theosophos:schwenckfeld:start
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| + | ===== SCHWENCKFELD ===== | ||
| + | // | ||
| + | //Koyré, Alexandre. Místicos, Espirituais e Alquimistas do Século XVI Alemão. São Paulo: Editora Unesp, 2017.// | ||
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| + | * Desde os trabalhos de Max Weber e E. Troeltsch, conhece-se o papel dos pequenos grupos sectários protestantes na história das ideias e na história em geral. | ||
| + | * Foi nesses meios de “fantasiosos” e “entusiastas”, | ||
| + | * Inversamente, | ||
| + | * Schwenckfeld, | ||
| + | * Acreditavam defender o sonho místico da imediação contra a organização das igrejas protestantes, | ||
| + | * Aos defensores da “letra” e da “carne”, | ||
| + | |||
| + | * Os “fantasiosos” e “entusiastas” não tinham noção das coisas terrenas, sendo filósofos medíocres e teólogos de pacotilha, mas, curiosamente, | ||
| + | * O texto menciona que mais adiante serão estudados alguns representantes dos “defensores do espírito”. | ||
| + | * Eles não formam um grupo compacto com doutrinas comuns e precisas. | ||
| + | * A distância entre um Sebastião Franck (com seu pan-naturalismo místico) e Gaspar Schwenckfeld (com seu supranaturalismo dualista) é tão grande quanto a que os separa de Lutero. | ||
| + | * O termo “espiritualistas” é enganoso, sendo sua relativa unidade radicada na comum oposição a Lutero, ao luteranismo e à hierarquia da igreja externa, talvez com maior motivo na violenta oposição de Lutero e do luteranismo às doutrinas diversas e igualmente perigosas dos hereges. | ||
| + | |||
| + | * Caspar Schwenckfeld, | ||
| + | * Para Schwenckfeld, | ||
| + | * A liberdade do cristão, a livre piedade evangélica e a adoração a Deus “em espírito e em verdade” pareciam ter cumprido sua etapa. | ||
| + | * A cristandade luterana era novamente submetida à lei (Knechtschaft für dem Gesetze), e a religião do espírito voltava à idolatria da letra. | ||
| + | * Esses são temas conhecidos da literatura “espiritualista”, | ||
| + | * Schwenckfeld não tem interesse em salvaguardar a liberdade moral do homem, nem preocupação metafísica, | ||
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| + | * Schwenckfeld esteve, no fundo, muito próximo de Lutero, quase com toda segurança mais próximo do que Melâncton. | ||
| + | * Como Lutero, Schwenckfeld ensinava a predestinação, | ||
| + | * Embora magnificasse o “Cristo em nós” (Christus in uns), não diminuía o papel do “Cristo para nós” (Christus für uns). | ||
| + | * A encarnação, | ||
| + | * As obras e o mecanismo da graça não existiam para ele, e a fé era a única via de salvação (Solafide salvemur). | ||
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| + | * Ninguém foi mais obstinadamente rejeitado e combatido por Lutero do que Caspar Schwenckfeld, | ||
| + | * Lutero tinha seus motivos, pois Schwenckfeld negara o valor dogmático da confissão de Augsburgo. | ||
| + | * Schwenckfeld propusera uma teoria nova e própria da eucaristia e uma interpretação nova e pessoal do sentido das palavras de Cristo. | ||
| + | * Indicara a seus adeptos que se abstivessem da comunhão enquanto não houvesse união do sentido do rito e da interpretação das palavras da Ceia. | ||
| + | * Proclamou a necessidade de uma iluminação espiritual individual para compreender o sentido real da Escritura e para adorar a Deus em “espírito e verdade”, pretendendo tê-la recebido. | ||
| + | * Negou a presença real de Cristo nas espécies eucarísticas (embora tenha combatido a doutrina de Zwinglio com igual vigor). | ||
| + | * Proclamou, adotando doutrina “papista”, | ||
| + | * Pregou a necessidade de uma transformação espiritual do homem inteiro. | ||
| + | * Inventou sua teoria da carne divina de Cristo e quase devolveu à Virgem seu posto de mãe de Deus. | ||
| + | * Negou que Cristo fosse “uma criatura”, | ||
| + | |||
| + | * A heresia de Schwenckfeld era ainda mais grave na prática, pois fazia depender a salvação não apenas da fé, mas também da participação efetiva nos sacramentos, | ||
