estudos:guardini:senhor:mae-do-senhor:start
Diferenças
Aqui você vê as diferenças entre duas revisões dessa página.
| Ambos lados da revisão anteriorRevisão anterior | |||
| estudos:guardini:senhor:mae-do-senhor:start [10/01/2026 15:50] – mccastro | estudos:guardini:senhor:mae-do-senhor:start [11/01/2026 06:14] (atual) – edição externa 127.0.0.1 | ||
|---|---|---|---|
| Linha 1: | Linha 1: | ||
| ===== GUARDINI MÃE DO SENHOR ===== | ===== GUARDINI MÃE DO SENHOR ===== | ||
| - | Romano | + | Romano Guardini — O Senhor |
| ==== A Mãe do Senhor ==== | ==== A Mãe do Senhor ==== | ||
| - | SE queremos compreender a natureza particular de uma árvore, observamos a terra que contém as suas raízes, e da qual nasce a seiva que lhe alimenta o tronco, os ramos e os frutos. Será do mesmo modo bom olhar para o terreno de onde emerge a figura do Senhor: | + | SE queremos compreender a natureza particular de uma árvore, observamos a terra que contém as suas raízes, e da qual nasce a seiva que lhe alimenta o tronco, os ramos e os frutos. Será do mesmo modo bom olhar para o terreno de onde emerge a figura do Senhor: Maria, sua mãe. |
| - | Diz-se-nos que ela era de sangue real. Cada homem é algo único, singular e para si; os condicionamentos que presidem ao seu nascimento não penetram a sua individualidade, | + | Diz-se-nos que ela era de sangue real. Cada homem é algo único, singular e para si; os condicionamentos que presidem ao seu nascimento não penetram a sua individualidade, |
| - | A partir de então, o seu destino modela-se pelo do seu [[biblia: | + | A partir de então, o seu destino modela-se pelo do seu Filho. Começa a ser assim imediatamente, |
| - | E quando o filho, aos doze anos, se demora no Templo, e ela O encontra após uma busca ansiosa, parece revelar-se-lhe pela primeira vez a divina estranheza d' | + | E quando o filho, aos doze anos, se demora no Templo, e ela O encontra após uma busca ansiosa, parece revelar-se-lhe pela primeira vez a divina estranheza d' |
| Mas, pouco mais adiante: «Sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração». Não as «compreendendo», | Mas, pouco mais adiante: «Sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração». Não as «compreendendo», | ||
| - | Seguem-se dezoito anos de silêncio. Deles nada nos dizem as Escrituras. Mas o silêncio dos [[evangelho-de-jesus: | + | Seguem-se dezoito anos de silêncio. Deles nada nos dizem as Escrituras. Mas o silêncio dos Evangelhos fala poderosamente aos ouvidos atentos. Dezoito anos de silêncio, que entram para «o seu coração»... Nada mais nos é dito, além de que a criança era dócil, e de que «progredia em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens». Uma maturação silenciosa e profunda, rodeada pelo amor da mais santa dè todas as mães. |
| - | Abandona depois o lar e inicia a sua missão. Mas -da está ainda ao pé. Assim, nas [[evangelho-de-jesus: | + | Abandona depois o lar e inicia a sua missão. Mas -da está ainda ao pé. Assim, nas Bodas de Caná, onde vemos como que um último sinal de solicitude e de direção maternais (João, 2, 11)... Outra vez, tendo ouvido em Nazaré um rumor equívoco e perturbante levanta-se, procura-O, e queda-se angustiada diante da porta... (Marc, 3, 21, 31-35)... E está novamente ao pé d'Ele durante os últimos dias, perseverando debaixo da cruz (João, 19, 25). |
| A vida inteira de Jesus está banhada pela proximidade da sua mãe. A sua maior força é o seu silêncio. | A vida inteira de Jesus está banhada pela proximidade da sua mãe. A sua maior força é o seu silêncio. | ||
| Linha 28: | Linha 28: | ||
| Quando desce da Galileia para O procurar, Ele está numa casa, ensinando, e dizem-Lhe: «Estão ali fora tua mãe e teus irmãos, que Te procuram». Mas Ele pergunta: «Quem são minha mãe e meus irmãos? Quem fizer a vontade de Deus, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe!» (Marc, 3, 31-35). Decerto se dirigiu depois a ela, e lhe manifestou todo o seu amor — mas a palavra foi dita, e sentimos como ela é angustiante, | Quando desce da Galileia para O procurar, Ele está numa casa, ensinando, e dizem-Lhe: «Estão ali fora tua mãe e teus irmãos, que Te procuram». Mas Ele pergunta: «Quem são minha mãe e meus irmãos? Quem fizer a vontade de Deus, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe!» (Marc, 3, 31-35). Decerto se dirigiu depois a ela, e lhe manifestou todo o seu amor — mas a palavra foi dita, e sentimos como ela é angustiante, | ||
| - | E, a palavra que acima considerámos como uma expressão de proximidade, | + | E, a palavra que acima considerámos como uma expressão de proximidade, |
