===== A Subida do Monte Carmelo ===== JOÃO DA CRUZ ---- ==== Resumo da Introdução à "Subida do Monte Carmelo" em JCOC ==== === Símbolo e Itinerário Espiritual no "Monte Carmelo" de São João da Cruz === {{https://hyperlogos.info/img/wiki_up/jcsmc0.png}} * Significado fundamental do desenho ou esquema gráfico denominado //Monte Carmelo// como chave para compreensão do itinerário espiritual proposto por São João da Cruz. * Origem e autenticidade do desenho: esboço original feito pelo próprio doutor místico por volta de 1578-1579 para as irmãs carmelitas de Béas, especificamente para Madalena do Espírito Santo, do qual se conserva uma cópia notarial. * Caráter sintético e programático: o desenho pretende resumir, de forma visual e intuitiva, toda uma sabedoria de vida e um caminho para alcançar o Absoluto, análogo, em sua função, aos //mandalas// das tradições orientais (tibetana e sufista). * Exigência de uma leitura pluridimensional: o esquema deve ser contemplado em seu conjunto, exigindo um olhar de sobrevoo, de frente e em profundidade para captar seu relevo simbólico sugerido pelo traço e pela disposição dos textos. * Análise tripartite dos elementos constitutivos do esquema: a Montanha, as três vias e as quatro estrofes da base. * Simbolismo da Montanha como eixo central e meta da jornada espiritual. * Referência à rica simbologia bíblica da montanha (Sinai, Horeb, Carmelo de Elias) como lugar da teofania e do encontro com Deus. * Identificação explícita, na doutrina sanjoanista, da Montanha com a pessoa de Cristo, que é simultaneamente //porta e caminho//. * Representação gráfica da superfície, da face e da profundidade da montanha através de traços e inscrições. * Inscrições no cume: a frase circular //Introduxi vos in terra Carmeli...// (Introduzi-vos na terra do Carmelo...) sugere uma iniciação divina; a frase em forma de frontão //Solo mora en este monte honra y gloria de Dios// (Só moram neste monte a honra e a glória de Deus) indica o fim último e atrativo da empresa espiritual. * Dons espirituais distribuídos após a ascensão, dispostos verticalmente nos flancos: //paz, gozo, alegria, deleite// (paz, gozo, alegria, deleite) do lado do céu; //piedad, caridad, fortaleza, justicia// (piedade, caridade, fortaleza, justiça) do lado da terra. * Palavra //Sabiduría// (Sabedoria), situada no vértice superior, aparece como guia e sustentáculo de todo o conjunto, jorrando do cimeiro onde se lê //Introduxi...//, sublinhando que não há sabedoria sem mestre que inicie. * Afirmação central que liga o cume à base: //ya por aqui no hay camino, que para el justo no hay ley; él para sí se es ley// (doravante por aqui não há caminho, porque para o justo não há lei; ele para si mesmo é lei), apontando para uma etapa de liberdade espiritual que transcende caminhos e normas exteriores. * Distinção e descrição das três vias que partem da base da montanha. * A superfície da montanha é declarada sem caminho; as vias situam-se em sua base, abertas a todo homem. * Duas vias imperfeitas, que se tornam becos sem saída: o //Camino de espiritu de imperfección del cielo// (Caminho do espírito de imperfeição do céu) e o //del suelo// (do solo), à esquerda e à direita. * Uma via central perfeita: a //Senda del monte Carmelo espíritu de perfección// (Senda do monte Carmelo espírito de perfeição), que parece conduzir ao círculo do cume, embora haja uma solução de continuidade gráfica, salientada pelo //Introduxi...// que indica a iniciativa divina. * Bens que atraem para o céu (gloria, gozo, saber, consuelo, descanso) e para a terra (poseer, gozo, saber, consuelo, descanso), sendo os quatro últimos comuns a ambas as buscas. * Conclusão desiludida sobre ambas as buscas imperfeitas: //Cuanto más tenerlo/buscarlo quise, con tanto menos me hallé// (Quanto mais os quis ter/buscar, com tanto menos me encontrei). * Prática da via perfeita: repetição, perante cada um dos bens terrenos e celestes, da palavra //nada// (nada), sete vezes no total, e das expressões //ni esotro// (nem isto outro) e //ni eso// (nem isso). Esta atitude de recusa não é um juízo de valor sobre as realidades em si, mas uma ascese interior de desapego radical, seguindo o exemplo de Cristo, para caminhar pela senda áspera da Cruz. * Função das quatro estrofes poéticas na base do desenho, imbricadas entre as três vias. * As estrofes desenvolvem um movimento meditativo inescapável, com beleza musical e lógica do absoluto que fala ao coração, possuindo uma referência vital a Cristo e à Páscoa. * Primeira estrofe: ensinamento sobre o absoluto e o olhar para a meta em toda sua sedução. O //Todo// passa pelo //Nada//. A plenitude realiza-se através de uma frustração igualmente total do desejo, em relação ao gosto, ao saber, à posse, ao ser mesmo. * Segunda estrofe: ensinamento sobre o caminho, a passagem, a Páscoa. Através das múltiplas manifestações do desejo, deve manifestar-se o nosso consentimento à morte, para a vida. É necessária uma metamorfose. * Terceira estrofe: reflexão sobre o nosso próprio fracasso na marcha para Deus. O encontro é impossível se se para, se não se lança, se não se renuncia. Do mesmo modo, não se pode apropriar-se de Deus sob pena de o perder. * Quarta estrofe: expressão da realização do cristão perfeito. Um desnudamento total consentido, que recorda a mensagem budista sobre o desejo, mas cujo centro de humildade significa não a ruína de si, mas a verdadeira situação de si diante de ou em Deus. * Síntese do ensinamento espiritual transmitido pelo esquema e sua relação com a obra escrita de São João da Cruz. * Mensagem central: a urgência da opção pela passividade e pelo desapego (//nada//) como condição para a união com Deus, atravessando a //Noite// dos sentidos e do espírito. * O desenho visa conduzir rápida e sem sofrimento inútil para essa união. Todo o Prólogo da //Subida do Monte Carmelo// está centrado nessa ideia: o desejo de Deus que o homem frequentemente complica. * A ascese do //nada// não é voluntarista, mas significa que o único horizonte possível para o coração do homem é, na passividade, a adesão a Deus, o //deixar-fazer// de Deus, a conversão do nosso desejo no próprio querer divino. * Acreditando na //pente natural// do homem para Deus, João da Cruz sabe aliar o rigor da Cruz à facilidade que proporciona o amor. * O esquema e os tratados (//Subida//, //Noite//, //Cântico//, //Chama Viva//) formam um conjunto coerente: enquanto a //Chama Viva de Amor// é o canto do Espírito na alma para além de todo caminho, o //Cântico Espiritual// recorda o percurso necessário da alma, partindo do conhecimento de si e da consideração das criaturas como primeiro passo para chegar ao conhecimento de Deus. * Há uma lógica inscrita na natureza humana, que Deus, seu autor, respeita, e que o itinerário espiritual deve seguir. {{https://hyperlogos.info/img/wiki_up/jcsmc.png}} ----