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 +===== GAFFAREL =====
 +JACOBUS GAFFARELLUS (1601-1681)
  
 +<tabbox Juli Paradejordi>
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 +Também Jacobo Gaffarel, autor de Curiositez inovies, de De fine mundi e de Nihil fere Nihil, desempenhou um papel importante no movimento cabalístico cristão.
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 +Gaffarel nasceu em 1601 em Mannes, na Provença, e obteve o doutorado em Direito Canônico em 1626. Foi bibliotecário e protegido do cardeal Armand de Richelieu e, mais tarde, capelão do rei.
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 +Em OS PROFUNDOS MISTÉRIOS DA CABALA DIVINA, Gaffarel demonstra certa erudição, bem como um grande desejo de convencer. Provavelmente, Richelieu havia depositado nele sua confiança para que o ajudasse a realizar seu sonho ecumênico.
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 +Os Profundos Mistérios da Cabala Divina não é um tratado de Cabala como poderiam ser o Zohar, o Bahir ou o Pardes Rimonim. Tampouco era objetivo do autor escrever uma obra desse tipo. Trata-se, a nosso ver, de um pequeno tratado preparatório que bem poderia suscitar entre seus leitores um interesse saudável pela Cabala e despertar sua curiosidade no que se refere às interpretações esotéricas das Escrituras.
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 +O leitor verdadeiramente familiarizado com a Cabala — e esse tipo de leitor pode ser contado nos dedos das mãos em nosso país — não encontrará aqui nada de novo, exceto, talvez, a elegância com que Gaffarel defende a Cabala dos violentos ataques do Padre Mersenne. No entanto, o leitor interessado em esoterismo que não esteja muito familiarizado com a literatura cabalística encontrará na obra de Gaffarel os materiais básicos para iniciar um estudo sério da Cabala e, o que a nosso ver é quase tão importante, uma abordagem da Cabala mais genuína, mais autêntica do que aquela que nos oferecem a maioria dos autores modernos, influenciados pelo sincretismo ocultista. Para esse tipo de leitor escrevemos estas páginas, com o objetivo de facilitar o acesso a uma série de dados que nos parecem indispensáveis se quisermos penetrar no universo da Cabala e meditar sobre os segredos da Torá. (Introdução de Juli Peradejordi, a sua tradução em espanhol de LOS PROFUNDOS MISTERIOS DE LA CÁBALA DIVINA)
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 +<tabbox Frédéric Gabriel>
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 +Após estudos clássicos de teologia em Valence e de direito canônico em Paris, Jacques Gaffarel, nascido em Mannes em 1601 e falecido em Sigonce em 1681, distingue-se por seu interesse pelas línguas orientais e pela Cabala. Seu escrito mais conhecido, Curiositez inouyes sur la Sculpture talismanique des Persans, horoscope des Patriarches, et lecture des Estoilles, é frequentemente reeditado. Em 1629, no mesmo ano de sua publicação, é censurado pela Sorbonne, e Gaffarel deve retratar-se duas vezes. Entre suas relações amistosas contam-se Gassendi, Gabriel Naudé, Campanella, o aristotélico paduano Fortunio Liceti e Jean-Cécile Frey, metafísico que ensina nos colégios universitários parisienses e cuja Mens, obra axiomática de 1628, é aqui amplamente utilizada. Desde os anos 1620, Gaffarel parte para a Itália a fim de comprar manuscritos e impressos por conta de Richelieu.
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 +Em 1633, encontra-se em Veneza, onde vive na comitiva do embaixador francês, Gaspard Coignet de la Thuilerie. É ali que participa, nos anos de 1634-1635, de uma série de disputas sobre o Nihil, ou Niente, na Accademia degli Incogniti, a Academia dos Desconhecidos, que tem por emblema a fonte reputada desconhecida do Nilo, outra forma latina do Nihil, com esta máxima, por vezes considerada nicodemita: Ex ignoti notitia. O próprio nome da academia é programático. Carlo Ossola e Linda Bisello descreveram bem a tradição e o meio de emergência dos discursos tais como o de Gaffarel. Os jogos poético-metafísicos de Matthaeus Frigillanus, Jean Passerat, Théodore Marcile, Caspar Dornau e Philippe Girard cedem lugar à série de discursos venezianos de Giuseppe Castiglione, Luigi Manzini, Marin Dall’Angelo, Raimondo Vidal e Giovanni Villa.
