estudos:hugo-rahner:ogdoada:start
Differences
This shows you the differences between two versions of the page.
| Next revision | Previous revision | ||
| estudos:hugo-rahner:ogdoada:start [27/12/2025 11:45] – criada - edição externa 127.0.0.1 | estudos:hugo-rahner:ogdoada:start [11/01/2026 06:14] (current) – external edit 127.0.0.1 | ||
|---|---|---|---|
| Line 1: | Line 1: | ||
| - | ===== OGDOADA | + | ===== Ogdóade |
| - | [[estudos: | + | Hugo Rahner — MITOS GREGOS EM INTERPRETAÇÃO CRISTÃ |
| - | - Mitos Gregos em interpretação cristã, Hugo Rahner, Herder: Barcelona, Espanha, 2003, 381 p. ISBN 84-254-2283-3 título original: “ Griechische Mythen in christlicher Deutung” 1945, “ Orden der Gesellschaft Jesu, Munich” trad. Carlota Rubies, prólogo de Lluís Duch (autor dos livros “ Mito, interpretación y cultura” e “ Antropologia de la religión” publicados pela mesma editora). Contribuição e tradução de Antonio Carneiro das páginas 96, 97, 98 e 99.* | + | //Mitos Gregos em interpretação cristã, Hugo Rahner, Herder: Barcelona, Espanha, 2003, 381 p. ISBN 84-254-2283-3 título original: “ Griechische Mythen in christlicher Deutung” 1945, “ Orden der Gesellschaft Jesu, Munich” trad. Carlota Rubies, prólogo de Lluís Duch (autor dos livros “ Mito, interpretación y cultura” e “ Antropologia de la religión” publicados pela mesma editora). Contribuição e tradução de Antonio Carneiro das páginas 96, 97, 98 e 99.// |
| - | III O MISTÉRIO DO BATISMO | + | ==== III O MISTÉRIO DO BATISMO |
| - | O antigo cristão, para expressar esta salvação através do batismo — que excede em muito a qualquer anseio antigo — “ conforme a sua imagem” , e para dizer o que, junto com Paulo, acreditava desta semelhança com a vida glorificada do Ressuscitado, | + | O antigo cristão, para expressar esta salvação através do batismo — que excede em muito a qualquer anseio antigo — “ conforme a sua imagem” , e para dizer o que, junto com Paulo, acreditava desta semelhança com a vida glorificada do Ressuscitado, |
| - | [[biblia: | + | Cristo ressuscitou ao oitavo dia, no dia de Helios que, a partir desse momento, seria para os cristãos o primeiro dia, ao igual que outrora foi o primeiro dia da criação do universo. Na sessão de Eranos do ano passado falamos do mistério da luz desse dia de sol. Segundo a antiquíssima concepção pitagórica, |
| - | O batismo é o renascer da [[philokalia: | + | O batismo é o renascer da Vida Eterna, o trânsito ao incorruptível e a paz que expressa o símbolo da Ogdóada, é a antítese do nascimento terreno. Nos “Excertos de Teodoto” de Clemente lemos: “Ao que engendra a Mãe é conduzido à morte e ao mundo; ao que Cristo regenera é transferido à vida, à Ogdóada. Tais morrem para o mundo, mas vivem em Deus, a fim de que a morte seja aniquilada pela morte e a corrupção pela ressurreição”Excertos de Teodoto 80, I.. A pia batismal é a tumba da vida corruptível e ao mesmo tempo o seio materno da nova vida da Ogdóada do céu; em um sentido completamente diferente e mais sublime que o da Mãe Terra, é o seio materno e tumbo ao mesmo tempo. ((Clemente |
| - | > *Este dia o criou o Senhor. Há algo que se possa comparar à ele?* | + | Este dia o criou o Senhor. Há algo que se possa comparar à ele? \\ |
| - | - Nele teve lugar a reconciliação de Deus e o homem.* | + | Nele teve lugar a reconciliação de Deus e o homem. |
| - | - Nele apagou-se a batalha do tempo e a terra se fez digna do céu* | + | Nele apagou-se a batalha do tempo e a terra se fez digna do céu \\ |
| - | - posto que os homens que eram indignos dela se fizeram dignos* | + | posto que os homens que eram indignos dela se fizeram dignos |
| - | - do reino dos céus, posto que o Primogênito foi elevado de nossa* | + | do reino dos céus, posto que o Primogênito foi elevado de nossa \\ |
| - | - natureza por cima dos céus; abriu-se o Paraíso, pois obtivemos de* | + | natureza por cima dos céus; abriu-se o Paraíso, pois obtivemos de \\ |
