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| ===== MEREJKOVSKY – JESUS DESCONHECIDO (I.5) ===== | ===== MEREJKOVSKY – JESUS DESCONHECIDO (I.5) ===== |
| - Dmitri [[estudos:merejkovsky:merejkovsky-jesus-desconhecido:start|Merejkovsky – Jesus Desconhecido]]. Tr Gustavo Barroso. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1935* | - Dmitri Merejkovsky – Jesus Desconhecido. Tr Gustavo Barroso. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1935* |
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| - PRIMEIRA PARTE** | - PRIMEIRA PARTE** |
| - I** | - I** |
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| Somente graças ao Cânone temos ainda o Evangelho. Era necessário encouraçá-lo contra os milhares de flechas inimigas — tantas falsas gnoses e monstruosas heresias; era necessário represar num tanque de pedra as águas vivas da fonte para que o rebanho humano não as sujasse, fazendo dela, o que amedronta dizer, a poça turva dos "Apócrifos" (no sentido moderno de "falsos [[evangelho-de-jesus:evangelhos:start|Evangelhos]]" que a Igreja deu a essa expressão); era necessário abrigar a mais delicada flor do mundo contra todas as tempestades terrestres atrás da rocha de [[biblia:figuras:nt-personagens:discipulos:pedro:start|Pedro]], a fim de que o que há no mundo de mais eterno e também de mais leve — que existe de mais leve que o Espírito? — não fosse dispersado pelo vento como pétalas arrancadas. | Somente graças ao Cânone temos ainda o Evangelho. Era necessário encouraçá-lo contra os milhares de flechas inimigas — tantas falsas gnoses e monstruosas heresias; era necessário represar num tanque de pedra as águas vivas da fonte para que o rebanho humano não as sujasse, fazendo dela, o que amedronta dizer, a poça turva dos "Apócrifos" (no sentido moderno de "falsos Evangelhos" que a Igreja deu a essa expressão); era necessário abrigar a mais delicada flor do mundo contra todas as tempestades terrestres atrás da rocha de Pedro, a fim de que o que há no mundo de mais eterno e também de mais leve — que existe de mais leve que o Espírito? — não fosse dispersado pelo vento como pétalas arrancadas. |
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| Foi isso o que fez o Cânone. Seu círculo está fechado: "o quinto Evangelho jamais será escrito por ninguém, enquanto que os quatro Evangelhos chegaram até nós e chegarão, sem dúvida, até a consumação dos séculos tais quais são. | Foi isso o que fez o Cânone. Seu círculo está fechado: "o quinto Evangelho jamais será escrito por ninguém, enquanto que os quatro Evangelhos chegaram até nós e chegarão, sem dúvida, até a consumação dos séculos tais quais são. |
| A própria Igreja teve o pressentimento, pois para ela o João do IV.º Evangelho é o João do Apocalipse. Mas, para não somente ver a si mesma e sim mostrar aos outros que a primeira e a última testemunha, Marcos-Pedro e João, estão de acordo, é preciso confrontá-los de novo, reabrir o debate indeciso entre as duas testemunhas que parece se contradizerem; e nós vimos que isso é impossível se permanecermos nos limites do Cânone; mas, apenas dado um passo além desses limites, nos encontraremos face a face com o Jesus Desconhecido do Evangelho Desconhecido. Existe alguma coisa além desses limites ou somente há o vácuo, a noite cimeriana, as trevas impenetráveis? A passagem pela crítica evangélica do limite do Cânone é tão espantosa, tão maravilhosa como a passagem da Linha pelo primeiro Navegante vindo de nosso hemisfério: ele vê num céu ignorado novas estrelas e não acredita nos próprios olhos; não compreende e ficará talvez muito tempo sem compreender que são as mesmas estrelas, mas de outro céu. | A própria Igreja teve o pressentimento, pois para ela o João do IV.º Evangelho é o João do Apocalipse. Mas, para não somente ver a si mesma e sim mostrar aos outros que a primeira e a última testemunha, Marcos-Pedro e João, estão de acordo, é preciso confrontá-los de novo, reabrir o debate indeciso entre as duas testemunhas que parece se contradizerem; e nós vimos que isso é impossível se permanecermos nos limites do Cânone; mas, apenas dado um passo além desses limites, nos encontraremos face a face com o Jesus Desconhecido do Evangelho Desconhecido. Existe alguma coisa além desses limites ou somente há o vácuo, a noite cimeriana, as trevas impenetráveis? A passagem pela crítica evangélica do limite do Cânone é tão espantosa, tão maravilhosa como a passagem da Linha pelo primeiro Navegante vindo de nosso hemisfério: ele vê num céu ignorado novas estrelas e não acredita nos próprios olhos; não compreende e ficará talvez muito tempo sem compreender que são as mesmas estrelas, mas de outro céu. |
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| Os *[[evangelho-de-jesus:logia-jesus:ditos-de-jesus:agrapha:start|Agrapha]]*, as palavras do Senhor que não estão anotadas no Evangelho e não figuram no Cânone, são invisíveis no nosso hemisfério e surgem misteriosamente do horizonte do Evangelho como outras estrelas do mesmo céu. E, de todas essas constelações, o Cruzeiro do Sul — sinal que une os dois hemisférios — é a mais misteriosa: "Jesus [[biblia:figuras:nt-personagens:cristo:start|Cristo]] é o mesmo ontem, hoje, eternamente (Heb., 13, 8.)". | Os *Agrapha*, as palavras do Senhor que não estão anotadas no Evangelho e não figuram no Cânone, são invisíveis no nosso hemisfério e surgem misteriosamente do horizonte do Evangelho como outras estrelas do mesmo céu. E, de todas essas constelações, o Cruzeiro do Sul — sinal que une os dois hemisférios — é a mais misteriosa: "Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje, eternamente (Heb., 13, 8.)". |
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| - IV** | - IV** |
| "Há ainda muitas outras coisas que Jesus fez; e, se se descrevessem minuciosamente, penso que o mundo inteiro não conteria os livros em que fossem descritas (21, 28.)". | "Há ainda muitas outras coisas que Jesus fez; e, se se descrevessem minuciosamente, penso que o mundo inteiro não conteria os livros em que fossem descritas (21, 28.)". |
