\ nem manifesto nem partícipe de tudo o que existe. ---- === I, 046: A nada venturosa. === SOU algo bem-aventurado, se posso ser um nada,\\ nem manifesto nem partícipe de tudo o que existe. ---- === I, 047: O tempo é eternidade. === O tempo é como a eternidade, e a eternidade como o tempo,\\ se tu mesmo não fizeres uma diferença. ---- === I, 048: O templo e o altar de Deus. === DEUS se oferece a si mesmo: eu sou a cada instante\\ o seu templo, o seu altar e o seu genuflexório, se repouso. ---- === I, 049: A quietude é o Bem supremo. === A quietude é o Bem supremo; e se Deus não fosse quietude,\\ eu fecharia diante d’Ele mesmo os meus dois olhos. ---- === I, 050: O trono de Deus. === PERGUNTAS tu, cristão, onde Deus assentou o seu trono?\\ Ali onde Ele te ilumina em ti o seu Filho. ---- === I, 051: A igualdade de Deus. === QUEM na dita, na dor e no tormento permanece imóvel:\\ esse já não pode estar longe da igualdade de Deus. ---- === I, 052: O grão de mostarda espiritual. === O meu espírito é um grão de mostarda: se o seu sol o transluz,\\ cresce igual a Deus, com jubilosa delícia. ---- === I, 053: A virtude está na paz. === HOMEM, se praticas virtude com trabalho e esforço,\\ ainda não a tens: ainda lutas por ela. ---- === I, 054: A virtude essencial. === EU mesmo devo ser virtude e nada saber de acaso,\\ se de fato as virtudes hão de fluir de mim. ---- === I, 055: A fonte está em nós. === NÃO precisas clamar a Deus: a fonte está em ti;\\ se não fechas a saída, ela flui sem cessar. ---- === I, 056: A desconfiança ofende a Deus. === SE suplicas ao teu Deus por desconfiança\\ e não o deixas velar por tudo: cuida de não o ofender. ---- === I, 057: Na fraqueza encontra-se Deus. === QUEM dos pés é coxo e dos olhos cego,\\ que vá e veja de encontrar Deus em algum lugar. ---- === I, 058: O egoísmo. === HOMEM, se buscas a Deus por causa da quietude, ainda não estás no certo;\\ buscas a ti mesmo e não a Ele: ainda não és filho, apenas servo. ---- === I, 059: Como Deus quer, assim se deve querer. === SE eu fosse Serafim, preferiria ser\\ o mais vil dos vermes, para agradar ao Altíssimo. ---- === I, 060: Corpo, alma e Divindade. === A alma é um cristal, a Divindade é o seu brilho:\\ o corpo em que vives é o cofre de ambas. ---- === I, 061: Deus deve nascer em ti. === SE Cristo nascesse mil vezes em Belém,\\ e não em ti, permanecerias perdido eternamente. ---- === I, 062: O exterior não te vale. === A cruz do Gólgota não pode redimir-te do mal,\\ se ela não se ergue também em ti. ---- === I, 063: Levanta-te tu mesmo dentre os mortos. === DIGO: de nada te vale que Cristo tenha ressuscitado,\\ se jazes sempre cativo do pecado e dos vínculos da morte. ---- === I, 064: A semeadura espiritual. === DEUS é um lavrador, o grão é o seu Verbo eterno,\\ o seu Espírito é a relha do arado, o meu coração a sementeira. ---- === I, 065: A pobreza é divina. === DEUS é a coisa mais pobre: está inteiramente nu e livre;\\ por isso digo com toda razão que a pobreza é divina. ---- === I, 055: A fonte está em nós. === NÃO precisas clamar a Deus: a fonte está em ti;\\ se não fechas a saída, ela flui sem cessar. ---- === I, 066: O meu coração é o lar de Deus. === SE Deus é um fogo, o meu coração é o lar\\ onde Ele consome a lenha da vaidade. ---- === I, 067: A criança clama pela mãe. === COMO uma criança desmamada chora por sua mãe,\\ assim clama por Deus a alma que quer somente a Ele. ---- === I, 068: Um abismo chama ao outro. === O abismo do meu espírito invoca sempre em alta voz\\ o abismo de Deus: dize, qual é mais profundo? ---- === I, 068: Um abismo chama ao outro. === O abismo do meu espírito invoca sempre em alta voz\\ o abismo de Deus: dize, qual é mais profundo? ---- === I, 069: Leite com vinho, forte e genuíno. === A humanidade é o leite, a divindade é o vinho;\\ se queres fortalecer-te, bebe leite misturado com vinho. ---- === I, 069: Leite com vinho, forte e genuíno. === A humanidade é o leite, a divindade é o vinho;\\ se queres fortalecer-te, bebe leite misturado com vinho. ---- === I, 070: O amor. === O amor é o nosso Deus, tudo vive por amor;\\ quão ditoso seria o homem que permanecesse sempre nele! ---- === I, 071: É preciso ser a essência. === EXERCITAR o amor é grande esforço: não devemos apenas\\ amar, mas ser, como Deus, nós mesmos o amor. ---- === I, 072: Como se vê a Deus? === DEUS habita numa luz à qual falta todo caminho;\\ quem não chega a ser ele mesmo a luz, jamais O verá. ---- === I, 073: O homem era a vida de Deus. === ANTES de chegar a ser algo, eu era a vida de Deus:*)\\ por ele se entregou tudo por mim.\\ //$1//) a mergulhar-se essencialmente n’Ele.\\ *) Verdadeiramente, por inteiro, intimamente; em suma, recolhimento essencial em L. de Blois, Inst. cap. 3, n.º 8.