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| ===== MARIE MADELEINE DAVY MUNDO ===== | ===== MARIE MADELEINE DAVY MUNDO ===== | ||
| - | [[estudos: | + | Marie Madeleine Davy — MUNDO |
| Retirado do livro "O Deserto Interior" | Retirado do livro "O Deserto Interior" | ||
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| É evidente que não convém ironizar, tanto mais que o deserto tem um valor próprio, independente da situação do mundo exterior. | É evidente que não convém ironizar, tanto mais que o deserto tem um valor próprio, independente da situação do mundo exterior. | ||
| - | As considerações insólitas que acabamos de fazer têm por objetivo lembrar a significação dada habitualmente ao mundo: ele é mau. O [[evangelho-de-jesus: | + | As considerações insólitas que acabamos de fazer têm por objetivo lembrar a significação dada habitualmente ao mundo: ele é mau. O Evangelho de João e sua 1a epístola têm, a esse respeito, um acento gnóstico nas palavras atribuídas a Jesus: "Vós sois deste mundo, eu não sou deste mundo" (Jo 8,23). "Se o mundo vos odeia, sabei que primeiro me odiou a mim" (Jo 15,18). "...Eu não rogo pelo mundo" (Jo 17,9). "Não ameis o mundo" (IJo 2,15). "Meu reino não é deste mundo" (Jo 18,36). E João disse: "O mundo inteiro está sob o poder do Maligno" |
| Essa rejeição do mundo se generalizou e se tornou um leitmotiv do pensamento cristão. Muitos autores modernos censuram veementemente o cristianismo por ter propagado e sustentado uma oposição ao mundo, a qual pode tornar os cristãos inadaptados. | Essa rejeição do mundo se generalizou e se tornou um leitmotiv do pensamento cristão. Muitos autores modernos censuram veementemente o cristianismo por ter propagado e sustentado uma oposição ao mundo, a qual pode tornar os cristãos inadaptados. | ||
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| O mundo é uma cena de teatro, e a vida é um jogo. | O mundo é uma cena de teatro, e a vida é um jogo. | ||
| Vem, pois, aprende a jogar. | Vem, pois, aprende a jogar. | ||
| - | [[evangelho-de-jesus: | + | Renuncia à seriedade da vida, ou então prepara-te |
| para suportares os sofrimentos do drama | para suportares os sofrimentos do drama | ||
| (Anthologie Palatine X, 72. Texto citado por Dodds, op. cit., p. 25.). | (Anthologie Palatine X, 72. Texto citado por Dodds, op. cit., p. 25.). | ||
| - | Esse texto do poeta pagão Paladas, que viveu no século IV, apresenta a síntese de uma teoria que teve curso por muito tempo. Pagãos e cristãos se prolongam. Filósofos, teólogos e poetas oferecem uma doutrina comum concernente à inanidade do mundo e dos homens, insistindo na extrema infelicidade da condição humana, doutrina que, em algumas épocas, ultrapassa toda [[evangelho-de-jesus: | + | Esse texto do poeta pagão Paladas, que viveu no século IV, apresenta a síntese de uma teoria que teve curso por muito tempo. Pagãos e cristãos se prolongam. Filósofos, teólogos e poetas oferecem uma doutrina comum concernente à inanidade do mundo e dos homens, insistindo na extrema infelicidade da condição humana, doutrina que, em algumas épocas, ultrapassa toda Medida e anuncia seu termo, porque o fim do mundo é sempre previsto como próximo. Esse é um lugar-comum cuja banalidade é proverbial. Em certas ocasiões, entretanto, essa doutrina parece significativa. Tal consideração é sustentada por Cipriano, contemporâneo de Plotino: "O mundo revela hoje o que ele é: ao mostrar seu declínio, ele anuncia a sua dissolução. Os camponeses desertam dos campos, o comércio deserta do mar, os soldados desertam do exército; a honestidade nos negócios, a justiça nos tribunais, a fidelidade na amizade, a habilidade nas artes, as regras da moral, tudo isso desaparece" |
| Poderíamos multiplicar as citações de textos de autores pagãos e cristãos. Eles se exprimem, tanto uns como outros, no mesmo sentido. O pensamento cristão se funde com a tradição grega; ele não se afasta dela, e até a desenvolve. | Poderíamos multiplicar as citações de textos de autores pagãos e cristãos. Eles se exprimem, tanto uns como outros, no mesmo sentido. O pensamento cristão se funde com a tradição grega; ele não se afasta dela, e até a desenvolve. | ||
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| Esse pessimismo exagerado não se basta a si mesmo, mas se inscreve como um dos termos do dualismo, que nele está necessariamente implicado, e é como elemento de um todo. A máscara exige uma realidade; o mau se opõe ao bom; a insignificância do visível reclama a presença qualitativa de um invisível; o terrestre, enquanto passagem, faz apelo à eternidade. | Esse pessimismo exagerado não se basta a si mesmo, mas se inscreve como um dos termos do dualismo, que nele está necessariamente implicado, e é como elemento de um todo. A máscara exige uma realidade; o mau se opõe ao bom; a insignificância do visível reclama a presença qualitativa de um invisível; o terrestre, enquanto passagem, faz apelo à eternidade. | ||
| - | Essa dualidade esquartejante, | + | Essa dualidade esquartejante, |
| Pode causar admiração ver autores cristãos desprezar o mundo. Não deveriam eles ser fiéis ao texto do Gênesis, no qual se diz que o Criador viu a qualidade de sua obra e exprimiu seu contentamento, | Pode causar admiração ver autores cristãos desprezar o mundo. Não deveriam eles ser fiéis ao texto do Gênesis, no qual se diz que o Criador viu a qualidade de sua obra e exprimiu seu contentamento, | ||
| - | Pessimismo da filosofia grega, dualidade das gnoses, o cristianismo foi rapidamente orientado para um impasse que o levou a situar a felicidade depois da morte física e a [[evangelho-de-jesus: | + | Pessimismo da filosofia grega, dualidade das gnoses, o cristianismo foi rapidamente orientado para um impasse que o levou a situar a felicidade depois da morte física e a JULGAR a condição humana infeliz antes de chegar lá. Este mundo mau é governado por um príncipe, cujo nome é demônio. O demônio não é de origem grega, mas judaica, de um judaísmo tardio não canônico, que influenciou o apóstolo João, depois Paulo, e em seguida numerosos escritores. |
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