theosophos:sebastian-franck:start
Differences
This shows you the differences between two versions of the page.
| Both sides previous revisionPrevious revision | |||
| theosophos:sebastian-franck:start [10/01/2026 16:03] – mccastro | theosophos:sebastian-franck:start [21/05/2026 19:52] (current) – external edit 127.0.0.1 | ||
|---|---|---|---|
| Line 1: | Line 1: | ||
| + | ===== SEBASTIAN FRANCK ===== | ||
| + | // | ||
| + | //Koyré, Alexandre. Místicos, Espirituais e Alquimistas do Século XVI Alemão. São Paulo: Editora Unesp, 2017.// | ||
| + | |||
| + | ** O Afastamento de Sebastián Franck em Relação a Lutero e ao Luteranismo ** | ||
| + | * O afastamento de Franck em relação a Lutero não foi motivado apenas pela oposição à fé implícita e à “fé do carbonero” que acreditava por ordem, mas teve raízes mais profundas em sua personalidade. | ||
| + | * Franck criticou amargamente a “traição” de Lutero e demonstrou, em sua exposição das doutrinas do reformador, a oposição entre seus primeiros e últimos escritos. | ||
| + | * O desastre dos partidos avançados da Reforma, a inquisição, | ||
| + | * As perseguições que sofreu o levaram definitivamente para as fileiras dos inimigos de Lutero. | ||
| + | * A ideia de uma justiça imputativa e de uma justificatio ab extra lhe pareceu a negação do próprio princípio da religião. | ||
| + | * Na luta entre os partidários do “espírito” e os da “letra”, | ||
| + | |||
| + | ** A Natureza do Pensamento de Sebastián Franck como um Solitário e “Primeiro Homem Moderno” ** | ||
| + | * Franck foi um solitário que jamais viveu as questões do pecado e da salvação da mesma maneira que Lutero, buscando no movimento da Reforma uma espiritualização da vida religiosa e moral. | ||
| + | * Para ele, a vida religiosa e a vida moral não se separavam, e ele não parece ter compreendido a grandeza ou a tragédia da concepção luterana. | ||
| + | * Seguiu Lutero em sua luta contra a Igreja, mas se separou quando viu que Lutero não estava disposto a abandonar a ideia de uma Igreja visível dispensadora de ensinamentos, | ||
| + | * Chamado de “primeiro homem moderno” por Dilthey, não era homo religiosus como seus contemporâneos, | ||
| + | * Seu “misticismo” era uma metafísica mais pensada do que vivida, uma filosofia que não era experiência; | ||
| + | * Suas leituras (santos padres, místicos alemães, reformadores, | ||
| + | |||
| + | ** A Concepção de Deus em Sebastián Franck: Bondade, Imanência e Panteísmo ** | ||
| + | * O Deus de Franck é próximo, amável e doce, sendo visto antes de tudo como o Bem substancial (eine wesentliche Güte), uma força infinita do Bem infinito que criou e mantém o mundo e o homem. | ||
| + | * Franck estava tão cheio da ideia de Deus como bondade e providência que lhe parecia inata à consciência humana, levando o homem naturalmente a crer em Deus e a amá-lo com um amor confiante e filial (confidere in Deum). | ||
| + | * Apesar de aceitar as doutrinas místicas e teológicas que afirmam que Deus não pode ser definido e é superior a toda noção, sendo aplicável apenas por negações (espersonlos, | ||
| + | * Em si mesmo, Deus é superior aos conceitos e definições, | ||
| + | * Embora não tema o panteísmo, o Deus de Franck não se confunde com o mundo; ele é Espírito (selbständiger Geist) e, mais do que isso, é amor e amor eterno. | ||
| + | |||
| + | ** A Visão de Franck sobre o Homem, o Pecado e o Livre-Arbítrio ** | ||
| + | * O homem, como imagem e semelhança de Deus, é por natureza bom, pois Deus se revela nele e para ele, deixando impressas as marcas do Criador em sua natureza. | ||
| + | * Embora o homem tenha pecado e seu esplendor primitivo se tenha ensombrado, o mal e o pecado não puderam macular sua essência; a substância do homem permaneceu boa, sendo o pecado um “acidente”. | ||
| + | * Com sua fé tranquila e seu sentido moral, Franck jamais admitiu a perversão total do homem ou a doutrina do servo-arbítrio, | ||
| + | * O homem é livre, pode fazer o mal e o bem, e Deus não o condenou por um decreto arbitrário, | ||
