====== FÍLON DE ALEXANDRIA ====== Fílon de Alexandria (20aC-50) É com Fílon, de origem judaica, que o judaísmo alcança seu ponto mais elevado na especulação filosófica. Os judeus de Alexandria faziam uma interpretação alegórica do Antigo Testamento. Eram influenciados pela filosofia grega, sobretudo por Platão e, em parte, pelos estoicos. As investigações de Fílon centralizam-se, sobretudo, no exame da transcendência de Deus em relação ao mundo. As ideias são intermediárias entre o homem e Deus, que é infinito, eterno e invisível, e essas ideias constituem o logos. À proporção que o homem penetra no mundo sensível, desce à matéria, aproxima-se do nada. Há, assim, uma hierarquia de seres: anjos, demônios, mensageiros, que são por sua vez, modelos e essências, que estão subordinados ao modelo perfeito, ao logos. Aproxima-se o homem de Deus à proporção que se afasta da matéria. Essa a verdadeira missão do homem, que é uma ascendência pelo reino das ideias, que é o único caminho que permite chegar à contemplação extática de Deus. (Mário Ferreira dos Santos) Substancialmente homogêneas, mesmo em sua diversidade, estas várias soluções propostas ao problema do conhecimento do divino perderam consistência e validade quando à divindade entendida em sentido clássico se substituiu um Deus transcendente e incognoscível, ao menos com os meios normais da razão. Mudado assim um dos dois termos da relação — o objeto mesmo do conhecimento — se impunha a pesquisa de novas formas e técnicas cognitivas. Tanto mais se esta nova problemática interna à tradição de pensamento grega se enxertava sobre uma concepção teológica, como a judaica, que pensa a divindade nos termos de uma entidade não somente transcendente, mas também pessoal. Neste sentido, as especulações sobre o intelecto de Filon revestem uma particular importância. O dualismo entre mundo espiritual imutável e incorruptível e mundo terrestre mutável e corruptível leva de fato Filon a postular a existência de dois intelectos. O primeiro, plasmado junto ao homem terrestre, ligado ao corpo e ao devir, é aquela parte da alma que cumpre as funções da percepção, da memória, da reação aos impulsos. Mesmo lá onde, religando-se à teoria estoica, ele faz do intelecto um sopro quente e ígneo, uma partícula destacada do ser divino, tem-se a impressão de que se trate quando muito de uma faculdade que, enquanto tem origem na Alma do mundo, pode por afinidade natural intuir esta última. Em algumas passagens, porém, Filon parece ir além destes confins. Se é verdade que por meio da luz podemos contemplar a luz, que por meio de Deus podemos perceber Deus, ele afirma por vezes que o intelecto humano, enquanto apospasma theion ou fragmento divino, é da mesma substância pneumática do Deus superior. É esta identidade de substância entre pneuma-intelecto divino e pneuma-intelecto humano que funda a afinidade com Deus e permite a intuição suprarracional. Deste modo, na intuição "o espírito se 'transforma' no objeto a compreender, 'envia os seus raios' e elimina desta maneira a tensão entre sujeito cognitivo e objeto conhecido". Deste observatório privilegiado a solução gnóstica ao problema do conhecimento do divino não aparece mais assim tão distante. O que aproxima, além das decisivas diferenças, a teoria do conhecimento espiritual filoniana da gnóstica, além do fato que ela se coloca no interior de um certo dualismo e se aplica a um mundo divino que gira em torno do Deus pessoal da Bíblia, é a tensão a superar a dicotomia sujeito-objeto através do recurso a uma particular doutrina do pneuma, que funda e torna possível a identidade entre sujeito, objeto e meio do conhecimento. A gnoseologia de Filon se inscreve todavia ainda no interior da tradição intelectualística típica do pensamento grego. Diferentes são as raízes de uma outra, para os nossos objetivos igualmente significativa, teoria do conhecimento, aquela que os manuscritos de Qumran revelam. * A extensa bibliografia sobre Filão de Alexandria contrasta com o estado ainda largamente inexplicado do filonismo, cujas obras sobreviveram graças ao uso contínuo que delas fizeram os apologistas cristãos, enquanto tantas outras se perderam. * Os numerosos fragmentos preservados nos Florilégios e nas Correntes testemunham a recepção cristã do pensamento filoniano * As imitações servís de santo Ambrósio e a lenda difundida por Eusébio, que apresentava Filão como cristão, atestam o apreço dos primeiros séculos cristãos por esse pensador * Apesar dessa recepção cristã, as ideias e o método de Filão não lançaram raízes profundas no judaísmo — a colônia judaica alexandrina permaneceu quase ignorada após sua época * A exegese palestinense, desenvolvida tanto na Palestina quanto na Babilônia, movia-se em um círculo de ideias completamente distinto do filonismo * A relação inegável entre a teoria filoniana do Logos e a do quarto evangelho situou o filonismo no centro das investigações sobre as origens do cristianismo, orientando as pesquisas ao longo de séculos. * A significação histórica do filonismo reside em seu vínculo com a concepção essencial do