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theosophos:joseph-de-maistre:esoterisme

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 +===== ESOTERISMO =====
 +//DERMENGHEM, Joseph de Maistre Mystique. [[http://lesvoies.free.fr/spip/article.php?id_article=1094&recalcul=oui|Texto Original]].//
  
 +<quote>
 +Da mihi intellectum, et scrutabor legem tuam. Psaume CXVIII.
 +
 +Mysterium quod absconditum fuit a sæculis et generationibus, nunc manifestatum est. Vêpres de l'Epiphanie.
 +</quote>
 +
 +  * Para Joseph de Maistre, a verdade é essencialmente útil e o erro é em si mesmo pernicioso, mas isso não significa que toda verdade seja sempre adequada de ser proclamada publicamente, pois a liberdade humana pode perverter até mesmo o melhor dos instrumentos do conhecimento.
 +    * "Nenhum erro pode ser útil, assim como nenhuma verdade pode ser nociva... Tudo o que é prejudicial em si é falso, assim como tudo o que é útil em si é verdadeiro."
 +    * O Evangelho adverte que não se devem lançar pérolas aos porcos.
 +    * O que engana nesse ponto é a confusão entre o erro e algum elemento verdadeiro que nele se encontra misturado e que age bem segundo sua natureza, apesar da mistura.
 +    * Confunde-se também a verdade anunciada com a verdade recebida.
 +    * A verdade pode ser nociva porque é rejeitada, porque é combatida, ou porque é exposta imprudentemente — conforme as Soirées, 6ª conversa.
 +    * A perversão da vontade está na base dessa insuficiência intelectual.
 +    * A verdade tende naturalmente a elevar o homem, a aperfeiçoá-lo, a torná-lo senhor de suas paixões.
 +    * O dilúvio pressupõe crimes inauditos, e esses crimes pressupõem conhecimentos infinitamente mais elevados do que os nossos.
 +    * A degenerescência de certos povos selvagens é atribuída por Maistre a um pecado original de segundo grau — "algumas dessas prevaricações que não são mais possíveis no estado atual das coisas, porque felizmente não sabemos mais o suficiente para nos tornarmos culpados a esse ponto."
 +
 +  * Maistre admite que, embora nada nos falte para a salvação, o mesmo não ocorre do lado dos conhecimentos divinos, antecipando revelações futuras e admitindo formalmente a ideia de esoterismo como ensinamento parcial reservado a um pequeno número de iniciados.
 +    * Deus não se interditou de toda nova manifestação, e há o direito de escrutar os mistérios e buscar além do dogma estrito um conhecimento aprofundado.
 +    * Maistre crê em leis mais ou menos incognoscíveis e em ações secretas que se operam "no mundo sem nosso conhecimento", em vez de invocar o acaso.
 +    * O Mémoire inédito a Brunswick é inteiramente baseado na tese esotérica.
 +    * Maistre se considera, em suas relações com os franco-maçons e os místicos de seu tempo, sempre como um iniciado — e mesmo como um iniciado superior, tendo ultrapassado o terceiro grau, cujo objetivo supremo é a ciência do homem com seus "conhecimentos sublimes".
 +    * Afirma saber dizer, sem revelar os mistérios, "mil coisas perfeitamente claras para os adeptos e totalmente ininteligíveis para o restante dos homens."
 +    * Nos escritos publicados por ele há apenas discretas alusões à tradição oculta e à sua própria iniciação.
 +    * Mesmo nos papéis pessoais, ele segue o conselho de seus "irmãos" e o de Platão, e jamais confia à escrita os arcanos reservados.
 +    * O pecado contra o espírito, aquele para o qual não há perdão, é a apostasia absoluta — o blasfemo puro do iniciado que, após ter recebido dons e conhecimentos supra-celestes, torna-se adversário de Deus por um princípio de ódio contra a verdade.
 +    * "O homem que tiver desconhecido o Pai e falado contra o Filho ainda pode experimentar a misericórdia divina, mas não haverá graça para o inimigo do espírito."
