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 ===== MARITAIN MITO DO PROGRESSO ===== ===== MARITAIN MITO DO PROGRESSO =====
-[[estudos:filosofia-medieval:jacques-maritain:start|Jacques Maritain]] — O Mito do Progresso+Jacques Maritain — O Mito do Progresso
  
 O MITO DO PROGRESSO O MITO DO PROGRESSO
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 — Explique melhor o seu pensamento, caro Philonoüs. — Explique melhor o seu pensamento, caro Philonoüs.
  
-— Desde o declínio das concepções autoritárias herdadas da Idade Média pelos próprios reformadores protestantes, o esforço dos maiores espíritos, animados por um largo e fecundo liberalismo, o esforço dos Bodin, dos Leib-niz, dos Lessing, dos Herder, tendeu constantemente a realizar a união dos homens acima de toda divergência dogmática, a união e até mesmo a unidade universal, pelo homem e para o homem, o congraçamento pela boa vontade subjetiva, isto é, pela disposição do sujeito, como você diria, por oposição à união na luz do objeto, esse problemático objeto de que Kant nos livrou. Pergunto se não convirá, portanto, no termo dessas nobres aspirações, colocar o fraternal amplexo de homens, como os cristãos e os bolchevistas, separados pelas mais fortes diferenças objetivas? Entre elas, inevitavelmente, se estabelecerá desde logo uma suavizante corrente osmótica. Assim se irá definindo e ganhando precisão a concepção moderna da Cidade de [[biblia:figuras:divindade:deus:start|Deus]], num contraste absoluto com o antigo tipo de unidade eminentemente representado pela Igreja Católica, e que pretendia congregar os homens por meio de uma verdade, e visando a um: bem que, na verdade, sempre foram um sinal de contradição.+— Desde o declínio das concepções autoritárias herdadas da Idade Média pelos próprios reformadores protestantes, o esforço dos maiores espíritos, animados por um largo e fecundo liberalismo, o esforço dos Bodin, dos Leib-niz, dos Lessing, dos Herder, tendeu constantemente a realizar a união dos homens acima de toda divergência dogmática, a união e até mesmo a unidade universal, pelo homem e para o homem, o congraçamento pela boa vontade subjetiva, isto é, pela disposição do sujeito, como você diria, por oposição à união na luz do objeto, esse problemático objeto de que Kant nos livrou. Pergunto se não convirá, portanto, no termo dessas nobres aspirações, colocar o fraternal amplexo de homens, como os cristãos e os bolchevistas, separados pelas mais fortes diferenças objetivas? Entre elas, inevitavelmente, se estabelecerá desde logo uma suavizante corrente osmótica. Assim se irá definindo e ganhando precisão a concepção moderna da Cidade de Deus, num contraste absoluto com o antigo tipo de unidade eminentemente representado pela Igreja Católica, e que pretendia congregar os homens por meio de uma verdade, e visando a um: bem que, na verdade, sempre foram um sinal de contradição.
  
 — É verdade. E a Sociedade das Nações pode ser encarada como uma primeira realização desse ideal — um esboço bem frágil e tímido ainda, mas muito promissor — Ao contrário, os antigos pensavam que só a luz congrega, intellectualia et rationalia omnia congregans, et indestructibilia faciens, como diz Dionísio, o Areopagíta. — É verdade. E a Sociedade das Nações pode ser encarada como uma primeira realização desse ideal — um esboço bem frágil e tímido ainda, mas muito promissor — Ao contrário, os antigos pensavam que só a luz congrega, intellectualia et rationalia omnia congregans, et indestructibilia faciens, como diz Dionísio, o Areopagíta.
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 — É o que eu supunha. De outro modo, não poderia entender como, a despeito dos mais sangrentos desmentidos da experiência, você se conserva imperturbável na sua adoração, a contemplar, de espírito tranqüilo, os desastres acarretados até aqui à humanidade por essa idéia-ídolo. e a remeter continuamente para o futuro as esperanças desmentidas no presente. — É o que eu supunha. De outro modo, não poderia entender como, a despeito dos mais sangrentos desmentidos da experiência, você se conserva imperturbável na sua adoração, a contemplar, de espírito tranqüilo, os desastres acarretados até aqui à humanidade por essa idéia-ídolo. e a remeter continuamente para o futuro as esperanças desmentidas no presente.
  
