| Próxima revisão | Revisão anterior |
| medievo:boaventura:mente:vestigios-imagem-de-deus:start [27/12/2025 11:45] – criada - edição externa 127.0.0.1 | medievo:boaventura:mente:vestigios-imagem-de-deus:start [11/01/2026 06:14] (atual) – edição externa 127.0.0.1 |
|---|
| ===== BOAVENTURA VESTÍGIOS IMAGEM DE DEUS ===== | ===== BOAVENTURA VESTÍGIOS IMAGEM DE DEUS ===== |
| [[medievo:boaventura:start|Boaventura]] — Itinerário da mente para [[biblia:figuras:divindade:deus:start|Deus]] | Boaventura — Itinerário da mente para Deus |
| ==== Capítulo III A CONTEMPLAÇÃO DE DEUS POR MEIO DE SUA IMAGEM IMPRESSA NAS POTÊNCIAS DA ALMA ==== | ==== Capítulo III A CONTEMPLAÇÃO DE DEUS POR MEIO DE SUA IMAGEM IMPRESSA NAS POTÊNCIAS DA ALMA ==== |
| 1 Os dois primeiros degraus percorridos até agora nos guiaram a Deus pelos seus vestígios — através dos quais Ele brilha em todas as criaturas — e nos fizeram reentrar em nós mesmos, isto é, na nossa alma, onde reluz a imagem de Deus. Penetrando, pois, agora em nós mesmos neste terceiro degrau e como que abandonando o mundo sensível — que é como o adro externo do lugar ao qual temos de chegar — devemos esforçar-nos por ver a Deus, como num espelho, no seu templo (cf. Êx 26,34-35), isto é, na parte anterior do Tabernáculo. Aqui a luz da verdade brilha à maneira de candelabro perante nossa alma, na qual resplandece a imagem da beatíssima Trindade. | 1 Os dois primeiros degraus percorridos até agora nos guiaram a Deus pelos seus vestígios — através dos quais Ele brilha em todas as criaturas — e nos fizeram reentrar em nós mesmos, isto é, na nossa alma, onde reluz a imagem de Deus. Penetrando, pois, agora em nós mesmos neste terceiro degrau e como que abandonando o mundo sensível — que é como o adro externo do lugar ao qual temos de chegar — devemos esforçar-nos por ver a Deus, como num espelho, no seu templo (cf. Êx 26,34-35), isto é, na parte anterior do Tabernáculo. Aqui a luz da verdade brilha à maneira de candelabro perante nossa alma, na qual resplandece a imagem da beatíssima Trindade. |
| Ora, o ser pode conceber-se como completo ou incompleto, como perfeito ou imperfeito, como ser em potência ou ser em ato, como ser sob um certo aspecto ou como ser absoluto. Ou como ser parcial ou total, como ser passageiro ou permanente, como ser condicionado ou incondicionado, como ser misturado de não-ser ou como ser puro, como ser dependente ou absoluto, como ser posterior ou anterior, como ser variável ou imutável, como ser simples ou composto. | Ora, o ser pode conceber-se como completo ou incompleto, como perfeito ou imperfeito, como ser em potência ou ser em ato, como ser sob um certo aspecto ou como ser absoluto. Ou como ser parcial ou total, como ser passageiro ou permanente, como ser condicionado ou incondicionado, como ser misturado de não-ser ou como ser puro, como ser dependente ou absoluto, como ser posterior ou anterior, como ser variável ou imutável, como ser simples ou composto. |
| |
| "Aquilo que é negativo e defeituoso não pode ser conhecido senão por meio do que é positivo" (são palavras do filósofo árabe [[estudos:filosofia-medieval:averrois:start|Averróis]], III De Anima, text. 25). Por isso, nossa inteligência nunca poderá definir adequadamente um ser criado, se antes não tiver a ideia dum Ser puríssimo, atualíssimo, completíssimo e absoluto. Este é o Ser por essência e eterno, no qual se acham na sua pureza as razões de todas as criaturas (Cf. cap. II, nota 7 e, no presente cap., nota 3). Como, efetivamente, nossa inteligência poderia saber que um ser é defeituoso e incompleto, se não tivesse a ideia dum Ser absolutamente perfeito? E o mesmo diga-se das outras condições do ser. | "Aquilo que é negativo e defeituoso não pode ser conhecido senão por meio do que é positivo" (são palavras do filósofo árabe Averróis, III De Anima, text. 25). Por isso, nossa inteligência nunca poderá definir adequadamente um ser criado, se antes não tiver a ideia dum Ser puríssimo, atualíssimo, completíssimo e absoluto. Este é o Ser por essência e eterno, no qual se acham na sua pureza as razões de todas as criaturas (Cf. cap. II, nota 7 e, no presente cap., nota 3). Como, efetivamente, nossa inteligência poderia saber que um ser é defeituoso e incompleto, se não tivesse a ideia dum Ser absolutamente perfeito? E o mesmo diga-se das outras condições do ser. |
