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HOMEM
Alexandre Koyré — Místicos, espirituais e alquimistas do século XVI alemão
O homem, imagem de Deus
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O homem é igualmente imagem e semelhança de Deus; é, portanto, livre como Deus mesmo e como o são os anjos.
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De não ser livre, teria resultado uma imagem muito imperfeita de Deus.
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A perfeição do homem enquanto imagem e expressão de Deus não deve fazer perder de vista sua imperfeição essencial como criatura.
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Por sua própria essência, era imperfeito, uma vez que está composto de ser e de nada.
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Já se viu que não tinha nada em si, nada próprio mais do que seu próprio nada.
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Também se viu que não só dependia de Deus em sua essência e em seu ser, mas inclusive que era uma expressão criatural (creatürliches Bild).
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Aí reside seu objetivo e seu papel.
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Havendo-o recebido tudo, não deve tratar de apropriar-se do que não lhe pertence, nem tratar de expressar a si mesma nem de pôr-se diante de Deus como um ser independente.
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Não sendo dela, não deve aspirar a existir para ela.
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A imagem, em resumo, não deve esquecer por que foi feita: a vontade e a liberdade que recebeu de Deus deve, por assim dizer, pô-los a seu serviço e devolver a Deus as perfeições que tenha.
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Precisamente é o contrário do que fez: tratou de apoderar-se para si mesma das perfeições que Deus lhe havia dado.
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Esquecido seu papel enquanto imagem, quis ser em si, por si e para si.
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Mas seu si é o nada; portanto, quis voltar-se para o nada e em lugar de negar o nada e possuir o ser, afirmou o nada e negou o ser.
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Por outro lado, e a dizer verdade, tratou de fazê-lo, porque não o conseguiu realmente.
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Porque, evidentemente, a criatura não pode afirmar-se a se (a partir de si).
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Por isso o mal e o pecado não residem mais do que em sua vontade e não em sua essência.
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Por isso também o pecado não é mais do que um esforço inútil (unnitzer Conat) e não tem nenhuma realidade verdadeira.
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Desde o ponto de vista de Deus, o pecado não existe, o que explica o motivo pelo qual Deus não tinha necessidade de um ato (positivo) de expiação para reconciliar-se com o homem.
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No entanto, por ser um ato da vontade criada, o pecado, desde o ponto de vista do homem, possui uma realidade certa, o que explica a necessidade que tem o homem de reconciliar-se com Deus.
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Não obstante, sublinha-se que, não residindo mais do que na vontade, não sendo mais do que um “acidente” que não pôde macular nem perverter a natureza ou a essência do homem, o pecado não pôde destruir sua liberdade.
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É o que permite ao homem abdicar livremente de sua própria vontade (Eigenwille), destruir em si mesmo o livre-arbítrio (liberum arbitrium), e abandonando-se à vontade divina, realizar livremente o servo-arbítrio (servum arbitrium).
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Nesse abandono de si consiste precisamente a morte espiritual, e como já se sabe, o renascimento no espírito se realiza na e por essa morte.
Como se pode ver, as teses metafísicas e cosmológicas de Weigel se reúnem com suas concepções religiosas: a superioridade ontológica do espírito explica a liberdade do homem interior, inacessível a toda influência procedente de fora, e a dupla participação representativa do homem — com o mundo e com Deus — explica por que basta ao homem conhecer-se para conhecer o mundo e a Deus, e por que o Γνῶθι σεαυτόν, conhece-te a ti mesmo, permanece como o termo e o começo de toda sabedoria.-
V. Weigel, Γνῶθι σεαυτόν, passim.
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Ibidem, I, I, XII, página 28: “Quem se conhece a si mesmo não precisa conhecer outra criatura celestial ou terrestre, pois ele mesmo é a imagem e semelhança de Deus e a imagem e semelhança do mundo. Quem se conhece a si mesmo, deve conhecer o Deus eterno, cuja imagem traz, e do qual ele veio, depois conhece também o grande mundo, do qual é feito segundo sua parte mortal; conhece também os astra e as constelações (Gestirne), também os quatro elementos, e toda a criatura e assim o homem; pois o homem foi criado do limo da terra (Erdenkloß), isto é, do mundo inteiro”.
Γνῶθι σεαυτόν quer dizer: conhece-te em teu verdadeiro Eu, no que tens de mais profundo e de mais verdadeiramente ti mesmo, isto é, conhece-te “em espírito”, em teu ser espiritual.-
Não é, pois, nem o sentido nem a razão (que é astral), mas a inteligência (mens) o que será o sujeito deste conhecimento.
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Ora, o que forma o Eu profundo, o ser verdadeiro do homem, é seu ser enquanto imagem de Deus.
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É, pois, Deus quem conhece o homem conhecendo-se a si mesmo.
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Mas o conhecimento em espírito só é possível para o homem regenerado, para aquele cujo centro, o Eu, se encontra no ser e não no nada, isto é, para aquele cuja alma, estando “esvaziada” pela e na Gelassenheit, foi criada novamente por Deus e “preenchida” pelo espírito divino que se revela e se encarna nela.
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V. Weigel, Principal und Haupttractat von der Gelassenheit, § 5: “O abandono (Gelassenheit) irrompe e flui inteiramente sobre tudo o que é criado…”.
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Deve-se notar — é uma diferença característica — que Weigel, como todos os místicos paracelsistas, não insiste sobre o Afastamento (Abgeschiedenheit), que desempenha tão grande papel na mística clássica.
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Compreende-se bem por quê: porque o homem é em si o Cosmos inteiro, e não serviria de nada desviar-se disso, e, por outra parte, porque o mundo é uma expressão de Deus.
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É, portanto, Deus mesmo quem realiza este conhecimento que se revela e se conhece na alma do homem regenerado.
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O conhecimento de si, que exige do homem o Γνῶθι σεαυτόν, é, portanto, ao mesmo tempo a condição do renascimento espiritual e seu efeito, porque é neste ato sobrenatural onde se cumpre a colaboração misteriosa da criatura e do Criador, quem, na e pela coincidência da liberdade criadora com a liberdade criada, faz “nascer” o Cristo-Logos na alma e a alma no Cristo-Logos.
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A doutrina de Weigel se dobra aqui à mística paulina, e o conhecimento, o conhecimento de si mesmo se consome na revelação do Verbo interior.
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