===== Homem Seduzido ===== //[[.:start|Bíblia Aberta]] II. EISENBERG, Josy; ABÉCASSIS, Armand. Et Dieu créa Ève. Paris: A. Michel, 1979.// YHVH Elohim tomou o Adam, \\ e o colocou no jardim do Éden \\ para cultivá-lo e guardá-lo. \\ Gênesis II, 15. O rabino Yehudah ensina: \\ «Ele o tomou: Ele o promoveu» \\ O rabino Nehemias diz: \\ «Ele o tomou: Ele o seduziu com Sua palavra.» \\ Midrash Rabbah, Gênesis, XVI. E tomei os levitas em lugar dos primogênitos entre os filhos de Israel. \\ Números, VIII, 18. **A colocação de Adão no jardim** * O Criador seguiu uma certa ordem lógica ao organizar o lugar onde Adão deveria viver antes de o levar para lá. * Deus tomou o homem e o colocou no jardim do Éden, segundo a formulação do texto bíblico. * O jardim do Éden não é o local onde o primeiro homem nasceu, pois Deus o “toma e o instala” ali, arrancando-o de um lugar exterior. * Deus formou o homem a partir da poeira da terra, insuflou uma alma de vida e, em seguida, o colocou no jardim, que não é sua pátria. * O texto parece descrever uma segunda fase na existência de Adão, no qual ele se tornaria um “super-terrestre” ao ser instalado no jardim. * A questão de saber se o jardim do Éden deve ser concebido como um lugar do passado, no Oriente Médio, é impossível de responder. * Não se pode afirmar nem que o jardim era um lugar geográfico real, nem que Adão tenha realmente existido. * O relato da criação é tão rico em símbolos que pode ser lido no plano simbólico: o jardim como o primeiro estado do homem, e Adão como o arquétipo da humanidade. * O que a Bíblia quis dizer incontestavelmente é que a gênese do devir humano passa por uma mutação, deixando um “lugar” para entrar em outro. **Promovido a jardineiro?** * Desde sua criação, Adão é autônomo e goza da liberdade, e o ato de “tomá-lo” e transferi-lo poderia ser uma violência, a menos que tenha sido negociado com ele. * Os exegetas clássicos deram ao verbo “tomar” um sentido abstrato, pois não se imagina Deus transportando Adão na palma da mão. * O Midrash Rabbah (Gênesis, XVI) apresenta dois ensinamentos: Rabi Yehoudah ensina que Deus o promoveu, e Rabi Néhémiah diz que Deus o tomou e seduziu pela palavra. * O verbo “tomar” é usado na Torá quando Deus “tomou” os levitas dentre as outras tribos para fazer deles sacerdotes, significando escolher e promover. * No livro de Josué (XXIV, 3), Deus diz que “tomou” Abraão do outro lado do rio, significando literalmente promover e eleger. * O verbo “tomar” é sinônimo de eleição, indicando uma promoção do baixo para o alto, do inferior ao superior, ou de um nível de responsabilidade a outro mais extenso. * Quando Deus diz a Israel “Eu vos tomei do seio do Egito” (Êxodo VI, 7), trata-se da eleição de Israel, além da libertação. * O Midrach aproxima o texto “Deus tomou Adão” de textos sobre mulheres que foram “tomadas” (Gênesis XII, 15 e Ester II, 16) para se tornarem rainhas. * Os rabinos observam que a Bíblia utiliza o mesmo termo para o transferência de Adão ao jardim e para quando Sara e Ester se tornam rainhas. * A “tomada” de Adão deve ser percebida como uma elevação, abandonando os tempos históricos para acessar os tempos messiânicos. * É preciso revisar a abordagem clássica da história do Paraíso, que culpa Adão e sua descendência (teoria do pecado original), pois a Bíblia afirma que cada um morrerá por seu pecado (Deuteronômio XXIV, 16). * A mística judaica propõe que não foi uma situação original prevista por Deus para o homem, mas duas: a vida no jardim e a vida fora do jardim. * O ideal seria a vida édênica, experiência tentada com Adão, na qual o homem teria apenas a função de conhecer e amar a Deus. * No jardim (proteção), tudo é dado ao homem, e os únicos esforços pedidos concernem à busca de Deus. * A leitura mística do Zohar torna o texto transparente: Deus cria o homem, instala-o no jardim e lhe pede para desejá-lo, amá-lo e responder à sua demanda. **Seduzir para amar** * Deus “tomou” Adão seduzindo-o por palavras, como se toma alguém pelos sentimentos, segundo a interpretação de Rabi Béré’hia, menos otimista que a de Rabi Judah. * A palavra de Deus é sedutora, não mentirosa, e o homem fica submetido a duas seduções: a de Deus e a do serpente. * Seduzir não é necessariamente enganar, mas sim precipitar em uma realidade para a qual o ser ainda não está preparado. * Uma palavra sedutora é aquela que, vinda do infinito, chama o homem a se engajar na vida do amor individual, pessoal e místico entre Deus e o homem. * A interpretação de Rabi Béré’hia pode ser compreendida no nível da alma, sendo a história de Adão uma ilustração tipológica dos avatares da alma. * A alma deseja a existência terrestre, mas deve ser arrancada do “grande todo” divino para sofrer a encarnação. * A separação é necessária para que dois seres se encontrem, mas a alma talvez não aceitasse a separação de Deus se soubesse o que a espera aqui. * Rabi Judah falou em promoção, enquanto Rabi Béré’hia responde com ilusão e efeito da sedução divina. * A sedução é uma precipitação: os seres humanos são dados aos tempos messiânicos e ao jardim do Éden, mas para chegar a esse deleite é preciso atravessar o tempo e a história. * Deus propôs ao primeiro homem a experiência do jardim sem que ele tivesse atravessado e superado a realidade concreta, temporal e histórica. * Acreditar que se pode superar sem atravessar a realidade é ser seduzido, mas é para esse além que se tende. * O verbo “tomar” precisa a situação do homem: ele tende com todas as forças a atingir um lugar e um tempo aos quais não deve chegar rapidamente. * O paraíso onde Adão foi instalado provisoriamente talvez fosse um antegozo do que poderia ter sido a condição terrestre do homem se ele tivesse poupado a história. * Uma primeira conclusão importante é que o paraíso de que a Bíblia fala não é o lugar de onde se partiu, mas aquele ao qual se está prometido.