| |
| Em segundo lugar, a nossa inteligência compreende realmente uma proposição, quando sabe com certeza que ela é verdadeira. E saber isso é saber verdadeiramente, porque se tem certeza de não se enganar. Com efeito, a inteligência sabe que uma proposição é verdadeira quando não pode ser de outra maneira e que, por conseguinte, é uma verdade imutável. Mas, como o nosso espírito está sujeito à mutação, não poderia ver a verdade de maneira imutável sem o socorro duma luz invariável — a qual não pode ser uma criatura mutável. Se ele conhece a verdade, conhece-a, pois, naquela luz que "ilumina todo homem que vem a este mundo", a qual é "a verdadeira Luz" e "o [[biblia:figuras:verbo:start|Verbo]] que no princípio estava em Deus" ([[evangelho-de-jesus:no-principio-era-o-verbo:jo-11:start|Jo 1,1]]-9). | Em segundo lugar, a nossa inteligência compreende realmente uma proposição, quando sabe com certeza que ela é verdadeira. E saber isso é saber verdadeiramente, porque se tem certeza de não se enganar. Com efeito, a inteligência sabe que uma proposição é verdadeira quando não pode ser de outra maneira e que, por conseguinte, é uma verdade imutável. Mas, como o nosso espírito está sujeito à mutação, não poderia ver a verdade de maneira imutável sem o socorro duma luz invariável — a qual não pode ser uma criatura mutável. Se ele conhece a verdade, conhece-a, pois, naquela luz que "ilumina todo homem que vem a este mundo", a qual é "a verdadeira Luz" e "o Verbo que no princípio estava em Deus" (Jo 1,1-9). |
| |
| A nossa inteligência, finalmente, só então percebe verdadeiramente o significado duma conclusão, quando vê que essa conclusão segue necessariamente das premissas. E vê isso não só nas verdades necessárias, mas também nas verdades contingentes, como neste exemplo: "O homem corre. Logo, se move". Esta relação necessária entre as premissas e a inferência é percebida por nossa inteligência não apenas nos seres reais, mas também nos possíveis. É sempre verdadeira, por exemplo, a conclusão: "O homem corre. Logo, se move", quer o homem exista, quer não exista. | A nossa inteligência, finalmente, só então percebe verdadeiramente o significado duma conclusão, quando vê que essa conclusão segue necessariamente das premissas. E vê isso não só nas verdades necessárias, mas também nas verdades contingentes, como neste exemplo: "O homem corre. Logo, se move". Esta relação necessária entre as premissas e a inferência é percebida por nossa inteligência não apenas nos seres reais, mas também nos possíveis. É sempre verdadeira, por exemplo, a conclusão: "O homem corre. Logo, se move", quer o homem exista, quer não exista. |
| |
| A necessidade duma conclusão não deriva, por conseguinte, da existência material da coisa — porque ela é contingente — nem da sua existência na nossa alma — porque, se não existisse na realidade, seria apenas uma ficção. Tal necessidade deriva das ideias-arquétipos da [[estudos:iconografia:arte:start|Arte]] divina, de acordo com as quais foram criadas as relações mútuas das coisas segundo as representações do Exemplar eterno. | A necessidade duma conclusão não deriva, por conseguinte, da existência material da coisa — porque ela é contingente — nem da sua existência na nossa alma — porque, se não existisse na realidade, seria apenas uma ficção. Tal necessidade deriva das ideias-arquétipos da Arte divina, de acordo com as quais foram criadas as relações mútuas das coisas segundo as representações do Exemplar eterno. |
| |
| Todo espírito, pois, que raciocina — diz S. Agostinho no seu tratado "Sobre a Verdadeira Religião" — toma luz daquela Verdade eterna e é a ela que se esforça por chegar (De Vera Religione, cap. 39, n. 72). A conclusão evidente do que se disse é que nossa inteligência está unida à Verdade eterna, porque sem o socorro de sua luz nada podemos conhecer com certeza. | Todo espírito, pois, que raciocina — diz S. Agostinho no seu tratado "Sobre a Verdadeira Religião" — toma luz daquela Verdade eterna e é a ela que se esforça por chegar (De Vera Religione, cap. 39, n. 72). A conclusão evidente do que se disse é que nossa inteligência está unida à Verdade eterna, porque sem o socorro de sua luz nada podemos conhecer com certeza. |