| + | * Isso é prova manifesta de que, por “fé”, Schwenckfeld entendia algo muito diferente de Lutero e dos luteranos. | ||
| + | * A fé de Schwenckfeld, | ||
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| + | * A hostilidade e o ódio persistente de Lutero e dos teólogos luteranos contra o reformador silesiano explicam-se por oposições profundas, indo além das diferenças de caráter. | ||
| + | * É compreensível que Lutero, com seu caráter íntegro, espírito dominante, natureza apaixonada e tosca, se sentisse repelido pela “pureza” e “doçura” do reformador-gentil-homem silesiano. | ||
| + | * É compreensível que Lutero, monge e teólogo de ofício, sentisse desprezo pelos escritos e teorias do autodidata leigo. | ||
| + | * A oposição do irrealismo político e social de Schwenckfeld ao realismo de Lutero também não explica tudo, embora a política tenha jogado um papel. | ||
| + | * A Reforma, aliada aos príncipes, caminhava para uma Igreja de Estado, enquanto uma livre comunidade evangélica era um ideal herético. | ||
| + | * Há, fundamentalmente, | ||
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| + | * Caspar Schwenckfeld, | ||
| + | * Para cumprir sua obra redentora e salvar a humanidade, Cristo precisava ser uma pessoa verdadeira, viva, real e una. | ||
| + | * Era preciso não admitir nele nenhuma imperfeição, | ||
| + | * Schwenckfeld não entendia como salvaguardar essa unidade pessoal se Cristo fosse “composto” de uma parte divina (eterna, incriada) e outra humana (criada, perecível e imperfeita). | ||
| + | * Um Cristo “composto” não poderia realizar a obra da salvação, nem os homens poderiam participar de sua natureza divina se a natureza humana não fosse em si mesma divina e incriada. | ||
| + | * Trata-se de um raciocínio ingênuo, de um profano que não assimilou o trabalho conceitual da teologia, e por isso Lutero o chamou de “imbécil”. | ||
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| + | * Quanto à eucaristia, é duvidoso que Schwenckfeld tenha compreendido o sentido das fórmulas luteranas, mas isso pouco importa, pois Lutero percebeu sob suas fórmulas emboladas uma “religião” muito distinta da sua. | ||
| + | * Por pior teólogo que fosse, Schwenckfeld disse bastante bem o que queria, mesmo sem encontrar as fórmulas corretas e com raciocínios confusos e verbosos. | ||
| + | * A ideia que o anima é muito nítida: o homem está caído, total e completamente pervertido e manchado, com o que Schwenckfeld concorda plenamente com Lutero, indo talvez mais longe. | ||
| + | * Para Schwenckfeld, | ||
| + | * Ele se recusa a admitir que Cristo seja uma criatura porque essa noção lhe parece uma blasfêmia, já que a criatura é imperfeita por definição (limitada e finita), enquanto Deus é absolutamente perfeito. | ||
| + | * Schwenckfeld sabe que vão acusá-lo de renovar heresias antigas (como a de Eutiques), chamando-o de “monofisita”, | ||
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| + | * É paradoxal que Schwenckfeld tenha sido acusado de panteísmo, pois seu princípio fundamental é o de que toda criatura está fora de Deus, vendo no “nestorianismo” de Lutero (herdado do “papismo”) o perigo de romper a unidade da pessoa de Cristo e de confundir o criador com o mundo criado. | ||
| + | * Tanto para Schwenckfeld quanto para Lutero, o homem “carnal” e “exterior” é radicalmente impotente para fazer algo por sua salvação, sem mérito, liberdade ou eficácia, agindo só Deus. | ||
| + | * A discordância está no modo dessa ação divina. | ||
| + | * Schwenckfeld não admite que Deus se limite a “perdoar a pena” ou a não “levar em conta” a dívida, sem antes transformar o pecador por meio de uma graça justificante. | ||
| + | * Para ele, Deus não pode “contemplar como justo” alguém sem traço de justiça, sendo preciso que Deus a outorgue, fazendo o homem “renascer” (ou, mais exatamente, ter um “segundo nascimento” ou um “nascimento” propriamente dito). | ||
| + | * O homem justificado, | ||