| Quando, na cruz, está perto do fim, e, em baixo, a mãe, despedaçada por todos os sofrimentos do seu coração, d'Ele espera uma palavra — diz-lhe apontando para S. João: «Senhora, eis o teu filho». E para o discípulo: «Eis a tua Mãe» (João, 19, 26-27). Decerto havia neste dizer a solicitude do filho moribundo, mas o coração de Maria sentiu sobretudo o outro sentido: «Mulher, olha aí o teu filho!» Ele afasta-a de si. Está, inteiro, na «hora» que, agora, «chegou», grande, temerosa, tudo exigindo. Está na solidão extrema, com o pecado que sobre Si foi lançado, perante o juízo de Deus. | Quando, na cruz, está perto do fim, e, em baixo, a mãe, despedaçada por todos os sofrimentos do seu coração, d'Ele espera uma palavra — diz-lhe apontando para S. João: «Senhora, eis o teu filho». E para o discípulo: «Eis a tua Mãe» (João, 19, 26-27). Decerto havia neste dizer a solicitude do filho moribundo, mas o coração de Maria sentiu sobretudo o outro sentido: «Mulher, olha aí o teu filho!» Ele afasta-a de si. Está, inteiro, na «hora» que, agora, «chegou», grande, temerosa, tudo exigindo. Está na solidão extrema, com o pecado que sobre Si foi lançado, perante o juízo de Deus. | ||
| Linha 34: | Linha 34: | ||
| Maria esteve sempre ao seu lado. Viveu tudo quanto Lhe disse respeito; a sua vida era a d'Ele. Mas não por via do entendimento, | Maria esteve sempre ao seu lado. Viveu tudo quanto Lhe disse respeito; a sua vida era a d'Ele. Mas não por via do entendimento, | ||
| - | Que melhor revela a sua grandeza do que o grito da sua parente: «Feliz daquela que acreditou!» (Lucas, 1, 45). Nele se contém estas duas palavras: «Mas eles não entenderam as palavras que lhes disse» e «Sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração» (Lucas, 2, 50,51). Maria acreditou. E teve de levantar sempre de novo esta fé. Sempre mais fortemente, sempre mais duramente. A sua fé era maior do que a que qualquer outro homem jamais possuiu. | + | Que melhor revela a sua grandeza do que o grito da sua parente: «Feliz daquela que acreditou!» (Lucas, 1, 45). Nele se contém estas duas palavras: «Mas eles não entenderam as palavras que lhes disse» e «Sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração» (Lucas, 2, 50,51). Maria acreditou. E teve de levantar sempre de novo esta fé. Sempre mais fortemente, sempre mais duramente. A sua fé era maior do que a que qualquer outro homem jamais possuiu. Abraão impõe-se-nos pela grandeza terrível da sua fé; mas, a ela, foi-lhe pedido mais do que a Abraão. Não duvidar deste «Santo», que concebera, e que se afastara de si, a excedera, vivendo numa infinita distância: não duvidar da sua grandeza, ela, mulher, que conhecera e velara a sua fraqueza infantil... mas também não duvidar do seu amor, quando Ele deixou para trás a protecção que dela recebia... e, sobretudo, acreditar que assim tudo estava certo, e que a vontade de Deus assim se realizava... nunca se desencorajar, |
| - | Maria realizou cada um dos passos que o Senhor efetuou para o seu destino | + | Maria realizou cada um dos passos que o Senhor efetuou para o seu destino Divino, mas na fé. Só o Pentecostes lhe deu a compreensão. «Entendeu» então aquilo que até esse momento «guardara no seu coração». Por esta fé, e mais do que pelos milagres da lenda, ela está mais próxima de Jesus e mais profundamente na obra da Redenção. A lenda pode encantar-nos pelas suas imagens graciosas, mas não nos faz viver; e muito menos quando se trata do essencial. É-nos pedido que, na fé, lutemos com o mistério de Deus e contra a má oposição do mundo. Não uma fé amavelmente poética, mas uma fé que é dura — sobretudo numa época em que se desvanecem os sortilégios embaladores das coisas, e as contradições ressaltam por toda a parte na sua plena força. Quanto melhor compreendermos a figura da mãe do Senhor a partir do Novo Testamento, melhor compreenderemos e viveremos a nossa vida cristã, tal como ela é realmente. |
| Ela é aquela que trouxe o Senhor no mais profundo de si mesma; através de toda a sua vida e até na morte. Continuamente teve de experimentar como Ele, vivendo do mistério de Deus, dela se afastava. Continuamente se elevava Ele para mais alto, e assim foi ela sendo trespassada pela «espada» (Lucas, 2, 35); mas, sempre também, ela se ergueu mercê da fé até Ele, e O envolveu de novo. Até que, por fim, Ele não quis mais ser seu filho. O outro, que estava ao pé dela, devia tomar o seu lugar. Jesus estava só, ao alto, no cume mais agudo da criação, perante a justiça de Deus. Mas ela, numa compaixão derradeira, aceitou a separação — e, graças a isso, voltou de novo, na fé, para junto d'Ele. | Ela é aquela que trouxe o Senhor no mais profundo de si mesma; através de toda a sua vida e até na morte. Continuamente teve de experimentar como Ele, vivendo do mistério de Deus, dela se afastava. Continuamente se elevava Ele para mais alto, e assim foi ela sendo trespassada pela «espada» (Lucas, 2, 35); mas, sempre também, ela se ergueu mercê da fé até Ele, e O envolveu de novo. Até que, por fim, Ele não quis mais ser seu filho. O outro, que estava ao pé dela, devia tomar o seu lugar. Jesus estava só, ao alto, no cume mais agudo da criação, perante a justiça de Deus. Mas ela, numa compaixão derradeira, aceitou a separação — e, graças a isso, voltou de novo, na fé, para junto d'Ele. | ||
/home/mccastro/public_html/cristologia/data/attic/estudos/guardini/senhor/mae-do-senhor/start.1768078249.txt.gz · Última modificação: por mccastro
