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| ===== YATES KIRCHER ===== | ===== YATES KIRCHER ===== |
| Frances [[theosophos:theosophia-estudos:yates:start|Yates]] — Giordano Bruno e a Tradição Hermética | Frances Yates — Giordano Bruno e a Tradição Hermética |
| Excertos da tradução de Yolanda Steidel de Toledo | Excertos da tradução de Yolanda Steidel de Toledo |
| ==== Hermetistas reacionários: Atanásio Kircher ==== | ==== Hermetistas reacionários: Atanásio Kircher ==== |
| Of's triple grandure. . ." | Of's triple grandure. . ." |
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| Esses versos, endereçados ao jesuíta [[ate-agostinho:atanasio:start|Atanásio]] Kircher por um admirador inglês, servem de epígrafe para a vasta obra a respeito dos hieróglifos, o Oedipus aegyptiacus, publicada em 1652; são um reflexo da sua reputação e preparam-nos para as inúmeras citações do Pimandro de Ficino e do [[gnosticismo:bnh:asclepio:start|Asclépio]], com que salpicou seus extensos tomos. Kircher fixa a data de Trismegisto nos termos de [[biblia:figuras:abraao:start|Abraão]], acreditando que o egípcio fosse o autor das obras a ele atribuídas. Ele tivera a presciência da Trindade, que, no entanto, não definira com precisão, embora não se possa negar que escreveu sobre o assunto antes e melhor do que qualquer outro gentio. | Esses versos, endereçados ao jesuíta Atanásio Kircher por um admirador inglês, servem de epígrafe para a vasta obra a respeito dos hieróglifos, o Oedipus aegyptiacus, publicada em 1652; são um reflexo da sua reputação e preparam-nos para as inúmeras citações do Pimandro de Ficino e do Asclépio, com que salpicou seus extensos tomos. Kircher fixa a data de Trismegisto nos termos de Abraão, acreditando que o egípcio fosse o autor das obras a ele atribuídas. Ele tivera a presciência da Trindade, que, no entanto, não definira com precisão, embora não se possa negar que escreveu sobre o assunto antes e melhor do que qualquer outro gentio. |
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| A grande [[evangelho-de-jesus:paixao:start|paixão]] de Kircher foram os hieróglifos egípcios e o seu significado. Ele dá prosseguimento à tradição renascentista da interpretação dos hieróglifos como símbolos que encerrariam verdades divinas ocultas, expandindo-a com uma pseudo-arqueologia. Essa obra imensa, na qual floresceu pela última vez a exuberante erudição renascentista sobre os hieróglifos, apareceu numa data tão tardia que sem demora ficou superada pela descoberta da verdadeira natureza dos hieróglifos. Para manter o pensamento sobre os hieróglifos na linha renascentista, foi absolutamente necessário conservar a crença em Hermes Trismegisto, pois como um antiquíssimo sacerdote egípcio sua sabedoria estava oculta nos hieróglifos egípcios e nas imagens dos seus [[biblia:figuras:divindade:deuses:start|deuses]]. Kircher escreveu páginas interessantes onde relaciona as definições de [[biblia:figuras:divindade:deus:start|Deus]] do Corpus hermeticum com os símbolos egípcios. Assim, depois de citar o início do Corpus hermeticum IV, sobre Deus, concebido como o criador imanente de um mundo que, por assim dizer, é o seu corpo, e o Corpus hermeticum V, sobre Deus concebido como latente no mundo, Kircher prossegue, com a ênfase habitual de um hermetista religioso, exclamando que nenhum cristão ou teólogo poderia ter falado de Deus com maior profundidade, acrescentando que todas essas coisas estavam ocultas nos hieróglifos. Ambas as citações seguem a tradução latina de Ficino, que foi utilizada do mesmo modo pelos renascentistas especialistas em hieróglifos. A tradição renascentista, com as suas interpretações dos hieróglifos como verdades relativas a Deus e ao mundo, moldou a religião hermética do mundo durante toda essa época — e atingiu seu clímax, bastante tardio, nas obras de Atanásio Kircher. No fim do Oedipus aegyptiacus, numa explosão derradeira de hermetismo, Atanásio Kircher expressa a crença central na sua obra sobre os hieróglifos. | A grande paixão de Kircher foram os hieróglifos egípcios e o seu significado. Ele dá prosseguimento à tradição renascentista da interpretação dos hieróglifos como símbolos que encerrariam verdades divinas ocultas, expandindo-a com uma pseudo-arqueologia. Essa obra imensa, na qual floresceu pela última vez a exuberante erudição renascentista sobre os hieróglifos, apareceu numa data tão tardia que sem demora ficou superada pela descoberta da verdadeira natureza dos hieróglifos. Para manter o pensamento sobre os hieróglifos na linha renascentista, foi absolutamente necessário conservar a crença em Hermes Trismegisto, pois como um antiquíssimo sacerdote egípcio sua sabedoria estava oculta nos hieróglifos