 +
 +  * Maistre reconhece o "gênio alegórico" da Antiguidade, que criava personagens imaginários para velar verdades morais, religiosas e astronômicas, e leva em conta, no estudo dos filósofos antigos, o método da dupla doutrina — uma para eles mesmos e outra para o povo —, o que pode explicar em parte as contradições encontradas em suas obras.
 +
 +  * A própria Escritura não escapa a essa lei, sendo a necessidade de uma interpretação alegórica dos textos sagrados uma das verdades mais certas, pois os três sentidos sobrepostos da Bíblia — positivo, mítico e místico — pertencem a uma tradição incontestável que a modernidade não tem o direito de contestar.
 +    * Fabre d'Olivet escrevia então sua Língua hebraica restituída, um dos esforços mais penetrantes para encontrar a chave do Gênesis.
 +    * A noção dos três sentidos sobrepostos da Bíblia — correspondendo aos três mundos — é corrente entre os ocultistas e mesmo entre muitos profanos.
 +    * Maistre não pretendia abusar do método alegórico nem levá-lo tão longe quanto certos cristãos dos primeiros séculos ou certos neoplatônicos hebraizantes.
 +    * Os excessos do alegorismo eram para ele a prova de que "essa doutrina tinha uma raiz real que perdemos demasiadamente de vista."
 +    * "Tudo é mistério nos dois Testamentos."
 +    * Invocava a autoridade dos Padres da Igreja, bem como a dos cabalistas, historiadores como Josefo, e teólogos como o "famoso Maimônides."
 +    * A exegese esotérica das Escrituras é considerada um dos objetos mais elevados da inteligência — pois a letra mata, mas o espírito vivifica.
 +    * "Agradou a Deus ora deixar o homem falar como queria, segundo as ideias reinantes em tal ou qual época, ora esconder sob formas aparentemente simples e às vezes grosseiras altos mistérios que não são feitos para todos os olhos."
 +
 +  * A Escritura pode tornar-se "um veneno" quando lida sem notas e sem explicações por uma inteligência individual insuficientemente iluminada, razão pela qual cabe à Igreja o papel de interpretar e colocar ao alcance dos fiéis a Palavra escrita, e por isso é sempre necessário recorrer "à autoridade."
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 +  * A Bíblia é a Palavra escrita de Deus, mas a escrita sem a palavra viva é coisa morta, pois, como diz Platão, ela não sabe o que é preciso dizer a tal homem nem o que é preciso esconder a tal outro — e o erro dos protestantes é excluir a Tradição e ater-se à Escritura.
 +    * Platão observa que a escrita não pode dar senão a aparência da sabedoria, sendo para a palavra o que o retrato é para um ser vivo.
 +    * "Uma pena e um pouco de líquido negro não podem ser suficientes para estabelecer uma doutrina clara, completa e duradoura."
 +    * Como as instituições, o dogma é uma coisa viva — por isso evolui e não pode ser fixado sem inconvenientes e por inteiro na escrita.
 +    * Deus falou diretamente a Adão, a Moisés, aos eleitos da Antiga Lei; a corrupção do povo tornou necessários os livros e as leis.
 +    * O Cristo não deixou nenhum escrito a seus Apóstolos: "Em vez de livro, prometeu-lhes o Espírito Santo."
 +    * "A Igreja nunca buscou escrever seus dogmas; sempre foi forçada a fazê-lo."
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 +  * Os primeiros cristãos "teriam considerado um crime enunciá-los todos."
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 +  * Há coisas que é melhor deixar às vezes em uma "salutar obscuridade", pois não se pode dividir o indivisível nem formular o indizível — sendo necessário aceitar certas expressões em seu "vago divino" sem circunscrevê-las, sob pena de criar a ideia de um dentro e um fora.
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 +  * Seria abusivo atribuir valor apenas simbólico a todos os dados da revelação, mas também é impossível compreendê-la se se permanece sempre na letra, negligenciando as alegorias sagradas, pois o mito pode ser mais verdadeiro do que a realidade.
 +    * "É a verdade dramática que tem seu valor independentemente da verdade literal, e que nada ganharia sequer com ela."
