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estudos:filosofia-medieval:jacques-maritain:antinomias-progresso:start

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 ===== MARITAIN ANTINOMIAS PROGRESSO ===== ===== MARITAIN ANTINOMIAS PROGRESSO =====
-[[estudos:filosofia-medieval:jacques-maritain:start|Jacques Maritain]] — AS ANTINOMIAS DO PROGRESSO NECESSÁRIO+Jacques Maritain — AS ANTINOMIAS DO PROGRESSO NECESSÁRIO
  
 "Em verdade vos digo, o ônibus não é só um veículo de quatro rodas, é o carro do progresso, o símbolo da associação pacifica fundada na liberdade." Edmond About "Em verdade vos digo, o ônibus não é só um veículo de quatro rodas, é o carro do progresso, o símbolo da associação pacifica fundada na liberdade." Edmond About
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 O Pseudo-Hylas. Lembra-me um bom sujeito que conheci outrora, um social-democrata russo. Inebriado por uma infusão de Spencer e de Marx, adoçada por Pierre Lavroff, êle evocava, o olhar perdido em êxtase, o homem "ao volante do automóvel histórico, a avançar, de etapa em etapa, na conquista do seu destino, em virtude de um inelutável processo evolutivo..." O Pseudo-Hylas. Lembra-me um bom sujeito que conheci outrora, um social-democrata russo. Inebriado por uma infusão de Spencer e de Marx, adoçada por Pierre Lavroff, êle evocava, o olhar perdido em êxtase, o homem "ao volante do automóvel histórico, a avançar, de etapa em etapa, na conquista do seu destino, em virtude de um inelutável processo evolutivo..."
  
-Observe porém, no exemplo característico dos versos citados por nosso amigo, como funciona a idéia emotiva. Quem lê esses versos, nada recebe na inteligência. Entretanto, uma onda de afetos generosos palpita-lhe nas entranhas e vem soerguer-lhe o peito. Como poderia não ser verdadeiro o que faz vibrar a minha bondade? É o que êle diz a si mesmo. É a isso que chamamos [[evangelho-de-jesus:sermao-da-montanha:julgar:start|JULGAR]] conforme o apetite e as reações subjetivas, em vez de julgar conforme o objeto. Por essa espécie de trapaça consentida é que, em boa parte, se explica, no mundo moderno, especialmente entre o público feminino, o sucesso das "consoladoras" filosofias do sentimento e da intuição. O mesmo se aplica à sedução exercida sobre muitos espíritos débeis pelo idealismo moral, a preços módicos, com que os espíritas e teósofos embrulham a sua mercadoria barata.+Observe porém, no exemplo característico dos versos citados por nosso amigo, como funciona a idéia emotiva. Quem lê esses versos, nada recebe na inteligência. Entretanto, uma onda de afetos generosos palpita-lhe nas entranhas e vem soerguer-lhe o peito. Como poderia não ser verdadeiro o que faz vibrar a minha bondade? É o que êle diz a si mesmo. É a isso que chamamos JULGAR conforme o apetite e as reações subjetivas, em vez de julgar conforme o objeto. Por essa espécie de trapaça consentida é que, em boa parte, se explica, no mundo moderno, especialmente entre o público feminino, o sucesso das "consoladoras" filosofias do sentimento e da intuição. O mesmo se aplica à sedução exercida sobre muitos espíritos débeis pelo idealismo moral, a preços módicos, com que os espíritas e teósofos embrulham a sua mercadoria barata.
  