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 +O Nada, vaidade elevada ao estado de exercício de estilo metafísico e de referente paradoxal, é então um instrumento libertino que permite pôr em primeiro plano uma fratura tanto epistemológica quanto antropológica: o Nada é descrito como uma maravilha, um novo mundo onde a Autoridade já não tem qualquer domínio e onde todos os apriorismos são destruídos. Manzini afirma: “[...] o Nada inclui em si tudo o que é possível e tudo o que é impossível. Portanto, o Nada é mais universal que a Onipotência, que só se compreende em relação aos possíveis.” A própria ordem da natureza, como a do intelecto, dá testemunho desse novo fundamento: “A natureza não detesta, mas reverencia o Nada.” Diversas correntes se entrelaçam nesses elogios do Nada: o atomismo que explora os confins da vacuidade avizinha-se da miséria do homem, do Deus escondido, da criação ex nihilo e de uma descrição não mimética do mundo, na qual o Nada está por trás do artifício, e o jogo dos contrários é sempre favorável ao Nada. Todas essas dimensões põem em questão, naturalmente, as teses comuns e dogmáticas da Criação do mundo e da origem de todo objeto.
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 +A sequência de 26 curtas teses meontológicas de Gaffarel, cujo aspecto gnômico corresponde bem ao assunto, é mais que um simples elogio paradoxal: ela não joga apenas com a perplexidade, o humor e a técnica deceptiva. Ao contrário dos outros discursos, o autor escolhe uma perspectiva verdadeiramente dialética entre nihil e ens, e é o único a adotar uma apresentação tão articulada. Desde o título é sublinhada a importância dos graus, dos intermediários entre o Nada e o Ente. Mas como sair da dificuldade clássica de exprimir o objeto atópico de que se trata? A predicação “o nada é nada” dá algo ao nada, ao mesmo tempo que supera a si mesma, uma vez que a diferença é introduzida no coração da identidade. A predicação inclui a possibilidade de ser e permite assim a Gaffarel, na linhagem dos estoicos, detalhar a escala dos nadas e dos entes, as diferentes maneiras de dizer o nihil, fundamentalmente. Mesmo a quimera não é um nada absoluto: sua ficção pode ser produzida por Deus. Essa potencialidade divina permite distinguir entre quase nada, nada e nada absoluto.
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 +Gaffarel acomoda-se à atopia por duas vias: a teologia negativa, sendo Dionísio Areopagita um intermediário medieval fundamental no discurso de Gaffarel, tanto mais que “a teologia negativa de Dionísio goza de imenso interesse junto de todos aqueles que, na aurora da Renascença, se apaixonam pelo pensamento platônico, assim como pelo hermetismo e pela cabala”. A outra via é a dos universais, definidos como quase nada e que permitem, estando em toda parte e em parte nenhuma, ligar entre si os seres e tornar possível o pensamento.
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 +Assim, nos planos gramatical, epistemológico e ontológico, Gaffarel distingue: o quase Nada, isto é, essências, universais e matéria; o menos que Nada, isto é, o Nada absoluto e a impossibilidade lógica; o misto de Ser e de Nada, que é sua definição da matéria, nada material que constitui a analogia da imutabilidade divina; e o meio entre o Ser e o Nada: a possibilidade, a aparência, o ponto geométrico, a transformação, a privação, que é não-ser no ser, a contradição, que contém ser e nada, e Deus, como meio da eminência. O Nada não é apenas um meio de falar de Deus; ele preside à criação, é o meio de emergência do Ser. Se o Ser é limitação, o Nada, referente dinâmico de que se pode falar de múltiplas maneiras e cujas negações são intermediários indispensáveis na compreensão do mundo, é metafisicamente produtor, enquanto, em uma pirueta final sobre a propriedade, Gaffarel observa que Deus não pode criar outro Deus idêntico a si mesmo.
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