====== A Preparação para o Cântico e a Mística da Ascensão em Orígenes ====== OHCC * O Cântico como Réplica Cristã do Banquete Platônico * Homilias e Comentário de Orígenes sobre o Cântico evocam o //Banquete// de Platão. * Ambas as obras apresentam uma elevação progressiva rumo ao ideal mais sublime do amor. * É plausível que Orígenes tenha pretendido sugerir uma réplica cristã do diálogo platônico. * Método, porém, é radicalmente diferente: o filósofo parte de experiências humanas, Orígenes parte de um livro inspirado. * O Cântico, situado no centro da Bíblia, sustenta a grande imagem fundamental das Escrituras: a humanidade tornada Esposa de Deus. * Esta narrativa nupcial percorre desde Gênesis até o Apocalipse, sendo Adão considerado o primeiro profeta deste mistério. * O Cântico é subsequentemente interpretado por toda a tradição como o diálogo misterioso de amor entre este Esposo e esta Esposa. * Centralidade do Amor Espiritual na Interpretação * A realidade do Amor, já nobremente tratada pela filosofia grega, torna-se o centro dos mistérios cristãos. * O Cântico torna-se, a partir de Orígenes, o cume de todas as aspirações teológicas. * A Escritura projeta, para o crente, a imagem da Igreja eterna, a Esposa do Cordeiro. * Esta Esposa, transfigurada pelo amor, faz a junção entre o cosmos renovado e a cidade celeste, entre Deus e a humanidade, entre o Verbo e a alma. * Orígenes condensa tudo o que já se disse de belo sobre o Amor em torno deste livro. * O Cântico torna-se o nó que liga de modo indissolúvel a criatura ao Criador. * O Amor Espiritual e a Restrição da Leitura * O amor do Cântico pertence ao domínio do //homem espiritual//. * Orígenes, seguindo uma tradição rabínica, restringe a leitura e o comentário do Cântico àqueles espiritualmente maduros. * Colocar o livro nas mãos dos incapazes de elevação espiritual seria nocivo, pois poderiam interpretá-lo de modo carnal e vicioso. * Distinção fundamental entre dois amores: o amor carnal //(éros)//, que //semeia na carne//, e o amor espiritual //(agápe)//, que //semeia no espírito//. * É deste amor espiritual, //agápe//, que se trata no Cântico, ainda que expresso através de imagens do amor humano. * A alma é ferida pela flecha do Verbo, conquistada por sua beleza, e no ápice de sua jornada dialoga com Ele no Cântico do amor. * Este amor inflama a alma para o Verbo de Deus e une a Igreja ao seu celeste Esposo, Cristo. * Interiorização dos Dois Amores e Aplicação Dupla * Orígenes aplica o Cântico à alma fiel considerada como Esposa do Verbo. * Assim como interiorizou os //dois homens//, interioriza os //dois amores//. * A espiritualização caminha no sentido da interioridade: //o espiritual é também o interior//. * A interpretação vê no Esposo e na Esposa, primeiro, Cristo e a Igreja (o novo Israel). * Baseando-se em textos paulinos, joaninos e sobre as virgens, volta-se também para a alma fiel individual. * Como asceta, entusiasta da luta contra o //homem velho//, é plausível que Orígenes tenha baseado esta aplicação também em sua própria experiência. * Suas aplicações místicas foram provavelmente determinadas pelas iluminações de sua vida interior. * A Ascensão Mística: uma Jornada de Transformação * A Igreja-Esposa, ainda em marcha, já pode cantar o Cântico, mas sua ascensão final foi preparada pela história de Israel. * Israel, pré-Igreja, conquista a terra prometida através do deserto árduo e da luta contra o mal. * Este processo serve de tipo para a ascensão da alma, que só atinge seu termo por esforço laborioso e progressivo rumo à //gnose//. * Embora haja parentesco com a mística neoplatônica da contemplação divinizante, em Orígenes predomina o aspecto cristão da gnose. * Tese de Nygren //(Erôs e Agapé)// opõe o //éros// pagão (ascensão da criatura para Deus, baseada em autorrealização) à //agapé// cristã (dom de si, abaixamento por amor). * Nygren associa a imagem da //escada