| 4 A atividade da vontade se funda na deliberação, no juízo e no desejo. | 4 A atividade da vontade se funda na deliberação, no juízo e no desejo. |
| |
| A deliberação consiste em procurar ver se é melhor esta ou aquela coisa. Ora, o melhor não pode ser assim chamado, se não se aproximar do ótimo. E esta aproximação é tanto maior ou menor, quanto mais ou menos perfeita fôr a semelhança. Portanto, para saber se uma coisa é melhor que outra, é necessário conhecer seu grau de semelhança com o Bem supremo. Mas é impossível conhecer este grau de semelhança, se o Bem supremo fôr desconhecido. Eu não posso saber se determinado indivíduo se parece com [[biblia:figuras:nt-personagens:discipulos:pedro:start|Pedro]], se não conhecer a Pedro. Aquele, pois, que delibera tem necessariamente impresso no seu espírito o conhecimento do sumo Bem. | A deliberação consiste em procurar ver se é melhor esta ou aquela coisa. Ora, o melhor não pode ser assim chamado, se não se aproximar do ótimo. E esta aproximação é tanto maior ou menor, quanto mais ou menos perfeita fôr a semelhança. Portanto, para saber se uma coisa é melhor que outra, é necessário conhecer seu grau de semelhança com o Bem supremo. Mas é impossível conhecer este grau de semelhança, se o Bem supremo fôr desconhecido. Eu não posso saber se determinado indivíduo se parece com Pedro, se não conhecer a Pedro. Aquele, pois, que delibera tem necessariamente impresso no seu espírito o conhecimento do sumo Bem. |
| |
| Para que seja certo o juízo emitido sobre as coisas que são objeto da deliberação, é preciso uma lei. Ora, esta lei não produz a certeza, a não ser quando estamos seguros de sua retidão e de que ela está acima de todo juízo nosso. Nossa mente, porém, emite juízos sobre si mesma. Não podendo, pois, emitir juízos sobre a lei que serve de regra aos seus juízos, segue-se disso que esta lei é superior à nossa mente e que nós julgamos unicamente pela sua presença em nós mesmos. Mas nada é superior à nossa mente senão Aquele que a formou. | Para que seja certo o juízo emitido sobre as coisas que são objeto da deliberação, é preciso uma lei. Ora, esta lei não produz a certeza, a não ser quando estamos seguros de sua retidão e de que ela está acima de todo juízo nosso. Nossa mente, porém, emite juízos sobre si mesma. Não podendo, pois, emitir juízos sobre a lei que serve de regra aos seus juízos, segue-se disso que esta lei é superior à nossa mente e que nós julgamos unicamente pela sua presença em nós mesmos. Mas nada é superior à nossa mente senão Aquele que a formou. |
| Vê, pois, como a alma está próxima de Deus. Vê como a memória nos conduz à eternidade, a inteligência à verdade, a vontade à sua bondade soberana, de acordo com as suas respectivas operações. | Vê, pois, como a alma está próxima de Deus. Vê como a memória nos conduz à eternidade, a inteligência à verdade, a vontade à sua bondade soberana, de acordo com as suas respectivas operações. |
| |
| 5 A ordem, a origem e a mútua relação destas três faculdades nos conduzem até à própria [[biblia:figuras:santissima-trindade:start|Santíssima Trindade]]. | 5 A ordem, a origem e a mútua relação destas três faculdades nos conduzem até à própria Santíssima Trindade. |
| |
| Efetivamente, da memória nasce a inteligência, que é como sua filha, porque entendemos só quando a imagem do objeto conservado pela memória se reflete na inteligência. Esta imagem torna-se então "verbo". Da memória e da inteligência é espirado o amor como nexo que unifica as duas. | Efetivamente, da memória nasce a inteligência, que é como sua filha, porque entendemos só quando a imagem do objeto conservado pela memória se reflete na inteligência. Esta imagem torna-se então "verbo". Da memória e da inteligência é espirado o amor como nexo que unifica as duas. |