| - | - novo a pátria velha ao ter sido retirada a maldição e acabado o pecado.* | + | novo a pátria velha ao ter sido retirada a maldição e acabado o pecado. |
| - | - Se bem Deus criou todos os dias, este dia o criou de um modo especial.* | + | Se bem Deus criou todos os dias, este dia o criou de um modo especial. |
| - | - Nele fez que se cumprissem seus mistérios supremos.“Selecta in Psalmos” (Lommatzscch XI, p.359 s.), vide também H.Rahner, “Tauffe und geistliches Leben bei Orígenes” , em “ Zitschrift für Aszese und Mystik 7 (1932), pp 205-223.* | + | Nele fez que se cumprissem seus mistérios supremos. |
| - | Alexandria sempre mostrou grande compreensão por este mistério. Assim o demonstram todavia as palavras de Cirilo: “Para nós este oitavo dia é o dia da ressurreição em que Cristo, que por nós sofreu a morte, ressuscitou. Nós assemelhamos à ele em espírito ao morrer pelo batismo para poder assim participar en ressurreição. O momento mais apropriado para uma cerimônia de iniciação como esta (teleiosis) é o ‘ mysterion’ de Cristo que simboliza a Ogdóada”“Glaphyra | + | //“Selecta |
| - | > *Daquele que, como disse o apóstolo, chegou a ser um homem perfeito,* | + | Alexandria sempre mostrou grande compreensão por este mistério. Assim o demonstram todavia as palavras de Cirilo: “Para nós este oitavo dia é o dia da ressurreição em que Cristo, que por nós sofreu a morte, ressuscitou. Nós assemelhamos à ele em espírito ao morrer pelo batismo para poder assim participar en ressurreição. O momento mais apropriado para uma cerimônia de iniciação como esta (teleiosis) é o ‘ mysterion’ de Cristo que simboliza a Ogdóada” ((“Glaphyra in Exodum 2” (PG 69, 441 BC).)). A mística latina do sacramento também conhece este símbolo, seja o “sacramentum ogdoadis” em palavras de Hilário ((“Instructio psalmorum 14” (CSEL 22, p. 12, 24).)) ou o “ sacramentum octavi” daquele que tão frequentemente fala Agostinho de Hipona. ((“Epistula 55, 9, 13, 15.” Outros tantos textos em F. J. Dölger, “Theologisches Wörterbuch, |
| - | - disse David: acharão repouso na montanha sagrada de Deus. Reunir-se-ão* | + | |
| - | - na Igreja suprema dos céus, na que se reúnem os filósofos de Deus, cujo* | + | Daquele que, como disse o apóstolo, chegou a ser um homem perfeito, |
| - | - coração é puro e que carecem de mancha alguma. Pois não permaneceram* | + | disse David: acharão repouso na montanha sagrada de Deus. Reunir-se-ão |
| - | - no sete da paz mas sim que por suas boas ações assimilaram-se à Deus e* | + | na Igreja suprema dos céus, na que se reúnem os filósofos de Deus, cujo \\ |
| - | - levaram-se como herdeiros do que pertence à Ogdóada, pois atenderam à* | + | coração é puro e que carecem de mancha alguma. Pois não permaneceram |
| - | - visão pura da contemplação insaciável.“[[ate-agostinho: | + | no sete da paz mas sim que por suas boas ações assimilaram-se à Deus e \\ |
| + | levaram-se como herdeiros do que pertence à Ogdóada, pois atenderam à \\ | ||
| + | visão pura da contemplação insaciável. | ||
| + | |||
| + | //“STROMATA VI, 13 107 s.” (GCS II, pp.485 ss.).*// | ||
| A partir deste simbolismo místico do número oito os antigos cristãos determinaram o lugar na terra em que se celebraria este mistério, aquele “ ínfimo lugar cheio de graça” , o batistério e a piscina batismal. Edificaram os batistérios preferentemente em planta octogonal e rodearam a piscina de água vivificadora com uma balaustrada octogonal. Conserva-se uma cópia de uma inscrição desaparecida de Ambrósio, efetuada para o Batistério de Santa Tecla em Mediolano. Apresentamos a versão métrica: | A partir deste simbolismo místico do número oito os antigos cristãos determinaram o lugar na terra em que se celebraria este mistério, aquele “ ínfimo lugar cheio de graça” , o batistério e a piscina batismal. Edificaram os batistérios preferentemente em planta octogonal e rodearam a piscina de água vivificadora com uma balaustrada octogonal. Conserva-se uma cópia de uma inscrição desaparecida de Ambrósio, efetuada para o Batistério de Santa Tecla em Mediolano. Apresentamos a versão métrica: | ||