 Theonas. Observe também o serviço prestado à musa do Progresso sem fim pelo movimento de translação. Se Hugo fosse buscar as suas imagens no movimento de crescimento, dificilmente nos arrebataria ao mostrar-nos, por exemplo, um micróbio a se tornar mamífero ou a inchar até o céu. Ao contrário, o movimento de translação, por isso mesmo que só afeta o sujeito de maneira extrínseca, presta-se admiravelmente aos alongamentos indefinidos. Theonas. Observe também o serviço prestado à musa do Progresso sem fim pelo movimento de translação. Se Hugo fosse buscar as suas imagens no movimento de crescimento, dificilmente nos arrebataria ao mostrar-nos, por exemplo, um micróbio a se tornar mamífero ou a inchar até o céu. Ao contrário, o movimento de translação, por isso mesmo que só afeta o sujeito de maneira extrínseca, presta-se admiravelmente aos alongamentos indefinidos.
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 Theonas. Faça um exame de consciência, Philonoüs, perscrute suas disposições latentes: conseguirá assim discernir a sombra móvel dessa mitologia no transfundo de seus preconceitos de homem moderno. Que lástima! A custo conseguimos formar uma idéia exata do lugar imenso, monstruoso que há já dois séculos ela ocupa no nosso subconsciente. Um poderoso espírito como Augusto Com-te deve-lhe a maior parte das suas deficiências. Sempre lhe ficou apegado, posto que percebesse muito bem certos caracteres do progresso real. (Reconhece, por exemplo, que nenhum progresso real pode ser indefinido e que todo progresso real supõe a conservação dos bens do passado.) É a mitologia do progresso necessário que está no fundo da lei dos três estados. Sob a influência dela é que Comte, juntamente com Saint Simon, considerava a Revolução francesa cerno o irrevogável advento de uma nova Jerusalém, cuja religião lhe estava reservado fundar. Chamava-a "a religião da Revolução", esse contra-revolucionário! Enfim, foi essa mitologia, e talvez só ela que sempre o impediu de encarar sequer a possibilidade de um retorno à ordem católica. Com pasmosa ingenuidade, êle escreveu um dia que, para restabelecer o regime católico, seria preciso suprimir a filosofia do século XVIII e, como essa filosofia procede da Reforma, e a Reforma por sua vez não é mais do que o resultado das ciências de observação introduzidas na Europa pelos árabes, seria preciso afinal suprimir as ciências! É um texto notável, não lhe parece? Seio-o de cor. Êle ilustra, pelo menos tão bem quanto as sínteses histórico-econômicas de Marx, as tolices que a mitologia do Progresso pode levar um homem inteligente a proferir. E que dizer do próprio Marx ou de seu mestre Hegel? Que dizer de Proudhon e de sua Philosofia du Progrès? Se não me falha a memória, nesse livro é que Proudhon declara: "O que constitui a minha originalidade como pensador é que afirmo taxativamente, irrevogavelmente, em tudo e em toda a parte, o Progresso. O que é pois o Progresso? O Progresso, na mais pura acepção dó termo, isto é, na menos empírica, é o movimento da idéia-processo; movimento inato, espontâneo, essencial, incoercível e indestrutível, que está para o espírito assim como a gravidade está para a matéria". Também não está mau, não lhe parece? Theonas. Faça um exame de consciência, Philonoüs, perscrute suas disposições latentes: conseguirá assim discernir a sombra móvel dessa mitologia no transfundo de seus preconceitos de homem moderno. Que lástima! A custo conseguimos formar uma idéia exata do lugar imenso, monstruoso que há já dois séculos ela ocupa no nosso subconsciente. Um poderoso espírito como Augusto Com-te deve-lhe a maior parte das suas deficiências. Sempre lhe ficou apegado, posto que percebesse muito bem certos caracteres do progresso real. (Reconhece, por exemplo, que nenhum progresso real pode ser indefinido e que todo progresso real supõe a conservação dos bens do passado.) É a mitologia do progresso necessário que está no fundo da lei dos três estados. Sob a influência dela é que Comte, juntamente com Saint Simon, considerava a Revolução francesa cerno o irrevogável advento de uma nova Jerusalém, cuja religião lhe estava reservado fundar. Chamava-a "a religião da Revolução", esse contra-revolucionário! Enfim, foi essa mitologia, e talvez só ela que sempre o impediu de encarar sequer a possibilidade de um retorno à ordem católica. Com pasmosa ingenuidade, êle escreveu um dia que, para restabelecer o regime católico, seria preciso suprimir a filosofia do século XVIII e, como essa filosofia procede da Reforma, e a Reforma por sua vez não é mais do que o resultado das ciências de observação introduzidas na Europa pelos árabes, seria preciso afinal suprimir as ciências! É um texto notável, não lhe parece? Seio-o de cor. Êle ilustra, pelo menos tão bem quanto as sínteses histórico-econômicas de Marx, as tolices que a mitologia do Progresso pode levar um homem inteligente a proferir. E que dizer do próprio Marx ou de seu mestre Hegel? Que dizer de Proudhon e de sua Philosofia du Progrès? Se não me falha a memória, nesse livro é que Proudhon declara: "O que constitui a minha originalidade como pensador é que afirmo taxativamente, irrevogavelmente, em tudo e em toda a parte, o Progresso. O que é pois o Progresso? O Progresso, na mais pura acepção dó termo, isto é, na menos empírica, é o movimento da idéia-processo; movimento inato, espontâneo, essencial, incoercível e indestrutível, que está para o espírito assim como a gravidade está para a matéria". Também não está mau, não lhe parece?
  