cristianismo joanino — a do Messias-Logos * Durante todo o século XVIII e metade do século XIX, debateu-se em que medida Filão poderia ser considerado cristão * Kirschbaum afirmou um elo tão estreito entre Filão e o cristianismo que chegou a tratar as obras filonianas como invenção apócrifa dos cristãos * Carpzov, em posição oposta, recusou reconhecer qualquer traço do logos joanino no logos filoniano * Nessas comparações engenhosas perde-se o essencial, que consiste em explicar a origem do filonismo pelos meios intelectuais nos quais ele se desenvolveu, tarefa que a segunda metade do século XIX começou a empreender com maior atenção. * Na França, os trabalhos de Biet, de Bois e de Herriot contribuíram para situar Filão em seu contexto histórico * Na Alemanha, numerosos estudos de detalhe sobre os fragmentos da literatura judeu-alexandrina perseguiram o mesmo objetivo * Pesquisadores como Frankel, Ritter e Siegfried investigaram os vínculos intelectuais que uniam Filão à Palestina * Paralelamente, buscou-se determinar a marca distintiva de seu alexandrinismo * Apesar desses esforços, Filão permanece uma figura isolada no desenvolvimento do judaísmo alexandrino, sendo impossível reconstituir uma escola judaica alexandrina cujos trabalhos e aspirações suas obras pudessem revelar. * A filosofia da história presente na Sabedoria de Salomão ou na Sibila, e o sincretismo evemirista de Artapão ou de Eupolemo, revelam orientações de espírito bem opostas à de Filão * Friedländer, em Der Antichrist, pp. 90-106, demonstrou que existiam muitos partidos diferentes entre os judeus da diáspora, e o filonismo pode representar apenas uma corrente bastante restrita * Para compreender melhor Filão, torna-se necessário estender o olhar para além da colônia judaica, reconhecendo que o filonismo nasce de uma fusão entre o espírito judaico e o espírito helênico — fusão que não tem nada de artificial ou deliberado. * Filão, educado na cultura grega e autor de tratados filosóficos sem qualquer intervenção da lei — como o De incorruptibilitate e o De Providentia — nunca pareceu perceber a menor contradição entre o gênio helênico e o mosaísmo * Não há nele fusão de conceitos opostos, uma vez que não existe filosofia própria ao judaísmo que se pudesse contrapor ao helenismo * A convergência se dá menos sobre a filosofia em si, que Filão aceita integralmente, do que sobre certos conceitos religiosos como os do Logos e da Sabedoria * Esses conceitos têm, ao menos em parte, origem helênica, mas sofreram em Alexandria uma elaboração que renovou sua significação * A fusão entre o filonismo e o helenismo consuma-se menos no pensamento claro de um filósofo do que nas regiões obscuras da religião popular, revelando nas obras do judeu alexandrino uma transformação profunda do pensamento grego realizada em grande parte fora do judaísmo. * A atividade intelectual de Filão se exerceu durante os quarenta primeiros anos da era cristã, sendo a Embaixada a Caio, escrita provavelmente após a morte de Calígula em 41, seu último trabalho conhecido. * O único evento bem documentado de sua vida é a missão a Roma — quando já passava dos sessenta anos, Filão foi escolhido por seus correligionários para levar ao imperador Calígula as queixas dos judeus contra o governador Flaco * Os estudos de Massebieau e de Cohn lançaram luz sobre a classificação das obras de Filão, questão preliminar de grande importância para o estudo do filonismo, estabelecendo uma tripla divisão do corpus filoniano. * O primeiro grupo compreende os escritos puramente filosóficos: De incorruptibilitate mundi, Quod omnis probus liber, De providentia e De animalibus * O segundo grupo reúne os escritos de explicação do Pentateuco, subdividido em: o Comentário alegórico — que começa não pelo De opificio mundi, mas pelo primeiro livro das Alegorias, sendo precedido por um livro perdido, o Hexaméron, sobre a criação dos seis dias, e seguindo a ordem do Gênesis; a Exposição da lei — que começa pelo De opificio e se continua pelo Tratado sobre Abraão, não incluindo a Vida de Moisés; e as Questões sobre o Gênesis e sobre o Êxodo * O terceiro grupo abrange os escritos missionários e apologéticos: Vida de Moisés, Apologia dos Judeus e os Hipotetika — estes dois últimos conhecidos apenas por fragmentos * Na Revue de l'Histoire des Religions, apoiando-se nas notas de Massebieau, argumentou-se que a Exposição da Lei é anterior ao Comentário, e que as Questões são em parte anteriores e em parte contemporâneas * As questões de autenticidade apresentam complicações apenas para alguns tratados, não para os principais, sendo os únicos efetivamente contestados os tratados filosóficos sobre a Incorruptibilidade, a Liberdade do Sábio, a Providência e o pequeno tratado sobre A vida contemplativa. * As questões de autenticidade serão tratadas no curso da exposição, não na introdução * As citações seguem a edição Cohn-Wendland para os tratados nela publicados, com remissão ao parágrafo; para os demais, remete-se ao capítulo e à paginação de Mangey — ou de Aucher para as Questões — reproduzida na edição Holtze