estudos:mcginn:apocalipses:start
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| + | ===== APOCALIPSES ===== | ||
| + | //MCGINN, Bernard. Apocalyptic spirituality treatises and letters of Lactantius, Adso of Montier-en-Der, | ||
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| + | ** Introdução ** | ||
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| + | * O consenso interpretativo inicial acerca da literatura apocalíptica costuma ser marcado por uma recepção baseada em ironia fria. | ||
| + | * Desinteresse da mentalidade moderna, científica e racionalista em relação às profecias tradicionais fundadas na revelação divina. | ||
| + | * Perda de viabilidade do apocalipse bíblico entre cristãos crentes devido à desmitologização da mensagem das Escrituras. | ||
| + | * O Livro de Daniel e o Apocalipse de João surgem como exemplos máximos dessa vertente ao exibirem visões bizarras e símbolos exuberantes. | ||
| + | * Surgimento histórico de uma corrente de profetas e publicistas apocalípticos cujos anúncios sobre a proximidade do fim foram superados pelo tempo. | ||
| + | * A permanência de elementos do apocalipsismo literal manifesta-se de modo expressivo em diversos grupos fundamentalistas e carismáticos contemporâneos. | ||
| + | * Sucesso editorial das obras de Hal Lindsey como evidência de milhões de leitores convencidos pelas aplicações literais das profecias bíblicas. | ||
| + | * O fenômeno interpretativo do apocalipse espalha-se para além dos círculos religiosos menos respeitáveis por meio de disfarces seculares. | ||
| + | * Argumentação de J.V. Schall definindo o apocalipse na atualidade como um fenômeno eminentemente científico em vez de religioso. | ||
| + | * Presença de profetas da perdição iminente que baseiam suas leituras em revelações científicas obscuras e controversas. | ||
| + | * As projeções científicas sobre a expansão populacional, | ||
| + | * Uso do estilo e da forma da mensagem, além da conclamação à ação, para caracterizar a obra An Inquiry into the Human Prospect, de Robert Heilbroner, como um apocalipse secular. | ||
| + | * O panorama investigativo dos últimos decênios direcionou-se para a compreensão do significado teológico do apocalipsismo nos pensamentos judeu e cristão. | ||
| + | * Multiplicação de estudos sobre as origens bíblicas e intertestamentárias enriquecidos por melhores edições de textos e pesquisas detalhadas para definir o gênero. | ||
| + | * A persistência de desacordos sobre questões centrais caminha paralelamente ao crescimento considerável do conhecimento e do interesse pelo tema nas últimas décadas. | ||
| + | * O reavivamento do interesse pelo papel do apocalipsismo alcançou a teologia contemporânea com reflexões profundas de grandes pensadores. | ||
| + | * Dedicação de teólogos alemães como Ernst Käsemann, Wolfhart Pannenberg, Karl Rahner e Jürgen Moltmann ao significado teológico do apocalipsismo. | ||
| + | * Estudo recente do teólogo suíço H. Mottu sobre as implicações teológicas contemporâneas de Joaquim de Fiore, o principal autor apocalíptico medieval. | ||
| + | * Validação do apocalipsismo como uma preocupação séria para o cristianismo atual demonstrada pela existência dessas recuperações críticas. | ||
| + | * O foco majoritário das pesquisas recentes fixou-se na teologia apocalíptica e na coerência dos sistemas de pensamento. | ||
| + | * Concentração dos trabalhos nos períodos do Novo Testamento e intertestamental, | ||
| + | * A espiritualidade apocalíptica configura-se como uma das áreas menos exploradas pelas investigações, | ||
| + | * A presente obra propõe-se a contribuir para o conhecimento da espiritualidade apocalíptica nos períodos patrístico e medieval. | ||
| + | * O escopo do livro afasta-se do pensamento ou da teologia apocalíptica em si, abdicando de esboços históricos gerais ou da resolução de disputas teóricas. | ||
| + | * A busca por detalhes do cenário dos últimos eventos encontra textos mais essenciais em outras fontes fora desta coletânea. | ||
| + | * A seleção dos tratados e das cartas justificou-se pela capacidade desses textos em manifestar como as crenças no fim iminente afetavam a vida dos fiéis. | ||
| + | * Revelação do senso particular do divino no publicista apocalíptico e da consciência de missão que movia os seus esforços. | ||
| + | * A exortação de visões e ações direcionadas ao público leitor constitui o objetivo primordial das obras selecionadas. | ||