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| + | * A diferença entre Lutero e Schwenckfeld reside na raiz do mal: para Lutero, o homem é antes de tudo pecador, e o pecado destruiu o que havia de bom, necessitando de perdão; para Schwenckfeld, | ||
| + | * Não é apenas o crime do homem que o incapacita, mas sua própria condição de criatura, sendo o perdão de Deus insuficiente para salvá-lo. | ||
| + | * Schwenckfeld pensa que Deus não pode, no fundo, justificar e salvar nenhuma criatura que permaneça criatura. | ||
| + | * É necessário um homem novo que Deus “engendra” (efetivamente novo quanto ao modo de ser), pois a mesma essência pode ser “criada” (ser exterior e separado de Deus) ou “engendrada” (ter um ser divino). | ||
| + | * A graça não pode alcançar o homem exterior e criatural; o homem interior, engendrado por Deus, é o único capaz de recebê-la, sendo a graça esse próprio engendramento. | ||
| + | * Mesmo “engendrado”, | ||
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| + | * É completamente lógico que Schwenckfeld, | ||
| + | * Só os eleitos (desde a eternidade) serão salvos por Deus, porque foram engendrados por ele. | ||
| + | * Embora eleitos desde o nascimento (ou mesmo antes), só serão salvos pela fé que Deus acenderá neles mediante o “segundo nascimento” provocado pela palavra de Deus. | ||
| + | * Essa fé é um dom direto e imediato de Deus, que, assim como para a graça em geral, não precisa de “intermediários” ou “instrumentos” carnais e materiais. | ||
| + | * A ação divina é interior e imediata, sendo inadmissível que algo material ou criado sirva de suporte para a graça. | ||
| + | * Schwenckfeld não admite mistura entre o mundo criado e seu Autor, entre a “carne” e o “espírito”, | ||
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| + | * O papel dos ritos para Schwenckfeld é mínimo, pois não são indispensáveis para a salvação (nem mesmo o batismo), sendo ele hostil a toda magia sacramental, | ||
| + | * Embora se defenda da acusação de anabatista, Schwenckfeld reconhece que o batismo de crianças é uma simples cerimônia humana sem valor real para os destinos espirituais, | ||
| + | * Os anabatistas se enganam, pois nenhum batismo (de adultos ou de crianças) tem valor mágico como rito. | ||
| + | * O único batismo verdadeiro é o do espírito e no espírito; o resto é instituição humana, prática piedosa, símbolo da unidade da Igreja e cerimônia comemorativa. | ||
| + | * O importante é o simbolizado: | ||
| + | * A verdadeira fé viva não é uma simples crença ou assentimento intelectual, | ||
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| + | * A verdadeira fé não nasce “ex auditu”, pois nada que vem “de fora” e participa das condições de ser criado possui valor para Schwenckfeld, | ||
| + | * Nem o sermão nem a Escritura agem por si mesmos; é preciso que o homem compreenda seu sentido. | ||
| + | * Palavras, signos e sons são apenas símbolos, expressões e traduções do sentido, do espírito, o único inspirado por Deus. | ||
| + | * O Senhor não ditou os termos mesmos das escrituras aos escritores sagrados, sendo impossível encerrar a revelação na letra e a Deus nas palavras e conceitos. | ||
| + | * Os livros sagrados foram traduzidos, o que é pouco importante, pois apenas o espírito (não a letra) foi inspirado por Deus. | ||
| + | * O homem exterior e separado de Deus não pode compreender o sentido da palavra divina; apenas o cristão, o homem espiritual, o eleito e filho de Deus pode penetrar o sentido da Escritura, que para o homem normal permanece fechada e morta. | ||
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| + | * Os luteranos se enganam ao pretender fazer nascer a fé “ex auditu” e ao crer que a Escritura (como letra) poderia agir sobre o homem não espiritual, errando mais ainda se acreditam poder alcançar ou provocar a conversão por meios totalmente exteriores. | ||
| + | * O espírito jamais nasce da matéria. | ||
| + | * O Verbo de Deus, que é Espírito, é o único que pode fazer “nascer” na alma o homem espiritual, conferindo-lhe a graça e o poder de penetrar o sentido real de sua palavra escrita. | ||