 +    * "A fábula é mais verdadeira do que a história."
 +    * A santa ampola é "um hieróglifo, e trata-se apenas de saber ler."
 +    * O sagrado do rito de coroação dos reis testemunha a origem espontânea ou providencial das instituições sociais.
 +    * O anjo que, diante do papa São Leão, aterrorizava Átila é, "para nós modernos, apenas o ascendente do pontífice" — mas como pintar um ascendente?
 +    * "Um ascendente que detém Átila é tão sobrenatural quanto um anjo, e quem sabe se são duas coisas diferentes."
 +
 +  * Toda religião projeta uma mitologia que lhe é semelhante, e em uma religião santa ela é santa — "sempre casta, sempre útil e frequentemente sublime" — mas é impossível confundi-la com a religião propriamente dita.
 +
 +  * A tradição esotérica tem como objetivo principal a evolução do espírito em direção ao divino, mas esse impulso pode recair sobre a terra ao buscar apenas satisfações egoístas de bens materiais ou de dominação, convertendo o misticismo em magia, e a magia branca em magia negra.
 +    * A teurgia se transforma em goetia ou se vulgariza em espiritismo quando o espírito se detém no plano astral ambíguo em vez de se elevar ao plano divino.
 +
 +  * A perfeição consiste no triunfo do espírito sobre a alma e sobre o corpo, obtendo-se a libertação progressiva do espírito e a vitória do superior sobre o inferior, o que acarreta a transfiguração completa da unidade humana e o triunfo eterno sobre a morte.
 +    * "Ó Morte, onde está o teu aguilhão? Ó Morte, onde está a tua vitória? A morte foi absorvida pela vitória."
 +    * Trata-se, desde esta vida, de recuperar os direitos perdidos desde a queda — seja o gozo da presença divina, o comércio com os espíritos superiores, ou a dominação direta sobre a matéria.
 +    * "A lei que quer que a vontade humana não possa agir materialmente de maneira imediata senão sobre o corpo que anima" é "puramente acidental e relativa ao nosso estado de ignorância e de corrupção" — Soirées, 5ª conversa.
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 +  * Segundo a classificação das ciências místicas, o indivíduo que desenvolveu completamente seus órgãos racionais percebe que existe nele uma outra série de órgãos complementares que permitem exercer faculdades diferentes das cerebrais — intuição, visão direta, telepatia, premonições, psicometria, êxtase —, faculdades que correspondem ao sistema nervoso simpático, enquanto as racionais se referem ao sistema cérebro-espinhal.
 +    * Martinez de Pasqually é o representante-tipo da via mental, cerebral, da magia cerimonial, que desenvolve a vontade individual e se esforça por comandar espíritos às vezes equívocos da região astral.
 +    * A via experimental pura, ainda mais tenebrosa, considera como grau máximo de evolução um fakirismo vazio e exercícios vãos de ginástica astral, menospreza a oração e leva os falsos iluminados — denunciados por Maistre — os discípulos de Cagliostro ou da Escola do Norte, a se crerem deuses, ou ainda leva os médiuns a sofrerem passivamente o impulso de forças obscuras.
 +    * Saint-Martin preconiza a via cardíaca, central, que mata o orgulho, pede o apoio das forças divinas e conduz à iluminação verdadeira pelo sacrifício, pela humildade, pela caridade e pela oração.
 +    * A magia negra é mais frequente do que a magia branca ou "divina", como diz Maistre — pois é mais fácil ao homem pervertido "se concentrar" para o mal, por ódio, ambição ou egoísmo, do que para o bem e por amor.
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 +  * A questão de saber em que medida os adeptos podem contar com a ajuda de sociedades iniciáticas para desenvolver as faculdades latentes do homem ou para transmitir uma tradição esotérica objetivada revela que as pretensões muito categóricas dos escritores ocultistas parecem um tanto exageradas.