| + | * A extensão temporal dos textos abrange quase doze séculos sob a autoria de diversos escritores e circunstâncias variadas. | ||
| + | * Necessidade de introduções individuais para cada uma das cinco seções com o intuito de ambientar as leituras. | ||
| + | * A introdução geral destina-se ao exame de duas questões amplas e de caráter teórico. | ||
| + | * A primeira questão conceitual refere-se ao próprio termo apocalipsismo e aos critérios para julgar quais obras pertencem a essa categoria. | ||
| + | * A segunda indagação avalia a utilidade e a abrangência da noção de espiritualidade apocalíptica ao longo dos séculos. | ||
| + | * A escassez de trabalhos prévios nessa área reduz as presentes observações a guias para investigações futuras, sem pretensão de conclusões fixas. | ||
| + | * O propósito das seleções concentra-se na apresentação das evidências para um público amplo a fim de estimular novos debates. | ||
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| + | ** O Conceito de Apocalipsismo ** | ||
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| + | * O entendimento etimológico do apocalipsismo liga-se à palavra grega para revelação, | ||
| + | * Ocultamento de debates acadêmicos e de confusões populares por trás dessa definição comum de dicionário. | ||
| + | * A imprecisão terminológica decorre das relações complexas com vocábulos afins como escatologia, | ||
| + | * A exigência de explicações preliminares sobre o uso dos termos atua como um dever mínimo dos autores, dispensando o acordo universal. | ||
| + | * A ausência dessas definições ou a interpretação baseada em ideias preconcebidas geram confusões desnecessárias na literatura. | ||
| + | * O apocalipsismo define-se estritamente como uma forma particular de escatologia, | ||
| + | * Distinção no Antigo Testamento entre uma escatologia profética e uma escatologia apocalíptica. | ||
| + | * Caráter antia pocalíptico da escatologia agostiniana na história cristã posterior. | ||
| + | * A amplitude do conceito de profecia engloba o apocalipsismo, | ||
| + | * Inclusão de todos os apocalipcistas na categoria de profetas, sem que a recíproca seja verdadeira devido à especificidade da mensagem. | ||
| + | * O traço distintivo do apocalipsismo face à escatologia geral reside fundamentalmente no senso de proximidade do fim. | ||
| + | * A singularidade do apocalipcista como um tipo específico de profeta decorre tanto da especificação de sua mensagem quanto de seu caráter culto, escrito ou escribal. | ||
| + | * O milenarismo refere-se em termos gerais às crenças em uma futura sociedade terrestre de caráter mais perfeito. | ||
| + | * Inclusão dessas esperanças nos sistemas apocalípticos judeus e cristãos, com destaque para o reino de mil anos de Cristo e dos santos na Terra proclamado no vigésimo capítulo do Apocalipse. | ||
| + | * A importância dessas expectativas quiliásticas não esgota o conteúdo da mensagem apocalíptica, | ||
| + | * A atividade do Cristo que retorna e de outros agentes divinos insere elementos de messianismo no apocalipsismo. | ||
| + | * Reconhecimento do messianismo como um aspecto do todo e não como a totalidade do fenômeno apocalíptico. | ||
| + | * O tamanho dos problemas nominalistas diminuiria caso houvesse um consenso mínimo entre os estudiosos sobre o núcleo do apocalipsismo. | ||
| + | * A controvérsia sobre a melhor forma de compreender o conteúdo apocalíptico persiste na pesquisa anglo-saxã, | ||
| + | * A maioria das tentativas de listar os componentes essenciais do apocalipsismo baseou-se nos apocalipses judeus do período entre 200 a.C. e 100 d.C.. | ||
| + | * Variedade dessas listas atuando como um aviso sobre a complexidade conceitual e a impossibilidade de redução a uma fórmula única. | ||
| + | * A ampliação da definição para abranger as crenças cristãs e judias tardias sobre o fim iminente acentua as dificuldades de uma fórmula única. | ||
| + | * A substituição de listas rígidas baseadas apenas em exemplos judeus primitivos por uma estrutura de temas inter-relacionados mostra-se mais adequada para abranger séculos de tradição. | ||
| + | * O estágio inicial dessa tarefa metodológica evidencia-se pelas observações preliminares apresentadas pelo autor. | ||
| + | * Os interesses centrais do apocalipsismo situam-se na relação entre o tempo e a eternidade, entre a vida humana na história e o plano eterno do reino celestial de Deus. | ||