| Se, portanto, Deus é perfeito espírito, tem então uma memória, uma inteligência e uma vontade, as quais necessariamente se distinguem porque uma procede da outra. Distinguem-se, porém, não essencialmente nem acidentalmente, mas pessoalmente. | Se, portanto, Deus é perfeito espírito, tem então uma memória, uma inteligência e uma vontade, as quais necessariamente se distinguem porque uma procede da outra. Distinguem-se, porém, não essencialmente nem acidentalmente, mas pessoalmente. |
| |
| Por isso, quando nossa alma se considera a si mesma, eleva-se, destarte, como por meio dum espelho, à contemplação da Santíssima Trindade: o [[estudos:ernst-benz:pai:start|Pai]], o Verbo e o Amor — três Pessoas coeternas, coiguais e consubstanciais, existentes uma na outra sem se confundirem e, no entanto, todas as três não são senão um só Deus. | Por isso, quando nossa alma se considera a si mesma, eleva-se, destarte, como por meio dum espelho, à contemplação da Santíssima Trindade: o Pai, o Verbo e o Amor — três Pessoas coeternas, coiguais e consubstanciais, existentes uma na outra sem se confundirem e, no entanto, todas as três não são senão um só Deus. |
| |
| 6 Nesta contemplação da Santíssima Trindade, a alma, mediante as suas três faculdades que a tornam imagem de Deus, é ajudada pelas luzes das ciências, que a aperfeiçoam, a informam e representam a Santíssima Trindade de três maneiras. | 6 Nesta contemplação da Santíssima Trindade, a alma, mediante as suas três faculdades que a tornam imagem de Deus, é ajudada pelas luzes das ciências, que a aperfeiçoam, a informam e representam a Santíssima Trindade de três maneiras. |
| Toda filosofia, com efeito, é natural, racional ou moral. | Toda filosofia, com efeito, é natural, racional ou moral. |
| |
| A primeira trata da causa do ser — e nos conduz ao poder do Pai. A segunda se ocupa das leis do conhecimento — e nos leva à sabedoria do Verbo. A terceira fornece as normas duma vida honesta — e nos conduz à bondade do [[biblia:figuras:espirito-santo:start|Espírito Santo]]. | A primeira trata da causa do ser — e nos conduz ao poder do Pai. A segunda se ocupa das leis do conhecimento — e nos leva à sabedoria do Verbo. A terceira fornece as normas duma vida honesta — e nos conduz à bondade do Espírito Santo. |
| |
| A filosofia natural, por sua vez, divide-se em metafísica, matemática e física. A metafísica ocupa-se das essências das coisas; a matemática, dos números e das figuras; a física, das substâncias, forças e energias. Destarte a primeira nos conduz ao primeiro Princípio — o Pai; a segunda, à sua Imagem — o [[biblia:figuras:pai-mae-filho:filho:start|Filho]]; a terceira, ao Dom do Pai e do Filho — o Espírito Santo. | A filosofia natural, por sua vez, divide-se em metafísica, matemática e física. A metafísica ocupa-se das essências das coisas; a matemática, dos números e das figuras; a física, das substâncias, forças e energias. Destarte a primeira nos conduz ao primeiro Princípio — o Pai; a segunda, à sua Imagem — o Filho; a terceira, ao Dom do Pai e do Filho — o Espírito Santo. |
| |
| A filosofia racional, ao invés, se divide em gramática — que nos torna capazes de exprimir ideias — lógica — que nos torna perspicazes para a argumentação — e a retórica — que nos ensina a persuadir e comover. Estas três ramificações da filosofia racional também insinuam o mistério da Santíssima Trindade. | A filosofia racional, ao invés, se divide em gramática — que nos torna capazes de exprimir ideias — lógica — que nos torna perspicazes para a argumentação — e a retórica — que nos ensina a persuadir e comover. Estas três ramificações da filosofia racional também insinuam o mistério da Santíssima Trindade. |
| enviaste uma luz admirável | enviaste uma luz admirável |
| e a perturbação se apoderou do coração dos insensatos" (Sl 75,5-6). | e a perturbação se apoderou do coração dos insensatos" (Sl 75,5-6). |
| --- | ---- |
| ==== NOTES ==== | ==== NOTES ==== |
| |
| {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}} | {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}} |
| |