 +    * Um "mago" famoso nos bulevares — erudito vulgarizador, mas um tanto charlatão — foi convencido por sua própria verve de ser o descendante direto dos grandes iniciados da Atlântida, quando mal conseguia estabelecer a verossimilhança da filiação de sua Grande Mestria ao puro teósofo de quem se reclamava.
 +    * Não se pode afirmar que uma corrente absolutamente ininterrupta una o marquês Saint-Yves d'Alveydre à iniciação da primitiva Raça Vermelha, passando pelo grande Rama, pai da Raça Branca, pelos Mistérios egípcios de Hermes, por Moisés e a Cabala judeo-cristã, por Orfeu, Pitágoras e Platão, reunidos pelos ocultistas da Idade Média, pelos Martinistas e pelos Rosa-Cruz.
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 +  * A tradição esotérica remontaria, como a tradição religiosa propriamente dita, à Revelação primitiva — pois "a verdadeira religião tem bem mais de dezoito séculos: ela nasceu no dia em que nasceram os dias" —, e a filosofia oculta remonta "à origem das coisas e reúne ao depósito primitivo os novos dons do grande Reparador."
 +    * Os primeiros homens desfrutaram de conhecimentos superiores — é um erro crer na barbárie primitiva do gênero humano.
 +    * "A Idade de Ouro é uma lembrança indelével."
 +    * "O estado de civilização e de ciência, em certo sentido, é o estado natural e primitivo do homem."
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 +  * As ruínas que se encontram na Antiguidade histórica de uma ciência primitiva, intuitiva e sagrada — superior à nossa porque começava mais alto, o que a tornava também mais perigosa — são de natureza a nos impressionar, e Maistre rastreou os vestígios dessa misteriosa ciência antiga.
 +    * Alguns anos depois de Court de Gébelin e alguns anos antes de Saint-Yves d'Alveydre, Maistre evoca a civilização dos etruscos, "cujas artes e poder se perdem na Antiguidade."
 +    * Os egípcios ensinaram a Pitágoras a causa mesma "de todos os fenômenos do Vesúvio" e possuíam desde a mais remota Antiguidade os conhecimentos astronômicos que nós mal fizemos senão redescobrir.
 +    * As antigas tradições da Ásia e os livros sagrados dos hindus já indicavam o número dos planetas.
 +    * "As pirâmides do Egito, rigorosamente orientadas, precedem todas as épocas certas da história."
 +    * "As artes são irmãs que só podem viver e brilhar juntas; a nação que pôde criar cores capazes de resistir à ação livre do ar durante trinta séculos, erguer a uma altura de seiscentos pés massas que desafiariam toda a nossa mecânica... essa nação era necessariamente igualmente eminente nas demais artes, e sabia inclusive necessariamente uma multidão de coisas que não sabemos."
 +    * Os primeiros homens, mais próximos de sua causa divina — "a diis recentes" — receberam com a existência a linguagem, as ideias inatas, a vida social, a consciência moral e a ciência intuitiva.
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 +  * Os conhecimentos dos primeiros homens foram a causa de sua própria perdição, e após o dilúvio essas noções, "desprendidas do mal que as havia tornado tão funestas", sobreviveram na família de Noé — mas a religião universal primitiva foi corrompida e a Tradição só transmitiu dela traços divididos e pervertidos.
 +    * Foram necessárias a revelação mosaica e depois a de Cristo para restaurar a religião "universal."
 +    * Maistre não precisa recorrer aos fabulosos atlantes para explicar a unidade de uma mesma tradição sob aparências diversas, nem invocar o grande Império sinárquico do Carneiro fundado por Rama — ele sabe que, antes de se dispersar, toda a humanidade falava a mesma língua.
 +    * Maistre encontra na Caldeia o berço da nova civilização — contrariamente a Voltaire, que o situava na Índia dos brâmanes "mestres de Pitágoras", e a Bailly, que supunha, baseando-se sobretudo nas lendas astronômicas e nos mitos da Antiguidade, um antigo povo desaparecido tendo vivido a noroeste da Ásia, verdadeiro inventor de uma "astronomia aperfeiçoada" e de uma "filosofia sublime e sábia."