-Voltemos porém à nossa discussão, caro Philonoüs. Voltemos às exigências [[philokalia:philokalia-termos:auto:start|auto]]-destrutivas do mito do Progresso. Por outro caminho, chegaremos talvez às conclusões que, há poucos instantes, você relutava em admitir. Quem diz progresso' diz mudança. Sendo o progresso absolutamente necessário e o domínio a que a sua lei se aplica portanto absolutamente universal, isso que chamamos fundamento ou princípio, seja na ordem do conhecimento, seja na ordem da vida moral, evidentemente deve mudar como tudo o mais.+Voltemos porém à nossa discussão, caro Philonoüs. Voltemos às exigências auto-destrutivas do mito do Progresso. Por outro caminho, chegaremos talvez às conclusões que, há poucos instantes, você relutava em admitir. Quem diz progresso' diz mudança. Sendo o progresso absolutamente necessário e o domínio a que a sua lei se aplica portanto absolutamente universal, isso que chamamos fundamento ou princípio, seja na ordem do conhecimento, seja na ordem da vida moral, evidentemente deve mudar como tudo o mais.
  
 Philonoüs. Sem dúvida alguma. Philonoüs. Sem dúvida alguma.
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 Philonoüs. Pois bem é fato; já que você insiste, eu concedo. Philonoüs. Pois bem é fato; já que você insiste, eu concedo.
  
-Theonas. Chamemos revolução, seguindo aqui o uso popular desse vocábulo, a toda mudança profunda por via de destruição ou de radical subversão. Diremos pois que o progresso, enquanto progresso, supondo, como atrás reconhecemos, a conservação, de alguma forma, dos ganhos adquiridos pelo passado, o progresso enquanto progresso — repito — é fundamentalmente conservador e positivo; mas o Progresso Necessário, na [[evangelho-de-jesus:logia-jesus:logia-jesus:medida:start|Medida]] em que exprime uma pretensa lei metafisicamente necessária, é essencialmente revolucionário e negativo. A Idéia-mito do Progresso devora assim o progresso real.+Theonas. Chamemos revolução, seguindo aqui o uso popular desse vocábulo, a toda mudança profunda por via de destruição ou de radical subversão. Diremos pois que o progresso, enquanto progresso, supondo, como atrás reconhecemos, a conservação, de alguma forma, dos ganhos adquiridos pelo passado, o progresso enquanto progresso — repito — é fundamentalmente conservador e positivo; mas o Progresso Necessário, na Medida em que exprime uma pretensa lei metafisicamente necessária, é essencialmente revolucionário e negativo. A Idéia-mito do Progresso devora assim o progresso real.
  
 Jacques Maritain (de "Theonas") Jacques Maritain (de "Theonas")
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