====== Estado Teopático no Cântico ====== ==== Continuidade da Análise do Estado Teopático e de sua Expressão no "Cântico" e na "Chama" ==== * Êxtase lírica e descoberta cósmica como conteúdo do estado teopático incipiente. * Nas estrofes extáticas que seguem ao //voo do espírito//, a alma compreende que seu Amado é, em si e para ela, todas as coisas, ecoando a exclamação de São Francisco: //meu Deus e todas as coisas//. * O conteúdo dessas estrofes não é mera semelhança, mas a explicitação da própria experiência extática, onde a natureza em seus aspectos soberanos e significado profundo se desdobra. * Declaração explícita de que tudo enumerado nos versos //está em Deus eminentemente e de maneira infinita//, sendo cada perfeição citada Deus, e todas juntas, Deus. * A alma, unida a Deus, //sente// que //Deus é todas as coisas em um ser simples//, não como se visse as coisas na luz, mas numa posse onde todas as coisas lhe são Deus. * Alargamento recíproco: de Deus, que se revela nas belezas amplas da natureza, e das coisas, que aparecem em //correspondência// com Deus, formando uma //harmonia de música altíssima//, uma //música silenciosa// e //solidão sonora//. * Caráter de //êxtase lírica// desta intuição, desvinculada de dados teológicos imediatos, onde um Deus sem visão e uma natureza em sua substância se reúnem, constituindo conteúdo ideológico de extraordinária grandeza. * Transição para o estado teopático propriamente dito e dificuldades de estrutura no //Cântico//. * O estado teopático se instaura imediatamente após a êxtase das //grandezas// divinas. * Incoerências no plano do //Cântico//: o texto B interpola estrofes de súplica antes da purificação final; no texto A, há sobreposição entre a descrição dos //esponsais// e do //matrimônio// espiritual. * Essas lacunas ou desordens não diminuem a força da descrição do estado teopático em si, embora impeçam uma orientação tão firme quanto a que a //Noite Escura// inacabada poderia ter fornecido. * Significação teórica do estado teopático: da renúncia à adesão em Deus. * Após renunciar a todo sentimento de presença e a toda apreensão distinta, a alma agora adere a um Deus do qual se sente penetrada. * Base desta certeza: uma experiência claramente extática, mas que é considerada válida porque o plano fenomênico é julgado superado. * A convicção interna, fortalecida por exemplos como São Paulo e São Francisco, leva João da Cruz a repelir a transe em si, vista como miséria, em favor da //comunicação espiritual// permanente que dela emana. * Primeira fase desta persuasão: a descoberta cósmica, síntese onde Deus e o universo são dados simultaneamente. * Introversão rigorosa e transformação interior subsequente à descoberta cósmica. * A alma volta-se para si, pressente sua própria grandeza e descobre em si as mesmas belezas antes vistas em Deus. * Uma força permanente se exprime: a alma //se iguala com Deus por amor//. * Surgimento de uma //tranquilidade// e //suavidade ordinária// que nunca abandonam a alma, uma //alegria essencial// que funda a certeza teopática. * Combinação, também observada por Santa Teresa, de uma paz profunda e fundamental com eventuais provações superficiais das potências. * Consolidação do estado: esquecimento, solidão metafísica e doação total. * Realização do //esquecimento e alienação de todas as coisas do mundo// e da //mortificação de todos os apetites e gostos//, cumprindo a exigência inicial da //Subida//. * Criação da //Solidão// espiritual: noção aprofundada que implica dobrar-se sobre si, ausência de investigação alheia e, sobretudo, desapego de si mesmo e de suas funções. * No estado teopático, a solidão se torna metafísica: o espírito, na contemplação, está //em solidão de todas as coisas... só aceita em si solidão em Deus//. * O //matrimônio espiritual// significa a união de um Deus só e de uma alma só, sem intermediários. * Esta solidão é preparada por uma doação total do ser: potências, sentidos e corpo são tratados //segundo Deus//, orientados para Ele até nos primeiros movimentos, muitas vezes sem a advertência consciente da alma. * Estado de //automatismo divino// resumido no verso //Já não guardo rebanho//, significando que a alma não mais segue seus gostos e apetites, pois os depositou em Deus. * Reação do mundo e problema do olhar divino: a fundação do amor salvífico. * A evasão da alma para a vida divina provoca incompreensão e hostilidade no mundo, expressa numa estrofe amarga. * Fundamento último de tudo: o //olhar// divino inicial. Deus só ama a alma que olha, e só olha verdadeiramente para a alma que está nele. * Implicação radical: só o estado teopático implica o olhar e amor mútuos entre Deus e a alma em sentido pleno. * Esta intuição parece fundir o drama do mistério cristão e do problema da salvação em um ritmo íntimo, sugerindo que nem a inserção eclesial comum, nem a oração média são suficientes para atrair o olhar salvífico de Deus. * Consumação do estado: beleza, sofrimento cristão e penetração trinitária. * A alma atinge um desejo supremo: a //comunicação essencial da Divindade// por um //contato de substâncias