 +    * Os cultos pagãos são "destroços corrompidos da revelação primitiva" — verdadeira religião universal que toda a aventura humana consiste em trabalhar para reencontrar completamente.
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 +  * A chama sagrada, ameaçada pela corrupção geral, abrigou-se em retiros seguros, vacilou frequentemente para reanimar-se em outros lugares, e o povo de Israel recebeu com Abraão e Moisés a guarda de uma pura tradição religiosa — enquanto entre os gentios os conhecimentos propriamente esotéricos se refugiaram no seio dos colégios sacerdotais.
 +    * O que se sabe dos mistérios de Mênfis indica que o monoteísmo era ali claramente ensinado, e alguns pensaram que Moisés pôde ter se inspirado nessa iniciação.
 +    * Enquanto entre os gentios a iniciação era individual, entre os hebreus ela foi coletiva — o povo judeu era como que uma nação de iniciados, o povo eleito por excelência.
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 +  * Maistre admite que os sacerdotes egípcios foram por algum tempo quase os "únicos depositários dos segredos divinos", "iniciados em conhecimentos de primeira ordem", e vê nas iniciações orientais as "verdadeiras fontes das verdadeiras tradições", louvando Platão por ter nelas bebido e se mostrado não apenas grego e sofista, mas também teósofo e caldeu.
 +    * Os conhecimentos superiores das escolas de Mênfis e de Tebas se apagaram gradualmente, sobretudo a partir da época de Cambises.
 +    * Sob os lágidas, os sacerdotes egípcios já não eram mais do que "miseráveis charlatães."
 +    * "Os templos criminosos de Mênfis e de Teutyra, de seus misteriosos retiros, derramaram o erro sobre o gênero humano."
 +
 +  * Moisés concebeu uma das sínteses mais profundas de que um cérebro humano pôde ser instrumento, selando-a sob o triplo selo das palavras sagradas do Bereschit — e, quando Cristo veio cumprir as profecias e restituir a todos os povos seus direitos à aliança divina, certas noções foram ainda reservadas a um pequeno número.
 +    * Os primeiros cristãos recolheram as ideias da elite judaica cuja reflexão se voltava ao estudo de uma filosofia divina, muito acima do vulgo sujeito às práticas minuciosas e à letra da lei.
 +    * "A verdadeira e respeitável Cabala — da qual a moderna não é senão uma filha ilegítima e contrafeta" — compreende notadamente as doutrinas da ressurreição, das penas e recompensas da outra vida, e do juízo divino.
 +
 +  * Das vinte e cinco páginas de citações anotadas de Orígenes que Maistre copiou de próprio punho em um de seus registros inéditos, ele conclui que esse "grande homem", esse "sublime teólogo", cria na magia em geral — "na realidade de uma ciência que pode colocar o homem em comunicação com inteligências de uma ordem superior" —, e admitia "uma magia branca, de modo que essa ciência era boa ou má segundo o gênero dos espíritos que se invocava."
 +    * Maistre baseia-se sobretudo em Orígenes para estabelecer que "o cristianismo, nos primeiros tempos, era uma verdadeira iniciação onde se desvelava uma verdadeira magia divina."
 +
 +  * Maistre recorre até à etimologia em apoio de sua tese, observando que a palavra "mistério" significa originalmente "uma verdade escondida sob tipos por aqueles que a possuíam", e que foi apenas por extensão e, por assim dizer, por corrupção que passou a designar tudo o que é oculto e difícil de compreender.
 +    * A Igreja latina inventou a palavra "sacramento" — por já não ser o termo "mistério" suficientemente significativo — para aplicá-la aos sete mistérios por excelência.
 +
 +  * Monsenhore Batiffol elucidou perfeitamente a questão controversa há três séculos da disciplina do Arcano — em relação principalmente aos sacramentos da Eucaristia e da Penitência, os cristãos do século III ao V graduavam progressivamente para os catecúmenos a revelação completa do dogma.
 +    * Maistre nota também certos casos em que a Igreja e os Padres reservaram a explicação pública e completa do dogma, recusando certas objeções "sem expor, no entanto, os últimos segredos", ou ainda editando certas leis oportunas baseadas no conhecimento de "grandes mistérios."