| + | * Revelação de uma mensagem do reino celestial por meio do livro do vidente apocalíptico. | ||
| + | * Proclamação de um drama histórico em três atos: provação presente, julgamento iminente e salvação futura. | ||
| + | * A inserção implícita ou explícita desse padrão triplo opera dentro de uma visão da estrutura total da história, expressa em vaticínios sobre as eras do mundo ou a sucessão de impérios. | ||
| + | * Esperança na salvação futura dos justos, individual e coletivamente, | ||
| + | * A superação iminente da morte constitui uma certeza fundamental para o pensador apocalíptico. | ||
| + | * A presença variável desses temas nos apocalipses judeus do período formativo entre 200 a.C. e 100 d.C. moldou o desenvolvimento do apocalipsismo cristão por séculos. | ||
| + | * O apocalipsismo cristão manifestou motivos semelhantes mesmo após o declínio do gênero formal do apocalipse por volta do ano 300 d.C.. | ||
| + | * Busca por uma visão universal da história concebida como uma estrutura divinamente ordenada. | ||
| + | * Pessimismo profundo sobre o presente, interpretado como um tempo de crise, degeneração moral, perseguição dos bons e triunfo dos ímpios. | ||
| + | * Otimismo fundado na crença em um julgamento divino iminente para a punição dos maus e a vindicação dos justos. | ||
| + | * A concepção da vindicação assumiu formas variadas, frequentemente milenaristas, | ||
| + | * A transcendência da morte permaneceu vinculada às esperanças futuras do apocalipsismo desde as suas origens históricas. | ||
| + | * O desdobramento da literatura apocalíptica judia no cristianismo tardio gerou uma dupla descendência expressa em textos apocalípticos e em uma rica literatura visionária sobre o destino da alma após a morte. | ||
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| + | ** Espiritualidade Apocalíptica ** | ||
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| + | * A emergência de uma tradição de espiritualidade apocalíptica secular fundamenta-se na permanência desses grandes temas ao longo dos séculos. | ||
| + | * Reconhecimento das diferenças de substância e nuance contra a rigidez de isolar uma mentalidade apocalíptica única. | ||
| + | * Validação da espiritualidade apocalíptica como uma das vertentes importantes na história da busca cristã por Deus. | ||
| + | * A caracterização da literatura apocalíptica como um instrumento de consolação para aqueles que enfrentam crises e perseguições religiosas constitui um lugar-comum. | ||
| + | * Utilidade inicial desse axioma seguida pelo risco de tornar-se um obstáculo para o aprofundamento do pensamento. | ||
| + | * A ligação entre atitudes apocalípticas e crises profundas — desde a perseguição dos judeus sob Antíoco IV Epifânio até as guerras modernas — foi descrita por Amos N. Wilder. | ||
| + | * Definição da retórica apocalíptica por Amos N. Wilder como a dramatização da hierofania grupal em situações de descontinuidade e caos. | ||
| + | * Atribuição de sentido renovado ao processo histórico no momento de maior anomia por meio de uma revelação extática. | ||
| + | * A exortação à firmeza na hora da provação baseia-se na promessa de que Deus virá em breve para recompensar os justos e punir os inimigos. | ||
| + | * Indagação crítica sobre a exclusividade da crise como causa e da consolação como mensagem única do apocalipsismo. | ||
| + | * A afirmação de Walter Schmithals corrobora que o apocalipsismo supera a mera reação às estruturas causais da realidade existente. | ||
| + | * Rejeição da ideia de causalidade mecânica: a perdição sob Antíoco Epifânio não causou o apocalipsismo judeu, assim como a crise da Igreja no século doze não causou as ideias de Joaquim de Fiore. | ||
| + | * O senso de crise presente atua mais propriamente como ocasião ou contexto do que como força motivadora nesses movimentos históricos. | ||
| + | * O surgimento de estágios importantes da tradição apocalíptica processou-se fora de situações de descontinuidade grave ou de anomia social generalizada. | ||
| + | * A divergência entre as percepções individuais de crise e os julgamentos gerais de uma época ou visões posteriores de historiadores relativiza o peso desse fator. | ||
| + | * Presença de mensageiros do fim na Itália do final do Quattrocento, | ||
| + | * O apocalipcista define-se melhor como alguém que está à procura da crise e não como quem apenas reage a ela de modo passivo. | ||