-— Na verdade — disse nesse momento: Theonas. que se juntara a nós, havia algum tempo, pois tinha por hábito vir ao encontro de seus hóspedes e, não fora o receio de parecer singular, ter-se-ia prostrado diante deles saudando neles o [[biblia:figuras:nt-personagens:cristo:start|Cristo]], conforme a regra do bem-aventurado [[estudos:ernst-benz:pai:start|Pai]] São Bento — na verdade, o [[philokalia:philokalia-termos:dogma:start|dogma]] do progresso necessário da espécie humana procede de um dado simplicíssimo do senso comum a respeito do movimento, interpretado e falsamente generalizado por indolente metafísica, conforme a lei do menor esforço intelectual.+— Na verdade — disse nesse momento: Theonas. que se juntara a nós, havia algum tempo, pois tinha por hábito vir ao encontro de seus hóspedes e, não fora o receio de parecer singular, ter-se-ia prostrado diante deles saudando neles o Cristo, conforme a regra do bem-aventurado Pai São Bento — na verdade, o dogma do progresso necessário da espécie humana procede de um dado simplicíssimo do senso comum a respeito do movimento, interpretado e falsamente generalizado por indolente metafísica, conforme a lei do menor esforço intelectual.
  
 Consideremos o movimento ou a mudança pelo lado que chamamos a forma, isto é, o lado que determina e qualifica intrinsecamente as coisas. Toímemos como exemplo um caso em que a matéria é perfeitamente dominada pela forma, um organismo no seu período de crescimento. O senso comum vê imediatamente que neste caso a mudança se produz segundo a lei que ordena o menos perfeito ao mais perfeito, a infância à idade adulta. Considerando-se as exigências da forma, a mudança irá na direção do mais perfeito, consoante a lei do progresso. Consideremos o movimento ou a mudança pelo lado que chamamos a forma, isto é, o lado que determina e qualifica intrinsecamente as coisas. Toímemos como exemplo um caso em que a matéria é perfeitamente dominada pela forma, um organismo no seu período de crescimento. O senso comum vê imediatamente que neste caso a mudança se produz segundo a lei que ordena o menos perfeito ao mais perfeito, a infância à idade adulta. Considerando-se as exigências da forma, a mudança irá na direção do mais perfeito, consoante a lei do progresso.
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 Permitam-me, porém, retomar o fio dos meus pensamentos. Sendo o apetite da matéria tal como acabo de descrevê-lo, segue-se daí que, mesmo sob as formas mais perfeitas, ela conserva ainda radicalmente o desejo das outras formas, simplesmente por serem outras. No organismo animado, a matéria continua a desejar as formas inferiores dos elementos não-vivos e, ao seu paladar, a corrupção do vivente sabe bem. Reconheçamos pois que, a considerar-se o apetite da matéria, a mudança, longe de obedecer à lei do progresso, tenderá para o outro enquanto outro, mesmo para o inferior, e não para o mais perfeito. Permitam-me, porém, retomar o fio dos meus pensamentos. Sendo o apetite da matéria tal como acabo de descrevê-lo, segue-se daí que, mesmo sob as formas mais perfeitas, ela conserva ainda radicalmente o desejo das outras formas, simplesmente por serem outras. No organismo animado, a matéria continua a desejar as formas inferiores dos elementos não-vivos e, ao seu paladar, a corrupção do vivente sabe bem. Reconheçamos pois que, a considerar-se o apetite da matéria, a mudança, longe de obedecer à lei do progresso, tenderá para o outro enquanto outro, mesmo para o inferior, e não para o mais perfeito.
  
-Consideremos agora o seguinte: o homem é um ser ao mesmo tempo material e espiritual e, na [[evangelho-de-jesus:logia-jesus:logia-jesus:medida:start|Medida]] em que nele a vida dos sentidos predomina sobre a vida da razão, o movimento da humanidade estará sujeito às condições da matéria: nesta mesma medida, esse movimento irá para o outro como tal, para o novo e não para o melhor. Veja os homens: basta que possuam um bem para querer outra coisa, a verdade cansa-os; quando por sorte lhes é dada, preferem deixá-la de parte, para buscar coisa nova.+Consideremos agora o seguinte: o homem é um ser ao mesmo tempo material e espiritual e, na Medida em que nele a vida dos sentidos predomina sobre a vida da razão, o movimento da humanidade estará sujeito às condições da matéria: nesta mesma medida, esse movimento irá para o outro como tal, para o novo e não para o melhor. Veja os homens: basta que possuam um bem para querer outra coisa, a verdade cansa-os; quando por sorte lhes é dada, preferem deixá-la de parte, para buscar coisa nova.
  
 É o apetite da matéria que então lhes chega ao coração é o gosto do pó de onde vieram que lhes sobe aos lábios. É o apetite da matéria que então lhes chega ao coração é o gosto do pó de onde vieram que lhes sobe aos lábios.
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