\\ Notas a I, 080\\ Cf. IV, 32. ---- === I, 075: O teu ídolo, o teu desejo. === SE algo desejas junto de Deus, digo-te clara e francamente\\ que isso é o teu ídolo (por santo que sejas). ---- === I, 076: Não querer nada torna igual a Deus. === DEUS é a eterna quietude, porque nada quer nem busca;\\ do mesmo modo tu, se nada queres, serás muito. ---- === I, 077: As coisas são exíguas. === QUÃO pequeno é o homem que tanto valoriza alguma coisa\\ e não se instala acima de si, no trono de Deus! ---- === I, 078: A criatura é apenas um ponto. === VÊ: tudo o que Deus criou é tão pequeno para o meu espírito,\\ que lhe parece ser nele apenas um pontinho. ---- === I, 079: Deus dá frutos perfeitos. === QUEM quisesse negar-me a perfeição de Deus\\ teria antes de arrancar-me da sua cepa. ---- === I, 079: Deus dá frutos perfeitos. === QUEM quisesse negar-me a perfeição de Deus\\ teria antes de arrancar-me da sua cepa. ---- === I, 080: Cada um no que é seu. === A ave repousa no ar, a pedra sobre a terra,\\ no água vive o peixe, o meu espírito na mão de Deus.\\ Notas a I, 080\\ Cf. IV, 32. ---- === I, 081: Deus floresce de seus ramos. === SE nasceste de Deus, Deus floresce em ti;\\ e a sua divindade é a tua seiva e o teu ornamento. ---- === I, 082: O céu está em ti. === DETÉM-te, aonde corres? O céu está em ti;\\ se buscas a Deus noutro lugar, jamais o encontrarás. ---- === I, 083: Como se pode gozar de Deus. === DEUS é um Único Um; quem quer gozar d’Ele\\ deve incluir-se, não menos que Ele, n’Ele. ---- === I, 084: Como se chega a ser igual a Deus? === QUEM quer ser igual a Deus deve tornar-se desigual a tudo,\\ estar vazio de si mesmo e livre de pesares. ---- === I, 085: Como se ouve a palavra de Deus? === SE queres ouvir dizer em ti a Palavra Eterna,\\ deves despojar-te antes de toda inquietação. ---- === I, 086: Sou tão vasto quanto Deus. === SOU tão vasto quanto Deus, nada há em todo o mundo\\ (ó milagre!) que me contenha em si. ---- === I, 087: Na pedra angular está o tesouro. === COMO podes, ó homem, desejar alguma coisa,\\ se abarcas em ti a Deus e todas as coisas? ---- === I, 087: Na pedra angular está o tesouro. === POR que atormentas o metal? Só na pedra angular\\ estão o ouro, a saúde e todas as artes. ---- === I, 089: A alma é igual a Deus. === VISTO que a minha alma está em Deus fora do tempo e do lugar,\\ deve ser igual ao Lugar e ao Verbo eterno. ---- === I, 090: A deidade é o que verdeja. === A deidade é a minha seiva: o que em mim verdeja e floresce\\ é o seu Santo Espírito, pelo qual o rebento acontece. ---- === I, 091: Deve-se agradecer por tudo. === HOMEM, se ainda te acostumas a agradecer a Deus isto ou aquilo,\\ ainda não transpuse­ste as barreiras da tua fraqueza. ---- === I, 092: Quem está inteiramente deificado. === QUEM é como se não fosse, e jamais tivesse chegado a ser:\\ esse, (ó bem-aventurança!), tornou-se puro Deus. ---- === I, 093: Em si, ouve-se a Palavra. === QUEM está em si, ouve a Palavra de Deus,\\ (nega-o quanto quiseres) ainda sem tempo e sem lugar. ---- === I, 093: Em si, ouve-se a Palavra. === QUEM está em si, ouve a Palavra de Deus,\\ (nega-o quanto quiseres) ainda sem tempo e sem lugar. ---- === I, 094: A humildade. === A humildade é o fundo, a cobertura e o cofre,\\ no qual se erguem e se encerram as virtudes. ---- === I, 095: A pureza. === QUANDO, por meio de Deus, cheguei a ser pureza,\\ não me dirijo a lugar algum para encontrar a Deus. ---- === I, 096: Deus nada pode sem mim. === DEUS não pode, sem mim, fazer um só verminho;\\ se eu não o sustento com Ele, ele se desfaz de imediato. ---- === I, 097: Estar unido a Deus é bom para a dor eterna. === A quem está unido a Deus, Ele não pode condenar:\\ Ele mesmo se lançaria à morte e às chamas. ---- === I, 098: A vontade morta reina. === TÃO logo a minha vontade está morta, Deus deve fazer o que quero:\\ eu mesmo Lhe prescrevo o modelo e a meta. ---- === I, 099: Para o abandono tudo é igual. === ABANDONO-ME a Deus por inteiro; se Ele quisesse dar-me penas,\\ eu Lhe sorriria tanto quanto pelas alegrias. ---- === I, 100: Um sustenta o outro. === IMPORTO tanto a Deus quanto Ele a mim,\\ ajudo-O a guardar a sua essência, como Ele a minha. ---- === I, 101: Cristo. === OUVI o milagre! Cristo é o cordeiro e também o pastor,\\ quando Deus nasce homem na minha alma. ---- === I, 102: A crisopeia espiritual. === O chumbo torna-se ouro, o acaso caduca,\\ quando, com Deus, sou transmutado em Deus por Deus. ---- === I, 103: Sobre a mesma. === EU mesmo sou o metal, o Espírito é fogo e lar,\\ o Messias é a tintura que transfigura corpo e alma. ---- === I, 104: Também sobre a mesma. === TÃO logo posso ser fundido pelo fogo de Deus,\\ tão logo Deus imprime em mim a sua própria essência. ---- === I, 105: A imagem de Deus. === EU porto a imagem de Deus: se Ele quer contemplar-se,\\ isso só pode acontecer em mim e naquilo que se me assemelha. ---- === I, 106: Um é no outro. === EU não sou fora de Deus, nem Deus fora de mim;\\ eu sou o seu brilho e a sua luz, e Ele é o meu ornamento. ---- === I, 107: Tudo ainda está em Deus. === SE a criatura se derramou de Deus:\\ como a mantém Ele ainda então, encerrada no seu seio? ---- === I, 108: A rosa. === A rosa que aqui vê o teu olho exterior\\ floresceu assim desde a eternidade em Deus.