===== Dois Paraísos ===== //[[.:start|Bíblia Aberta]] II. EISENBERG, Josy; ABÉCASSIS, Armand. Et Dieu créa Ève. Paris: A. Michel, 1979.// **O paraíso perdido e a esperança de salvação** O rabino ’Hyya dizia: \\ «Todos os profetas profetizaram \\ apenas para aquele \\ que livra o estudante \\ de seus problemas financeiros \\ ajudando-o materialmente, \\ mas, no que diz respeito ao estudante, \\ nenhum olho viu \\ o que Deus fará \\ por aquele que O espera. » \\ O rabino Shmuel, por sua vez, dizia: \\ «Não há diferença \\ entre este mundo \\ e os tempos messiânicos, \\ a não ser a escravidão dos povos.» \\ Talmud, tratado Bera’hot, 34b. Talvez você diga: \\ Adão, onde ele estava? \\ No jardim. \\ Mas você dirá que se trata do Jardim do Éden? Não, pois está escrito: \\ «Um rio saía do Éden para regar o Jardim. \\ O Jardim é uma coisa, e o Éden é outra. \\ Talmud, tratado Bera’hot 34b. * O termo “paraíso” carrega fantasmas de perfeição, alegria pura e bem-estar contínuo, evocando fortemente a inocência. * Etimologicamente, a palavra “paraíso” é a transcrição do grego “paradeisos”, que significa pomar ou jardim. * Em hebraico, a palavra “jardim” (Gan) não é banal, sendo sinônima de proteção e segurança. * Talvez o paraíso designe o estado primeiro do homem de ser fundamentado e preservado, como o ventre materno. * O texto do jardim do Éden é a projeção, no plano do discurso, de uma situação da qual se carrega a nostalgia ou o desejo. * Existe uma aspiração por um mundo onde segurança, gozo e virtude coincidiriam. * A Torá dá a condição de realização desse mundo: obedecer a Deus, abstendo-se da árvore do conhecimento. * A questão que surge é por que não se vive nesse mundo de sonho, fora do lugar original. * A história do Paraíso explica por que o mundo não é mais o Éden, em vez de descrever um evento histórico. * A pergunta sobre a impossibilidade de um gozo perfeito e a origem do mal recebe uma resposta. * Essa modalidade de pergunta implica uma visão particular do tempo, exigindo falar da localização temporal do jardim. **Do jardim ao Éden** * A história do Paraíso não é uma fábula ou um mito à moda grega, nem descreve uma Idade de Ouro. * A Bíblia propõe um esquema em dois níveis de conhecimento: o da consciência humana e o apocalíptico. * O primeiro nível descreve as atitudes que podem fazer perder o sentimento de segurança. * O segundo nível anuncia que, no fim dos tempos, sob certas condições, o “Paraíso perdido” poderia ser reencontrado. * A Bíblia propõe uma dialética do ideal e da realidade, tornada esclarecedora pela distinção rabínica entre jardim e Éden. * Não existe uma única situação “paradisíaca”, mas dois tempos: o do jardim e o do Éden. * Literalmente, um rio saía do Éden para regar o jardim, portanto o Éden não se confunde com o jardim. * O homem foi colocado apenas no jardim do Éden para progredir em direção ao Éden obedecendo a Deus, mas desobedeceu e foi expulso. * Ao se deixar o jardim (civilização, ordem, segurança), encontra-se a selva, sendo a dialética do jardim e do exílio a da lei oposta à lei da selva. * Três momentos, três tempos e três lugares devem ser distinguidos: o tempo histórico, o tempo messiânico e o tempo futuro. * O tempo histórico é o conhecido, sem segurança, gozo ou virtude, sendo o tempo da injustiça, violência e morte (onde Caim mata Abel). * O tempo messiânico é aquele em que o homem obedece a Deus e vive em paz, justiça, amor e felicidade, estando para o qual se está orientado. * O tempo futuro é aquele em que, obedecendo a Deus, o homem entra no Éden (o castelo) por ter sabido trabalhar e proteger o jardim. **Uma salvação em dois tempos** * O