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| ===== MERTON VONTADES DEUS HOMEM ===== | ===== MERTON VONTADES DEUS HOMEM ===== |
| THOMAS [[estudos:merton:start|Merton]] — ENTRE O INSTINTO E A INSPIRAÇÃO | THOMAS Merton — ENTRE O INSTINTO E A INSPIRAÇÃO |
| === A UNIÃO DAS VONTADES DE DEUS E DO HOMEM === | === A UNIÃO DAS VONTADES DE DEUS E DO HOMEM === |
| Há uma outra dificuldade que explica por que deve a inteligência renunciar aqui a um pouco da sua primazia, e esperar pela vontade. A razão não é admitida às profundezas em que a vontade se mantém aprisionada por uma obscura experiência de união imediata com [[biblia:figuras:divindade:deus:start|Deus]]. A inteligência, em si menos diretamente iluminada por Deus, conhece um pouco do que está acontecendo, mas não tudo. Ela desempenha nessa hora um papel secundário em relação à vontade. É como se a vontade passasse a servir de fonte de informação para a inteligência. Isso explica a doutrina da tradição agostiniana pela qual a vontade é a mais alta faculdade da alma. Esses teólogos julgavam segundo a sua experiência de [[oracao:start|oração]] onde a vontade (como qualquer tomista concordaria) age de fato num plano mais alto do que a inteligência, por estar em contato mais imediato com Deus. Se a vontade realmente tivesse primazia sobre todas as outras faculdades, esta situação não seria precária. A razão só teria de aquiescer a toda informação filtrada da experiência da vontade. Além disso, a alma seria desde já perfeitamente ordenada: enquanto a vontade tomaria posse de Deus, a razão obedeceria à vontade dirigida por Deus, e todas as outras faculdades acompanhariam. Neste caso, podia-se concluir que a maior beatitude era a oração de Quietude ou a oração de plena união em que Deus é possuído sem ser conhecido. | Há uma outra dificuldade que explica por que deve a inteligência renunciar aqui a um pouco da sua primazia, e esperar pela vontade. A razão não é admitida às profundezas em que a vontade se mantém aprisionada por uma obscura experiência de união imediata com Deus. A inteligência, em si menos diretamente iluminada por Deus, conhece um pouco do que está acontecendo, mas não tudo. Ela desempenha nessa hora um papel secundário em relação à vontade. É como se a vontade passasse a servir de fonte de informação para a inteligência. Isso explica a doutrina da tradição agostiniana pela qual a vontade é a mais alta faculdade da alma. Esses teólogos julgavam segundo a sua experiência de oração onde a vontade (como qualquer tomista concordaria) age de fato num plano mais alto do que a inteligência, por estar em contato mais imediato com Deus. Se a vontade realmente tivesse primazia sobre todas as outras faculdades, esta situação não seria precária. A razão só teria de aquiescer a toda informação filtrada da experiência da vontade. Além disso, a alma seria desde já perfeitamente ordenada: enquanto a vontade tomaria posse de Deus, a razão obedeceria à vontade dirigida por Deus, e todas as outras faculdades acompanhariam. Neste caso, podia-se concluir que a maior beatitude era a oração de Quietude ou a oração de plena união em que Deus é possuído sem ser conhecido. |
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| Há para a alma grandes perigos latentes num estado em que a vontade entra em contato experimental com Deus pelo amor, ao passo que a inteligência não recebe uma iluminação correspondente. Se Deus guardasse a vontade em permanente união, os perigos seriam quase insignificantes. Mas de fato não é assim. Quando o contemplativo emerge da Noite dos sentidos e entra profundamente na prática habitual da oração de quietude, com toques ocasionais da plena união mística em que as faculdades são absorvidas, a vontade entra em contato com muitos objetos de prazer, que são espirituais mas não em tudo divinos. Daí a necessidade de uma grande discrição. | Há para a alma grandes perigos latentes num estado em que a vontade entra em contato experimental com Deus pelo amor, ao passo que a inteligência não recebe uma iluminação correspondente. Se Deus guardasse a vontade em permanente união, os perigos seriam quase insignificantes. Mas de fato não é assim. Quando o contemplativo emerge da Noite dos sentidos e entra profundamente na prática habitual da oração de quietude, com toques ocasionais da plena união mística em que as faculdades são absorvidas, a vontade entra em contato com muitos objetos de prazer, que são espirituais mas não em tudo divinos. Daí a necessidade de uma grande discrição. |
| Esse prazer, essa plenitude intelectual que é uma resposta parcial à mais profunda necessidade do ser espiritual do homem, a necessidade de contemplação, é acessível à natureza. Mas é sob a direção da graça que ela é atingida logo e mais perfeitamente. Contudo, os que experimentam a plenitude espiritual sobrevinda com os primeiros começos da oração infusa quase nunca são conscientes da distinção entre o que é essencial à verdadeira contemplação e o que é só acompanhamento acidental da contemplação. Eles parecem pensar, como uma questão de fato, que tudo que lhes acontece em conexão com o que sentem ser o movimento da graça, deve ser simplesmente tabelado como "uma graça", e aí deixado. Aparentemente supõem que, logo que alguém chega, à oração de quietude, a distinção entre natureza e graça se volatiliza: é um místico, não tem nada mais com a "natureza". | Esse prazer, essa plenitude intelectual que é uma resposta parcial à mais profunda necessidade do ser espiritual do homem, a necessidade de contemplação, é acessível à natureza. Mas é sob a direção da graça que ela é atingida logo e mais perfeitamente. Contudo, os que experimentam a plenitude espiritual sobrevinda com os primeiros começos da oração infusa quase nunca são conscientes da distinção entre o que é essencial à verdadeira contemplação e o que é só acompanhamento acidental da contemplação. Eles parecem pensar, como uma questão de fato, que tudo que lhes acontece em conexão com o que sentem ser o movimento da graça, deve ser simplesmente tabelado como "uma graça", e aí deixado. Aparentemente supõem que, logo que alguém chega, à oração de quietude, a distinção entre natureza e graça se volatiliza: é um místico, não tem nada mais com a "natureza". |