| + | * Schwenckfeld não nega o valor prático e empírico da pregação e da letra para o homem carnal, sendo úteis para o cristão (afligido por um corpo carnal), mas os luteranos as convertem quase em sacramento, pois não sabem o que é a fé, o espírito, nem o “segundo nascimento”. | ||
| + | * O erro luterano está em suas vinculações muito estreitas com a teologia “papista”. | ||
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| + | * Schwenckfeld devolve os reproches que lhe são dirigidos, afirmando que os luteranos é que são duofisitas (admitindo elemento criatural na pessoa de Cristo) e que não sabem fazer a distinção essencial entre a carne e o espírito, crendo em uma ação possível da carne sobre o espírito. | ||
| + | * Os luteranos imaginam que a Escritura, a letra e a palavra predicada possuem eficácia própria e não admitem a ação direta do Verbo, pretendendo agir “ab extra” sobre o espírito. | ||
| + | * Isso manifesta o espírito “papista” dos luteranos e seu pelagianismo oculto, por quererem formar uma nova igreja exterior e pôr a salvação “ao alcance de todo o mundo”. | ||
| + | * Essa é a verdadeira razão pela qual desnaturalizaram o conceito de fé, pois todo mundo pode aceitar uma doutrina, mas a verdadeira fé é algo raro, outorgada apenas aos eleitos. | ||
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| + | * É curioso que Schwenckfeld não pareça ter se colocado o grave problema dos condenados, mostrando seu Deus como tão bom que os condenados não lhe interessam. | ||
| + | * Seeberg observa que a doutrina da predestinação de Schwenckfeld se parece com a de Calvino, mas sem o “decretum horribile”. | ||
| + | * A condição do homem criado já é tão má que não se compreende o que poderia ser pior. | ||
| + | * Schwenckfeld pensa apenas nos eleitos, sabendo-se um deles e que todos os que creem verdadeiramente serão salvos. | ||
| + | * Eleitos desde a eternidade, já estão salvos, e o homem espiritual, engendrado por Deus, não pode morrer. | ||
| + | * As questões sobre a possibilidade de perder a graça recebida ou resistir a sua ação lhe parecem ociosas, pois a graça não “tine” o homem exterior, mas “engendra” um homem novo e espiritual. | ||
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| + | * Todas essas questões não fazem sentido para Schwenckfeld porque seus problemas religiosos não se colocavam nos mesmos termos que para Lutero ou Calvino, pois sua alma tranquila e pura nunca sentiu a força insuperável do pecado nem o temor trágico de Deus. | ||
| + | * O seu Deus se parecia mais com o bom Deus de Zwínglio do que com o Mestre terrível de Lutero. | ||
| + | * Oecolampade, | ||
| + | * Caspar Schwenckfeld pretendia algo muito distinto da maioria de seus contemporâneos: | ||
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| + | * O Deus de Schwenckfeld criou o mundo e o homem com o objetivo de salvá-los e divinizá-los, | ||
| + | * Não está claro por que Deus não começou pelo final, ou por que criou homens (seres imperfeitos e exteriores a ele), já que o estado final (theosis) é superior ao estado inicial (Adão não era perfeito), havendo “progresso”. | ||
| + | * O papel de Cristo não se esgota no de redentor, e sua encarnação não é determinada pelo pecado; mesmo sem pecado, era preciso que Cristo se encarnasse para tornar possível a theosis. | ||
| + | * Para Schwenckfeld, | ||
| + | * Não se pode falar de um verdadeiro progresso, pois o homem espiritual não nasce do homem carnal, e essas naturezas não têm comunicação entre si. | ||
| + | * Schwenckfeld não responde aos problemas graves que Jacob Boehme colocará mais tarde, bastando-lhe saber que o nascimento e a encarnação de Cristo eram necessários, | ||
| + | |||
| + | * Schwenckfeld sabe que o homem é miserável e pecador por culpa de Adão, mas está seguro de que a bondade de Deus é infinita e que a graça, que faz nascer em nós o homem espiritual, nos diviniza e liberta não só do “status peccati”, mas também do “status creaturae”. | ||