*)\\ //$1//)\\ *) idealiter. ---- === I, 109: As criaturas. === VISTO que as criaturas permanecem na Palavra de Deus:\\ como poderiam jamais perder-se e perecer? ---- === I, 110: A busca da criatura. === DESDE o seu primeiro princípio, e ainda até hoje,\\ a criatura nada busca senão a paz do seu Criador. ---- === I, 111: A deidade é um Nada. === A terna deidade é um Nada e Sobrenada:\\ quem em tudo não vê nada — homem, crê-o —, vê-a. ---- === I, 111: A deidade é um Nada. === A terna deidade é um Nada e Sobrenada:\\ quem em tudo não vê nada — homem, crê-o —, vê-a. ---- === I, 112: É bom estar ao sol. === QUEM está ao sol não carece da luz\\ que falta àquele que, extraviado, anda fora dele. ---- === I, 113: Jeová é o sol. === TIRA-ME a luz do sol: Jeová é o sol\\ que ilumina a minha alma e a enche de gozo. ---- === I, 113: Jeová é o sol. === TIRA-ME a luz do sol: Jeová é o sol\\ que ilumina a minha alma e a enche de gozo. ---- === I, 114: O sol já é bastante. === A QUEM o seu sol brilha, não precisa olhar\\ se, em algum lugar, a lua e outros astros resplandecem. ---- === I, 115: Tu mesmo deves ser sol. === EU mesmo devo ser sol, devo pintar com os meus raios\\ o incolor mar da deidade inteira. ---- === I, 115: Tu mesmo deves ser sol. === EU mesmo devo ser sol, devo pintar com os meus raios\\ o incolor mar da deidade inteira. ---- === I, 116: O orvalho. === O orvalho refresca o campo: se há de corroborar o meu coração,\\ deve cair do coração de Jesus. ---- === I, 117: Nada doce no mundo. === QUEM pode chamar algo no mundo de doce e encantador\\ deve ainda ignorar a doçura que é Deus. ---- === I, 118: O espírito permanece livre em todo tempo. === APRISIONA-ME com o rigor que quiseres em mil ferros,\\ que estarei por inteiro livre e sem cadeias. ---- === I, 119: Deves ir à origem. === HOMEM, na origem a água é clara e pura;\\ se não bebes da fonte, estás em perigo. ---- === I, 120: A pérola nasce do orvalho. === O caracol lambe o orvalho, e eu, Senhor Cristo, o teu sangue:\\ em ambos nasce um bem precioso. ---- === I, 121: Pela humanidade, à divindade. === SE queres receber o orvalho de pérolas da nobre divindade,\\ deves apegar-te, inamovível, à sua humanidade. ---- === I, 122: A sensualidade traz o sofrimento. === UM olho que jamais se priva do prazer de ver\\ acaba por cegar-se por inteiro e já não se vê a si mesmo. ---- === I, 123: Deus geme por sua esposa. === A rola geme porque perdeu o esposo,\\ e Deus, porque escolheste a morte antes d’Ele. ---- === I, 124: Deves sê-lo por tua vez. === DEUS fez-se homem por ti; se não te fazes por tua vez Deus,\\ profanes o seu nascimento e zombas da sua morte. ---- === I, 125: A indiferença não tem penas. === A QUEM tudo é indiferente, nenhuma pena o toca,\\ ainda que esteja no lamaçal do mais profundo inferno. ---- === I, 126: O desejo aguarda concessão. === HOMEM, se ainda tens desejo e saudade de Deus,\\ é porque ainda não estás por Ele cingido por completo. ---- === I, 127: Para Deus tudo é igual. === DEUS não faz distinção: tudo é um para Ele;\\ tanto se comunica à mosca quanto a ti. ---- === I, 128: Tudo repousa na receptividade. === SE eu pudesse receber de Deus tanto quanto Cristo,\\ Ele me faria aceder a isso no mesmo instante. ---- === I, 129: O mal nasce de ti. === DEUS não é nada além de bem: condenação, morte e suplício,\\ e o que se chama mal deve estar, homem, somente em ti. ---- === I, 130: A nudez repousa em Deus. === QUÃO venturosamente repousa o espírito no seio do Amado,\\ quando está nu de Deus, e de todas as coisas, e de si mesmo. ---- === I, 131: O Paraíso no tormento. === HOMEM, se és fiel a Deus e queres somente a Ele,\\ a maior miséria será para ti um paraíso. ---- === I, 132: É preciso provar-se. === HOMEM, não se vai ao Paraíso sem ser provado;\\ se queres entrar nele, deves passar pelo fogo e pela espada. ---- === I, 133: Deus é um eterno Agora. === SE Deus é um eterno Agora, o que impede então\\ que tudo já possa ser em mim tudo em tudo? ---- === I, 134: A morte imperfeita. === SE ainda te move e aflige isto ou aquilo,\\ ainda não estás com Deus metido por completo na tumba. ---- === I, 135: Junto a Deus está apenas o seu Filho. === HOMEM, nasce de Deus! Junto ao trono da sua divindade,\\ não há ninguém mais senão o Filho unigênito. ---- === I, 136: Como repousa Deus em mim? === DEVES ser inteiramente puro e estar num agora,\\ se Deus há de contemplar-se em ti e repousar suavemente. ---- === I, 137: Deus não condena ninguém. === POR que te queixas de Deus? Tu mesmo te condenas;\\ Ele não o quereria fazer, tem isso por certo. ---- === I, 138: Quanto mais sais, mais Deus entra. === QUANTO mais podes expulsar-te e derramar-te de ti,\\ tanto mais deve Deus fluir em ti com a sua divindade. ---- === I, 139: Porta e é portada. === A Palavra que porta a ti, e a mim, e a todas as coisas,\\ é por sua vez portada e guardada por mim. ---- === I, 140: O homem é todas as coisas. === O homem é todas as coisas; se lhe falta alguma,\\ ele certamente não conhece a sua própria riqueza. ---- === I, 141: Há muitos milhares de sóis. === DIZES que no firmamento há um só sol;\\ eu digo, porém, que há muitos milhares de sóis. ---- === I, 142: Quanto mais alguém se entrega, mais é amado. === POR que é o Serafim mais amado por Deus\\ do que um mosquito? Porque ele se entrega mais. ---- === I, 143: O apego a si condena. === TÃO logo o diabo pudesse sair do seu apego a si,\\ tu o verias ocupar o trono de Deus. ---- === I, 144: Só o Criador pode. === COMO imaginas contar a multidão das estrelas?