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| É um ponto seguro que em todos os níveis da vida mística até que a alma tenha finalmente passado pela "Noite do espírito", os movimentos da graça e as inspirações do [[biblia:figuras:espirito-santo:start|Espírito Santo]] agem num organismo espiritual que não só exerce funções naturais, mas, como vimos, começa a redescobrir em si mesmo capacidade que a natureza jamais suspeitara possuir. As luzes da oração que. nos fazem imaginar que começamos a ser anjos, não passam, às vezes, de sinal de que começamos a ser homens. Não temos uma ideia bastante elevada de nossa natureza. Pensamos chegar às portas do céu, e eis que apenas entramos em nosso próprio reino de seres livres e inteligentes. | É um ponto seguro que em todos os níveis da vida mística até que a alma tenha finalmente passado pela "Noite do espírito", os movimentos da graça e as inspirações do Espírito Santo agem num organismo espiritual que não só exerce funções naturais, mas, como vimos, começa a redescobrir em si mesmo capacidade que a natureza jamais suspeitara possuir. As luzes da oração que. nos fazem imaginar que começamos a ser anjos, não passam, às vezes, de sinal de que começamos a ser homens. Não temos uma ideia bastante elevada de nossa natureza. Pensamos chegar às portas do céu, e eis que apenas entramos em nosso próprio reino de seres livres e inteligentes. |
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| Aqui entra a vaidade espiritual e afeta a nossa atitude em face das graças da oração. Queremos que tudo seja "extraordinário" e sobrenatural. Cada coisa que se move em nós tem de ser o dedo de Deus. E se é Deus que age, precisamos de ficar passivos. Depressa nos convencemos de que as delícias sentidas são místicas e que não podemos resistir. Queremos ser embriagados de alegria, e assim nos dispomos a [[evangelho-de-jesus:logia-jesus:logia-jesus:crer:start|Crer]] que toda embriagues espiritual é necessariamente "sagrada" e, por conseguinte, não deve submeter-se ao exame da razão. Mas é aqui justamente que a razão precisa de dar a sua mais importante contribuição à vida espiritual. | Aqui entra a vaidade espiritual e afeta a nossa atitude em face das graças da oração. Queremos que tudo seja "extraordinário" e sobrenatural. Cada coisa que se move em nós tem de ser o dedo de Deus. E se é Deus que age, precisamos de ficar passivos. Depressa nos convencemos de que as delícias sentidas são místicas e que não podemos resistir. Queremos ser embriagados de alegria, e assim nos dispomos a Crer que toda embriagues espiritual é necessariamente "sagrada" e, por conseguinte, não deve submeter-se ao exame da razão. Mas é aqui justamente que a razão precisa de dar a sua mais importante contribuição à vida espiritual. |
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| Seria extremamente perigoso entregar a vontade a si mesma e colocar a alma inteira sob as ordens duma faculdade cega, ainda mais nesta noite de inebriantes delícias, de que algumas vêm de Deus, mas outras, da invenção de ocultas potencialidades espirituais da nossa natureza. | Seria extremamente perigoso entregar a vontade a si mesma e colocar a alma inteira sob as ordens duma faculdade cega, ainda mais nesta noite de inebriantes delícias, de que algumas vêm de Deus, mas outras, da invenção de ocultas potencialidades espirituais da nossa natureza. |
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| Negar à inteligência o poder de discriminar os impulsos que movem a vontade e às vezes transportam a alma fora de si, num rapto anormal, seria tão prudente como soltar da jaula um leão faminto, para a maior glória de Deus. Ninguém faz ao mundo um mal maior, do que aqueles que estiveram à beira da mística, mas que degeneraram na mais irracional rendição a cada [[evangelho-de-jesus:paixao:start|paixão]] que soube transfigurar-se em anjo de luz. | Negar à inteligência o poder de discriminar os impulsos que movem a vontade e às vezes transportam a alma fora de si, num rapto anormal, seria tão prudente como soltar da jaula um leão faminto, para a maior glória de Deus. Ninguém faz ao mundo um mal maior, do que aqueles que estiveram à beira da mística, mas que degeneraram na mais irracional rendição a cada paixão que soube transfigurar-se em anjo de luz. |
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| Nem a Igreja nem os místicos cristãos ensinaram tal irracionalidade, jamais admitida pelos verdadeiros sábios de qualquer terra ou religião. Vimos perfeitamente que ela não é a doutrina de S. João cia Cruz. | Nem a Igreja nem os místicos cristãos ensinaram tal irracionalidade, jamais admitida pelos verdadeiros sábios de qualquer terra ou religião. Vimos perfeitamente que ela não é a doutrina de S. João cia Cruz. |