| - | > *Com oito nichos se erige o templo para o [[biblia: | + | Com oito nichos se erige o templo para o Divino ofício, |
| - | - sua pia é octogonal, digna de tal quefazer sagrado.* | + | sua pia é octogonal, digna de tal quefazer sagrado. |
| - | - No oito místico deverá criar a casa de nosso batismo,* | + | No oito místico deverá criar a casa de nosso batismo, |
| - | - pois nele se brinda a salvação eterna ao povo inteiro* | + | pois nele se brinda a salvação eterna ao povo inteiro |
| - | - pela luz do Cristo ressuscitado, | + | pela luz do Cristo ressuscitado, |
| - | - e liberou a todos os mortos da cripta,* | + | e liberou a todos os mortos da cripta, |
| - | - redimiu aos pecadores penitentes da mácula da culpa,* | + | redimiu aos pecadores penitentes da mácula da culpa, |
| - | - purificando-os na água desta fonte cristalina.Texto latino em F. J. Dölger, “ Theologisches Wörterbuch, | + | purificando-os na água desta fonte cristalina. |
| + | |||
| + | //Texto latino em F. J. Dölger, “ Theologisches Wörterbuch, | ||
| No verso final Ambrósio se expressa com umas palavras que apontam para o sentido mais profundo da paradoxa mística que se produz no mistério do batismo: “nam quid divinus isto, ut puncto exiguo culpa cadat populi” : | No verso final Ambrósio se expressa com umas palavras que apontam para o sentido mais profundo da paradoxa mística que se produz no mistério do batismo: “nam quid divinus isto, ut puncto exiguo culpa cadat populi” : | ||
| - | > *Acaso pode Deus obrar algo mais sublime* | + | Acaso pode Deus obrar algo mais sublime |
| - | - que em um lugar tão ínfimo resolver a culpa dos povos?* | + | que em um lugar tão ínfimo resolver a culpa dos povos? |
| + | |||
| + | ---- | ||
| + | |||
| + | TÓPICOS DE TODO CAPÍTULO | ||
| + | |||
| + | * Fundamento paulino e relação intrínseca com o mistério da Cruz | ||
| + | * Compreensão do batismo apenas à luz do mistério da cruz: a água que dá vida jorra ao pé da árvore da vida | ||
| + | * Afirmação de Inácio de Antioquia: Deus morreu "para santificar a água através de seu sofrimento" | ||
| + | * Exegese de Romanos 6,3-4: batizados na morte de Cristo, sepultados com Ele para caminhar em novidade de vida | ||
| + | * Batismo como mistério fundamental do Cristianismo, | ||
| + | |||
| + | * Debate historiográfico sobre as origens e a natureza do batismo cristão | ||
| + | * Tese da " | ||
| + | * Evidência de abluções em mistérios antigos (Eleusis, Sabázio, Átis, Ísis, Dionísio, Mitra) | ||
| + | * Negação recente de influência direta desses ritos na doutrina batismal do Novo Testamento, especialmente na carta aos Romanos | ||
| + | * Acusação persistente de helenização e "magia sacramental" | ||
| + | * Resposta metodológica: | ||
| + | * Convictio fundamental: | ||
| + | |||
| + | * Estrutura paradoxal do mistério batismal: simplicidade do sinal e grandeza do efeito | ||
| + | * Noção de Tertuliano: // | ||
| + | * Enriquecimento ritual ao longo dos séculos como tentativa de tornar visível a grandeza divina já significada e operada pelo sinal simples dos tempos primitivos | ||
| + | * Formulação de Gregório de Nissa: batismo como " | ||
| + | * Oração da liturgia batismal galicana: lugar modesto, mas cheio de graça | ||
| + | * Verso de Santo Ambrósio: //nam quid divinius isto, ut puncto exiguo culpa cadat populi?// | ||
| + | |||
| + | * O batismo como " | ||
| + | * Conteúdo da vida eterna: ζωή αἰώνιος joanina, participação na vida transfigurada do Senhor exaltado, comunhão com a natureza divina (2Pd 1,4) | ||
| + | * Adoção cristã do símbolo místico do número oito, imagem da perfeição, | ||
| + | * Ressurreição de Cristo no oitavo dia (domingo), dia de Hélio, primeiro dia da nova criação | ||