\\ É só o Criador quem pode contá-las todas. ---- === I, 145: Em ti está o que tu queres. === O céu está em ti, e também o suplício do inferno;\\ o que escolhes e queres, tens por toda parte. ---- === I, 146: Nada Deus ama fora de Cristo. === TÃO grata é para Deus uma alma no brilho e na luz de Cristo,\\ quanto ingrata é para Ele se Cristo lhe falta. ---- === I, 147: A Terra virgem. === O mais fino no mundo é a pura Terra virgem;\\ diz-se que dela nasce o Menino dos Sábios. ---- === I, 148: A alegoria da Trindade. === O Sentido, o Espírito e o Verbo ensinam clara e francamente\\ (se podes apreendê-lo) como Deus é trino e um. ---- === I, 149: Não se pode delimitar. === TANTO ignoras a vastidão de Deus,\\ quanto te enganas ao dizer que o mundo é uma esfera. ---- === I, 150: Um no outro. === SE a minha alma está no corpo, e assim por todos os membros,\\ digo com ciência certa que o corpo está por sua vez nela.\\ (entenda-se idealiter.) ---- === I, 151: O homem é para a eternidade. === QUANDO Deus fez nascer o seu Filho pela primeira vez,\\ escolheu-nos, a ti e a mim, como leito de nascimento. ---- === I, 152: Tu mesmo deves ser Cordeirinho de Deus. === QUE Deus seja um cordeirinho não te vale, cristão,\\ se tu mesmo também não és um cordeirinho de Deus. ---- === I, 153: Deves tornar-te criança. === HOMEM, se não te tornares criança, jamais entrarás\\ onde estão as crianças de Deus: a porta é muito pequena. ---- === I, 154: A virgindade mística. === QUEM é límpido como a luz, puro como a fonte,\\ é escolhido por Deus como virgem. ---- === I, 155: Aqui se deve começar. === HOMEM, se queres estar junto ao Cordeirinho de Deus eternamente,\\ deves já aqui seguir os seus passos. ---- === I, 156: O próprio Deus é o nosso prado. === VEDE o milagre! Deus comunica-se tanto,\\ que quer ainda Ele mesmo ser prado para os cordeiros. ---- === I, 157: O estranho parentesco de Deus. === DIZE, ó grande Deus, como estou aparentado contigo,\\ que me chamaste Mãe, Noiva, Esposa e Criança? ---- === I, 158: Quem bebe da fonte da vida? === QUEM pensa sentar-se lá junto à fonte da vida\\ deve antes aqui exalar a própria sede. ---- === I, 159: O vazio é como Deus. === HOMEM, se estás vazio, a água mana de ti,\\ como da fonte da eternidade. ---- === I, 160: Deus tem sede, dá-lhe de beber. === O PRÓPRIO Deus se queixa de sede: ai, que o mortifiques assim,\\ e não lhe dês de beber como aquela mulher, a Samaritana! ---- === I, 161: A luz eterna. === SOU uma luz eterna, ardo sem cessar:\\ meu pavio e meu óleo é Deus, meu espírito é o vaso. ---- === I, 162: Tens de ter a filiação. === SE queres chamar ao Altíssimo Deus teu Pai,\\ tens antes de confessar que és o seu filho. ---- === I, 163: Deve-se amar a humanidade. === TU não amas os homens, e fazes bem;\\ é a humanidade que se deve amar no homem. ---- === I, 164: Com abandono contempla-se a Deus. === O anjo contempla a Deus com olhos serenos;\\ eu, porém, ainda muito mais, se posso abandonar Deus. ---- === I, 165: A Sabedoria. === A Sabedoria encontra-se à vontade onde estão os seus filhos.\\ Por quê? (ó milagre!), ela mesma é uma criança. ---- === I, 166: O espelho da Sabedoria. === A Sabedoria contempla-se no seu espelho.\\ Quem é? ela mesma, e quem pode tornar-se Sabedoria. ---- === I, 167: Quanto tu em Deus, tanto Ele em ti. === QUANTO a alma em Deus, tanto repousa Deus nela;\\ nem mais nem menos — crê-o, homem —, assim Ele será para ti. ---- === I, 168: Cristo é tudo. === Ó milagre! Cristo é a verdade e o Verbo,\\ luz, vida, alimento e bebida, caminho, peregrino, porta e morada. ---- === I, 169: Não desejar nada é beatitude. === OS santos estão cingidos pela paz de Deus\\ e têm beatitude, porque nada desejam. ---- === I, 170: Deus não é alto nem profundo. === DEUS não é alto, não é profundo; quem diz o contrário\\ ainda tem da verdade uma lição muito má. ---- === I, 171: Não buscando encontra-se Deus. === DEUS não está aqui nem ali; quem deseja encontrá-Lo,\\ que se deixe amarrar mãos e pés, corpo e alma. ---- === I, 172: Deus vê antes que tu penses. === SE Deus desde a eternidade não vê os pensamentos,\\ tu és antes que Ele: Ele ponto, tu limites. ---- === I, 173: O homem não vive só de pão. === O pão não te nutre: o que no pão te alimenta\\ é o Verbo eterno de Deus: é vida e é espírito. ---- === I, 174: Os dons não são Deus. === QUEM pede dons a Deus está muito mal situado:\\ adora a criatura e não o Criador. ---- === I, 175: Ser filho já é bastante. === FILHO é a palavra mais preciosa que Deus pode dizer-me;\\ se Ele a diz, pode faltar-me o mundo e até o próprio Deus. ---- === I, 