egípcios e nas imagens dos seus deuses. Kircher escreveu páginas interessantes onde relaciona as definições de Deus do Corpus hermeticum com os símbolos egípcios. Assim, depois de citar o início do Corpus hermeticum IV, sobre Deus, concebido como o criador imanente de um mundo que, por assim dizer, é o seu corpo, e o Corpus hermeticum V, sobre Deus concebido como latente no mundo, Kircher prossegue, com a ênfase habitual de um hermetista religioso, exclamando que nenhum cristão ou teólogo poderia ter falado de Deus com maior profundidade, acrescentando que todas essas coisas estavam ocultas nos hieróglifos. Ambas as citações seguem a tradução latina de Ficino, que foi utilizada do mesmo modo pelos renascentistas especialistas em hieróglifos. A tradição renascentista, com as suas interpretações dos hieróglifos como verdades relativas a Deus e ao mundo, moldou a religião hermética do mundo durante toda essa época — e atingiu seu clímax, bastante tardio, nas obras de Atanásio Kircher. No fim do Oedipus aegyptiacus, numa explosão derradeira de hermetismo, Atanásio Kircher expressa a crença central na sua obra sobre os hieróglifos. |
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| "O egípcio Hermes Trismegisto, o primeiro a instituir os hieróglifos, com o que se tornou o príncipe e o ancestral de toda a teologia e a filosofia egípcias, foi o primeiro e o mais antigo entre os egípcios, e o primeiro a pensar com acerto nas coisas divinas; gravou a sua opinião para toda a eternidade em pedras duradouras e rochas imensas. Desde então, Orfeu, Museu, Lino, Pitágoras, Platão, Eudóxio, Parmênides, Melisso, Homero, Eurípides e outros aprenderam noções sobre Deus e sobre as coisas divinas. . . E esse Trismegisto foi o primeiro que, no seu Pimand.ro e no seu Asclépio, afirmou que Deus é Um e é Bom, e os demais filósofos o seguiram". | "O egípcio Hermes Trismegisto, o primeiro a instituir os hieróglifos, com o que se tornou o príncipe e o ancestral de toda a teologia e a filosofia egípcias, foi o primeiro e o mais antigo entre os egípcios, e o primeiro a pensar com acerto nas coisas divinas; gravou a sua opinião para toda a eternidade em pedras duradouras e rochas imensas. Desde então, Orfeu, Museu, Lino, Pitágoras, Platão, Eudóxio, Parmênides, Melisso, Homero, Eurípides e outros aprenderam noções sobre Deus e sobre as coisas divinas. . . E esse Trismegisto foi o primeiro que, no seu Pimand.ro e no seu Asclépio, afirmou que Deus é Um e é Bom, e os demais filósofos o seguiram". |
| Kircher se preocupava muito com Ísis e Osíris, os principais deuses egípcios. Numa das discussões sobre o significado deles, declarou: | Kircher se preocupava muito com Ísis e Osíris, os principais deuses egípcios. Numa das discussões sobre o significado deles, declarou: |
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| "O [[biblia:figuras:divindade:divino:start|Divino]] Dionísio atesta que tudo quanto foi criado nada mais é do que um espelho que reflete para nós os raios da sabedoria divina. Eis por que os sábios do Egito fingiram que Osíris, depois de encarregar Isis de tudo, ficou pairando invisível no mundo. Que mais isso pode significar, salvo que o poder do Deus invisível penetra intimamente em tudo?" | "O Divino Dionísio atesta que tudo quanto foi criado nada mais é do que um espelho que reflete para nós os raios da sabedoria divina. Eis por que os sábios do Egito fingiram que Osíris, depois de encarregar Isis de tudo, ficou pairando invisível no mundo. Que mais isso pode significar, salvo que o poder do Deus invisível penetra intimamente em tudo?" |
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| Aqui se combina a divina imanência egípcia com o misticismo pseudo-dionisíaco da luz, combinação que resulta no agudo senso do divino nas coisas, tão característico do hermetismo renascentista. Para Kircher, Ísis e Osíris têm um significado que, entre os filósofos da Renascença como.Giordano Bruno, é chamado "pan-psiquismo". | Aqui se combina a divina imanência egípcia com o misticismo pseudo-dionisíaco da luz, combinação que resulta no agudo senso do divino nas coisas, tão característico do hermetismo renascentista. Para Kircher, Ísis e Osíris têm um significado que, entre os filósofos da Renascença como.Giordano Bruno, é chamado "pan-psiquismo". |