da ascensão// por graus sucessivos ao terreno do //éros//. * Orígenes, no entanto, afetivamente ligado a todas as //subidas// e gradações, alia perfeitamente //éros// e //agapé// em sua teologia. * Exemplo da verdadeira //agapé//: a parábola do Bom Samaritano, que esquece a si mesmo para cuidar do ferido. * A vida de Orígenes foi modelo deste //agapé// evangélico, que completa e supera o //éros//. * Sua mística é de //ascensão// ou //assunção//, operada pelo renunciamento total, pela descida com Cristo na humildade e subsequente subida para Deus. * Não é uma //gnose egocêntrica//, mas uma transformação, por Cristo, em //agapé teocêntrica//. * A Escada dos Cânticos: As Sete Etapas da Ascensão * Para chegar ao Cântico dos Cânticos, a alma deve harmonizar-se com as grandes etapas da história de Israel. * Sete cânticos do Antigo Testamento simbolizam sete etapas para a Igreja e para a alma. * O sétimo cântico (Cântico dos Cânticos) é o cântico do repouso; os seis primeiros constituem as etapas laboriosas. * Israel, noiva de Deus, aproxima-se gradualmente de seu Esposo, encontrando-O apenas na sétima e última etapa. * Toda a vida espiritual, mesmo nas provas, é uma alegria constante, uma festa a cada degrau vencido. * Esta alegria profunda que celebra cada progresso é característica da mística origeniana, essencialmente luminosa e otimista. * O papel da oração e da graça é predominante para obter as iluminações necessárias. * Orígenes convida insistentemente o leitor à oração para penetrar as Escrituras. * Descrição das Sete Etapas da Jornada Mística * Primeira Etapa: Saída do Egito e Travessia do Mar Vermelho * A alma deve //sair do Egito// e //atravessar o Mar Vermelho a pé enxuto//. * Simboliza a libertação da escravidão de Satanás e a entrada na vida mística, cujo germe é o batismo. * O fiel, guiado apenas pela fé, aspira à luz e canta o primeiro cântico: //Cantemus Domino//. * Segunda Etapa: Travessia do Deserto e o Cântico do Poço * A ascensão prossegue na aridez do deserto espiritual. * Superada a primeira aridez, a alma penetra nas profundezas da doutrina scripturária. * Canta o segundo cântico, o do poço //(Ascendat puteus)//, cavado pelos //Reis//, símbolo da profundidade da Sabedoria. * Terceira Etapa: Iluminação Interior e o Cântico do Deuteronômio * A alma, iluminada pela visão interior dos mistérios, atinge o fim da primeira purificação. * Canta o terceiro cântico: //Attende caelum et loquar...//, onde o céu é convidado a ouvir. * A aridez do deserto é superada; a alma entra na //terra prometida// do conhecimento. * Quarta Etapa: Luta Contínua e o Cântico de Débora * Mesmo na terra prometida, a luta continua contra os assaltantes. * A grande vitória é celebrada com o cântico de Débora (cujo nome significa //abelha//). * O reconforto não é mais apenas a água, mas o //mel// de uma doutrina mais nobre e fortificante. * Quinta Etapa: Vitória sobre os Vícios e o Cântico de David * A alma vence todos os inimigos interiores (vícios, simbolizados pelos povos cananeus). * Canta o quinto cântico, o de David: //Dominus firmamentum meum//. * Firmada em Deus, a alma pode então entrever a união das esponsais. * Sexta Etapa: Vislumbre do Esposo e o Cântico de Isaías * A alma, translúcida, descobre o Esposo que nela se ocultava. * Anuncia que canta para seu //Bem-Amado// com o cântico de Isaías: //Cantabo canticum dilecto vineae meae//. * Sétima Etapa: O Repouso e o Diálogo do Cântico dos Cânticos * Alma totalmente purificada, consciente de suas núpcias, canta com o Bem-Amado o último cântico. * Nesta etapa do repouso, a Esposa vê, ouve, fala, sente e toca o Esposo. * A união só ocorre após o inverno das paixões e a tempestade dos vícios se dissiparem. * Então florescem as flores das virtudes e ouve-se o arrulhar da pomba, a sabedoria secreta de Deus. * Esta é a etapa suprema onde a alma, liberta de todos os inimigos, vive na terra sua vida de Esposa.