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| "Fez muitas coisas" — por conseguinte, também disse muitas. Trata-se, aqui, bem entendido, não do número material de livros não escritos, porém da [[evangelho-de-jesus:logia-jesus:logia-jesus:medida:start|Medida]] espiritual dum único Livro que o mundo não pode conter, do "Evangelho não escrito" — dos *Agrapha*. | "Fez muitas coisas" — por conseguinte, também disse muitas. Trata-se, aqui, bem entendido, não do número material de livros não escritos, porém da Medida espiritual dum único Livro que o mundo não pode conter, do "Evangelho não escrito" — dos *Agrapha*. |
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| "Que o olhar espiritual se dirija para a luz interior da verdade não escrita que se revela na Escritura", diz [[ate-agostinho:clemente:start|Clemente de Alexandria]], ensinando-nos, assim, a procurar o *agraphon* no próprio Evangelho (1). | "Que o olhar espiritual se dirija para a luz interior da verdade não escrita que se revela na Escritura", diz Clemente de Alexandria, ensinando-nos, assim, a procurar o *agraphon* no próprio Evangelho (1). |
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| "Jesus dizia às vezes a palavra divina a seus discípulos em particular (em segredo) e às mais das vezes na solidão. Parte dessas coisas não foram escritas, porque os discípulos sabiam que se não devia escrever e revelar tudo", relata [[ate-agostinho:origenes:start|Orígenes]] (2). E Clemente acrescenta: "O Senhor, na sua ressurreição, transmitiu o conhecimento secreto ([[ate-agostinho:clemente:excertos-teodoto:excertos-de-teodoto-texto:a-gnose:start|A Gnose]]) a Tiago o Justo, a João e a Pedro; estes o transmitiram por sua vez aos outros Apóstolos (aos Doze) e estes aos setenta (3). Bastam duas ou três horas para ler todas as palavras do Senhor relatadas no Evangelho; ora, Jesus ensinou durante dezoito meses pelo menos segundo os Sinóticos, durante dois ou três anos, segundo São João; assim, quantas palavras não foram guardadas! E quantas outras se perderam, porque não acharam eco naqueles que as ouviam — elas caíram à beira do caminho num solo pedregoso. Encontraremos talvez seu vestígio nos *Agrapha*. | "Jesus dizia às vezes a palavra divina a seus discípulos em particular (em segredo) e às mais das vezes na solidão. Parte dessas coisas não foram escritas, porque os discípulos sabiam que se não devia escrever e revelar tudo", relata Orígenes (2). E Clemente acrescenta: "O Senhor, na sua ressurreição, transmitiu o conhecimento secreto (A Gnose) a Tiago o Justo, a João e a Pedro; estes o transmitiram por sua vez aos outros Apóstolos (aos Doze) e estes aos setenta (3). Bastam duas ou três horas para ler todas as palavras do Senhor relatadas no Evangelho; ora, Jesus ensinou durante dezoito meses pelo menos segundo os Sinóticos, durante dois ou três anos, segundo São João; assim, quantas palavras não foram guardadas! E quantas outras se perderam, porque não acharam eco naqueles que as ouviam — elas caíram à beira do caminho num solo pedregoso. Encontraremos talvez seu vestígio nos *Agrapha*. |
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| - V** | - V** |
| É-nos impossível dizer tudo o que vimos e ouvimos do Senhor, — lembra nos Atos de João Leucius Charinus, testemunha do século II, que pertencia talvez ao círculo dos discípulos efésios do Presbítero João, — muitas grandes e maravilhosas coisas foram realizadas pelo Senhor e devem ser caladas, porque são indizíveis; não se pode falar delas nem ouvi-las". "Conheço muitas coisas ainda que não sei dizer como ele quer (4). | É-nos impossível dizer tudo o que vimos e ouvimos do Senhor, — lembra nos Atos de João Leucius Charinus, testemunha do século II, que pertencia talvez ao círculo dos discípulos efésios do Presbítero João, — muitas grandes e maravilhosas coisas foram realizadas pelo Senhor e devem ser caladas, porque são indizíveis; não se pode falar delas nem ouvi-las". "Conheço muitas coisas ainda que não sei dizer como ele quer (4). |
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| "Tu nos revelaste muitos segredos; quanto a mim, tu me escolheste entre os discípulos e me disseste três palavras que me abrasaram e que não posso repetir aos outros", recorda por sua vez [[evangelho-de-jesus:evangelho-personagens:discipulos-de-jesus:tome:start|Tomé]] o incrédulo, Tomé Dídimo, o qual, segundo uma tradição, igualmente muito antiga, seria o próprio irmão, o gêmeo do Cristo, *didymos tou Christou*, e teria dele recebido "as palavras secretas" (5). | "Tu nos revelaste muitos segredos; quanto a mim, tu me escolheste entre os discípulos e me disseste três palavras que me abrasaram e que não posso repetir aos outros", recorda por sua vez Tomé o incrédulo, Tomé Dídimo, o qual, segundo uma tradição, igualmente muito antiga, seria o próprio irmão, o gêmeo do Cristo, *didymos tou Christou*, e teria dele recebido "as palavras secretas" (5). |
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| "Eu sou aquele que não vês, do qual somente ouves a voz... | "Eu sou aquele que não vês, do qual somente ouves a voz... |
| - VI** | - VI** |
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| Não esqueçamos que, antes de tomar forma, de tornar-se a "Escritura", todo o Evangelho não foi mais do que um *Agraphon* — metal em fusão. Temos muita dificuldade em concebê-lo; entretanto, sem isso, é impossível compreender o que são os *Agrapha*, essas gotas de metal sempre fervente correndo pela borda dum cadinho; temos dificuldade em imaginar que há entre um *Agraphon* e um Apócrifo a mesma diferença que entre o Evangelho e o Apócrifo (esta palavra sendo tomada, bem entendido, não no sentido antigo de Evangelho "oculto", mas no moderno de Evangelho "falso"); temos dificuldade em [[evangelho-de-jesus:logia-jesus:logia-jesus:crer:start|Crer]] que palavras do Senhor, tão autênticas quanto estas: "todo sacrifício será salgado com sal" (Mc., 9,49.) ou "vós não sabeis com que espírito estais animados" (Lc., 9,55-56.), não são canônicas, tendo sido excluídas do texto evangélico da Vulgata adotado no século IV, mas figuram nos textos antigos do ano 140, o *Cantabrigensis D* e não entraram no nosso texto, a despeito do Cânone, senão