estudos:merton:a-vida-silenciosa:purificatio:start
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| ===== MERTON PURIFICATIO ===== | ===== MERTON PURIFICATIO ===== | ||
| - | Thomas | + | Thomas Merton — A Vida Silenciosa |
| Puritas Cordis (cont.) | Puritas Cordis (cont.) | ||
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| Essa pretensão radical, psicológica à onipotência é a profunda impureza que mancha e divide a alma pura do homem. Essa exigência da parte de uma criatura limitada para ser tratada como o Ser Supremo e Absoluto é a terrível ilusão que nos condena à escravidão cias paixões, da loucura e do pecado. | Essa pretensão radical, psicológica à onipotência é a profunda impureza que mancha e divide a alma pura do homem. Essa exigência da parte de uma criatura limitada para ser tratada como o Ser Supremo e Absoluto é a terrível ilusão que nos condena à escravidão cias paixões, da loucura e do pecado. | ||
| - | Evidentemente, | + | Evidentemente, |
| Aqueles que entre nós concordamos em chamar «sãos», são os que mantêm a pretensão pessoal à absoluta perfeição e onipotência recalcada e disfarçada debaixo de certos símbolos mentais aceitos, e só fazem valer a sua pretensão em atos tornados aceitos por uma aparência externa de inocuidade e utilidade social. | Aqueles que entre nós concordamos em chamar «sãos», são os que mantêm a pretensão pessoal à absoluta perfeição e onipotência recalcada e disfarçada debaixo de certos símbolos mentais aceitos, e só fazem valer a sua pretensão em atos tornados aceitos por uma aparência externa de inocuidade e utilidade social. | ||
| - | Há muitas maneiras aceitáveis e «sãs» de fazer valer a ilusória pretensão ao poder [[biblia: | + | Há muitas maneiras aceitáveis e «sãs» de fazer valer a ilusória pretensão ao poder Divino. Pode-se, por exemplo, ser um Pai ou uma mãe tirânicos — ou um pai ou mãe lacrimejante tipo-mártir. Pode-se ser um patrão sádico ou amigo do autoritarismo, |
| O grande inimigo da pureza de coração monástica é, portanto, o projeto básico, oculto, de ser melhor do que os outros, de fazer valer a própria liberdade à custa da liberdade alheia, de exaltar a própria vontade sobre a vontade dos outros e de elevar o próprio espírito acima dos espíritos dos que julgamos medíocres. | O grande inimigo da pureza de coração monástica é, portanto, o projeto básico, oculto, de ser melhor do que os outros, de fazer valer a própria liberdade à custa da liberdade alheia, de exaltar a própria vontade sobre a vontade dos outros e de elevar o próprio espírito acima dos espíritos dos que julgamos medíocres. | ||
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| Desse projeto básico, central, vêm todos os outros projetos e ideais ilusórios. A alma impura vê-se devorada e dividida pelos incessantes esforços que faz para fazer valer sua pretensão radical, enquanto a mantém disfarçada debaixo de um exterior aceitável. | Desse projeto básico, central, vêm todos os outros projetos e ideais ilusórios. A alma impura vê-se devorada e dividida pelos incessantes esforços que faz para fazer valer sua pretensão radical, enquanto a mantém disfarçada debaixo de um exterior aceitável. | ||
| - | A vida de uma alma pura torna-se extremamente simples. Mas a alma impura é e deve ser singularmente complicada. Há tanta coisa a fazer! É preciso fazer-se valer e se exaltar e, ao mesmo tempo, | + | A vida de uma alma pura torna-se extremamente simples. Mas a alma impura é e deve ser singularmente complicada. Há tanta coisa a fazer! É preciso fazer-se valer e se exaltar e, ao mesmo tempo, Crer-se humilde e pronto ao sacrifício de si. É preciso acariciar, a todo custo, o sentimento de santidade e nobreza de que dependem a paz e a felicidade dessa alma. Portanto, é necessário estar alerta para notar todas as fraquezas e imperfeições dos outros, porque são, potencialmente, |
| Uma vez que tudo isso é manifestamente impossível, | Uma vez que tudo isso é manifestamente impossível, | ||
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| O homem decaído, portanto, é alguém em quem a Imagem Divina, ou o livre arbítrio, se tornou escravo por se ter feito o seu próprio ídolo. A imagem de Deus é falseada pela «dessemelhança». Sob a tirania desse ídolo, a própria liberdade se transforma em escravidão e o homem se atormenta, tentando querer o impossível, | O homem decaído, portanto, é alguém em quem a Imagem Divina, ou o livre arbítrio, se tornou escravo por se ter feito o seu próprio ídolo. A imagem de Deus é falseada pela «dessemelhança». Sob a tirania desse ídolo, a própria liberdade se transforma em escravidão e o homem se atormenta, tentando querer o impossível, | ||
| - | Qual é a resposta? Já a encontramos. É o sacramento da cruz, a fé e a obediência de [[biblia: | + | Qual é a resposta? Já a encontramos. É o sacramento da cruz, a fé e a obediência de Cristo que, como diz S. Pedro purificam nossos corações. O orgulho íntimo do homem decaído tem de ser crucificado na cruz da Verdade. O amor da Verdade e da cruz põe por terra o ídolo, coloca o homem em seu verdadeiro nível, devolve-lhe a liberdade, liberta-o do medo, fortifica-lhe a caridade e o torna capaz de viver e agir como Filho de Deus. «A verdade vos libertará» (Jo 8, 32). |
| Por isso é que S. Bento, depois de haver descrito os doze degraus da humildade interior e exterior (cada qual sendo participação no mistério da obediência de Cristo) declara que «quando todos esses degraus tiverem sido galgados, alcançará logo o monge a perfeita caridade que expele todo temor». | Por isso é que S. Bento, depois de haver descrito os doze degraus da humildade interior e exterior (cada qual sendo participação no mistério da obediência de Cristo) declara que «quando todos esses degraus tiverem sido galgados, alcançará logo o monge a perfeita caridade que expele todo temor». | ||
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| A pureza de coração é, também, o início da união do monge com seus irmãos. União verdadeira, pois a caridade monástica não é apenas um «contrato social», um acordo a que se chega pelo consentimento de vários egoísmos; é a pureza de coração, que se alcança somente quando todas as vontades separadas de cada irmão se transformam em uma só vontade, a vontade comum, a vontade de Cristo. A essa comunidade de vontades não se pode chegar por um contrato como para um negócio. É um amplexo das almas na pureza do Espírito de Deus. | A pureza de coração é, também, o início da união do monge com seus irmãos. União verdadeira, pois a caridade monástica não é apenas um «contrato social», um acordo a que se chega pelo consentimento de vários egoísmos; é a pureza de coração, que se alcança somente quando todas as vontades separadas de cada irmão se transformam em uma só vontade, a vontade comum, a vontade de Cristo. A essa comunidade de vontades não se pode chegar por um contrato como para um negócio. É um amplexo das almas na pureza do Espírito de Deus. | ||
| - | Esse abraço de todas as purezas unidas, de vontades limpas e desinteressadas, | + | Esse abraço de todas as purezas unidas, de vontades limpas e desinteressadas, |
| Quando, porém, se há de chegar a essa plena realização? | Quando, porém, se há de chegar a essa plena realização? | ||
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