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DIALOGUS

Alexandre Koyré — Místicos, espirituais e alquimistas do século XVI alemão

O Dialogus de Christianismo

  • O Dialogus de Christianismo ou Gespräch vom wahren Christentum é a única obra de V. Weigel facilmente localizável, por ter sido editada em 1722 em Hamburgo.
    • O livro se compõe de pequenos diálogos; os dramatis personae são um pastor (Concionator), um leigo (Auditor) e a Morte, que personifica Cristo, que vai vencer os adversários, fazendo-os morrer aos dois.
    • O Auditor desenvolve a doutrina de Weigel e morre em ato de contrição, sem confissão nem absolvição.
    • Só espera em Deus e não tem necessidade de cerimônias, que não poderão libertá-lo da angústia do pecado.
    • O Concionator morre após ter recebido os sacramentos, confiando em sua eficácia, confiando em sua salvação, que Cristo teria conseguido para ele.
    • Sempre pregou a boa doutrina (reine Lehre) e sempre se manteve longe da heresia dos Schwenckfeld, Osiander, etcétera.
    • A Morte os faz voltar para anunciar aos irmãos do herege que este está salvo, enquanto o Concionator está nas trevas.
    • Composto com muita arte, o Diálogo vibra com a paixão que o impregna.
    • O Auditor proclama nele, entre outras coisas, que a verdadeira fé é incompatível com as perseguições.
    • Sebastian Franck já pregou o mesmo.
  • Os dois personagens do diálogo não simbolizam apenas os dois “estados” da cristandade, “a clerezia e o laicado”.
    • Parece que em cada uma dessas personagens ele colocou algo de si mesmo.
    • O Auditor, o leigo, faz ver às vezes que também pertence ao mundo eclesiástico e, em uma passagem nitidamente autobiográfica, expressa por que também ele havia assinado a famosa Formula Concordiae e por que — aus begreiflichen Gründen — não se havia negado a dar seu assentimento a essa doutrina que sabia perniciosa.
    • Claramente se percebe que os motivos alegados — algo sofísticos — não haviam bastado para devolver a paz à alma do pastor.
    • Precisamente desde seu ponto de vista, havia sentido quão indigno era por não proclamar sua fé.
    • Quando Weigel-Auditor acusa o Concionator de ter induzido mediante seus ensinamentos ao erro as pobres gentes, os leigos, cuja salvação lhe estava confiada, é a si mesmo a quem dirige essas censuras.
    • É a si mesmo a quem a Morte (o terceiro interlocutor do Dialogus, que representa a Cristo) censura ter falsificado a doutrina de Cristo, terla substituído por um ensinamento humano, ter substituído a letra pelo espírito, ter ensinado a justiça imputativa (imputativa justitia), ter negado a necessidade de uma justiça essencial, de uma participação real da alma na justiça divina, da habitação essencial (essentialis inhabitatio).
    • Weigel não busca facilidades.
    • Sábio teólogo, aluno e mestre das Universidades de Leipzig e de Wittenberg, conhecia bem a doutrina de seu adversário, e seu Concionator não é de modo algum uma caricatura.
    • Para Weigel, no entanto, é a caricatura de um pastor autêntico.
    • Porque não extrai seus argumentos e suas objeções de seus próprios fundos, de sua própria experiência, são os livros que leu, Lutero, Melanchthon, os Loci, a Examinatio ordinandorum os que lhe ditam suas respostas.
    • Em posse da “boa doutrina”, consciente da importância de seu papel — com efeito, sobre ele descansa a Igreja, ao menos a Igreja visível, instituição divina, instrumento necessário da salvação —, o Concionator opõe com toda sinceridade à doutrina própria de Weigel (que ele qualifica de “herética”, anabatista, entusiasta, fantasmagórica, osiândrica, schwenckfeldiana, münzeriana, etc.) seu principal argumento.
    • Se, como o Auditor afirma, a salvação só é possível pela ação direta e imediata da graça, por uma participação essencial, por uma transformação e uma santificação da alma, para que serve então a Escritura, essa revelação literal de Deus?
    • Para que servem os sacramentos que, no entanto, representam a morte expiadora de Cristo para nós?
    • E nesse caso, como livrar da desesperança o homem pecador, ao qual só a fé no valor da substituição vicária de Cristo, da expiação cumprida por Ele uma vez por todas — expiação da qual se aproveita pela graça de Deus — pode impelir a crer e a ter confiança em sua salvação?
    • E se essa confiança não está fundada, para que serve a renúncia a toda a obra da Reforma, o retorno a formas de piedade monástica, o abandono do Gaudere in Domino, da atitude nova da fé-confiança, ou mesmo a negação do valor da morte de Jesus?
  • Escuta-se a resposta do espiritualista, Dialogus de Christianismo, página 28: “Não desprezo de modo algum o ministério da pregação oral, e a palavra escrita me é muito cara, mas não sem o Espírito: o testemunho exterior concorda com meu coração mediante o Espírito Santo”.
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