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gnosticismo:bnh:segundo-tratado-do-grande-set:start

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 ===== SEGUNDO TRATADO DO GRANDE SET ===== ===== SEGUNDO TRATADO DO GRANDE SET =====
-BIBLIOTECA DE [[gnosticismo:bnh:start|Nag Hammadi]]+BIBLIOTECA DE Nag Hammadi
 Excertos de do livro de R. Kuntzmann e J.-D. Dubois, trad. de Álvaro Cunha Excertos de do livro de R. Kuntzmann e J.-D. Dubois, trad. de Álvaro Cunha
 ==== O Segundo Tratado do Grande Set (VII,2) ==== ==== O Segundo Tratado do Grande Set (VII,2) ====
 Tradução de L. Painchaud, in BCNH, n. 6, 1982. Tradução de L. Painchaud, in BCNH, n. 6, 1982.
  
-A trama histórica deste polêmico tratado é simples: o Salvador é enviado a este mundo pela assembleia celeste; descendo à terra, encontra as forças deste mundo, sofre uma espécie de [[evangelho-de-jesus:paixao:calvario:crucifixao:start|crucifixão]] e retorna ao Pleroma. A primeira parte (p. 49,10-59,18) insiste no simulacro da [[evangelho-de-jesus:paixao:start|paixão]] (interpretação docetista) e ataca o [[philokalia:philokalia-termos:dogma:start|dogma]] realista da Grande Igreja. A segunda parte (p. 59,19-70,10) prolonga a polêmica da primeira parte e denuncia na Grande Igreja a pretensão de encarnar a verdadeira Igreja.+A trama histórica deste polêmico tratado é simples: o Salvador é enviado a este mundo pela assembleia celeste; descendo à terra, encontra as forças deste mundo, sofre uma espécie de crucifixão e retorna ao Pleroma. A primeira parte (p. 49,10-59,18) insiste no simulacro da paixão (interpretação docetista) e ataca o dogma realista da Grande Igreja. A segunda parte (p. 59,19-70,10) prolonga a polêmica da primeira parte e denuncia na Grande Igreja a pretensão de encarnar a verdadeira Igreja.
  
-O tratado é gnóstico e cristão: não há dúvida de que é Jesus [[biblia:figuras:nt-personagens:cristo:start|Cristo]] quem se oculta por detrás de Set e são numerosas as referências neotestamentárias. E há também o contorno gnóstico do escrito: é [[ate-agostinho:clemente:excertos-teodoto:excertos-de-teodoto-texto:a-gnose:start|A Gnose]] que salva; o [[biblia:at:start|Antigo Testamento]] e particularmente o seu [[biblia:figuras:divindade:deus:start|Deus]] são tidos como fundamentalmente maus; o Novo Testamento, por oposição, é bom; por fim, a crucifixão consiste na substituição de Jesus por [[biblia:figuras:nt-personagens:simao-cireneu:start|Simão Cireneu]] (teoria do gnóstico [[gnosticismo:escolas-gnosticas:basilides:start|Basilides]], segundo Ireneu em Contra as heresias I, 24,4). No que se refere à interpretação do Antigo Testamento, podemos ler como palavras do Salvador a seguinte passagem:+O tratado é gnóstico e cristão: não há dúvida de que é Jesus Cristo quem se oculta por detrás de Set e são numerosas as referências neotestamentárias. E há também o contorno gnóstico do escrito: é A Gnose que salva; o Antigo Testamento e particularmente o seu Deus são tidos como fundamentalmente maus; o Novo Testamento, por oposição, é bom; por fim, a crucifixão consiste na substituição de Jesus por Simão Cireneu (teoria do gnóstico Basilides, segundo Ireneu em Contra as heresias I, 24,4). No que se refere à interpretação do Antigo Testamento, podemos ler como palavras do Salvador a seguinte passagem:
  
 Com efeito, é irônico que Adão tenha sido modelado como uma contrafação do modelo do Homem pela Hebdômada, como se ela fosse mais poderosa que Eu e meus irmãos! Mas nós somos inocentes diante dela, pois nós não pecamos. Com efeito, é irônico que Adão tenha sido modelado como uma contrafação do modelo do Homem pela Hebdômada, como se ela fosse mais poderosa que Eu e meus irmãos! Mas nós somos inocentes diante dela, pois nós não pecamos.
  
-É irônico que [[biblia:figuras:abraao:start|Abraão]], Isaac e Jacó tenham recebido falsamente da Hebdômada o nome de Patriarcas, como se ela fosse mais poderosa que Eu e meus irmãos! Mas nós somos inocentes diante dela, pois nós não pecamos.+É irônico que Abraão, Isaac e Jacó tenham recebido falsamente da Hebdômada o nome de Patriarcas, como se ela fosse mais poderosa que Eu e meus irmãos! Mas nós somos inocentes diante dela, pois nós não pecamos.
  