| + | * A mentalidade apocalíptica constitui uma modalidade de pré-compreensão e não um simples mecanismo de resposta. | ||
| + | * A sensibilidade apurada diante das transformações gera nos apocalipcistas a necessidade de uma estrutura religiosa capaz de absorver e conferir sentido às ansiedades da existência. | ||
| + | * Essa demanda existencial impulsiona a modelagem da história e das vidas desses indivíduos em formas distintas e reconhecíveis. | ||
| + | * A complexidade dos propósitos de difusão das mensagens apocalípticas ultrapassa a categoria exclusiva da consolação. | ||
| + | * Intenção do apocalipcista em consolar com a vindicação futura, fortalecer para a resistência e despertar para o enfrentamento. | ||
| + | * A preocupação com o sentido e a estrutura da história confere amplas implicações políticas ao apocalipsismo no sentido原da governança do Estado. | ||
| + | * Definição do apocalipse como uma forma de retórica política dotada de dimensões religiosas essenciais. | ||
| + | * A proposta apresentada na obra Visions of the End sugere a divisão do discurso apocalíptico medieval entre os modos a priori e a posteriori, dotados de funções positivas e negativas. | ||
| + | * O modo a priori utiliza o drama apocalíptico herdado e suas figuras simbólicas para conferir significado aos eventos correntes. | ||
| + | * Iluminação e motivação do crente para assumir uma posição mediante o encaixe da situação presente no quadro profético. | ||
| + | * A aplicação positiva do modo a priori ocorre no suporte às estruturas da sociedade cristã ameaçada, enquanto a aplicação negativa incita a resistência a governantes vistos como agentes do mal. | ||
| + | * As etapas primitivas do apocalipsismo assumiram majoritariamente o caráter a priori negativo devido às origens sob dominação estrangeira e perseguição romana. | ||
| + | * A conversão do Império Romano ao cristianismo revelou os usos positivos e de sustentação do apocalipsismo, | ||
| + | * Continuidade do uso negativo para fomentar revoluções, | ||
| + | * Emprego frequente para encorajar o apoio à sociedade cristã contra inimigos externos, como o Islã e os mongóis, ou internos, como heréticos e governantes ímpios. | ||
| + | * A atribuição da vitória final a Deus não impedia a convocação do fiel para pegar em armas e lutar ao lado da divindade no drama do fim. | ||
| + | * Existência de numerosos exemplos dessas convocações na história do apocalipsismo medieval. | ||
| + | * As funções a posteriori manifestaram-se após o século quarto por meio de ampliações no cenário tradicional para abrigar reflexões sobre grandes mudanças na sociedade cristã. | ||
| + | * Tentativa de conferir sentido a mudanças drásticas em termos do fim, visto que este confere significado e estrutura à história. | ||
| + | * A conversão do Império Romano e a ascensão do papado à liderança religiosa universal constituem os dois maiores exemplos do modo a posteriori. | ||
| + | * Inexistência de indícios textuais para essas figuras nas Escrituras ou na tradição cristã primitiva. | ||
| + | * Criação desses novos papéis como resposta de autores apocalípticos a mudanças que só podiam ser assimiladas via projeção transcendental no fim dos tempos. | ||
| + | * A concepção do Império Romano Cristão como força de retenção do Anticristo e do imperador como autoridade divina máxima tornava impensável a ausência deles nos últimos eventos. | ||
| + | * Desenvolvimento pleno do mito do Último Imperador do Mundo no final do século sétimo, sustentando que o império não falharia antes da vindicação de sua supremacia sobre todos. | ||
| + | * A relevância do ofício papal impunha de igual modo a necessidade de atribuição de um papel nos tempos finais. | ||
| + | * Os usos a posteriori do apocalipsismo operavam no sentido de apoiar as próprias instituições que passavam pelo processo de apocalitização. | ||
| + | * Validade desse princípio para as lendas relativas ao Último Imperador como ponto supremo de união para a lealdade cristã. | ||
| + | * A atribuição do papel de Anticristo ou de seus predecessores a vários imperadores e reis cristãos encontra precedentes na Bíblia. | ||
| + | * Figuras como Nero e Frederico II atingiram ápices de infâmia que lhes renderam o papel transcendental de Anticristos que retornam. | ||
| + | * O Último Imperador corporificava uma figura messiânica positiva, concebido como guerreiro e flagelo para exercer vingança sangrenta sobre os inimigos e purificar a Igreja. | ||
