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| ===== MERTON A VIDA SILENCIOSA ===== | ===== MERTON A VIDA SILENCIOSA ===== | ||
| - | Thomas | + | Thomas Merton — A Vida Silenciosa |
| Tradução das Religiosas da Companhia da Virgem | Tradução das Religiosas da Companhia da Virgem | ||
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| ==== PRÓLOGO — O QUE É UM MONGE? ==== | ==== PRÓLOGO — O QUE É UM MONGE? ==== | ||
| - | O monge é um homem chamado pelo [[biblia: | + | O monge é um homem chamado pelo Espírito Santo a renunciar aos cuidados, desejo e ambições dos outros homens para dedicar toda sua vida à procura de Deus. O conceito é conhecido. A realidade significada pelo conceito é um mistério. Pois, concretamente, |
| Em resumo, um monge é um «homem de Deus». | Em resumo, um monge é um «homem de Deus». | ||
| - | Uma vez que todos os homens foram criados por Deus para que o pudessem encontrar, todos são, de certo modo, chamados a ser «homens de Deus». Mas nem todos são chamados a ser monges. Um monge, portanto, é alguém chamado a se dar exclusiva e perfeitamente ao único necessário a todos os homens — a busca de Deus. A outros é-lhes permitido procurar Deus por caminho menos direto, levar no mundo uma vida digna, fundar um lar cristão. O monge põe essas coisas de lado, embora possam ser boas. Dirige-se a Deus pelo atalho direto, recto tramite. Retira-se do «mundo». Entrega-se inteiramente à [[oracao: | + | Uma vez que todos os homens foram criados por Deus para que o pudessem encontrar, todos são, de certo modo, chamados a ser «homens de Deus». Mas nem todos são chamados a ser monges. Um monge, portanto, é alguém chamado a se dar exclusiva e perfeitamente ao único necessário a todos os homens — a busca de Deus. A outros é-lhes permitido procurar Deus por caminho menos direto, levar no mundo uma vida digna, fundar um lar cristão. O monge põe essas coisas de lado, embora possam ser boas. Dirige-se a Deus pelo atalho direto, recto tramite. Retira-se do «mundo». Entrega-se inteiramente à oração, à meditação, |
| - | Encaremos o fato de que a vocação monástica tem tendência a se apresentar ao mundo moderno como um problema e um [[evangelho-de-jesus: | + | Encaremos o fato de que a vocação monástica tem tendência a se apresentar ao mundo moderno como um problema e um escândalo. |
| Numa cultura basicamente religiosa, como a da Índia ou a do Japão, o monge é, por assim dizer, coisa normal. Quando a sociedade inteira está orientada para além da busca meramente transitória dos negócios e do prazer, ninguém se espanta de que homens dediquem a vida a um Deus invisível. Numa cultura materialista, | Numa cultura basicamente religiosa, como a da Índia ou a do Japão, o monge é, por assim dizer, coisa normal. Quando a sociedade inteira está orientada para além da busca meramente transitória dos negócios e do prazer, ninguém se espanta de que homens dediquem a vida a um Deus invisível. Numa cultura materialista, | ||
| - | Os primeiros | + | Os primeiros pais do monaquismo não se preocupavam com tais argumentos, se bem que possam ter valor quando bem aplicados. Eles não sentiam que a procura de Deus fosse algo que necessitasse ser defendido. Ou, antes, viam que se os homens não tivessem, em primeiro lugar, consciência de que Deus deve ser procurado, nenhuma outra defesa do monaquismo adiantaria. |
| Deus deve, então, ser procurado? | Deus deve, então, ser procurado? | ||
| - | A mais profunda lei no ser do homem é sua necessidade de Deus, de vida. Deus é vida. «Estava nele a vida e a vida era a luz dos homens. E a luz brilhou nas trevas e as trevas não a compreenderam» (Jo 1, 4-5). Compreender a luz que no meio delas brilha, é a maior necessidade que têm nossas trevas. Por isso, deu-nos Deus como seu [[evangelho-de-jesus: | + | A mais profunda lei no ser do homem é sua necessidade de Deus, de vida. Deus é vida. «Estava nele a vida e a vida era a luz dos homens. E a luz brilhou nas trevas e as trevas não a compreenderam» (Jo 1, 4-5). Compreender a luz que no meio delas brilha, é a maior necessidade que têm nossas trevas. Por isso, deu-nos Deus como seu Primeiro Mandamento: «Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças». A vida monástica nada mais é do que a vida daqueles que tomaram o primeiro mandamento com a maior seriedade, e, como diz S. Bento «nada preferiram ao amor de Cristo». |