graças aos códices itálicos (8). É assim que no seio do próprio Evangelho o metal em ebulição dos *Agrapha* continua a fazer estalar a forma do Cânone. | Não esqueçamos que, antes de tomar forma, de tornar-se a "Escritura", todo o Evangelho não foi mais do que um *Agraphon* — metal em fusão. Temos muita dificuldade em concebê-lo; entretanto, sem isso, é impossível compreender o que são os *Agrapha*, essas gotas de metal sempre fervente correndo pela borda dum cadinho; temos dificuldade em imaginar que há entre um *Agraphon* e um Apócrifo a mesma diferença que entre o Evangelho e o Apócrifo (esta palavra sendo tomada, bem entendido, não no sentido antigo de Evangelho "oculto", mas no moderno de Evangelho "falso"); temos dificuldade em Crer que palavras do Senhor, tão autênticas quanto estas: "todo sacrifício será salgado com sal" (Mc., 9,49.) ou "vós não sabeis com que espírito estais animados" (Lc., 9,55-56.), não são canônicas, tendo sido excluídas do texto evangélico da Vulgata adotado no século IV, mas figuram nos textos antigos do ano 140, o *Cantabrigensis D* e não entraram no nosso texto, a despeito do Cânone, senão graças aos códices itálicos (8). É assim que no seio do próprio Evangelho o metal em ebulição dos *Agrapha* continua a fazer estalar a forma do Cânone. |
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| O admirável relato de João sobre a mulher adúltera (9,1-11.) — um *Agraphon* igualmente excluído outrora do Cânone — falta nos manuscritos até o século IV e Santo Agostinho o considera ainda "apócrifo", sob o pretexto de que permitiria às mulheres a "impunidade do adultério", *peccandi immunitas*, e "que um pecado tão grave ali é muito facilmente perdoado" (9). A Igreja, malgrado Santo Agostinho, o Cânone e ela própria, conservou o episódio, não tendo medo da mansuetude do Senhor, no que certamente fez muito bem. | O admirável relato de João sobre a mulher adúltera (9,1-11.) — um *Agraphon* igualmente excluído outrora do Cânone — falta nos manuscritos até o século IV e Santo Agostinho o considera ainda "apócrifo", sob o pretexto de que permitiria às mulheres a "impunidade do adultério", *peccandi immunitas*, e "que um pecado tão grave ali é muito facilmente perdoado" (9). A Igreja, malgrado Santo Agostinho, o Cânone e ela própria, conservou o episódio, não tendo medo da mansuetude do Senhor, no que certamente fez muito bem. |
| Essas pérolas que quase foram perdidas para nós nos mostram que tesouros se podem conservar nos *Agrapha*. | Essas pérolas que quase foram perdidas para nós nos mostram que tesouros se podem conservar nos *Agrapha*. |
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| O Evangelho dos Hebreus que nos chegou em míseros fragmentos e ao qual, provavelmente, se tomou por empréstimo o relato sobre a mulher adúltera, é um segundo [[evangelho-de-jesus:evangelho-personagens:discipulos-de-jesus:mateus:start|Mateus]], diverso do nosso, ou somente uma primeira versão, ou ainda uma tradição judaica absolutamente independente? Seja como for, se, como é igualmente provável, esse Evangelho é o único que veio a lume na terra natal de Jesus, na Palestina, pelos anos de 90, isto é, quase ao mesmo tempo que o nosso Lucas e o nosso João, pôde conservar um testemunho histórico, não menos autêntico do que aqueles (10). Desta forma um Evangelho inteiro é um *Agraphon*. | O Evangelho dos Hebreus que nos chegou em míseros fragmentos e ao qual, provavelmente, se tomou por empréstimo o relato sobre a mulher adúltera, é um segundo Mateus, diverso do nosso, ou somente uma primeira versão, ou ainda uma tradição judaica absolutamente independente? Seja como for, se, como é igualmente provável, esse Evangelho é o único que veio a lume na terra natal de Jesus, na Palestina, pelos anos de 90, isto é, quase ao mesmo tempo que o nosso Lucas e o nosso João, pôde conservar um testemunho histórico, não menos autêntico do que aqueles (10). Desta forma um Evangelho inteiro é um *Agraphon*. |
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| Pelo ano de 200, Serapião de Antioquia começou por autorizar o Evangelho segundo São Pedro, depois o interdisse, tendo-o julgado "contaminado pela heresia dos gnósticos"; não pensou, pois, imediatamente: "Há quatro evangelhos e não pode haver um quinto". Por conseguinte, no fim do século II e começo do III, o Cânone, no sentido posterior dessa palavra, ainda não fora firmado — o metal em fusão do Evangelho continuava a ferver ainda. | Pelo ano de 200, Serapião de Antioquia começou por autorizar o Evangelho segundo São Pedro, depois o interdisse, tendo-o julgado "contaminado pela heresia dos gnósticos"; não pensou, pois, imediatamente: "Há quatro evangelhos e não pode haver um quinto". Por conseguinte, no fim do século II e começo do III, o Cânone, no sentido posterior dessa palavra, ainda não fora firmado — o metal em fusão do Evangelho continuava a ferver ainda. |
| Como vieram os *Agrapha* até nós? | Como vieram os *Agrapha* até nós? |
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| É provável que numerosos códices antigos, semelhantes aos códices *Cantabrigensis D* e *Syrus-Sinaiticus*, salvos por milagre, foram conservados nas bibliotecas dos conventos até o século IV, época em que foi estabelecido o Cânone (em 382, com o papa Dâmaso), e foram em seguida destruídos. Foi deles que os Padres da Igreja tiraram os *agrapha*. Assim, [[ate-agostinho:atanasio:start|Atanásio]] do Sinai se serviu do códice *Sinaiticus* e [[philokalia:philokalia-autores:macariana:start|Macário o Grande]], dos códices conservados nas células do deserto de Sceté. Eis por que, nos escritos dos Padres, as palavras não "canônicas" do Senhor não se distinguem das palavras canônicas. | É provável que numerosos códices antigos, semelhantes aos códices *Cantabrigensis D* e *Syrus-Sinaiticus*, salvos por milagre, foram conservados nas bibliotecas dos conventos até o século IV, época em que foi estabelecido o Cânone (em 382, com o papa Dâmaso), e foram em seguida destruídos. Foi deles que os Padres da Igreja tiraram os *agrapha*. Assim, Atanásio do Sinai se serviu do códice *Sinaiticus* e Macário o Grande, dos códices conservados nas células do deserto de Sceté. Eis por que, nos escritos dos Padres, as palavras não "canônicas" do Senhor não se distinguem das palavras canônicas. |