176: Um como o outro. === O inferno torna-se reino celeste, ainda aqui na terra\\ (e isto parece estranho), se o céu pode tornar-se inferno. ---- === I, 177: No fundo, tudo é um. === Fala-se de tempo e lugar, de agora e eternidade;\\ mas que são tempo e lugar, e agora e eternidade? ---- === I, 178: A culpa é tua. === DE que tua vista se cegue ao olhar o sol,\\ são culpados os teus olhos, e não a intensa luz. ---- === I, 179: A fonte de Deus. === VISTO que as torrentes da divindade hão de manar de mim,\\ devo ser uma fonte; se não, elas se esgotariam. ---- === I, 180: Um cristão é igreja e é tudo. === QUE sou eu afinal? Devo ser a igreja e a pedra,\\ o sacerdote de Deus e também a oferenda. ---- === I, 181: É preciso usar a violência. === QUEM não se violenta para ser o filho amado do Altíssimo,\\ fica no estábulo, onde estão os criados e o gado. ---- === I, 182: O mercenário não é filho. === HOMEM, se serves a Deus por bens, pela beatitude, pela retribuição,\\ ainda não O serves como filho, movido por amor. ---- === I, 183: As núpcias místicas. === QUE alegria deve ser, quando Deus desposa a sua amada,\\ pelo seu Espírito, no seu Verbo eterno. ---- === I, 184: Deus é para mim o que eu quero. === DEUS é o meu cajado, a minha luz, o meu caminho, a minha meta, o meu jogo,\\ meu pai, irmão, criança, e tudo o que quero. ---- === I, 185: O próprio lugar está em ti. === NÃO és tu que estás no lugar; o lugar está em ti:\\ se o expulsas, já está aqui a eternidade. ---- === I, 186: A casa da eterna Sabedoria. === A eterna Sabedoria edifica; eu serei o palácio,\\ quando eu encontrar repouso nela, e ela em mim. ---- === I, 187: A vastidão da alma. === O mundo me é muito estreito, o céu muito pequeno;\\ onde haverá ainda espaço para a minha alma? ---- === I, 188: O tempo e a eternidade. === DIZES: transporta-te do tempo para a eternidade;\\ há então alguma diferença entre a eternidade e o tempo? ---- === I, 189: O homem faz o tempo. === TU mesmo fazes o tempo: o relógio são os sentidos;\\ se apenas deténs o volante, o tempo morre. ---- === I, 190: A igualdade. === NÃO sei o que fazer! Tudo me é igual:\\ lugar e não-lugar, eternidade, tempo, noite, dia, dita e sofrimento. ---- === I, 191: Quem há de contemplar a Deus deve ser tudo. === QUEM não é ele mesmo tudo é ainda muito pequeno\\ para ver-Te, meu Deus, e para ver todas as coisas. ---- === I, 192: Quem está verdadeiramente deificado. === HOMEM, só quando chegaste a ser todas as coisas\\ estás no Verbo e na ordem dos deuses. ---- === I, 193: A criatura está de fato em Deus. === A criatura é mais em Deus do que em si;\\ se perece, não obstante permanece n’Ele eternamente. ---- === I, 194: Que és tu diante de Deus? === HOMEM, não te ensoberbeças de tuas obras diante de Deus,\\ pois a ação de todos os santos é diante de Deus um jogo. ---- === I, 195: A luz perdura no fogo. === A luz dá força a tudo: o próprio Deus vive na luz;\\ mas se Ele não fosse o fogo, ela logo pereceria. ---- === I, 196: O cântaro do maná e a arca espiritual. === HOMEM, se é de ouro o teu coração e pura a tua alma,\\ podes também tu ser a arca e o cântaro do maná. ---- === I, 197: Deus faz ser perfeito. === QUE Deus seja todo-poderoso não o crê aquele\\ que me nega a perfeição, como Ele a quer. ---- === I, 198: O Verbo é como o fogo. === O fogo castiga todas as coisas e, no entanto, não se move;\\ assim é o Verbo eterno, que tudo agita e eleva. ---- === I, 199: Deus fora da criatura. === VAI para onde não podes; vê onde não vês;\\ ouve onde nada soa nem se escuta, e estarás onde Deus fala. ---- === I, 200: Deus não é nada (quanto à criatura). === Notas a I, 200\\ Pensamento muito audaz, de origem sem dúvida weigeliana, cf. Weigel: Do Lugar do Mundo, cap. XVII: «Embora Deus nada queira em si mesmo, chega apenas à vontade na criatura». É possível que essa corrente de pensamento tenha chegado a Scheffler por meio de Czepko: cf. a Sextilha de Czepko (citada por Ellinger, p. XXIX): «Deus não é Deus por si; Ele é o que é; só a criatura O escolheu Deus». Não obstante, o pensamento de Silesius afasta-se de Weigel e de Czepko num ponto essencial: Deus torna-se «algo», isto é, determinação, vontade, não pela primeira criação, mas pela criação da graça, «elegendo» o homem; a posição da «criatura» fora d’Ele mesmo é substituída pelo seu ato de amor por esta criatura: mudança característica de Silesius.