| Mas, quem é Deus? Onde está? | Mas, quem é Deus? Onde está? | ||
| - | O monaquismo cristão é busca de alguma pura intuição do Absoluto? Um culto do Bem supremo? A adoração da Beleza perfeita e imutável? O próprio vazio de tais abstrações torna o coração frio. O Santo, o Invisível, o Todo-poderoso é infinitamente maior e mais real do que qualquer abstração inventada pelo homem. Mas Ele próprio disse : «O homem não me pode ver e viver» (Êx 33, 20). Entretanto, o monge persiste em exclamar com [[biblia: | + | O monaquismo cristão é busca de alguma pura intuição do Absoluto? Um culto do Bem supremo? A adoração da Beleza perfeita e imutável? O próprio vazio de tais abstrações torna o coração frio. O Santo, o Invisível, o Todo-poderoso é infinitamente maior e mais real do que qualquer abstração inventada pelo homem. Mas Ele próprio disse : «O homem não me pode ver e viver» (Êx 33, 20). Entretanto, o monge persiste em exclamar com Moisés: «Mostra-me a Tua face» (Êx 33, 13). |
| O monge, portanto, é alguém que procura tão intensamente a Deus que está pronto a morrer para poder vê-lo. Por isso é que a vida monástica é um «martírio» bem como um «paraíso»; | O monge, portanto, é alguém que procura tão intensamente a Deus que está pronto a morrer para poder vê-lo. Por isso é que a vida monástica é um «martírio» bem como um «paraíso»; | ||
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| S. Paulo resolve, do seguinte modo, o problema: «Deus que disse: 'Do seio das trevas brilhe a luz' foi quem fez brilhar sua luz em nossos corações, para que façamos brilhar o conhecimento da glória de Deus, que resplandece na face de Jesus Cristo» (2 Cor 4, 6). | S. Paulo resolve, do seguinte modo, o problema: «Deus que disse: 'Do seio das trevas brilhe a luz' foi quem fez brilhar sua luz em nossos corações, para que façamos brilhar o conhecimento da glória de Deus, que resplandece na face de Jesus Cristo» (2 Cor 4, 6). | ||
| - | A vida monástica é a rejeição de tudo que obstrui os raios espirituais dessa misteriosa luz. O monge é alguém que deixa atrás de si a ficção e as ilusões de uma espiritualidade meramente humana, para mergulhar na fé em Cristo. A fé é a luz que o ilumina no mistério. É a força que se apodera das íntimas profundezas de sua alma e o entrega à ação do Espírito | + | A vida monástica é a rejeição de tudo que obstrui os raios espirituais dessa misteriosa luz. O monge é alguém que deixa atrás de si a ficção e as ilusões de uma espiritualidade meramente humana, para mergulhar na fé em Cristo. A fé é a luz que o ilumina no mistério. É a força que se apodera das íntimas profundezas de sua alma e o entrega à ação do Espírito Divino. Espírito de liberdade. Espírito de amor. A fé o segura e, como outrora fez com os antigos profetas, «firma-o sobre seus pés» (Ez 2, 2) diante do Senhor. A vida monástica é vida no Espírito de Cristo, vida em que o cristão se dá inteiramente ao amor de Deus que o transforma na luz de Cristo. |
| «O Senhor é o Espírito, e onde está o Espírito do Senhor, ali está a liberdade. E todos nós que, com o rosto descoberto, refletimos como espelhos a glória do Senhor, nós nos transformamos nesta mesma imagem, cada vez mais resplandecente, | «O Senhor é o Espírito, e onde está o Espírito do Senhor, ali está a liberdade. E todos nós que, com o rosto descoberto, refletimos como espelhos a glória do Senhor, nós nos transformamos nesta mesma imagem, cada vez mais resplandecente, | ||
| - | Para estar livre, da liberdade dos filhos de Deus, [[evangelho-de-jesus: | + | Para estar livre, da liberdade dos filhos de Deus, Renuncia o monge ao exercício da sua própria vontade, ao direito à propriedade, |