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| Somente com o Cânone nasceu e cresceu o receio que não fosse relatado no Evangelho, do que não fosse "canônico", tanto que, no século XVI, o teólogo reformado Teodoro de Béze, tendo achado no mosteiro de Santo Irineu, em Lião, o códice D, um arquétipo judaico-cristão datando de 140, isto é duzentos e cinquenta anos mais antigo que o Cânone, contendo numerosos *agrapha*, ficou tão assombrado que o mandou secretamente à Universidade de Cambridge, com esta nota: *Asservandum potius quam publicandum*, "é melhor esconder do que publicar", e o códice, com efeito, ficou escondido duzentos anos, como "uma candeia sob a lenha". | Somente com o Cânone nasceu e cresceu o receio que não fosse relatado no Evangelho, do que não fosse "canônico", tanto que, no século XVI, o teólogo reformado Teodoro de Béze, tendo achado no mosteiro de Santo Irineu, em Lião, o códice D, um arquétipo judaico-cristão datando de 140, isto é duzentos e cinquenta anos mais antigo que o Cânone, contendo numerosos *agrapha*, ficou tão assombrado que o mandou secretamente à Universidade de Cambridge, com esta nota: *Asservandum potius quam publicandum*, "é melhor esconder do que publicar", e o códice, com efeito, ficou escondido duzentos anos, como "uma candeia sob a lenha". |
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| Nos nossos dias, essa candeia, o *Agraphon*, não foi inteiramente retirada de sob a lenha, talvez porque se não possa revelar aos homens o mistério [[biblia:figuras:divindade:divino:start|Divino]] — ele é que se revela por si mesmo. | Nos nossos dias, essa candeia, o *Agraphon*, não foi inteiramente retirada de sob a lenha, talvez porque se não possa revelar aos homens o mistério Divino — ele é que se revela por si mesmo. |
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| "Mais vale deixar em paz todos os *agrapha*", aconselha um dos críticos mais liberais (13), e mesmo um sábio tão grande como Harnack, que não duvida da autenticidade histórica de grande número de *agrapha*, "desde que se toca na essência do cristianismo", cala-os, esconde-os, como o velho Béze: "é melhor esconder do que publicar". | "Mais vale deixar em paz todos os *agrapha*", aconselha um dos críticos mais liberais (13), e mesmo um sábio tão grande como Harnack, que não duvida da autenticidade histórica de grande número de *agrapha*, "desde que se toca na essência do cristianismo", cala-os, esconde-os, como o velho Béze: "é melhor esconder do que publicar". |
| - VIII** | - VIII** |
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| No fim do último século, nos confins do deserto da Líbia, lá onde fora a antiga cidade egípcia de Oxirrinco, descobriu-se num túmulo cristão do século II ou do III três fragmentos de papiro meio consumidos, provenientes, sem dúvida, dum escapulário que o defunto trazia sobre o peito e haviam enterrado com ele. Nesses fragmentos, se haviam conservado milagrosamente quarenta e duas linhas de texto grego com seis *agrapha* e o início dum sétimo (14). Não se encontrarão ainda outros um dia nessa terra de que se disse: "Eu chamei meu [[biblia:figuras:pai-mae-filho:filho:start|Filho]] do Egito" (Os., 2, 1.) ? Para "aqueles que sabem", esses fragmentos serão mais preciosos do que todos os tesouros do mundo. | No fim do último século, nos confins do deserto da Líbia, lá onde fora a antiga cidade egípcia de Oxirrinco, descobriu-se num túmulo cristão do século II ou do III três fragmentos de papiro meio consumidos, provenientes, sem dúvida, dum escapulário que o defunto trazia sobre o peito e haviam enterrado com ele. Nesses fragmentos, se haviam conservado milagrosamente quarenta e duas linhas de texto grego com seis *agrapha* e o início dum sétimo (14). Não se encontrarão ainda outros um dia nessa terra de que se disse: "Eu chamei meu Filho do Egito" (Os., 2, 1.) ? Para "aqueles que sabem", esses fragmentos serão mais preciosos do que todos os tesouros do mundo. |
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| Essas palavras do Senhor que se acaba de reconhecer — que acabam de ser ditas — varrem de nossos olhos, como pelo sopro dos Lábios Divinos, a poeira do hábito milenar — essa falta de admiração que mais do que tudo nos impede de ver o Evangelho. Fica-se como um cego que, recobrando subitamente a vista, se espanta — e se amedronta. É então que se compreende o sentido destas palavras: | Essas palavras do Senhor que se acaba de reconhecer — que acabam de ser ditas — varrem de nossos olhos, como pelo sopro dos Lábios Divinos, a poeira do hábito milenar — essa falta de admiração que mais do que tudo nos impede de ver o Evangelho. Fica-se como um cego que, recobrando subitamente a vista, se espanta — e se amedronta. É então que se compreende o sentido destas palavras: |
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| "O primeiro grau do conhecimento superior (a [[gnosticismo:gnose:gnose:start|Gnose]]) reside no espanto. Que aquele que busca não repouse... enquanto não tiver achado; e, tendo achado, ficará espantado; estando espantado, reinará; reinando, repousará (15)". | "O primeiro grau do conhecimento superior (a Gnose) reside no espanto. Que aquele que busca não repouse... enquanto não tiver achado; e, tendo achado, ficará espantado; estando espantado, reinará; reinando, repousará (15)". |
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| Em lugar de "espantado", há em outra versão: "amedrontado" (16), o que é talvez mais exato: o espanto do primeiro navegante que avista novas estrelas parece-se com o medo. | Em lugar de "espantado", há em outra versão: "amedrontado" (16), o que é talvez mais exato: o espanto do primeiro navegante que avista novas estrelas parece-se com o medo. |
| - XII** | - XII** |
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| "Tu viste teu irmão, tu viste teu [[biblia:figuras:divindade:deus:start|Deus]] (21)". | "Tu viste teu irmão, tu viste teu Deus (21)". |