\\ DEUS de fato não é nada; e se é algo,\\ é-o apenas em mim, quando me escolhe para Si. ---- === I, 201: Por que nasce Deus? === Ó mistério inconcebível! Deus perdeu-Se a Si mesmo,\\ por isso quer renascer em mim. ---- === I, 202: A alta estima. === Ó alta estima! Deus salta do seu trono\\ e me senta sobre ele no seu Filho amado. ---- === I, 203: Sempre o mesmo. === CHEGUEI a ser o que era, e sou o que fui,\\ e sê-lo-ei eternamente, se corpo e alma forem curados. ---- === I, 204: O homem é a mais alta das coisas. === NADA me parece alto: eu sou a coisa mais alta,\\ porque até Deus, sem mim, é pequeno para Si mesmo. ---- === I, 205: O Lugar é o Verbo. === O Lugar e o Verbo são um; e se não houvesse Lugar,\\ (pela eternidade eterna!) não haveria Verbo. ---- === I, 206: Como se chama o Homem Novo? === SE queres conhecer o Homem Novo e saber o seu nome,\\ pergunta primeiro a Deus como costuma nomear-Se. ---- === I, 207: O festim mais belo. === Ó doce festim! O próprio Deus será o vinho,\\ o alimento, a mesa, a música e o servidor. ---- === I, 208: A bem-aventurada intemperança. === DEMAIS nunca é bom! odeio a intemperança;\\ mas quisera estar tão cheio de Deus quanto Jesus. ---- === I, 209: Como a boca, a bebida. === A prostituta Babilônia bebe sangue e bebe morte;\\ ó grande diferença! Eu bebo sangue e bebo Deus. ---- === I, 210: Quanto mais entregue, mais divino. === OS santos estão tão ébrios da divindade de Deus\\ quanto estão n’Ele perdidos e abismados. ---- === I, 211: Dos violentos é o reino dos céus. === NÃO é Deus quem dá o reino dos céus: tu mesmo deves atraí-lo\\ e lutar por ele com toda a força e zelo. ---- === I, 212: Eu como Deus, Deus como eu. === DEUS é o que Ele é; eu sou o que eu sou;\\ mas se conheces bem um, conheces a mim e a Ele. ---- === I, 213: O pecado. === A sede não é uma coisa, e no entanto pode atormentar-te;\\ como então não há de o pecado roer o mau eternamente! ---- === I, 214: A doçura. === A doçura é veludo, no qual Deus jaz e repousa;\\ se és ela, Ele te agradece por Lhe dares a sua almofada. ---- === I, 215: A justiça. === QUE é justiça? Aquilo que a todos por igual\\ se dá, ordena e perdoa, aqui e no reino dos céus. ---- === I, 216: A deificação. === DEUS é o meu espírito, o meu sangue, a minha carne e os meus ossos;\\ como não hei de estar então com Ele, deificado por inteiro? ---- === I, 217: Agir e repousar é próprio de Deus. === PERGUNTAS o que Deus ama mais, agir para Ele ou repousar?\\ Eu digo que o homem, como Deus, deve fazer ambas as coisas. ---- === I, 218: A visão divina. === QUEM no próximo não vê senão Deus e Cristo,\\ vê com a luz que floresce da divindade. ---- === I, 219: A simplicidade. === A simplicidade é tão preciosa que, se faltasse a Deus,\\ Ele não seria Deus, nem luz, nem Sabedoria. ---- === I, 220: Eu também à direita de Deus. === VISTO que o meu Redentor acolheu a humanidade,\\ também eu cheguei n’Ele à direita de Deus. ---- === I, 221: A fé. === A fé, grande como um grão de mostarda, leva a montanha ao mar;\\ pensai o que poderia fazer, se fosse abóbora! ---- === I, 222: A esperança. === A esperança é uma corda; se um condenado pudesse tê-la,\\ Deus o tiraria do pântano em que se afoga. ---- === I, 223: A certeza. === A certeza é boa, e a confiança é bela;\\ mas se não és justo, ela te levará ao suplício. ---- === I, 224: O que Deus é para mim, eu sou para Ele. === DEUS é para mim Deus e homem; eu sou para Ele homem e Deus;\\ eu apago a sua sede, e Ele me vale na miséria. ---- === I, 225: O Anticristo. === POR que olhas espantado, homem? O Anticristo e a besta\\ (se tu não estás em Deus) estão ambos em ti. ---- === I, 226: A Babel. === TU mesmo és Babel; se não sais de ti,\\ continuarás sendo o bordel do diabo eternamente. ---- === I, 227: A sede de vingança. === A sede de vingança é uma roda que nunca se detém;\\ quanto mais gira, porém, mais foge de si. ---- === I, 228: O abominável da maldade. === HOMEM, se chegasses a ver em ti as imundícies,\\ terias horror de ti, como do diabo. ---- === I, 229: A ira. === A ira é fogo infernal; quando se acende em ti,\\ é profanado ao Espírito Santo o terno leito em que repousa. ---- === I, 230: A beatitude é fácil de alcançar. === PARECE-ME mais fácil lançar-se ao céu\\ do que penetrar o abismo à força de pecados. ---- === I, 231: Os ricos amantes do mundo. === CRISTÃO, quando passar uma corda pelo olho da agulha,\\ dize que o rico voou ao reino dos céus. ---- === I, 232: Senhor, faça-se a tua vontade. === O que Deus ouve de ti com mais agrado\\ é quando dizes de coração: seja louvada a sua vontade. ---- === I, 233: O eco de Deus. === O meu amor e todas as coisas são o eco de Deus,\\ quando Ele me ouve gritar: meu Deus e todas as coisas. ---- === I, 234: Deus por Deus. === SENHOR, se amas a minha alma, deixa-a abraçar-te;\\ por mil deuses, ela jamais te abandonará. ---- === I, 235: Tudo com Deus. === ADORO a Deus com Deus, desde Ele e n’Ele;\\ Ele é o meu espírito, o meu verbo, o meu salmo e todo o meu poder. ---- === I, 236: O espírito nos representa. === DEUS ama-Se e louva-Se a Si mesmo tanto quanto pode;\\ ajoelha-Se e inclina-Se, adora-Se a Si mesmo. ---- === I, 237: No interior ora-se bem. === HOMEM, se queres saber o que significa orar sinceramente,\\ entra em ti e pergunta ao Espírito de Deus. ---- === I, 238: A oração essencial. === QUEM vive puro de coração e segue o caminho de Cristo\\ adora essencialmente a Deus em si mesmo. ---- === I, 239: A Deus louva-se no silêncio. === CRÊS, ó pobre homem, que o alarido da tua boca\\ seja o canto de louvor justo para a silenciosa deidade? ---- === I, 240: A oração silenciosa. === DEUS está de tal modo em toda parte que nada se pode dizer;\\ por isso, melhor O adoras com o silêncio.