-É irônico que o [[biblia:figuras:pai-mae-filho:filho:start|Filho]] de Davi tenha recebido o nome de Filho do Homem, já que ele foi apenas um joguete da Hebdômada, como se ela fosse mais poderosa que Eu e os de minha raça! Mas nós somos inocentes diante dela, pois nós não pecamos.+É irônico que o Filho de Davi tenha recebido o nome de Filho do Homem, já que ele foi apenas um joguete da Hebdômada, como se ela fosse mais poderosa que Eu e os de minha raça! Mas nós somos inocentes diante dela, pois nós não pecamos.
  
-É irônico que [[biblia:tipologia:salomao:start|Salomão]], pensando ter recebido a unção, fosse levado ao orgulho pela Hebdômada, como se ela fosse mais poderosa que Eu e meus irmãos! Mas nós somos inocentes diante dela, pois nós não pecamos.+É irônico que Salomão, pensando ter recebido a unção, fosse levado ao orgulho pela Hebdômada, como se ela fosse mais poderosa que Eu e meus irmãos! Mas nós somos inocentes diante dela, pois nós não pecamos.
  
 É irônico que os doze profetas, que foram falsa imitação dos verdadeiros profetas, tenham sido contrafação produzida pela Hebdômada, como se ela fosse mais poderosa que Eu e meus irmãos! Mas nós somos inocentes diante dela, pois nós não pecamos. É irônico que os doze profetas, que foram falsa imitação dos verdadeiros profetas, tenham sido contrafação produzida pela Hebdômada, como se ela fosse mais poderosa que Eu e meus irmãos! Mas nós somos inocentes diante dela, pois nós não pecamos.
  
-É irônico que [[biblia:tipologia:moises:start|Moisés]], escravo fiel, tenha recebido o nome de companheiro por causa de testemunho dado falsamente sobre ele, que nunca me conheceu, nem ele nem os que são antes dele! Desde Adão até Moisés e [[evangelho-de-jesus:evangelho-personagens:discipulos-de-jesus:dois-joao:joao-batista:start|João Batista]], ninguém dentre eles me conheceu, nem a mim nem a meus irmãos, pois (tudo o que eles tinham) era ensinamento dado por seus anjos (a propósito) de observancias alimentares e de amarga servidão, de modo que eles jamais conheceram a Verdade nem a conhecerão. Com efeito, grande ilusão cobre sua alma, de modo que eles não possam jamais conceber a liberdade, nem a conhecer, assim como também não conhecerão o Filho do Homem (p. 62,27-64,11).+É irônico que Moisés, escravo fiel, tenha recebido o nome de companheiro por causa de testemunho dado falsamente sobre ele, que nunca me conheceu, nem ele nem os que são antes dele! Desde Adão até Moisés e João Batista, ninguém dentre eles me conheceu, nem a mim nem a meus irmãos, pois (tudo o que eles tinham) era ensinamento dado por seus anjos (a propósito) de observancias alimentares e de amarga servidão, de modo que eles jamais conheceram a Verdade nem a conhecerão. Com efeito, grande ilusão cobre sua alma, de modo que eles não possam jamais conceber a liberdade, nem a conhecer, assim como também não conhecerão o Filho do Homem (p. 62,27-64,11).
  
 Esta litania apresenta as figuras do Antigo Testamento como contrafações ou falsas testemunhas suscitadas pela Hebdômada, que outra coisa não é senão o Arconte. Essas figuras são irônicas porque tomam o Salvador por homem carnal, mas ele é apenas sua contrafação! Esta litania apresenta as figuras do Antigo Testamento como contrafações ou falsas testemunhas suscitadas pela Hebdômada, que outra coisa não é senão o Arconte. Essas figuras são irônicas porque tomam o Salvador por homem carnal, mas ele é apenas sua contrafação!
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 Como o docetismo constitui característica deste tratado, não é de surpreender que a crucifixão seja apresentada como comédia, com um Cristo risonho diante de seus adversários, desprezando-os: Como o docetismo constitui característica deste tratado, não é de surpreender que a crucifixão seja apresentada como comédia, com um Cristo risonho diante de seus adversários, desprezando-os:
  
