===== Jardim do Éden ===== //[[.:start|Bíblia Aberta]] II. EISENBERG, Josy; ABÉCASSIS, Armand. Et Dieu créa Ève. Paris: A. Michel, 1979.// **O jardim do Éden segundo o Gênesis** * YHVH Elohim plantou um jardim no Éden, a leste, e ali colocou o ser humano que havia moldado. * Deus fez brotar do solo árvores agradáveis à vista e boas para comer, incluindo a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal. * Um rio que saía do Éden regava o jardim e se dividia em quatro braços: Pisom, Giom, Tigre e Eufrates. * O Pisom circunda a terra de Havilá, onde há ouro puro, bdélio e pedra de ônix. * O Giom circunda a terra de Cuxe. * O Tigre corre a leste da Assíria. * YHVH Elohim ordenou ao ser humano que não comesse da árvore do conhecimento, sob pena de morte no dia da ingestão. **A entrada no tempo e no espaço psicológicos** * O Adão descrito no primeiro capítulo da Gênesis é uma abstração atemporal, não o homem cotidiano. * No segundo capítulo, o homem entra no tempo psicológico e no espaço, aproximando-se da realidade. * A história da humanidade começará apenas no capítulo quatro, com seu desenrolar e ciclos. * O jardim do Éden situa o homem na realidade, sendo descrito com muitos detalhes pela Bíblia. **Quatro rios para um jardim** * A natureza do jardim do Éden é questionada: se um lugar real ou um espaço fora de qualquer espaço. * Duas teses exegéticas tradicionais se enfrentam: a literal e a simbólica. * A primeira tese leva a sério os detalhes geográficos bíblicos, considerando Adão e Eva já situados na geografia. * Os quatro rios que regam o jardim não são considerados imaginários por essa corrente. * O texto deve ser compreendido literalmente, como a linguagem da realidade e do enraizamento original da humanidade. * O jardim do Éden é plantado com árvores frutíferas de todas as espécies. * A primeira forma de vida econômica no Oriente Médio foi o sedentarismo, conforme o texto bíblico. * O nomadismo seria um acidente posterior, consequência de uma transgressão e uma situação anormal. * Essa leitura literal é chamada de Peshat pelos mestres da tradição. * A localização do jardim seria no Oriente Médio, bastando subir o curso dos rios que dele saem. * Dois rios são perfeitamente conhecidos: o Tigre (Hidéquel) e o Eufrates (Perat). * O Pisom e o Giom são mais difíceis de identificar, sendo o primeiro associado ao Ganges (Índia) e o segundo ao Nilo. * Outros exegetas consideram os quatro rios como o Tigre, o Eufrates e dois de seus afluentes. * Os dados geográficos situam o jardim no Crescente Fértil, berço da humanidade na Bíblia. **A leste, novidade em termos de antropologia** * Para a Bíblia, a origem do homem se dá no Oriente, uma questão já resolvida. * A verdadeira essência do homem, na antropologia bíblica, é sua fé ou capacidade de conhecer o absoluto. * O homem nasce onde o monoteísmo apareceu, pois ele confere dignidade à história. * A Bíblia se limita à história de Israel e seus vizinhos por se interessar apenas pelas peripécias da história da fé. * O dilúvio é descrito como se tivesse devastado o mundo inteiro, mas evidências arqueológicas o limitam à Mesopotâmia, mostrando que para a Bíblia o mundo é o Oriente. * Duas leituras se entrelaçam na Torá: uma histórica e outra simbólica. * A civilização nasceu no Oriente Médio e depois se transportou para além dos oceanos. * Atrás da explicação histórica está o tema simbólico do Oriente, onde o sol nasce. * Os templos eram orientados para o leste, de onde vem a luz, e quem está perdido é chamado de desorientado. * As orações são voltadas para o leste, e as sinagogas são orientadas para Jerusalém. * O dia e a vida nascem no leste, e percorre-se um périplo do Levante ao Ocidente. * Uma terceira leitura, chamada de Remez (alusiva), relaciona-se ao povo de Israel em sua terra. * O primeiro homem, Adão, representa o povo de Israel moldado por Deus e instalado na terra prometida. * A falta do primeiro homem o exilou do jardim do Éden, assim como as faltas de Israel o exilaram da terra prometida. **Um Deus jardineiro?