| + | * O papel apocalíptico do papado apresentou maior ambiguidade na Baixa Idade Média. | ||
| + | * Disseminação de esperanças quanto ao surgimento de uma série de papas santos, denominados pastores angelici. | ||
| + | * Expressão de crença na dignidade do ofício papal associada à crítica aos pontífices correntes que não correspondiam às exigências do cargo. | ||
| + | * A identificação de papas contemporâneos malfazejos ou heréticos com o próprio Anticristo amparou-se na noção escriturística do falso mestre assentado no Templo. | ||
| + | * Apelo a uma iminente restauração messiânica e reforma do ofício petrino, sem significar a rejeição da instituição papal observada posteriormente em hussitas radicais e reformadores. | ||
| + | * O apocalipsismo serviu a uma multiplicidade de propósitos, | ||
| + | * Inclusão de dimensões de iluminação histórica e exortação marcial ao lado da mensagem tradicional de consolação e promessa de recompensa. | ||
| + | * Os textos apocalípticos convidam o leitor a uma escolha clara entre o bem e o mal, justificando o forte componente moralista dessas obras. | ||
| + | * Recompensa para a perseverança firme no bem, especialmente na perseguição, | ||
| + | * O tratado de Lactâncio sobre as últimas coisas no sétimo livro de suas Instituições Divinas configura-se tanto como descrição do fim quanto como análise da vida virtuosa. | ||
| + | * Implicação mútua entre virtude e escatologia para o retórico romano cristão. | ||
| + | * Pensadores como Joaquim de Fiore e Savonarola sentiram-se compelidos a anunciar o fim iminente como uma última advertência para que os pecadores abandonassem seus caminhos. | ||
| + | * Agravamento da culpa diante do julgamento vindouro para aqueles que continuassem a rejeitar a mensagem ouvida. | ||
| + | * O moralismo por vezes enfadonho dos autores apocalípticos ligava-se à convicção de que os atos finais da história excluiriam zonas cinzentas. | ||
| + | * A contrapartida do moralismo expressa-se na ênfase conferida ao valor da paciência e da resistência sob a provação e o sofrimento. | ||
| + | * Presença dessa dimensão em todas as seleções, brilhando com nitidez nas cartas do monge Adso e dos Franciscanos Espirituais. | ||
| + | * Relato comovente de Ângelo de Clareno sobre os quarenta anos de provações sofridos com seus companheiros como lição de paciência. | ||
| + | * A Carta aos Filhos de Carlos II, de Pedro de João Olivi, estrutura-se como uma fuga teológica cuidadosa sobre o tema da resistência. | ||
| + | * Consideração do ato de suportar até o fim como um exercício supremamente ativo de virtude e não como estado passivo. | ||
| + | * A confiança do fiel no fim iminente é sustentada por três vias principais em meio à perseguição. | ||
| + | * A primeira via consiste na segurança básica decorrente do senso de pertencimento à história e da capacidade de situar o presente no plano eterno de Deus. | ||
| + | * A segunda via reside na capacidade de suportar o mal presente pela certeza de que o tempo de sua duração será curto. | ||
| + | * A terceira via define a esperança que preenche o fiel de alegria pela certeza de que a vindicação será definitiva, consumando a história e superando a morte. | ||
| + | * A necessidade de concordâncias fictícias com origens e fins para dotar de sentido a duração da vida humana foi defendida por Frank Kermode em The Sense of an Ending. | ||
| + | * Imaginação do fim refletindo as preocupações irremediavelmente intermediárias dos homens. | ||
| + | * A vinculação da vida individual e coletiva a um início e a um fim atua como um mecanismo para superar o denominado terror da história de Mircea Eliade. | ||
| + | * Força dos sistemas apocalípticos baseada na resposta ao desejo de um conhecimento detalhado e certo sobre o passado, o presente e o devir. | ||
| + | * A capacidade do apocalipse de ser desconfirmado sem ser descreditado fundamenta sua sobrevivência sob disfarces na contemporaneidade. | ||
| + | * Adaptação, | ||
| + | * A permanência e a premência das ansiedades humanas aliviadas pelo apocalipsismo impedem que falhas temporárias destruam o seu poder de atração. | ||
| + | * A atribuição de um significado particular ao momento presente supera em importância a segurança histórica geral dada pelo apocalipsismo. | ||
| + | * O pensamento do apocalipcista qualifica-se como intensamente histórico segundo as palavras de W. Schmithals. | ||