| + | * Franck formulava as relações entre Deus e o homem com base em categorias morais, mantendo-se frio diante das afirmações luteranas sobre a impotência e perversão total do homem, convencido de que a onipotência e onisciência divinas se conciliam com a liberdade total do homem. | ||
| + | |||
| + | ** A Distinção e Relação entre Deus, Mundo e Natureza em Franck ** | ||
| + | * Embora Deus seja a natureza de toda coisa, a coisa não é menos distinta de Deus, pois sua própria natureza, que é sua capacidade de agir e padecer como Deus a criou, lhe confere uma substancialidade e um ser próprios. | ||
| + | * A infinitude de Deus, presente e agente em toda parte no mundo, não implica a absorção do mundo por Deus, assim como a luz não se confunde com o ar ou os objetos que ilumina. | ||
| + | * Deus enche o mundo, mas não está no mundo; é antes o mundo que está em Deus, como o ar no qual se vive, se move e se existe, sendo tudo (céu, terra, inferno) em Deus, e tudo é bom na medida em que participa do ser divino, inclusive o Diabo. | ||
| + | * Franck via o mundo como uma expressão natural e uma revelação natural que revela o Criador, sendo toda revelação “natural” em grau eminente, pois a própria natureza de Deus, que é Amor, implica sua revelação às criaturas capazes de recebê-la (capazes Dei). | ||
| + | |||
| + | ** A Revelação Natural e a Crítica ao Schriftprincip dos Reformadores ** | ||
| + | * Para Franck, a ideia de revelação natural está implicada pelas próprias noções de homem e de Deus, pois um ser sem a ideia de Deus não seria homem, e ele invocava o texto de São João sobre a luz que ilumina todo homem e Tertuliano (anima naturaliter est christiana). | ||
| + | * Um Deus todo bondade e amor não poderia deixar de se revelar aos homens nem esperar séculos para se revelar parcialmente por meio da Escritura a um grupo restrito, pois isso seria limitar Deus e torná-lo “parcial”. | ||
| + | * A eternidade divina implica sua manifestação contínua, pois Deus sempre se revelou aos homens, nunca se ocultando deles, embora seja incognoscível e incompreensível por ser infinitamente superior às forças da inteligência. | ||
| + | * Deus não é o Deus escondido (Deus absconditus) que vive em mistério inacessível, | ||
| + | |||
| + | ** A Relatividade das Formas Concretas de Religião e o Valor da Letra e do Espírito ** | ||
| + | * A infinitude divina implica a relatividade de todas as formas concretas de religião, que são imperfeitas por serem exteriorizações temporais do espírito e representarem Deus não como ele é, mas como aparece ao homem em condições históricas dadas. | ||
| + | * Nenhuma letra ou forma expressa adequadamente o espírito, pois na representação e no conhecimento humano tudo é relativo: tal homem, tal povo, tal Deus. | ||
| + | * Franck falava de “pagãos iluminados” (erleuchute Hayden) e buscava a revelação divina tanto em Cícero, Sêneca, Platão ou Plotino quanto no Evangelho. | ||
| + | * Se todo conhecimento de Deus é uma revelação, | ||
| + | |||
| + | ** A Interpretação Simbólica de Adão, Cristo e a Redenção ** | ||
| + | * Adão e Cristo não são meros fatos históricos, | ||
| + | * Do ponto de vista moral, é absurdo crer que a queda de Adão implicou a condenação de toda a humanidade, pois ninguém pode ser justamente condenado pelos atos de outro, e Deus não criaria homens para a condenação. | ||
| + | * A natureza humana não está completamente pervertida; todo homem é pecador, mas o pecado não empata sua natureza, e se Adão está em cada um, Cristo também está como a Luz interior, o Espírito, que é nós mesmos e nos salva e justifica, não ab extra. | ||
| + | * O centro do Cristianismo não é a Redenção como fato histórico único, pois seria uma tolice admitir que Deus se enfureceu e precisou de um sacrifício para aplacar sua cólera, já que Deus é amor e sempre nos amou. | ||
| + | |||
| + | ** Crítica à Justificação pela Fé e a Perda de Valor da Igreja ** | ||
| + | * Franck considerava absurdas as doutrinas da justificação vicária e da justificação pela fé, pois uma crença meramente intelectual em um fato histórico que não transforma moralmente a pessoa não poderia ser “levada em conta” por um Deus justo. | ||
