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 ===== MARIE MADELEINE DAVY MUNDO ===== ===== MARIE MADELEINE DAVY MUNDO =====
-[[estudos:filosofia-medieval:marie-madeleine-davy:start|Marie Madeleine Davy]] — MUNDO+Marie Madeleine Davy — MUNDO
  
 Retirado do livro "O Deserto Interior" traduzido por Benôni Lemos, Ed. Paulinas Retirado do livro "O Deserto Interior" traduzido por Benôni Lemos, Ed. Paulinas
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 É evidente que não convém ironizar, tanto mais que o deserto tem um valor próprio, independente da situação do mundo exterior. É evidente que não convém ironizar, tanto mais que o deserto tem um valor próprio, independente da situação do mundo exterior.
  
-As considerações insólitas que acabamos de fazer têm por objetivo lembrar a significação dada habitualmente ao mundo: ele é mau. O [[evangelho-de-jesus:evangelhos:evangelho-de-joao:start|Evangelho de João]] e sua 1a epístola têm, a esse respeito, um acento gnóstico nas palavras atribuídas a Jesus: "Vós sois deste mundo, eu não sou deste mundo" (Jo 8,23). "Se o mundo vos odeia, sabei que primeiro me odiou a mim" (Jo 15,18). "...Eu não rogo pelo mundo" (Jo 17,9). "Não ameis o mundo" (IJo 2,15). "Meu reino não é deste mundo" (Jo 18,36). E João disse: "O mundo inteiro está sob o poder do Maligno" (IJo 5,19). Paulo insiste: a sabedoria do mundo é louca (ICor 3,19), porque o mundo, pela sua sabedoria, não conheceu a [[biblia:figuras:divindade:deus:start|Deus]] (ICor 1,21).+As considerações insólitas que acabamos de fazer têm por objetivo lembrar a significação dada habitualmente ao mundo: ele é mau. O Evangelho de João e sua 1a epístola têm, a esse respeito, um acento gnóstico nas palavras atribuídas a Jesus: "Vós sois deste mundo, eu não sou deste mundo" (Jo 8,23). "Se o mundo vos odeia, sabei que primeiro me odiou a mim" (Jo 15,18). "...Eu não rogo pelo mundo" (Jo 17,9). "Não ameis o mundo" (IJo 2,15). "Meu reino não é deste mundo" (Jo 18,36). E João disse: "O mundo inteiro está sob o poder do Maligno" (IJo 5,19). Paulo insiste: a sabedoria do mundo é louca (ICor 3,19), porque o mundo, pela sua sabedoria, não conheceu a Deus (ICor 1,21).
  
 Essa rejeição do mundo se generalizou e se tornou um leitmotiv do pensamento cristão. Muitos autores modernos censuram veementemente o cristianismo por ter propagado e sustentado uma oposição ao mundo, a qual pode tornar os cristãos inadaptados. Essa rejeição do mundo se generalizou e se tornou um leitmotiv do pensamento cristão. Muitos autores modernos censuram veementemente o cristianismo por ter propagado e sustentado uma oposição ao mundo, a qual pode tornar os cristãos inadaptados.
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 O mundo é uma cena de teatro, e a vida é um jogo. O mundo é uma cena de teatro, e a vida é um jogo.
 Vem, pois, aprende a jogar. Vem, pois, aprende a jogar.
-[[evangelho-de-jesus:logia-jesus:logia-jesus:renuncia:start|Renuncia]] à seriedade da vida, ou então prepara-te+Renuncia à seriedade da vida, ou então prepara-te
 para suportares os sofrimentos do drama para suportares os sofrimentos do drama
 (Anthologie Palatine X, 72. Texto citado por Dodds, op. cit., p. 25.). (Anthologie Palatine X, 72. Texto citado por Dodds, op. cit., p. 25.).
  