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| "Senhor, terias dito isso?" — "Eu nunca disse outra coisa". | "Senhor, terias dito isso?" — "Eu nunca disse outra coisa". |
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| "Não vos alegreis senão quando virdes vosso irmão na caridade (na graça de Deus) (22). — Deve-se perdoar a seu irmão setenta e sete vezes... Porque se acharam palavras culposas mesmo entre os profetas ungidos pelo [[biblia:figuras:espirito-santo:start|Espírito Santo]] (23)". | "Não vos alegreis senão quando virdes vosso irmão na caridade (na graça de Deus) (22). — Deve-se perdoar a seu irmão setenta e sete vezes... Porque se acharam palavras culposas mesmo entre os profetas ungidos pelo Espírito Santo (23)". |
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| Segundo a regra geral da crítica evangélica, que quer que uma palavra seja tanto mais autêntica quanto mais incrível, essa frase é autêntica, porque sua segunda parte sobre o Espírito é "incrível". | Segundo a regra geral da crítica evangélica, que quer que uma palavra seja tanto mais autêntica quanto mais incrível, essa frase é autêntica, porque sua segunda parte sobre o Espírito é "incrível". |
| - XIII** | - XIII** |
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| O primeiro pedido da [[oracao:start|oração]] dominical no Evangelho: "Santificado seja o vosso nome" está para nós tão coberto pela poeira do hábito que quase nada mais significa; quando os lábios pronunciam essas palavras, o coração quase as não ouve mais, do mesmo modo que não ouvimos na poeira o rumor de nossos passos. Mas o *Agraphon* varre esse pó: | O primeiro pedido da oração dominical no Evangelho: "Santificado seja o vosso nome" está para nós tão coberto pela poeira do hábito que quase nada mais significa; quando os lábios pronunciam essas palavras, o coração quase as não ouve mais, do mesmo modo que não ouvimos na poeira o rumor de nossos passos. Mas o *Agraphon* varre esse pó: |
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| "Que o Espírito (Santo) desça sobre nós e nos purifique (25)". | "Que o Espírito (Santo) desça sobre nós e nos purifique (25)". |
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| A candeia foi retirada de sob a lenha e toda a oração se ilumina com uma nova luz. Somente agora o terceiro pedido, o principal: "Venha a nós o vosso reino" recebe um novo sentido, "espantoso": não é mais o primeiro, o antigo reino do [[estudos:ernst-benz:pai:start|Pai]], nem o segundo, o do Filho, porém o terceiro, o futuro — o do Espírito. | A candeia foi retirada de sob a lenha e toda a oração se ilumina com uma nova luz. Somente agora o terceiro pedido, o principal: "Venha a nós o vosso reino" recebe um novo sentido, "espantoso": não é mais o primeiro, o antigo reino do Pai, nem o segundo, o do Filho, porém o terceiro, o futuro — o do Espírito. |
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| A poeira foi varrida do caminho da humanidade, da história universal, pelo sopro do Espírito Santo, e quem não ouvirá seu passo retumbante? | A poeira foi varrida do caminho da humanidade, da história universal, pelo sopro do Espírito Santo, e quem não ouvirá seu passo retumbante? |
| É por essa palavra misteriosa — cochicho "na obscuridade, ao ouvido", — talvez somente ao meio dos eleitos, dos três de entre os Doze, que Jesus começa, no "Evangelho dos Hebreus", o relato da Tentação (porque quem, além dele, o poderia conhecer e relatar?). | É por essa palavra misteriosa — cochicho "na obscuridade, ao ouvido", — talvez somente ao meio dos eleitos, dos três de entre os Doze, que Jesus começa, no "Evangelho dos Hebreus", o relato da Tentação (porque quem, além dele, o poderia conhecer e relatar?). |
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| A [[evangelho-de-jesus:sermao-da-montanha:julgar:start|JULGAR]] pelo fato dessa palavra só poder ser compreendida ou pelo coração ou pelo entendimento humano, mas na língua natal de Jesus, o aramaico, pois é a única em que o termo "espírito", *Rucha*, é, não masculino, como em latim, nem neutro, como em grego, porém feminino, esse *Agraphon* é um dos mais antigos e mais autênticos *logia* aramaicos. Mas não sabemos o que fazer dele, embora toque no [[philokalia:philokalia-termos:dogma:start|dogma]]-experiência fundamental do cristianismo — a Trindade. Não sabemos; entretanto, as velhas e as criancinhas que oram singelamente à Mãe, | A JULGAR pelo fato dessa palavra só poder ser compreendida ou pelo coração ou pelo entendimento humano, mas na língua natal de Jesus, o aramaico, pois é a única em que o termo "espírito", *Rucha*, é, não masculino, como em latim, nem neutro, como em grego, porém feminino, esse *Agraphon* é um dos mais antigos e mais autênticos *logia* aramaicos. Mas não sabemos o que fazer dele, embora toque no dogma-experiência fundamental do cristianismo — a Trindade. Não sabemos; entretanto, as velhas e as criancinhas que oram singelamente à Mãe, |
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| "Ardente Protetora do mundo regelado", talvez saibam. | "Ardente Protetora do mundo regelado", talvez saibam. |
| - XV** | - XV** |
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| Somente quem teve fome sabe o que é fome e compreenderá por que os "pobres de Deus", os Ebionitas, não rezam inteiramente como nós. Eles não dizem: "O [[oracao:pai-nosso:pao-nosso-de-cada-dia:start|pão nosso de cada dia]] dai-nos hoje", porém: "Dai-nos hoje nosso pão de amanhã" (27). Talvez as duas formas sejam igualmente autênticas: cada um reza a seu modo. A primeira é evidentemente mais elevada, mais celeste; a segunda, mais terra a terra, mais misericordiosa. | Somente quem teve fome sabe o que é fome e compreenderá por que os "pobres de Deus", os Ebionitas, não rezam inteiramente como nós. Eles não dizem: "O pão nosso de cada dia dai-nos hoje", porém: "Dai-nos hoje nosso pão de amanhã" (27). Talvez as duas formas sejam igualmente autênticas: cada um reza a seu modo. A primeira é evidentemente mais elevada, mais celeste; a segunda, mais terra a terra, mais misericordiosa. |