 +
 +  * Maistre não ousa afirmar, mas inclina-se a crer que as iniciações contemporâneas descendem autenticamente dessa fonte — considerando que "a franco-maçonaria vulgar é um ramo destacado e talvez corrompido de um tronco antigo e respeitável", e que toda a iniciação antiga está em decadência em relação à "verdadeira Cabala" judeo-cristã.
 +    * "É preciso hoje renunciar às loucuras de Mênfis."
 +    * Os iniciados modernos não são "homens novos" — não devem esquecer "a superioridade que lhes deu o Evangelho."
 +    * Maistre desejava que se pudesse estabelecer por uma filiação incontestável que os místicos de sua época e os próprios franco-maçons são não apenas cristãos, mas se vinculam à revelação primitiva, base da verdadeira religião eterna.
 +    * Ele se alegrava que as doutrinas transmitidas pela tradição oculta até ele — irmão a Floribus, adepto dos altos graus — fossem de natureza a dar "a solução de várias dificuldades penosas" da crença cristã, conforme o Mémoire a Brunswick.
 +
 +  * Não se deve, qualquer que seja a importância da influência esotérica sobre seu pensamento, fazer de Maistre um discípulo de Cagliostro — pois ele tem um critério para se guiar na confusão sem nome dos sistemas místicos: a fé em Cristo e a submissão à sua Igreja.
 +    * Maistre não faz do Cristianismo uma simples "loja azul" ou a forma popular, grosseira e degradada de alguma igreja secreta.
 +    * A tradição oculta existe e apresenta um interesse capital, mas não é o único meio de conhecimento místico.
 +    * O Cristianismo é essencialmente libertador — mudou o coração do homem, depurou todas as crenças cuja base não era falsa mas se tinham corrompido, retificou os cultos e fez cessar os abusos criminosos.
 +    * Em certo sentido, o Cristianismo "ergueu o véu espesso que ocultava dos povos o rosto da antiga Ísis, chamando todos os homens à herança do Pai, iniciando as multidões nos mistérios essenciais reservados até então com ciúme."
 +    * Um teósofo ocidental contemporâneo afirma: Jesus "quis diminuir o abismo entre os iniciados e o povo. O Cristianismo devia ser o meio pelo qual cada um podia encontrar o caminho. Se a maioria ainda não está pronta para percorrê-lo, que ao menos o acesso não lhes seja fechado."
 +    * Outro místico diz que Jesus suprimiu "a necessidade da iniciação sistemática e progressiva" — por Ele, todo homem, qualquer que fosse sua classe e inteligência, pôde doravante chegar diretamente ao Pai.
 +
 +  * Jesus é o Iniciado por excelência, o Iniciado absoluto, o eterno confidente da Sabedoria do Pai — e a humanidade que Ele revestiu foi conduzida ao mais alto grau do conhecimento, entrando transfigurada no Reino de Deus.
 +    * Vivendo e nos movendo no Cristo ressuscitado, iniciado de um gênero único, somos nós mesmos iniciados nos mistérios eternos da Vida.
 +    * São Paulo afirma: o mistério que havia sido escondido desde o começo das coisas está agora revelado.
 +    * "Deus falou pela boca de seu Filho único. A Promessa foi cumprida. A Boa Nova é anunciada a todos."
 +
 +  * O importante não é mais saber comandar os espíritos, nem dominar a natureza por meio de entidades talvez impuras, nem desenvolver as faculdades latentes da natureza humana — pois nada seria mais nefasto do que o desejo do sobrenatural sem desejo de santificação —, mas elevar-se ao plano supremo e unir-se ao divino por intermédio do Filho, única via, única verdade, única vida.
 +    * O cristão não pode mais dar a nenhum outro homem o nome de Mestre em toda a força do termo.
 +    * A graça e uma nova esperança libertam o cristão da lei — não há mais nenhum mestre exterior.
 +    * "O Reino de Deus está dentro de nós."
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