-E Eu estava na goela dos leões.. Quanto ao plano que eles tramaram contra mim, tendo em vista a destruição de seu erro e de seu desvario, eu não combati contra eles como haviam concebido. Ao contrário, não me afligi por nada. Essas pessoas me castigaram e eu morri, não na realidade, mas naquele que se manifestou, pois os ultrajes que sofri haviam saído de mim. Lancei a vergonha para longe de mim e não fraquejei diante do que eles me infligiram, quando poderia ter-me tornado escravo do temor. Mas Eu sofri a seus olhos e em seu espírito para que eles jamais encontrassem qualquer palavra a dizer sobre isso. Pois essa morte de mim que eles pensam ter ocorrido (produziu-se) para eles em seu erro: eles puseram seu homem nos cravos para a sua própria morte. Com efeito, seus pensamentos não me viram, pois eles eram surdos e cegos. Mas, fazendo isso, eles se condenavam. Eles me viram e me infligiram castigo, (mas) era outro, seu [[estudos:ernst-benz:pai:start|Pai]]. Aquele que bebeu o fel e o vinagre não era Eu. Eles me flagelaram com o caniço, (mas era) outro. Aquele que carregou a cruz em suas costas era Simão. Foi outro que recebeu a coroa de espinhos. Quanto a mim, Eu me rejubilava nas alturas, acima de todo o império dos arcon-tes e da semente de seu erro (e) de sua glória vã e zombava de seu erro (p. 55,9-56,19).+E Eu estava na goela dos leões.. Quanto ao plano que eles tramaram contra mim, tendo em vista a destruição de seu erro e de seu desvario, eu não combati contra eles como haviam concebido. Ao contrário, não me afligi por nada. Essas pessoas me castigaram e eu morri, não na realidade, mas naquele que se manifestou, pois os ultrajes que sofri haviam saído de mim. Lancei a vergonha para longe de mim e não fraquejei diante do que eles me infligiram, quando poderia ter-me tornado escravo do temor. Mas Eu sofri a seus olhos e em seu espírito para que eles jamais encontrassem qualquer palavra a dizer sobre isso. Pois essa morte de mim que eles pensam ter ocorrido (produziu-se) para eles em seu erro: eles puseram seu homem nos cravos para a sua própria morte. Com efeito, seus pensamentos não me viram, pois eles eram surdos e cegos. Mas, fazendo isso, eles se condenavam. Eles me viram e me infligiram castigo, (mas) era outro, seu Pai. Aquele que bebeu o fel e o vinagre não era Eu. Eles me flagelaram com o caniço, (mas era) outro. Aquele que carregou a cruz em suas costas era Simão. Foi outro que recebeu a coroa de espinhos. Quanto a mim, Eu me rejubilava nas alturas, acima de todo o império dos arcon-tes e da semente de seu erro (e) de sua glória vã e zombava de seu erro (p. 55,9-56,19).
  
 O fim deste texto está próximo de Mc 15,16-23. As p. 58,13-59,9 apresentam o significado da crucifixão ecoando Mt 27,45-54: O fim deste texto está próximo de Mc 15,16-23. As p. 58,13-59,9 apresentam o significado da crucifixão ecoando Mt 27,45-54:
  
-Eu sou aquele cuja elevação manifestada e cujo terceiro batismo manifestado em imagem o mundo não compreendeu. Quando foi rechaçado o fogo das sete Dominações e o sol das forças dos [[gnosticismo:gnose:arcontes:start|Arcontes]] se pôs, as trevas apoderaram-se deles. E o mundo tornou-se pobre, enquanto ele encontrava-se encerrado em imensidade de laços. Ele foi pregado no madeiro e fixado com a ajuda de quatro cravos de (bronze). O véu de seu Templo foi rasgado por suas próprias mãos. Um tremor foi captado do caos da terra, pois foram libertadas as almas que jaziam no esquecimento inferior e elas se ergueram, caminhando livremente e despojando o ciúme ignorante e a insensatez de junto dos sepulcros de morte. Revestindo o novo homem, elas reconheceram esse Bem-aventurado que é perfeito (saído) do Pai eterno e imperceptível e da Luz infinita — sou Eu.+Eu sou aquele cuja elevação manifestada e cujo terceiro batismo manifestado em imagem o mundo não compreendeu. Quando foi rechaçado o fogo das sete Dominações e o sol das forças dos Arcontes se pôs, as trevas apoderaram-se deles. E o mundo tornou-se pobre, enquanto ele encontrava-se encerrado em imensidade de laços. Ele foi pregado no madeiro e fixado com a ajuda de quatro cravos de (bronze). O véu de seu Templo foi rasgado por suas próprias mãos. Um tremor foi captado do caos da terra, pois foram libertadas as almas que jaziam no esquecimento inferior e elas se ergueram, caminhando livremente e despojando o ciúme ignorante e a insensatez de junto dos sepulcros de morte. Revestindo o novo homem, elas reconheceram esse Bem-aventurado que é perfeito (saído) do Pai eterno e imperceptível e da Luz infinita — sou Eu.
  
 Podemos constatar que a morte de Cristo como batismo (Mc 10,38-39), vista de maneira docetista, faz com que o gnóstico rejeite o batismo de água: como Cristo realmente não morreu, o crente não pode descer com ele no batismo e morrer com ele. Essa visão contradiz a de Rm 6. Podemos constatar que a morte de Cristo como batismo (Mc 10,38-39), vista de maneira docetista, faz com que o gnóstico rejeite o batismo de água: como Cristo realmente não morreu, o crente não pode descer com ele no batismo e morrer com ele. Essa visão contradiz a de Rm 6.
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