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| Nessa segunda forma, a agulha da bússola cristã imperceptivelmente variou, estremeceu invisivelmente, e todo o clima do cristianismo logo se modificou, mudando-se do polo para o equador. | Nessa segunda forma, a agulha da bússola cristã imperceptivelmente variou, estremeceu invisivelmente, e todo o clima do cristianismo logo se modificou, mudando-se do polo para o equador. |
| As "crianças" deixam cair o pão sob a mesa e ele é apanhado pelos "cães" — pelos "infiéis". Eis a palavra do Senhor que se encontra no Corão: | As "crianças" deixam cair o pão sob a mesa e ele é apanhado pelos "cães" — pelos "infiéis". Eis a palavra do Senhor que se encontra no Corão: |
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| "Homens, ajudai a Deus, como disse o Filho de [[biblia:figuras:nt-personagens:maria:start|Maria]]: quem é aquele que é meu auxiliar em Deus? E seus discípulos responderam: nós (40)". | "Homens, ajudai a Deus, como disse o Filho de Maria: quem é aquele que é meu auxiliar em Deus? E seus discípulos responderam: nós (40)". |
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| Que Deus ajude aos homens — os "fiéis" sabem; que os homens ajudem a Deus — os "infiéis" sabem. Eis por que "aquele que não carrega sua cruz não é meu irmão". Irmão, ajudai o Irmão. As "crianças" esqueceram e os "cães" se lembram. Como, então, poderia ele não dizer: "Em nenhum homem em [[philokalia:philokalia-termos:israel:start|Israel]] encontrei tão grande fé" (Mt., 8, 10.). | Que Deus ajude aos homens — os "fiéis" sabem; que os homens ajudem a Deus — os "infiéis" sabem. Eis por que "aquele que não carrega sua cruz não é meu irmão". Irmão, ajudai o Irmão. As "crianças" esqueceram e os "cães" se lembram. Como, então, poderia ele não dizer: "Em nenhum homem em Israel encontrei tão grande fé" (Mt., 8, 10.). |
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| "Que podridão! exclamaram os discípulos, passando perto do cadáver dum cão. "Como seus dentes são brancos, disse Jesus" (41). | "Que podridão! exclamaram os discípulos, passando perto do cadáver dum cão. "Como seus dentes são brancos, disse Jesus" (41). |
| "Jesus — que a paz seja com ele — disse: o mundo é esta ponte; passa por ela, mas nela não construas a tua casa (42)". | "Jesus — que a paz seja com ele — disse: o mundo é esta ponte; passa por ela, mas nela não construas a tua casa (42)". |
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| É uma inscrição árabe no frontão duma ponte desabada no meio das ruínas duma cidade que um imperador mongol construiu para sua glória, num deserto inacessível da Índia setentrional, depois abandonada. Embora essa palavra não seja autêntica, parece apanhada, senão pelo ouvido, ao menos pelo coração, no [[evangelho-de-jesus:sermao-da-montanha:start|sermão da Montanha]]. Esse pólen da flor galilaica por que vento teria sido levado à Índia, a não ser pelo sopro de seus lábios, pelo Espírito? | É uma inscrição árabe no frontão duma ponte desabada no meio das ruínas duma cidade que um imperador mongol construiu para sua glória, num deserto inacessível da Índia setentrional, depois abandonada. Embora essa palavra não seja autêntica, parece apanhada, senão pelo ouvido, ao menos pelo coração, no sermão da Montanha. Esse pólen da flor galilaica por que vento teria sido levado à Índia, a não ser pelo sopro de seus lábios, pelo Espírito? |
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| Com quantos corações amantes teve de se alongar essa cadeia ardente que vai d'Ele até essa inscrição! Não é a prova que sua "voz viva e inesgotável", de geração a geração, de século em século: "Vistes?" — "Vimos". — "Ouvistes?" — "Ouvimos", retumba, não só no cristianismo, na Igreja, porém em toda a humanidade? Isto significa que a única e invisível Igreja Universal é maior do que pensamos, maior do que ela própria pensa. | Com quantos corações amantes teve de se alongar essa cadeia ardente que vai d'Ele até essa inscrição! Não é a prova que sua "voz viva e inesgotável", de geração a geração, de século em século: "Vistes?" — "Vimos". — "Ouvistes?" — "Ouvimos", retumba, não só no cristianismo, na Igreja, porém em toda a humanidade? Isto significa que a única e invisível Igreja Universal é maior do que pensamos, maior do que ela própria pensa. |
| Basta à paleontologia um pequeno osso para reconstituir um animal antediluviano, um mundo desaparecido; um raio de estrela é suficiente para a análise espectral reacender o sol apagado; talvez um *Agraphon* seja bastante para a crítica evangélica esclarecer o que há ainda de muito obscuro na vida e no semblante de Jesus Desconhecido. | Basta à paleontologia um pequeno osso para reconstituir um animal antediluviano, um mundo desaparecido; um raio de estrela é suficiente para a análise espectral reacender o sol apagado; talvez um *Agraphon* seja bastante para a crítica evangélica esclarecer o que há ainda de muito obscuro na vida e no semblante de Jesus Desconhecido. |
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| Atualmente, porém, é quase o caso de dar graças a Deus que pouca gente o saiba e que se não possa revelar aos homens esse mistério divino, enquanto ele se não revelar por si mesmo. A fonte mais fresca é aquela em que ninguém ainda bebeu: essa, a frescura dos *Agrapha*. O primeiro [[estudos:danielou:gregorio-nissa-platonismo:mistica-do-batismo:beijo:start|Beijo]] de amor é o mais doce. A doçura dos *Agrapha* é a mesma. Entretanto, faz medo: é como se ele próprio nos falasse baixinho, ao ouvido, na escuridão. | Atualmente, porém, é quase o caso de dar graças a Deus que pouca gente o saiba e que se não possa revelar aos homens esse mistério divino, enquanto ele se não revelar por si mesmo. A fonte mais fresca é aquela em que ninguém ainda bebeu: essa, a frescura dos *Agrapha*. O primeiro Beijo de amor é o mais doce. A doçura dos *Agrapha* é a mesma. Entretanto, faz medo: é como se ele próprio nos falasse baixinho, ao ouvido, na escuridão. |