| + | * Tipologia bíblica: as oito almas salvas na arca de Noé (1Pd 3,20-21) como prefiguração (ἀντίτυπον) do batismo que salva pela ressurreição de Jesus Cristo | ||
| + | * Exegese de Justino: Noé e sua família, em número de oito, imagem do dia da ressurreição de Cristo, início de uma nova raça que renasce pela água, fé e madeiro (cruz) | ||
| + | |||
| + | * Desenvolvimento místico e teológico do símbolo da Ogdóada | ||
| + | * Batismo como renascimento para a vida eterna, passagem para o imperecível e o repouso, estado expresso pela Ogdóada | ||
| + | * Extraídos de Teodoto: quem renasce pelo Cristo é derramado na vida, na Ogdóade; morre para o mundo, vive para Deus | ||
| + | * Fonte batismal como sepulcro da vida perecível e ventre materno da nova vida da Ogdóade celeste | ||
| + | * Hino de Orígenes ao domingo como oitavo dia: dia da reconciliação, | ||
| + | * Persistência em Alexandria (Cirilo) e no Ocidente latino (Hilário, Agostinho): // | ||
| + | * A ogdóada como símbolo da renascença batismal e da vida eterna que começa misticamente na água e se consuma na contemplação | ||
| + | |||
| + | * Expressão arquitetônica e litúrgica do mistério: o batistério octogonal | ||
| + | * Forma arquitetônica que materializa a mística simbólica do número oito | ||
| + | * Inscrição de Santo Ambrósio para o batistério de Santa Tecla em Milão: templo de oito nichos, fonte octogonal digna de ato tão sagrado | ||
| + | * Verso final ambrosiano reafirma o paradoxo: a destruição do pecado do povo num lugar tão diminuto | ||
| + | |||
| + | * O batismo como " | ||
| + | * Afirmação de Santo Ambrósio: "O que é a água sem a cruz de Cristo? Um elemento ordinário." | ||
| + | * Declaração de Santo Agostinho: "Pelo sinal da cruz a água do batismo foi consagrada." | ||
| + | * Batismo como participação no mistério paulino da morte e ressurreição com Cristo | ||
| + | * Batismo de Jesus no Jordão como paradigma: teofania que antecipa o paradoxo da cruz, santificação da água pelo sofrimento | ||
| + | * Representações artísticas e litúrgicas da cruz no Jordão: símbolo sensível de que a água batismal, pela morte de Jesus, tornou-se dadora de vida | ||
| + | * Na liturgia oriental, a imersão de uma cruz de madeiro na água; na liturgia romana, a imersão do círio pascal | ||
| + | * Rejeição da interpretação fálica do círio (Usener, Dieterich): o círio é símbolo do crucificado, | ||
| + | |||
| + | * O batismo como mistério da decisão e da travessia: o tempo intermédio | ||
| + | * O iniciado já possui a vida eterna, mas ainda em perigo, numa decisão contínua entre luz e trevas, Cristo e Belial | ||
| + | * Imagem da travessia perigosa no mar do mundo, já com o porto do além em vista, no navio construído com o madeiro da cruz | ||
| + | * Rituais batismais de decisão: rejeição de Satanás (ocidente, trevas) e adesão a Cristo Rei da luz (oriente, φωτισμός) | ||
| + | * Incorporação, | ||
| + | | ||
| - | {{indexmenu> | + | * Conclusão: A novidade do mistério cristão em relação aos mistérios antigos |
| + | * Consciência da Igreja antiga: nos novos mistérios, os antigos encontram seu fim e completude | ||
| + | * Declaração de Gregório de Nazianzo: "Jesus está novamente presente, e novamente há um mistério. Mas não é mais o mistério da embriaguez grega, mas um mistério do alto, um mistério divino." | ||
| + | * Poema de Drepânio contrastando os mistérios pagãos (fumos de incenso, sangue, descontrole) com o mistério cristão (oração pura, ação simples) | ||
| + | * Grito alegre do místa cristão: Χαῖρε φῶς! (Ave, luz!) | ||
| + | * Visão escatológica: | ||
| + | * Síntese final de Clemente de Alexandria: o Sol da Justiça transformou o ocaso em aurora, crucificou a morte para a vida, arrancou o homem da perdição e mudou a terra em céu | ||
/home/mccastro/public_html/cristologia/data/attic/estudos/hugo-rahner/ogdoada/start.1766853927.txt.gz · Last modified: by 127.0.0.1