| + | * Para ele, a ideia de Igreja havia perdido todo valor, pois Deus age diretamente sobre a alma, sendo quase uma blasfêmia vincular sua ação aos sacramentos. | ||
| + | * A Bíblia não tinha para Franck o valor de única revelação real de Deus, e a eficácia do rito era um erro do homem exterior; atar o espírito por meio da obrigação do batismo, da pregação e da comunhão era um erro. | ||
| + | * A Bíblia, tomada ao pé da letra, é um entremeado de erros, contradições e coisas imorais, não valendo mais, do ponto de vista moral, do que Ovídio ou Tito Lívio. | ||
| + | |||
| + | ** A Escritura como Paradoxo e a Natureza Dupla da Realidade ** | ||
| + | * Embora as opiniões humanas sejam relativas e falsas por se afastarem da verdade espiritual, a verdade é uma, o espírito é um, e a verdadeira religião, a do espírito e da verdade, é uma, sendo as múltiplas religiões falsas na medida em que se particularizam e se tornam “heresias”. | ||
| + | * A Escritura não se contradiz; ela ironiza, faz paradoxos e é ela mesma uma paradoxo, sendo verdadeira de uma verdade superior porque a realidade é paradoxal. | ||
| + | * O mundo, como o homem, é duplo: o mundo interior e o mundo exterior, o mundo da realidade profunda e o mundo da aparência, que são reais de maneiras distintas e falsas, correlativas ao homem exterior e carnal. | ||
| + | * O homem é um microcosmos que representa o grande, e os dois “mundos” se opõem e se negam: do ponto de vista do mundo carnal, a verdade do espírito é loucura, e vice-versa. | ||
| + | |||
| + | ** A Verdadeira Igreja de Deus como Comunidade Espiritual e a Rejeição do Sectarismo ** | ||
| + | * Se o verdadeiro sentido da Escritura é simbólico e espiritual, não há Igreja exterior, mas apenas a verdadeira Igreja de Deus, a comunidade espiritual de verdadeiros crentes disseminada entre pagãos, turcos, judeus e falsos cristãos. | ||
| + | * Franck repudiava toda separação e toda nova formação de comunidade “exterior” de “eleitos”, | ||
| + | * Em sua “Igreja” ampla havia lugar para Sócrates, Orígenes e os “heréticos” que ele amava em sua Ketzercbronik, | ||
| + | * Não havia lugar para os “sectários”, | ||
| + | |||
| + | ** A Natureza do Mal como Negação e a Tentativa Fracassada do Ser Finito ** | ||
| + | * Franck aceitava a teoria tradicional que identifica Deus com o Ser e reduz o mal a uma negação, preocupando-se mais com o mal do que com o pecado, e não tendo o sentimento agudo da potência e realidade do pecado como Lutero. | ||
| + | * O pecado não é nada além de uma negação, uma perversão e uma ausência, pois para Deus só existe o ser; essa essência negativa do mal explica como o homem, embora livre, pôde ser seu autor, já que o pecado é uma diminuição do ser, um “acidente”. | ||
| + | * O homem, criado do nada, voltou-se para si mesmo em vez de se voltar para Deus, tornando-se egoísta e carnal, mas não pôde destruir sua substância, | ||
| + | * O pecado foi uma tentativa (unmützes Konat) do ser finito de se separar de Deus, mas essa tentativa não teve sucesso nem poderia ter, pois Deus o mantém no ser; assim, metafisicamente, | ||
| + | |||
| + | ** O Papel da Liberdade Humana e da Ação da Graça na Salvação ** | ||
| + | * Franck foi acusado de pelagianismo e sinergismo por insistir no papel da liberdade humana, mas afirmava simultaneamente a ação total da graça e a liberdade completa do homem, dizendo que a vontade é “sempre livre e sempre serva, potente para tudo e impotente para tanto” (semper libera et semper serva, potens omnia e impotens tantum). | ||
| + | * Deus age sempre no homem como o homem quer que ele aja, ou melhor, como o homem quer agir; assim, o homem é livre para se condenar ou se salvar, pois é o homem quem permite que Deus, o Cristo interior, o Espírito, o Logos, aja nele. | ||
| + | * O homem, ao se voltar livremente para o eu profundo que é a expressão de Deus (imago Dei), permite que Deus aja nele, acenda a luz interior e o afaste do mal que ele mesmo adotou por sua vontade. | ||
| + | * O homem pode fazer o vazio em si mesmo, abandonar o “Adão” (von sich selbst ablassen), destruindo o que o pecado acumulou na alma, e então Deus nasce na alma e cuida de seu renascimento espiritual e reintegração. | ||