| + | * Demonstração desse caráter na preocupação com a hora que está soando para a própria geração e não por curiosidade especulativa. | ||
| + | * A relação dessa hora com o fim iminente e com a transformação do mundo confere aos crentes a coragem para suportar os breves males enfrentados. | ||
| + | * A percepção da iminência variou consideravelmente entre os autores da coletânea. | ||
| + | * Utilidade da distinção proposta por George Caird entre o fim além do qual nada ocorre e o tempo do fim no qual muitos eventos se processam. | ||
| + | * A presença dessa distinção nos autores antigos atesta-se no texto de Joaquim de Fiore sobre a figura do dragão de sete cabeças. | ||
| + | * Lactâncio situava o retorno de Cristo até duzentos anos no futuro, mantendo a convicção de que sua época testemunhava o início do tempo do fim. | ||
| + | * O tempo do fim podia ser concebido como curto ou longo, abrangendo tanto a hora da provação quanto o milênio terrestre de vitória posterior. | ||
| + | * O traço distintivo do apocalipcista tradicional residia na convicção de que o presente integrava o tempo final em que a história alcançaria seu propósito. | ||
| + | * Primazia da iminência psicológica sobre a iminência estritamente cronológica na recepção da recompensa. | ||
| + | * A abertura das cortinas e o início do espetáculo simbolizam o senso de urgência desse pensamento. | ||
| + | * A expectativa ardente da vindicação apoiava-se em uma esperança superior a qualquer sofrimento terreno. | ||
| + | * A perspectiva sobre a vida humana dada pelo apocalipse estabelece que a morte física não constitui um desastre definitivo segundo John Collins. | ||
| + | * Existência de uma vida e de valores que transcendem a morte corpórea. | ||
| + | * Objetivo do apocalipse definido como o cultivo de valores transcendentes e a consequente experiência de uma vida transcendental. | ||
| + | * A esperança na transcendência da morte entrelaçou aspectos individuais e coletivos de modo indissociável para os autores apocalípticos. | ||
| + | * Crença na sobrevivência individual sob a forma da ressurreição da carne considerada como a maior conquista dos criadores da espiritualidade apocalíptica. | ||
| + | * A convocação individual para a decisão na hora crítica fundamentava a recompensa, sem que o apocalipcista caísse no solipsismo. | ||
| + | * O remanescente fiel, a comunidade dos justos e a verdadeira Igreja figuravam como objetos da vindicação tanto quanto o crente individual. | ||
| + | * A transformação do homem e de sua sociedade legou uma das contribuições mais preciosas do apocalipsismo ao pensamento ocidental. | ||
| + | * A interpretação da espiritualidade apocalíptica como mera realização de desejos ou projeção de necessidades humanas surge como leitura possível. | ||
| + | * Convicção de Frank Kermode de que o fim deve ser concebido como imanente e não iminente, substituindo a escatologia consistente pela tragédia e pelo absurdo. | ||
| + | * As recuperações teológicas contemporâneas de Pannenberg, Moltmann ou Rahner também rejeitam o retorno a predições ingênuas ou padrões históricos ultrapassados. | ||
| + | * O acordo em torno da superação dos padrões literais ingênuos do passado recebe a anuência do autor da obra. | ||
| + | * A destruição precipitada do apocalipsismo literal corre o risco de impedir a compreensão do significado religioso dessa longa tradição. | ||
| + | * Perda fácil da sabedoria e do sentido dos símbolos apocalípticos pela aplicação rude do método crítico. | ||
| + | * O apelo de Paul Ricoeur por uma segunda ingenuidade alcançada via interpretação crítica dos símbolos apresenta-se como caminho promissor. | ||
| + | * Busca por um equivalente pós-crítico da hierofania pré-crítica para a recuperação contemporânea do sentido do apocalipsismo. | ||
| + | * A expectativa do organizador reside no auxílio que os textos apresentados possam dar para a realização dessa tarefa exegética. | ||
| + | * O uso das Escrituras nos tratados e cartas manifesta considerável liberdade na citação dos textos sagrados. | ||
| + | * Decisão de traduzir diretamente das versões dadas pelos autores e não de traduções modernas devido à importância dessa liberdade para os argumentos. | ||
| + | * A permanência de um fim além do fim serve de transição para os agradecimentos institucionais e intelectuais do autor. | ||