*)\\ *) Veja-se Maximiliani Sandæi, //[[tnpl:Theologia:]] mystica//, livro 2, comentário 3 por inteiro, e Baltasar Álvarez, na sua //Vida//, escrita por Ludovicus de Ponte. ---- === I, 241: O sustento vitalício de Deus. === O meu corpo (ó esplendor!) é o sustento vitalício de Deus;\\ por isso Ele não o tem por pouco para nele morar. ---- === I, 242: A porta deve estar aberta. === ABRE a porta, e entrará o Espírito Santo,\\ o Pai e o Filho, trino e um. ---- === I, 243: A morada de Deus. === CRISTÃO, se amas Jesus e tens a sua doçura,\\ Deus encontra em ti a sua morada, a sua paz e o seu repouso. ---- === I, 244: O amor é a pedra filosofal. === O amor é a pedra filosofal: separa o ouro da escória,\\ do nada faz algo e me transforma em Deus. ---- === I, 245: Deve haver união. === SE o amor há de tirar-te do suplício,\\ deve antes a tua humanidade tornar-se uma com a de Deus. ---- === I, 246: A tintura. === O Espírito Santo funde, o Pai consome,\\ o Filho é a tintura que faz o ouro e transfigura. ---- === I, 247: O que era antes desapareceu. === TÃO pouco quanto podes chamar o ouro de ferro e negro,\\ tão pouco conhecerás lá o homem no homem. ---- === I, 248: A união exata. === VÊ como está altamente unida a auricidade ao chumbo,\\ e o deificado à essência de Deus! ---- === I, 249: A auricidade e a deidade. === A auricidade faz o ouro, a deidade faz Deus;\\ se com ela não te tornas um, serás sempre escória e chumbo. ---- === I, 250: Como a auricidade, assim a deidade. === VÊ como a auricidade é o fluxo, o peso e o fulgor do ouro;\\ assim também a deidade será tudo no bem-aventurado. ---- === I, 251: O menino dileto de Deus. === DIZE: como posso ser do Pai o menino dileto?\\ — Se Ele encontra a Si mesmo e a tudo, e a deidade, em ti. ---- === I, 252: A filiação divina. === SE não participo intimamente da deidade de Deus,\\ como posso então ser seu filho, e Ele meu Pai? ---- === I, 253: Dos meninos é o reino dos céus. === CRISTÃO, se podes de todo o coração tornar-te criança,\\ o reino dos céus já é teu aqui na terra. ---- === I, 254: A infância e a divindade. === VISTO que a divindade se me manifestou na infância,\\ estou igualmente inclinado à infância e à divindade. ---- === I, 255: Criança e Deus. === CRIANÇA ou Deus, tanto faz: se me chamaste criança,\\ reconheceste Deus em mim e a mim em Deus. ---- === I, 256: A filiação e a paternidade recíprocas. === SOU criança e filho de Deus; Ele, por sua vez, é meu menino;\\ que sucede, que somos ambos ambas as coisas! ---- === I, 257: A Trindade na natureza. === QUE Deus é trino e um, mostra-to cada erva,\\ onde enxofre, sal e mercúrio se veem em um. ---- === I, 258: A tintura. === CONTEMPLA a tintura, e verás nitidamente\\ como é a tua redenção e como a deificação. ---- === I, 259: A deidade e a humanidade. === A eterna deidade está com a humanidade tão obrigada,\\ que sem ela carece até de coração, de coragem e de sentido. ---- === I, 260: Hoje é o dia da salvação. === LEVANTA-TE, esposa, o esposo chega! Não se entra com ele,\\ se não se consegue estar pronta no mesmo instante. ---- === I, 261: As bodas do Cordeiro. === O festim está pronto, o Cordeiro mostra as suas feridas;\\ ai de ti, se ainda não encontraste Deus, teu esposo. ---- === I, 262: A veste nupcial. === A veste nupcial é Deus e o amor do seu Espírito;\\ veste-a, e afastar-se-á de ti o que turva o teu espírito. ---- === I, 263: Deus nunca acaba de explorar-Se. === A eterna deidade é tão rica em atos e razões\\ que ainda nunca Se explorou a Si mesma por completo. ---- === I, 264: As criaturas são o eco de Deus. === NADA desdobra o seu ser sem voz: Deus ouve por toda parte,\\ em todas as criaturas, o seu eco e o seu louvor. ---- === I, 265: A harmonia. === AI, que nós, os homens, não cantemos juntos,\\ como as avezinhas do bosque, cada um a sua nota com prazer! ---- === I, 266: Para o zombador nada é bom. === SEI que o rouxinol não censura a nota do cuco;\\ tu, porém, se não canto como tu, zombas da minha. ---- === I, 267: Uma só coisa raramente agrada. === AMIGO, se sempre cantássemos todos uma coisa só,\\ que coro seria esse, e que canção? ---- === I, 268: A variação enfeita. === QUANTO maior diferença pode expressar-se nas vozes,\\ tanto mais maravilhoso costumo ouvir o canto. ---- === I, 269: Para Deus tudo é igual. === DEUS presta exatamente tanta atenção ao grasnar\\ quanto ao gorjeio que a cotovia lhe dedica. ---- === I, 270: A voz de Deus. === AS criaturas são a voz do Verbo Eterno;\\ Ele canta e ressoa para Si, na graça e na ira. ---- === I, 271: Em Deus não há nada da criatura. === SE ainda amas algo em Deus, dizes com isso\\ que Deus ainda não é para ti Deus e todas as coisas. ---- === I, 272: O homem é semelhança de Deus. === O que Deus por toda a eternidade pode desejar e ansiar,\\ Ele o contempla em mim como em sua semelhança. ---- === I, 273: Eleva-te acima da santidade. === A santidade é boa; quem pode ultrapassá-la\\ encontra-se excelentemente com Deus e com o homem. ---- === I, 274: O