| + | |||
| + | ** O Processo de Regeneração (Wiedergeboren) e a Identificação com Cristo ** | ||
| + | * Embora o mal e o pecado tenham a realidade de acidentes criados pela alma, é a própria alma que pode reduzi-los à nada, momento em que o Espírito, Cristo, Deus, se lhe outorga, regenera-a, esclarece-a e a faz viver. | ||
| + | * Esse processo não é a ação transcendente de uma causa exterior, pois o quid divinum, a graça que regenera a alma, está nela mesma; o Cristo interior é a imagem divina, a luz natural e inata, que é reavivada por Deus. | ||
| + | * Pode-se dizer que a graça faz tudo e que o homem exterior nada pode ou quer fazer, mas também que é o homem interior, a imagem de Deus, que se despoja do si mesmo exterior graças à luz que há nele e que recebeu de Deus. | ||
| + | * O homem interior, vitorioso sobre Adão, identifica-se com Cristo, assim como se pode dizer que é Cristo quem age nele; dizer que o homem é regenerado equivale a dizer que Cristo nasceu nele, pois a alma que alcança o desprendimento (Gelassenheit) abdica de sua própria vontade e permite que Cristo viva nela. | ||
| + | |||
| + | ** A Identidade e Distinção entre Deus e Natureza na Metafísica de Franck ** | ||
| + | * Franck identifica Deus e a natureza e os distingue resolutamente, | ||
| + | * A noção de expressão permite identificar a expressão com o que ela expressa e, ao mesmo tempo, distingui-la radicalmente, | ||
| + | * A expressão é essencial ao que se expressa, mas não modifica a natureza do ser expressado, que permanece “fora” e “superior” à sua expressão, a qual jamais pode expressá-lo inteiramente. | ||
| + | * Deus em si, a divindade, como tal, não é nada, não se conhece porque só se pode conhecer aquilo que é algo, e o ato de conhecimento de si indicaria uma dualidade e separação que não tem lugar na unidade absoluta. | ||
| + | |||
| + | ** O Autoconhecimento de Deus e a Filosofia da História de Franck ** | ||
| + | * Deus se conhece por e em sua imagem (o homem) na medida em que se reflete na criatura; se conhece como aquele que age e se expressa na medida em que age; e se conhece a si mesmo no ato pelo qual as criaturas o conhecem, sendo Deus o verdadeiro sujeito desse ato e identificando-se as criaturas com ele nesse ato. | ||
| + | * A filosofia da história de Franck é simples: a história é uma segunda ou terceira Bíblia (sendo o livro da natureza uma delas), e suas Crônicas demonstram a ação de Deus e da providência divina na história. | ||
| + | * A história perde seu sentido histórico e se torna um símbolo intemporal, onde não há desenvolvimento entre criação, encarnação e juízo final, mas sim a luta eterna entre Adão e Cristo, o espírito e a carne. | ||
| + | * Franck via na história a luta perpétua entre o egoísmo, o mal, o pecado, a carne e o “mundo” contra o espírito de amor e abnegação; | ||
| + | |||
| + | ** A Visão de Franck sobre as Formas Sociais, o Poder e a Igreja Invisível ** | ||
| + | * Franck não era partidário da “natureza social” da sociedade e do estado, pois para ele, todas as formas sociais baseadas na força e na opressão são de natureza adâmica, tendo sido fundadas pela queda e pelo pecado. | ||
| + | * O papado e o império não são formações acidentais; sua estrutura é eterna e aparece sempre que o espírito é derrotado pela matéria, sempre que Cristo sucumbe diante de Adão. | ||
| + | * Os homens não suportam a liberdade e buscam se ajoelhar diante de alguém para se liberar das obrigações impostas pela liberdade e pela verdadeira moral, buscando sua salvação na intolerância, | ||
| + | * Toda atividade que não é espírito pertence ao tempo e está fadada ao nada, como o poder dos romanos que edificaram algo nunca antes visto, mas que já não existe mais; diante desse espetáculo de lutas eternas sem meta e sem significação, | ||
| + | * O consolo de Franck é que, apesar de tudo, o espírito é eterno, e Deus eternamente se revela aos homens, oferecendo os tesouros de sua bondade, amor e graça; sempre houve homens cuja alma foi iluminada pela luz divina, que adoraram a Deus em espírito e verdade, e que, embora sempre perseguidos, | ||