| + | * O pecado de Adão tornou o homem duplamente impuro e impotente. | ||
| + | * Ao homem só lhe resta reconhecer sua abjeção, abdicar de sua “carne”, | ||
| + | * Parece que Schwenckfeld se enrola, talvez pela influência de Karlstadt e do misticismo da Teologia germânica, vendo o mal tanto na “matéria” e na “carne grossa” quanto no pecado, com uma noção de mal coextensivo ao ser criatural (finito, limitado, imperfeito e separado de Deus). | ||
| + | * Seu “sentimento de criatura” não lhe permite ver a fonte do mal no pecado, mas sua teoria do mal como negação (pelo ser finito e limitado) não é o equivalente lógico de sua doutrina do ser criado, como demonstra sua cristologia. | ||
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| + | * Embora Schwenckfeld insista no ser não criatural de Cristo, mantém com igual força a afirmação de sua natureza humana, sendo essa doutrina necessária para sustentar que a natureza humana (enquanto tal) é “capax dei” e compatível com a essência e natureza de Deus. | ||
| + | * É preciso que a natureza e a essência do homem sejam “quid divini”; do contrário, como poderia Cristo ter se encarnado e se feito homem? | ||
| + | * Se Cristo não fosse homem, como seria possível a theosis? | ||
| + | * Para o que Schwenckfeld busca, um Cristo mediador entre o homem e Deus, ou entre Deus e o mundo, só é concebível se o ser finito em si não é necessariamente extra-divino, | ||
| + | * Cristo deve ser homem e incriado, pois um Jesus criatura é um absurdo e implicaria a impossibilidade da deificação do homem. | ||
| + | * O termo “criatura” não designa necessariamente todo “ab alio” (contradição nos termos, mas não no pensamento de Schwenckfeld), | ||
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| + | * Schwenckfeld desenvolve a distinção clássica entre essência, existência e modo de produção, afirmando que o homem é “essentialiter ab alio” (a Deo), mas não necessariamente uma criatura, sendo a prova disso Cristo: um homem sem ser criatura, cuja essência humana não se opõe a ser engendrado por Deus. | ||
| + | * Criação e engendramento são modos de produção diferentes que não mudam a essência do homem. | ||
| + | * O homem pode, de criado, passar a engendrado, podendo, por Cristo e com ele, tornar-se Filho adotivo de Deus, porque já o é. | ||
| + | * Schwenckfeld desenvolve uma teoria estranha sobre a pessoa e a carne de Cristo, considerada por alguns historiadores (Ecke, Erbkam, Baur) indigna de menção, mas que, no entanto, é a chave e o centro de seu ensino, além de vinculá-lo à evolução posterior do misticismo protestante (V. Weigel e Jacob Boehme). | ||
| + | * Essa teoria é a do corpo celeste, ou carne espiritual de Cristo, cujas fontes escriturárias são são Paulo e são João. | ||
| + | |||
| + | * A doutrina da carne espiritual de Cristo não visa apenas evitar o monofisicismo ou o docetismo de Münzer, mas também é impulsionada pela impossibilidade de representar a existência real de um espírito puro. | ||
| + | * O raciocínio de Schwenckfeld é simples: Cristo não é uma criatura, não tem (nem pode ter) carne comparável à nossa, é imaterial, mas não é um espírito puro. | ||
| + | * Cristo possuía um corpo real (nada mais estranho a Schwenckfeld que o docetismo), formado por uma “carne espiritual” completamente penetrada e transfigurada pelo espírito. | ||
| + | * A passagem de Jesus pela terra e seu nascimento da Virgem não lhe deram nada de carne criatural, mas ele não podia não ter corpo. | ||
| + | * O “crescimento” de Jesus consiste em uma transfiguração cada vez mais completa de sua carne, numa penetração mais profunda do espírito puro na “matéria espiritual”, | ||
| + | * Cristo reserva para o céu essa carne (doravante celeste, divina e que lhe pertence), sendo impossível não representar Cristo como um espírito perfeitamente corporal. | ||
| + | * Como Cristo é Deus, não há contradição nem incompatibilidade entre corpo e espírito, corporeidade e divinidade, homem e Deus. | ||
| + | |||