nuas – a alma e a Divindade//. * Identificação na Beleza: o severo caminho de negação revela-se como preparação para uma //absorção na beleza//, onde a alma e Deus se veem mutuamente na beleza divina, numa fusão lírica de inspiração neoplatônica. * Esta gênese divina, porém, só é viável se prolongar um desejo íntimo do sofrimento cristão: penetrar na //espessura da Cruz// é condição para penetrar na //espessura// divina. * O estado teopático se liga intimamente à contemplação do Mistério da Encarnação e conduz à persuasão de estar no centro da Trindé, operando nela //por modo participado//. * O estado é dinâmico, aprofundado por uma //transformação de novas noções// e pela unificação da vontade humana com a divina, amando Deus //com a vontade do próprio Deus//. * A alma experimenta uma //jubilação íntima e substantiva para Deus//, onde toda a sua substância, banhada em glória, louva a Deus. * Conhecimento das coisas em Deus e síntese final do ritmo da noite. * A descoberta extática inicial, que mostrava todas as coisas em Deus, é agora completada por um conhecimento contemplativo onde a alma //conhece em Deus o princípio e a duração das coisas// e aprecia o //encanto do bosque//, a ordem e correspondência entre as criaturas. * Síntese harmoniosa: a negação radical da noite, que parecia rejeitar o mundo, revela-se como condição para alcançar a natureza em sua substância, purgada dos acidentes, e para uma absorção do múltiplo no Uno, numa síntese lírico-mística de ritmo plotiniano e aspiração tomista ao universal. * A //Chama Viva de Amor//: ato e qualificação do estado teopático. * A //Chama// não é mero prolongamento linear do //Cântico//; cada tratado de João da Cruz resume toda a vida mística de um ponto de vista novo. * Objeto da //Chama//: o //ato// do estado teopático, a //chama de amor// que emana do //hábito// da transformação, assim como a chama emana do lenho em brasa. * Aspira a explicitar como o estado de transformação //se substantifica//, aderindo à vida teopática substantiva para além da fenomenologia. * Técnica do centro profundo da alma e anseio pela dissolução final. * Uso dos termos //fondo// (fundo) e //centro//, possivelmente ecoando técnicas pós-eckhartianas, mas fundidos numa experiência vivida. * Definição do //centro mais profundo da alma// como Deus mesmo, alcançado quando a alma esgota toda a capacidade de seu ser e força de sua operação. * Graus de amor correspondem a centros mais ou menos profundos de imersão em Deus. * A alma, já divinizada, anseia pela ruptura da //teia// que une espírito e carne, desejando a morte natural não como fuga, mas como consumação, agora que vive em harmonia com Deus e que sua vontade está unificada com a divina. * Transmutação da morte em vida e toque substantivo divino. * O anseio é superado pela percepção de que a ação divina já //trocou a morte em vida//. * O contato divino é descrito como //queimadura suave//, //ferida inebriante//, //toque delicado//, um //toque de substâncias// (da substância de Deus na substância da alma) que //sabe a vida eterna//. * Este toque pode, excepcionalmente, manifestar-se sensivelmente (como os estigmas de São Francisco), mas seu valor maior permanece no plano puramente espiritual. * Vida total e operações divinas na alma transformada. * A alma vive agora a //vida de Deus//; suas potências e operações, antes //operações de morte//, se transformam em //funções divinas//. * Seu entendimento, vontade, memória e sensibilidade são, por participação, entendimento, vontade, memória e sensibilidade de Deus. * A substância da alma, unida e absorvida em Deus, é //Deus por participação de Deus//, sem se converter na substância divina. * União noética e comunicação dos atributos infinitos divinos. * Comentário metafísico sobre os atributos divinos (//lâmpadas de fogo//): Deus se comunica segundo todos os seus atributos infinitos, muitos dos quais desconhecidos, mostrando-se como uma multiplicidade na unidade. * A alma, iluminada //dentro dos esplendores de Deus//, vê //em uma só vista// o que Deus é em si e nas criaturas. * As //profundas cavernas do sentido//, outrora vazias e em pena infinita, são preenchidas por esses esplendores. * A alma, sombra de Deus pela transformação substantiva, //faz em Deus por Deus o que Ele faz nela//, chegando ao ápice de //dar Deus a Deus//, experiência de deleite inestimável e de amor recíproco livre. * Despertar e aspiração divina final: o inefável conhecimento da Deidade. * Última fase: um //despertar de Deus na substância da alma// e uma //aspiração de Deus na alma//. * No despertar, a alma conhece as criaturas melhor no Ser divino que em si mesmas, é a //grande alegria... conhecer por Deus as criaturas e não Deus pelas criaturas//. * Este despertar é //totalmente indizível//, comunicação da excelência de Deus na substância. * A aspiração do Espírito Santo nos //profundos de Deus// é algo sobre o qual João da Cruz se recusa a falar, para não diminui-lo. * O termo //Deidade// (Deidad) aparece aqui, sugerindo um acesso à essência divina além das Pessoas, ponto extremo e inefável de sua experiência metafísica.