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| Se está conosco, "todos os dias até o fim do mundo", certamente não se cala, mas fala, essa palavra eterna é o *Agraphon*. O coração do homem é, por sua vez, também, um *agraphon* do Senhor; e talvez sem essa palavra não se soubesse ler o Evangelho. | Se está conosco, "todos os dias até o fim do mundo", certamente não se cala, mas fala, essa palavra eterna é o *Agraphon*. O coração do homem é, por sua vez, também, um *agraphon* do Senhor; e talvez sem essa palavra não se soubesse ler o Evangelho. |
| - XXV** | - XXV** |
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| E, apesar de tudo isso: "*vita Jesu Cristi scribi nequit*, a vida de Jesus Cristo não pode ser escrita (44)". Essa antiga tese de Harnack, que remonta aos anos 70, mas que parece não ter envelhecido, foi retomada em nossos dias por Wellhausen: mesmo em Marcos, não sabemos sobre Jesus senão o extraordinário, enquanto que o quotidiano — de onde é, quem são seus [[philokalia:philokalia-termos:pais:start|pais]], em que época, onde e como viveu — nos escapa (45). Mas, em primeiro lugar, o conhecimento cada vez maior e mais exato do ambiente judaico religioso e social do tempo nos permite entrever o que foi a vida "quotidiana" de Jesus. Na verdade, é pouco, porém importante. Em segundo lugar, o próprio Jesus é tão extraordinário — o que mesmo Wellhausen admite — que não é razoavelmente para deplorar que as testemunhas de sua vida nos tenham contado as coisas extraordinárias e não as quotidianas. Afinal, em terceiro lugar, de Édipo, Hamlet e Fausto somente conhecemos o que tiveram de extraordinário; quanto aos últimos, sobre alguns meses de sua existência; quanto ao primeiro, sobre algumas horas. Todavia, nosso conhecimento é tão profundo que, se possuíssemos o indispensável dom poético, profético, poderíamos, com esse segmento visível, reconstituir todo o círculo invisível, relatar toda a sua vida. De Jesus também, só sabemos o "extraordinário", porém durante pelo menos um ano, senão dois ou três anos. Por que, então, não poderíamos, se dispuséssemos do talento necessário, restaurar por esse trecho o círculo completo de sua existência? | E, apesar de tudo isso: "*vita Jesu Cristi scribi nequit*, a vida de Jesus Cristo não pode ser escrita (44)". Essa antiga tese de Harnack, que remonta aos anos 70, mas que parece não ter envelhecido, foi retomada em nossos dias por Wellhausen: mesmo em Marcos, não sabemos sobre Jesus senão o extraordinário, enquanto que o quotidiano — de onde é, quem são seus pais, em que época, onde e como viveu — nos escapa (45). Mas, em primeiro lugar, o conhecimento cada vez maior e mais exato do ambiente judaico religioso e social do tempo nos permite entrever o que foi a vida "quotidiana" de Jesus. Na verdade, é pouco, porém importante. Em segundo lugar, o próprio Jesus é tão extraordinário — o que mesmo Wellhausen admite — que não é razoavelmente para deplorar que as testemunhas de sua vida nos tenham contado as coisas extraordinárias e não as quotidianas. Afinal, em terceiro lugar, de Édipo, Hamlet e Fausto somente conhecemos o que tiveram de extraordinário; quanto aos últimos, sobre alguns meses de sua existência; quanto ao primeiro, sobre algumas horas. Todavia, nosso conhecimento é tão profundo que, se possuíssemos o indispensável dom poético, profético, poderíamos, com esse segmento visível, reconstituir todo o círculo invisível, relatar toda a sua vida. De Jesus também, só sabemos o "extraordinário", porém durante pelo menos um ano, senão dois ou três anos. Por que, então, não poderíamos, se dispuséssemos do talento necessário, restaurar por esse trecho o círculo completo de sua existência? |
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| Jülicher defende mais solidamente a tese de Harnack. "Não podemos saber pelos Evangelhos senão o que Jesus parecia ser à primeira comunidade dos fiéis, mas não o que ele realmente foi; nossa vista não alcança tão longe; o horizonte evangélico nos está para sempre fechado pelos altos cimos da fé das primeiras comunidades (46)". Não, não para sempre: todos os "sinais de contradição" (Lc., 2, 35.), todas as "perplexidades", todos os "escândalos" (*feliz aquele que se não escandalizará de mim!* Mt., 11, 6.), não somente das personagens evangélicas, mas talvez dos próprios Evangelistas, são outras tantas fendas na muralha aparentemente inteiriça da tradição; por elas nós avistamos ou podemos avistar, não só o que Jesus parecia ser, como o que realmente era. | Jülicher defende mais solidamente a tese de Harnack. "Não podemos saber pelos Evangelhos senão o que Jesus parecia ser à primeira comunidade dos fiéis, mas não o que ele realmente foi; nossa vista não alcança tão longe; o horizonte evangélico nos está para sempre fechado pelos altos cimos da fé das primeiras comunidades (46)". Não, não para sempre: todos os "sinais de contradição" (Lc., 2, 35.), todas as "perplexidades", todos os "escândalos" (*feliz aquele que se não escandalizará de mim!* Mt., 11, 6.), não somente das personagens evangélicas, mas talvez dos próprios Evangelistas, são outras tantas fendas na muralha aparentemente inteiriça da tradição; por elas nós avistamos ou podemos avistar, não só o que Jesus parecia ser, como o que realmente era. |
| Para fugir a essas deduções absurdas e blásfemas, somos forçados a reconhecer que a vida de Jesus não é somente uma vida humana, porém alguma coisa mais — talvez o que dela dizem as primeiras palavras da primeira testemunha, Marcos-Pedro: | Para fugir a essas deduções absurdas e blásfemas, somos forçados a reconhecer que a vida de Jesus não é somente uma vida humana, porém alguma coisa mais — talvez o que dela dizem as primeiras palavras da primeira testemunha, Marcos-Pedro: |
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| "Começo do [[evangelho-de-jesus:start|Evangelho de Jesus]] Cristo, Filho de Deus". | "Começo do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus". |
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| - XXVIII** | - XXVIII** |
| A palavra "mártires" significa "confessores", "testemunhas", — evidentemente do Cristo. São eles talvez os que possuem essa experiência que nos falta; são eles talvez os que sabem da vida do Cristo o que ignoramos. | A palavra "mártires" significa "confessores", "testemunhas", — evidentemente do Cristo. São eles talvez os que possuem essa experiência que nos falta; são eles talvez os que sabem da vida do Cristo o que ignoramos. |