| Este livro é uma meditação sobre a vida monástica, por alguém que, sem nenhum mérito seu, tem o privilégio de conhecer essa vida por dentro. Se há nestas páginas algo de valor, vem, não de algum talento especial do autor; este procura apenas servir de porta-voz a uma tradição multissecular, | Este livro é uma meditação sobre a vida monástica, por alguém que, sem nenhum mérito seu, tem o privilégio de conhecer essa vida por dentro. Se há nestas páginas algo de valor, vem, não de algum talento especial do autor; este procura apenas servir de porta-voz a uma tradição multissecular, | ||
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| Nestas páginas consideraremos primeiramente alguns dos aspectos da vida monástica como tal. Em seguida, falaremos das mais importantes Ordens monásticas que florescem na Igreja, na época atual. É nossa intenção dar uma ideia do espírito monástico como se encontra entre os cenobitas (beneditinos e cistercienses) e os eremitas (cartuxos e camaldulenses). | Nestas páginas consideraremos primeiramente alguns dos aspectos da vida monástica como tal. Em seguida, falaremos das mais importantes Ordens monásticas que florescem na Igreja, na época atual. É nossa intenção dar uma ideia do espírito monástico como se encontra entre os cenobitas (beneditinos e cistercienses) e os eremitas (cartuxos e camaldulenses). | ||
| - | Falando da sublimidade do ideal monástico e da excelência desse modo de vida particular, de maneira alguma queremos dar a impressão de que as Ordens monásticas sejam, por sua própria natureza, superiores aos outros institutos religiosos. Pois, afinal, a dignidade principal do monge encontra-se no fato de ter ele abandonado todo espírito de concorrência e a busca da glória humana, contentando-se em ser o último de todos. Mais exatamente falando, não tem o monge uma norma que lhe permita comparar-se aos outros religiosos. Seus olhos não estão voltados para os campos de batalha da planície, dirigem-se para o deserto onde Cristo será visto novamente, à direita do [[estudos: | + | Falando da sublimidade do ideal monástico e da excelência desse modo de vida particular, de maneira alguma queremos dar a impressão de que as Ordens monásticas sejam, por sua própria natureza, superiores aos outros institutos religiosos. Pois, afinal, a dignidade principal do monge encontra-se no fato de ter ele abandonado todo espírito de concorrência e a busca da glória humana, contentando-se em ser o último de todos. Mais exatamente falando, não tem o monge uma norma que lhe permita comparar-se aos outros religiosos. Seus olhos não estão voltados para os campos de batalha da planície, dirigem-se para o deserto onde Cristo será visto novamente, à direita do Pai, vindo na glória sobre as nuvens do céu. |
| - | O horizonte monástico, é, nitidamente, | + | O horizonte monástico, é, nitidamente, |
| - | A Igreja monástica é a Igreja do deserto, é a Mulher que fugiu para o ermo, a fim de escapar do dragão que procura devorar o [[biblia: | + | A Igreja monástica é a Igreja do deserto, é a Mulher que fugiu para o ermo, a fim de escapar do dragão que procura devorar o Verbo Menino. É a Igreja que, por seu silêncio, nutre e protege a serpente do Evangelho plantada pelos apóstolos no coração dos fiéis. É a Igreja que, pela oração obtém a fortaleza para os apóstolos, eles próprios tantas vêzes oprimidos pelo monstro. A Igreja monástica é a que foge para um lugar especial que lhe foi preparado por Deus no deserto e esconde seu rosto no Mistério do silêncio divino, e ora enquanto se desenrola a luta do grande combate entre a terra e o céu. |
| Sua fuga não é uma evasão. Se o monge fosse capaz de compreender o que se passa dentro dêle, poderia dizer que muito bem sabe como o combate está sendo travado em seu próprio coração. | Sua fuga não é uma evasão. Se o monge fosse capaz de compreender o que se passa dentro dêle, poderia dizer que muito bem sabe como o combate está sendo travado em seu próprio coração. | ||
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