-Esse texto do poeta pagão Paladas, que viveu no século IV, apresenta a síntese de uma teoria que teve curso por muito tempo. Pagãos e cristãos se prolongam. Filósofos, teólogos e poetas oferecem uma doutrina comum concernente à inanidade do mundo e dos homens, insistindo na extrema infelicidade da condição humana, doutrina que, em algumas épocas, ultrapassa toda [[evangelho-de-jesus:logia-jesus:logia-jesus:medida:start|Medida]] e anuncia seu termo, porque o fim do mundo é sempre previsto como próximo. Esse é um lugar-comum cuja banalidade é proverbial. Em certas ocasiões, entretanto, essa doutrina parece significativa. Tal consideração é sustentada por [[ate-agostinho:cipriano:start|Cipriano]], contemporâneo de Plotino: "O mundo revela hoje o que ele é: ao mostrar seu declínio, ele anuncia a sua dissolução. Os camponeses desertam dos campos, o comércio deserta do mar, os soldados desertam do exército; a honestidade nos negócios, a justiça nos tribunais, a fidelidade na amizade, a habilidade nas artes, as regras da moral, tudo isso desaparece" (NA: Cipriano, Ad Demetrianum 3. Texto citado por E, R. Dodds, op. cit. p. 24.).+Esse texto do poeta pagão Paladas, que viveu no século IV, apresenta a síntese de uma teoria que teve curso por muito tempo. Pagãos e cristãos se prolongam. Filósofos, teólogos e poetas oferecem uma doutrina comum concernente à inanidade do mundo e dos homens, insistindo na extrema infelicidade da condição humana, doutrina que, em algumas épocas, ultrapassa toda Medida e anuncia seu termo, porque o fim do mundo é sempre previsto como próximo. Esse é um lugar-comum cuja banalidade é proverbial. Em certas ocasiões, entretanto, essa doutrina parece significativa. Tal consideração é sustentada por Cipriano, contemporâneo de Plotino: "O mundo revela hoje o que ele é: ao mostrar seu declínio, ele anuncia a sua dissolução. Os camponeses desertam dos campos, o comércio deserta do mar, os soldados desertam do exército; a honestidade nos negócios, a justiça nos tribunais, a fidelidade na amizade, a habilidade nas artes, as regras da moral, tudo isso desaparece" (NA: Cipriano, Ad Demetrianum 3. Texto citado por E, R. Dodds, op. cit. p. 24.).
  
 Poderíamos multiplicar as citações de textos de autores pagãos e cristãos. Eles se exprimem, tanto uns como outros, no mesmo sentido. O pensamento cristão se funde com a tradição grega; ele não se afasta dela, e até a desenvolve. Poderíamos multiplicar as citações de textos de autores pagãos e cristãos. Eles se exprimem, tanto uns como outros, no mesmo sentido. O pensamento cristão se funde com a tradição grega; ele não se afasta dela, e até a desenvolve.
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 Esse pessimismo exagerado não se basta a si mesmo, mas se inscreve como um dos termos do dualismo, que nele está necessariamente implicado, e é como elemento de um todo. A máscara exige uma realidade; o mau se opõe ao bom; a insignificância do visível reclama a presença qualitativa de um invisível; o terrestre, enquanto passagem, faz apelo à eternidade. Esse pessimismo exagerado não se basta a si mesmo, mas se inscreve como um dos termos do dualismo, que nele está necessariamente implicado, e é como elemento de um todo. A máscara exige uma realidade; o mau se opõe ao bom; a insignificância do visível reclama a presença qualitativa de um invisível; o terrestre, enquanto passagem, faz apelo à eternidade.
  
-Essa dualidade esquartejante, de procedência oriental, passou para o pensamento cristão, que, embora lutando contra o [[gnosticismo:start|Gnosticismo]], foi largamente impregnado por ele.+Essa dualidade esquartejante, de procedência oriental, passou para o pensamento cristão, que, embora lutando contra o Gnosticismo, foi largamente impregnado por ele.
  
 Pode causar admiração ver autores cristãos desprezar o mundo. Não deveriam eles ser fiéis ao texto do Gênesis, no qual se diz que o Criador viu a qualidade de sua obra e exprimiu seu contentamento, dizendo que era tudo "muito bom"? (Gn 1,31) Pode causar admiração ver autores cristãos desprezar o mundo. Não deveriam eles ser fiéis ao texto do Gênesis, no qual se diz que o Criador viu a qualidade de sua obra e exprimiu seu contentamento, dizendo que era tudo "muito bom"? (Gn 1,31)
  
-Pessimismo da filosofia grega, dualidade das gnoses, o cristianismo foi rapidamente orientado para um impasse que o levou a situar a felicidade depois da morte física e a [[evangelho-de-jesus:sermao-da-montanha:julgar:start|JULGAR]] a condição humana infeliz antes de chegar lá. Este mundo mau é governado por um príncipe, cujo nome é demônio. O demônio não é de origem grega, mas judaica, de um judaísmo tardio não canônico, que influenciou o apóstolo João, depois Paulo, e em seguida numerosos escritores.+Pessimismo da filosofia grega, dualidade das gnoses, o cristianismo foi rapidamente orientado para um impasse que o levou a situar a felicidade depois da morte física e a JULGAR a condição humana infeliz antes de chegar lá. Este mundo mau é governado por um príncipe, cujo nome é demônio. O demônio não é de origem grega, mas judaica, de um judaísmo tardio não canônico, que influenciou o apóstolo João, depois Paulo, e em seguida numerosos escritores.
  
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