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| Assim, São Justino Mártir, dizendo ao César romano com uma dignidade maior do que a de Brutus: "Podeis matar-nos, porém não nos podeis fazer mal (51)". Assim, Santo Inácio de Antioquia (aí pelo ano 107), o qual, dirigindo-se ao Coliseu, rezava: "Eu sou o trigo do Senhor e serei moído pelos dentes das feras para me tornar o pão do Cristo (52)". Também se os mártires de Lião, no ano 177, não tivessem crido tão firmemente que, na [[medievo:tomas-de-aquino:aquino-resurrectio:start|ressurreição dos mortos]], Deus recolheria todas as parcelas das cinzas de seus corpos queimados atiradas ao Ródano, formando com elas exatamente os mesmos corpos que haviam tido em vida, mas já "glorificados"; se, para eles, o fogo que os queimava e o ferro que os torturava não tivessem sido menos reais e menos palpáveis que o corpo do Senhor ressuscitado, quem sabe se teriam podido suportar o suplício com tal constância que, ao outro dia, seus algozes convertidos ao Cristo se entregaram às mesmas torturas? | Assim, São Justino Mártir, dizendo ao César romano com uma dignidade maior do que a de Brutus: "Podeis matar-nos, porém não nos podeis fazer mal (51)". Assim, Santo Inácio de Antioquia (aí pelo ano 107), o qual, dirigindo-se ao Coliseu, rezava: "Eu sou o trigo do Senhor e serei moído pelos dentes das feras para me tornar o pão do Cristo (52)". Também se os mártires de Lião, no ano 177, não tivessem crido tão firmemente que, na ressurreição dos mortos, Deus recolheria todas as parcelas das cinzas de seus corpos queimados atiradas ao Ródano, formando com elas exatamente os mesmos corpos que haviam tido em vida, mas já "glorificados"; se, para eles, o fogo que os queimava e o ferro que os torturava não tivessem sido menos reais e menos palpáveis que o corpo do Senhor ressuscitado, quem sabe se teriam podido suportar o suplício com tal constância que, ao outro dia, seus algozes convertidos ao Cristo se entregaram às mesmas torturas? |
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| Quem sabe se, para esses "videntes", essas "testemunhas", a vida do Cristo não se ilumina com clarões fulgurantes até a profundezas que nenhuma vida humana jamais conheceu? Quem sabe não é, para eles, mais real, mais memorável, mais conhecida do que a sua própria? | Quem sabe se, para esses "videntes", essas "testemunhas", a vida do Cristo não se ilumina com clarões fulgurantes até a profundezas que nenhuma vida humana jamais conheceu? Quem sabe não é, para eles, mais real, mais memorável, mais conhecida do que a sua própria? |
| - XXIX** | - XXIX** |
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| "Se mudas, não és a verdade", assim [[contra-reforma:bossuet:start|Bossuet]] afirma a imutabilidade, a imobilidade do Cânone e do Dogma (55). Poder-se-ia replicar-lhe: "Se não mudas, não és a vida". O Evangelho muda perpetuamente, porque vive perpetuamente. Tantos séculos, tantos povos e até tantos homens — quantos Evangelhos. Cada qual o lê, o escreve, exatamente ou inexatamente, tolamente ou sabiamente, culposamente ou santamente, porém a seu modo, — de nova maneira. E, em todos esses Evangelhos, só há um e o mesmo Evangelho, como em todas gotas de orvalho o reflexo de um único e mesmo sol. | "Se mudas, não és a verdade", assim Bossuet afirma a imutabilidade, a imobilidade do Cânone e do Dogma (55). Poder-se-ia replicar-lhe: "Se não mudas, não és a vida". O Evangelho muda perpetuamente, porque vive perpetuamente. Tantos séculos, tantos povos e até tantos homens — quantos Evangelhos. Cada qual o lê, o escreve, exatamente ou inexatamente, tolamente ou sabiamente, culposamente ou santamente, porém a seu modo, — de nova maneira. E, em todos esses Evangelhos, só há um e o mesmo Evangelho, como em todas gotas de orvalho o reflexo de um único e mesmo sol. |
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| Para aquele que abrir o Evangelho, todos os outros livros se fecharão; aquele que começar a pensar nisso não pensará mais em outra coisa e nada perderá, porque todos os pensamentos vêm dele e para ele vão. Depois desse sal, tudo é insípido; depois dessa "Divina Comédia", todas as tragédias humanas são fastidiosas. E, se nosso mundo, a despeito de todas as suas terríveis chatices, continua terrivelmente profundo e santo, é unicamente porque ele passou pelo mundo. | Para aquele que abrir o Evangelho, todos os outros livros se fecharão; aquele que começar a pensar nisso não pensará mais em outra coisa e nada perderá, porque todos os pensamentos vêm dele e para ele vão. Depois desse sal, tudo é insípido; depois dessa "Divina Comédia", todas as tragédias humanas são fastidiosas. E, se nosso mundo, a despeito de todas as suas terríveis chatices, continua terrivelmente profundo e santo, é unicamente porque ele passou pelo mundo. |
| Como olhá-lo com olhos impuros? Como falar-lhe com lábios impuros? Como amá-lo com um coração impuro? | Como olhá-lo com olhos impuros? Como falar-lhe com lábios impuros? Como amá-lo com um coração impuro? |
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| "Um [[evangelho-de-jesus:milagres-de-jesus:leproso:start|Leproso]] veio a ele e, ajoelhando-se, dirigiu-lhe esta súplica: Se quiseres, eu ficarei limpo. Jesus, cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou-o e disse: Eu o quero, fica limpo (Mc., 1, 40-42.)". | "Um Leproso veio a ele e, ajoelhando-se, dirigiu-lhe esta súplica: Se quiseres, eu ficarei limpo. Jesus, cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou-o e disse: Eu o quero, fica limpo (Mc., 1, 40-42.)". |
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| Só assim, como leprosos, poderemos tocá-lo. Talvez os pecadores saibam sobre ele mais do que os santos e os que perecem mais do que os que se salvam. Se o leproso sabia, nós também talvez saibamos. | Só assim, como leprosos, poderemos tocá-lo. Talvez os pecadores saibam sobre ele mais do que os santos e os que perecem mais do que os que se salvam. Se o leproso sabia, nós também talvez saibamos. |