** * Existe uma leitura que crê na existência de um lugar real, situado entre o Nilo e o Eufrates. * Esse lugar é a área geográfica onde viveram os patriarcas e nasceu o povo de Israel. * O primeiro espaço habitado na história humana foi descrito pela Bíblia como um jardim. * Os rabinos se dedicaram a extrair uma lição da descrição precisa desse jardim. * O criador se transforma em jardineiro para dar à humanidade a ordem de civilizar o mundo. * Está escrito: “Vocês seguirão YHVH Elohim” (Deuteronômio, XIII, 5). * Um midrash afirma que, assim como Deus se dedicou ao plantio de árvores, os homens, ao entrarem na terra de Israel, devem se dedicar apenas ao plantio de árvores. * Deus criou o mundo em estado bruto, cabendo ao homem terminar a criação: a Deus o “criar”, ao homem o “fazer”. * A gênese de toda obra civilizadora começar pelo plantio de árvores não é algo insignificante na Bíblia. * A vida sedentária é considerada, no Pentateuco, como uma vida paradisíaca. * O nômade, o exilado e o amaldiçoado são associados nos textos bíblicos, sendo o exílio consequência de uma falta. * O povo de Israel em exílio está em situação de expiação provisória, devendo retornar ao Paraíso (Terra prometida). * A Torá julga positivamente a vida sedentária desde seus primeiros capítulos. * A árvore tem raízes, e o homem também precisa delas para ter identidade étnica, de fé, memória ou território. * Um mandamento bíblico compara explicitamente o homem à árvore, proibindo soldados de destruir árvores em um cerco. * O versículo “pois o homem é como a árvore do campo” (Deuteronômio, XX, 19) explicita essa comparação. **O homem planta** * Os comentaristas clássicos desenvolveram a parábola da árvore: o homem é vertical e frutífero como ela. * O plantio do jardim do Éden revela uma extrema valorização do enraizamento e da sedentarização no pensamento bíblico. * O primeiro réprovo, Caim, torna-se nômade por ter cessado de ser enraizado, sendo seu castigo a instabilidade e o exílio. * Na Bíblia, o exílio é o sinal da falta e da maldição, opondo-se a Adão, o implantado. * A vida sedentária é importante porque traz segurança ao ser humano, ao contrário da vida nômade. * No jardim do Éden, o homem vive tranquilo, sem medo do amanhã e com suas necessidades satisfeitas. * A segurança econômica é condição necessária para que o homem se dedique exclusivamente à resolução de seu problema moral. * Sem segurança, não há liberdade moral real nem total. * Os rabinos propõem uma segunda leitura, distinguindo o jardim (Gan) do Éden (Eden). * O termo Gan (jardim) deriva de um verbo que significa proteger, enquanto Eden significa gozo, bem-aventurança e alegria. * Colocar o homem no Gan Eden descreveria não sua situação geográfica, mas seu contexto psicológico. * Deus dá primeiro a segurança (Gan) para que o homem possa então gozar (Eden). * A dupla condição da moral corresponde à dupla polaridade dos mandamentos divinos: positivos e negativos. * Os mandamentos negativos (Lo Ta’asse) visam a proteção do homem, oferecendo segurança. * A lei positiva lembra que a felicidade é também uma experiência de um plus de ser e de florescimento. * Segurança e felicidade são dadas desde o começo, no jardim do Éden. * O jardim do Éden pode ser um lugar situado no Oriente ou as chaves das condições primeiras de toda vida: enraizar-se em Deus para encontrar a alegria. * As duas leituras, longe de se excluírem, se complementam harmoniosamente. * Pela primeira hipótese levantada, o homem não está no Paraíso; é o Paraíso que está no homem. * Essa nova questão perguntaria por que esse Paraíso foi perdido e até quando.