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estudos:panikkar:deus:start

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-===== PANIKKAR DEUS ===== +===== DEUS ===== 
-Raimon [[estudos:panikkar:start|Panikkar]] — A EXPERIÊNCIA DE [[biblia:figuras:divindade:deus:start|Deus]]+Raimon Panikkar — A EXPERIÊNCIA DE Deus
 ==== Prólogo ==== ==== Prólogo ====
 Traduzido da versão francesa "L'Expérience de Dieu" Traduzido da versão francesa "L'Expérience de Dieu"
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 Não há experiência possível de Deus, pelo menos no sentido monoteísta da palavra. Frequentemente se aprisionou Deus — a expressão acadêmica seria "se quis apreendê-lo" — em nossa contingência e nossa condição de criatura. Não há experiência possível de Deus, pelo menos no sentido monoteísta da palavra. Frequentemente se aprisionou Deus — a expressão acadêmica seria "se quis apreendê-lo" — em nossa contingência e nossa condição de criatura.
  
-Não menos há experiência de Deus por si (genitivo subjetivo). Aí só pode haver genitivo em Deus, pois isso não adicionaria nada ao que ele é. O [[biblia:figuras:verbo:start|Verbo]] mesmo, "ser", é inapropriado.+Não menos há experiência de Deus por si (genitivo subjetivo). Aí só pode haver genitivo em Deus, pois isso não adicionaria nada ao que ele é. O Verbo mesmo, "ser", é inapropriado.
  
-E no entanto a frase não cessa de revir, na tradição e neste livro. Ela serviu de referência convencional para designar o supremo, o infinito, o misterioso, o desconhecido, o inapreensível. Mas, ainda uma vez, as palavras são função de um código miticamente convencional. O título é portanto em si um paradoxo, paradoxo que mantemos pois a única linguagem possível é a linguagem paradoxal e "oximórica" (NOTA ABAIXO). Serve a relativizar tanto a linguagem como nossa concepção mesma do [[biblia:figuras:divindade:divino:start|Divino]]. Mas relatividade não é relativismo.+E no entanto a frase não cessa de revir, na tradição e neste livro. Ela serviu de referência convencional para designar o supremo, o infinito, o misterioso, o desconhecido, o inapreensível. Mas, ainda uma vez, as palavras são função de um código miticamente convencional. O título é portanto em si um paradoxo, paradoxo que mantemos pois a única linguagem possível é a linguagem paradoxal e "oximórica" (NOTA ABAIXO). Serve a relativizar tanto a linguagem como nossa concepção mesma do Divino. Mas relatividade não é relativismo.
  
 É a tudo isso que este livro faz alusão. É a tudo isso que este livro faz alusão.
  
 NOTA: Me permito aqui uma única exceção à decisão de não incluir notas neste livro para lembrar a significação da palavra "oximoro": o fato que esta palavra não seja mais utilizada é em si inquietante e significativo. O esquecimento deste figura retórica revela a influência do pensamento unívoco e o temor que tem a cultura moderna da polissemia de um lado, da ambivalência do outro. Mais ainda, seu esquecimento mostra que estamos cortados do verdadeiro pensamento, que é fundamentalmente comparativo pois pensamos em nos colocando sobre uma balança, para "sopesar" corretamente as coisas. O oximoro, jogando com a etimologia de oxus, aguçado, pontudo, penetrante e moros, embotado, sem ponta, donde inerte, estúpido, louco, etc, seria então o aguçado-embotado, a loucura penetrante, a ponta da estupidez, a ponta que penetra o mole. O oximoro harmoniza duas noções que, separadamente, são contrárias, como o famosos festina lente, ou loucamente sábio, cruel bondade, etc. O paradoxo põe as duas opções (doxai) uma ao lado (para) da outra, o oximoro faz penetrar uma ideia na outra. O paradoxo nos confronta ao dualismo, o oximoro ao não-dualismo, ao Advaita. O pensamento oximórico não se deixa reduzir ad unum, à unicidade ou a univocidade; haveria contradição e a contradição não pode se pensar. Se assemelha todavia à visão normal que nos faz ver as coisas em suas três dimensões embora não possamos as recopiar exatamente no plano bidimensional da razão. NOTA: Me permito aqui uma única exceção à decisão de não incluir notas neste livro para lembrar a significação da palavra "oximoro": o fato que esta palavra não seja mais utilizada é em si inquietante e significativo. O esquecimento deste figura retórica revela a influência do pensamento unívoco e o temor que tem a cultura moderna da polissemia de um lado, da ambivalência do outro. Mais ainda, seu esquecimento mostra que estamos cortados do verdadeiro pensamento, que é fundamentalmente comparativo pois pensamos em nos colocando sobre uma balança, para "sopesar" corretamente as coisas. O oximoro, jogando com a etimologia de oxus, aguçado, pontudo, penetrante e moros, embotado, sem ponta, donde inerte, estúpido, louco, etc, seria então o aguçado-embotado, a loucura penetrante, a ponta da estupidez, a ponta que penetra o mole. O oximoro harmoniza duas noções que, separadamente, são contrárias, como o famosos festina lente, ou loucamente sábio, cruel bondade, etc. O paradoxo põe as duas opções (doxai) uma ao lado (para) da outra, o oximoro faz penetrar uma ideia na outra. O paradoxo nos confronta ao dualismo, o oximoro ao não-dualismo, ao Advaita. O pensamento oximórico não se deixa reduzir ad unum, à unicidade ou a univocidade; haveria contradição e a contradição não pode se pensar. Se assemelha todavia à visão normal que nos faz ver as coisas em suas três dimensões embora não possamos as recopiar exatamente no plano bidimensional da razão.
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 Excertos: Excertos:
 - DISCURSO DE DEUS - DISCURSO DE DEUS
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