acaso deve desaparecer. === O acaso deve desaparecer, e toda falsa aparência;\\ deves ser absolutamente simples e essencial. ---- === I, 275: O homem leva tudo a Deus. === HOMEM, tudo te ama: tudo se aglomera ao teu redor;\\ tudo corre a ti para alcançar a Deus. ---- === I, 276: Um do outro, princípio e fim. === DEUS é o meu último fim; se eu sou o seu princípio,\\ Ele desdobra o seu ser a partir de mim, e eu me dissipo n’Ele. ---- === I, 277: O fim de Deus. === QUE Deus não tenha fim, não to concedo;\\ pois vê: acaso Ele não me busca para repousar em mim? ---- === I, 278: O outro-Ele de Deus. === EU sou o outro-Ele de Deus; Ele encontra somente em mim\\ o que Lhe será igual e semelhante para sempre. ---- === I, 279: O Eu nada consegue. === COM o teu eu tentas ora isto, ora aquilo;\\ ai, se deixasses Deus agir segundo a sua vontade! ---- === I, 280: A verdadeira pedra filosofal. === A tua pedra, alquimista, nada é; a pedra angular que quero\\ é a minha tintura de ouro e a pedra de todos os filósofos. ---- === I, 281: Seus mandamentos não são penosos. === HOMEM, se vives em Deus e morres para a tua vontade,\\ nada te será tão fácil quanto cumprir o seu mandamento. ---- === I, 282: Em Deus, a melhor posição. === DE que me vale que as estrelas da manhã louvem o Senhor,\\ se não estou acima delas elevado a Ele? ---- === I, 283: Deus é sobre-santo. === GRITAI, serafins, o que de vós se lê;\\ eu sei que Deus, meu Deus, é ainda mais que santo. ---- === I, 284: É preciso ultrapassar todo conhecimento. === O que o querubim chega a conhecer não pode bastar-me;\\ quero voar acima dele, para onde nada se conhece. ---- === I, 285: O cognoscente deve tornar-se o conhecido. === EM Deus nada se conhece: Ele é um Único Um.\\ O que se conhece n’Ele deve sê-lo a própria pessoa.*)\\ //$1//)\\ *) Cristo é o nosso fim supremo. ---- === I, 287: A beleza. === A beleza é uma luz; quanto mais careces de luz,\\ tanto mais horrendo és de alma e corpo. ---- === I, 288: A beleza abandonada. === HOMENS, aprendei com as florzinhas do prado\\ como podeis agradar a Deus e, no entanto, ser belos. (a)\\ (a) Pois elas não se preocupam com a sua beleza. ---- === I, 289: Sem porquê. === A rosa é sem porquê, floresce porque floresce;\\ não cuida de si mesma, não pergunta se é vista.\\ Notas a I, 289\\ Sem porquê: «Ohne warumb». L.G.: «Um terminus technicus da mística especulativa dominicana medieval, especialmente de Meister Eckhart. O //sonder waeromme// já se encontra antes, com certeza, nos escritos da cisterciense Beatrij van Nazareth (morta em 1268). Presumivelmente, traduz com ele o incomparável ‹Amo quia amo, amo ut amem› (‹Amo porque amo, amo apenas para amar›), cunhado no comentário do Cântico dos Cânticos por Bernardo de Claraval…. A fórmula tornou-se uma determinação fundamental de toda a mística da Idade Média.» ---- === I, 290: Deixa que Deus providencie. === QUEM enfeita os lírios? Quem nutre os narcisos?\\ Por que então, cristão, estás tão dedicado a ti mesmo? ---- === I, 291: O justo. === QUE o homem justo cresça como uma palmeira\\ não me maravilha; apenas que ainda encontre espaço. ---- === I, 292: A recompensa dos bem-aventurados. === QUAL é a recompensa dos bem-aventurados? O que haverá\\ depois do combate?\\ — Os lírios da pura divindade. ---- === I, 293: Quando se está deificado. === HOMEM, quando nem o amor te toca nem o pesar te fere,\\ entraste verdadeiramente em Deus, e Deus em ti. ---- === I, 294: Deus é sem vontade. === ORAMOS: faça-se, meu Senhor e meu Deus, a tua vontade;\\ e vê: Ele não tem vontade*); Ele é uma calma eterna.\\ *) Entenda-se uma vontade contingente, pois o que Deus quer, quer-o essencialmente. ---- === I, 295: Antes deve estar em ti. === HOMEM, se o paraíso não está primeiro em ti,\\ crê-me: certamente jamais entrarás nele. ---- === I, 296: Os companheiros de jogo mais próximos de Deus. === NÃO tudo está próximo de Deus: a virgem e a criança,\\ só eles dois são companheiros de jogo de Deus. ---- === I, 297: Não nu, e contudo sem vestido. === NU não posso apresentar-me a Deus; e, no entanto,\\ tenho de entrar\\ sem vestido no reino dos céus, porque Ele não tolera nada\\ estranho. ---- === I, 298: O reino dos céus está dentro de nós. === MEU cristão, para onde corres? O céu está em ti.\\ Por que então o buscas à porta de outro? ---- === I, 299: Com o silêncio se ouve. === A Palavra ressoa mais em ti do que na boca do outro.\\ Se podes fazer-lhe silêncio, ouvi-la-ás no mesmo instante. ---- === I, 300: Bebe do teu próprio poço. === QUÃO insensato é o homem que bebe do charco\\ e deixa a fonte que jorra em sua casa.\\ Notas a I, 300\\ Alusão a Prov. 5, 15; mas com sentido diverso: o «charco» impuro representa as alegrias do mundo; a fonte que brota, o Espírito de Deus. ---- === I, 301: Os filhos de Deus. === VISTO que os filhos de Deus não gostam de andar por si mesmos,\\ são impulsionados por Ele e pelo seu Espírito. ---- === I, 302: Deter-se é retroceder. === QUEM, nos caminhos de Deus, pensasse em deter-se,\\ iria para trás e para a perdição.