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| A paixão de Kircher pelo Egito o conduziu às complexas pesquisas geográficas no decorrer das quais localizou uma cidade egípcia [[evangelho-de-jesus:chamada:start|Chamada]] Heliópolis, ou "Civitas Solis", a Cidade do Sol. Afirmou que os árabes lhe davam o nome de "Ainschems", isto é, "o olho do sol", e que no Templo do Sol dessa cidade havia um espelho maravilhoso, construído com grande [[estudos:iconografia:arte:start|Arte]] para refletir os raios do sol. Aparentemente, essa é a atmosfera miraculosa da cidade de Adocentyn, a versão árabe da Cidade do Sol do Picatrix, embora Kircher não cite essa obra nem estabeleça qualquer associação entre Heliópolis e as profecias do Asclépio. Ainda assim, as suas observações confirmam a ideia de que a Città [[philokalia:philokalia-termos:dei:start|dei]] Sole, de Campanella, era em última análise de origem egípcia. | A paixão de Kircher pelo Egito o conduziu às complexas pesquisas geográficas no decorrer das quais localizou uma cidade egípcia Chamada Heliópolis, ou "Civitas Solis", a Cidade do Sol. Afirmou que os árabes lhe davam o nome de "Ainschems", isto é, "o olho do sol", e que no Templo do Sol dessa cidade havia um espelho maravilhoso, construído com grande Arte para refletir os raios do sol. Aparentemente, essa é a atmosfera miraculosa da cidade de Adocentyn, a versão árabe da Cidade do Sol do Picatrix, embora Kircher não cite essa obra nem estabeleça qualquer associação entre Heliópolis e as profecias do Asclépio. Ainda assim, as suas observações confirmam a ideia de que a Città dei Sole, de Campanella, era em última análise de origem egípcia. |
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| Kircher explica o sacerdócio egípcio (baseado principalmente numa citação de [[ate-agostinho:clemente:start|Clemente de Alexandria]]), as leis dos egípcios, o amor do povo pelo rei e a monarquia egípcia como representante da ideia do universo, a filosofia dos egípcios e a doutrina platônica das ideias originárias do Egito (via Hermes), a "mecânica" dos egípcios ou a sua ciência aplicada e, finalmente, a magia do Egito. E isso nos conduz à questão de saber se, no tardio prolongamento do egipcianismo renascentista, derivado em última análise do culto da Hermética de Ficino, ainda havia lugar para a magia. | Kircher explica o sacerdócio egípcio (baseado principalmente numa citação de Clemente de Alexandria), as leis dos egípcios, o amor do povo pelo rei e a monarquia egípcia como representante da ideia do universo, a filosofia dos egípcios e a doutrina platônica das ideias originárias do Egito (via Hermes), a "mecânica" dos egípcios ou a sua ciência aplicada e, finalmente, a magia do Egito. E isso nos conduz à questão de saber se, no tardio prolongamento do egipcianismo renascentista, derivado em última análise do culto da Hermética de Ficino, ainda havia lugar para a magia. |
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| Há uma citação do De vita coelitus comparanda no Oedipus aegyptiacus que é exatamente a passagem onde Ficino explica a versão egípcia da cruz. Kircher começa declarando que Hermes Trismegisto inventou a forma da cruz egípcia, a crux ansata, a qual batizou de "cruz hermética". A citação de Ficino é seguida de uma dissertação longa e extremamente complexa sobre a cruz hermética, sua relação com o mundo e seu poder de atrair para a terra influências celestes. A cruz egípcia ou hermética, segundo Kircher, era um "amuleto muito potente"; era um "caráter" fabricado com habilidade magnífica que indicava o caminho da única luz; e Marsílio Ficino teria descoberto o seu poder. Kircher concorda, portanto, com Ficino quanto ao poder mágico da cruz egípcia, e a explicação erudita e astrológica que ele próprio lhe dá é um prolongamento da obra ficiana, à qual Kircher, por um singular lapso de linguagem, chama De vita coelitus propaganda. Não faz, nessa passagem, comparação com a cruz cristã, embora tal comparação esteja explícita em algumas das suas interpretações dos monumentos egípcios. | Há uma citação do De vita coelitus comparanda no Oedipus aegyptiacus que é exatamente a passagem onde Ficino explica a versão egípcia da cruz. Kircher começa declarando que Hermes Trismegisto inventou a forma da cruz egípcia, a crux ansata, a qual batizou de "cruz hermética". A citação de Ficino é seguida de uma dissertação longa e extremamente complexa sobre a cruz hermética, sua relação com o mundo e seu poder de atrair para a terra influências celestes. A cruz egípcia ou hermética, segundo Kircher, era um "amuleto muito potente"; era um "caráter" fabricado com habilidade magnífica que indicava o caminho da única luz; e Marsílio Ficino teria descoberto o seu poder. Kircher concorda, portanto, com Ficino quanto ao poder mágico da cruz egípcia, e a explicação erudita e astrológica que ele próprio lhe dá é um prolongamento da obra ficiana, à qual Kircher, por um singular lapso de linguagem, chama De vita coelitus propaganda. Não faz, nessa passagem, comparação com a cruz cristã, embora tal comparação esteja explícita em algumas das suas interpretações dos monumentos egípcios. |