homem não foi colocado no jardim do Éden, mas no jardim em vista de encontrar o Éden. * A construção do homem e a reconstrução da humanidade passam por essas duas fases: Gan (jardim) e Eden (Éden). * Adão é o protótipo do psiquismo humano e da história social, fazendo a aventura do Paraíso remeter às finalidades últimas da humanidade. * A apocalipse judaica e a cabala propõem reflexões que dão à história de Adão seu verdadeiro conteúdo. * A tradição farisaica, consignada no Talmude, fornece o conteúdo para ler e compreender os textos bíblicos. * O rabino ‘Hyya, discípulo de Rabi Yohanan, ensinou que os profetas profetizaram para quem livra o estudante de seus problemas econômicos. * O próprio estudante, porém, tem um futuro que nenhum olho viu, que Deus prepara para quem o espera. * Sabe-se, pelos profetas, o futuro daqueles que permitem ao estudante assegurar a vida intelectual e espiritual da comunidade. * A história do Paraíso esclarece a dialética fundamental da apocalipse judaica, que não tem um fim, mas dois. * O primeiro fim se chama “yemot hamachia'h” (tempos messiânicos), e o segundo, “olam habbah” (mundo vindouro). * O jardim designa os tempos do Messias; o Éden, o mundo futuro, sendo dois acontecimentos diferentes em sua natureza. * Os tempos messiânicos concernem à história terrestre do homem, com a promessa de perfeição psicológica e felicidade social. * O mundo vindouro se insere na ordem da sobrevivência e da eternidade. * Os tempos messiânicos, anunciados pelos profetas de Israel, são o tempo da felicidade: paz universal, fim da agressividade e solução dos problemas econômicos. * O profeta Isaías (2,4) anuncia um tempo em que as nações forjarão espadas em arados e não aprenderão mais a guerra. * A humanidade reencontrará a situação de Adão no jardim, não a do Éden, sem necessidade de lutar para viver. * O homem é destinado a combater no registro dos accomplishments espirituais, não em enfrentamentos políticos e socioeconômicos. * O Paraíso terrestre é a salvação para a vida terrestre e o acabamento para a vida social, não a beatitude. * Existem duas espécies de felicidade: a social coletiva (organização perfeita das relações) e a individual (além da primeira). * A felicidade social garante segurança, gozo, conforto e justiça, sendo condição necessária, mas insuficiente, para a felicidade individual. * Os sábios já vivem a vida espiritual e intelectual livres de preocupações econômicas, estando já em condições messiânicas. * O Talmude responde que “nenhum olho viu” o futuro dos sábios, pois o bem-estar individual é diferente de pessoa para pessoa. * Os profetas nunca falaram da realização do indivíduo, apenas da felicidade social, política e econômica, sendo essa a diferença essencial entre jardim e Éden. * O rabino Chemou’el se opõe ao rabino ‘Hyya, afirmando que os tempos messiânicos são caracterizados apenas pela “disparada da servidão dos povos”. * Para Chemou’el, o fim do imperialismo e do colonialismo marca a passagem dos tempos históricos aos tempos messiânicos. * O Talmude (tratado Bera’hot, 34b) registra a opinião de que não há diferença entre este mundo e os tempos messiânicos a não ser a servidão dos povos. * A discussão entre os dois rabinos sobre a libertação da humanidade passar primeiro pelo econômico ou pelo político tem um som muito moderno. * Os rabinos concordam em um ponto: a salvação da humanidade exige a disparidade de todas as formas de imperialismo. * Um dia, o jardim será reencontrado, e mesmo um agnóstico pode esperar por isso. * Para o crente, nesse dia nem tudo terá sido dito, pois ele espera um outro Paraíso, além da existência terrestre.