| + | * Deduz-se ainda que a natureza humana é essencial à pessoa de Cristo, que não se “tornou” homem, mas é, desde toda a eternidade, Homem-Deus, sendo a humanidade (enquanto tal) um momento necessário da divindade. | ||
| + | * Cristo, o Filho de Deus, é Deus por sua essência, sendo um momento absolutamente necessário no ser trinitário de Deus. | ||
| + | * A humanidade (em si) é um momento necessário da divindade, o que implica o caráter (em certo modo) divino da humanidade. | ||
| + | * Como a encarnação é perfeitamente necessária (não determinada pela falta contingente do homem), é necessário que Deus se realize e se encarne (desde a eternidade) no homem, assim como é essencial para o homem ter uma natureza que participa da divindade. | ||
| + | * O infinito e o finito, o homem e Deus, implicam-se mutuamente quanto às essências, antes de toda criação. | ||
| + | * O espírito “se encarna” necessariamente, | ||
| + | |||
| + | * Uma consequência grave para a eucaristia é que a carne celeste que Cristo guardou no céu é o que se “come” na eucaristia (não a carne em sentido vulgar, nem mesmo a carne espiritual de Jesus na terra), sendo a carne divina da qual se participa mediante a fé. | ||
| + | * A “carne celeste” não está incluída nas espécies eucarísticas, | ||
| + | * Nem o pão se torna corpo de Cristo, nem este se transforma em um pedaço de pão; Cristo mesmo é o “pão e o vinho da vida”. | ||
| + | * É possível que o homem “coma” essa carne (que não é espírito) porque o homem é duplo: exterior/ | ||
| + | * O homem interior (que não é a alma, um espírito puro e imaterial, mas um homem com um corpo espiritual) é que “come” a carne espiritual de Cristo, porque é “espiritual” em si mesmo. | ||
| + | * Para Schwenckfeld (como para Boehme), um espírito puro sem corpo é um absurdo; o homem interior é completo, congênere de Cristo, que divinizado e transfigurado se torna habitante da glória divina. | ||
| + | |||
| + | * Cristo é completamente Deus, mas Schwenckfeld não nega sua filiação humana (filho da Virgem, da qual recebeu o “corpo espiritual” engendrado por Deus), sendo dessa mesma “carne espiritual” que participam os eleitos. | ||
| + | * A posse de um “corpo” espiritual e transfigurado não é remetida por Schwenckfeld à ressurreição, | ||
| + | * O “renascimento” ou a “regeneração” é para Schwenckfeld uma ressurreição tanto quanto um verdadeiro nascimento: o nascimento do homem interior em nós é o nascimento de seu corpo espiritual. | ||
| + | * A vida do eleito é seu crescimento progressivo, | ||
| + | * O homem espiritual é realmente um membro de Cristo e realmente um filho de Deus. | ||
| + | * O homem novo (quanto à essência) é nós mesmos, nossa própria essência, nosso verdadeiro ser, ocultado pela carne grossa do estado criatural e ligado pelo pecado, que a ação de Cristo desperta e conduz à vida. | ||
| + | |||
| + | * Schwenckfeld repete com insistência que Jesus não é uma “criatura” porque, no fundo, o homem também não o é: o homem é uma forma essencial e necessária da manifestação de Deus, forma eterna, incriada e divina. | ||
| + | * Por ser assim, foi possível a Cristo fazer-se homem e nascer da Virgem Maria sem se tornar “criatura” e sem ser manchado pelo pecado. | ||
| + | * O pecado não alcança mais que a “criatura”; | ||
| + | * O corpo glorioso de Cristo (que se “come”) é ao mesmo tempo o que a Bíblia chama “a glória divina”. | ||
| + | * Quando se entra nessa glória, torna-se membro do corpo de Cristo, mas o corpo de Cristo é a igreja, o conjunto dos fiéis. | ||
| + | * Cada fiel aumenta a glória divina, e a glória divina (que é o Paraíso) está nos homens tanto quanto estes nela. | ||
| + | |||
| + | * Apesar das semelhanças, | ||
| + | * Para Schwenckfeld, | ||
| + | * Como tal, ele comunga com Cristo e com ele participa pela fé, sendo, literalmente e em certo modo, ele mesmo Corpo de Cristo. | ||
| + | * Por isso, os ritos e todo o aparato exterior e social da vida religiosa perdem seu sentido e valor para Schwenckfeld. | ||
| + | * A ordenação, | ||
| + | * Para Schwenckfeld, | ||
