Action unknown: copypageplugin__copy
theosophos:eckartshausen:start
ECKARTSHAUSEN
Theosophia — Karl von Eckartshausen (1752-1803)
HANEGRAAFF, Wouter J. (ORG.). Dictionary of gnosis & Western esotericism. Leiden ; Boston: Brill, 2006.
-
A formação de Karl von Eckartshausen transcorreu entre Munique e a Universidade de Ingolstadt, então dirigida pelos jesuítas, cuja influência marcaria de modo duradouro seu pensamento, tendo ele próprio declarado ter sido conduzido pelas vias do maravilhoso desde os sete anos de idade.
-
Conselheiro Aulíco em 1776, membro da Academia da Baviera em 1777 e arquivista secreto em 1784
-
Suas funções oficiais serviam também de pretexto para a pregação do amor ao próximo e da tolerância
-
Casou-se em 1778, perdeu a esposa em 1780; em 1781 uniu-se a Gabrielle von Wolter, com quem teve oito filhos
-
Após a morte de Gabrielle em 1794, contraiu matrimônio com Theresa Weiss, de quem teve dois filhos
-
Conservador em política, Eckartshausen era teocrático, monarquista, aliado dos jesuítas e adversário ferrenho dos Illuminaten da Baviera, ordem revolucionária e racionalista fundada por Adam Weishaupt, à qual se filiou por engano antes de combatê-la ativamente.
-
Os Illuminaten — ordem fundada por Adam Weishaupt — eram por ele confundidos, inicialmente, com uma sociedade iniciática tradicional
-
De 1780 a 1783 redigiu principalmente tratados jurídicos, além de peças de teatro, panfletos e brochuras sobre os mais diversos assuntos
-
Defendeu os jesuítas contra Friedrich Nicolai, identificando-se com uma Aufklärung — Iluminismo — autêntica
-
Entre 1784 e 1785 publicou uma série de escritos morais — Sittenblätter — à maneira sentimental de Richardson
-
Tornou-se Primeiro Arquivista em 1789, a despeito de intrigas e contrariedades profissionais
-
A partir de 1788, Eckartshausen abandonou a literatura edificante e o teatro para se consagrar quase exclusivamente ao pensamento esotérico, com interesse genuíno pelo iluminismo, pela teosofia cristã e pela mística especulativa, fundando um sistema cujo eixo era a aritmologia.
-
Apesar de certo gosto pelo ilusionismo que evoca Cagliostro, opunha-se aos experimentos pneumatológicos de charlatães
-
Seus próprios experimentos despertaram o interesse da Corte Prussiana e baseavam-se na aritmologia — ciência dos números compreendidos simbolicamente, cf. Simbolismo Numérico
-
A aritmologia era para ele o meio de resolver a oposição kantiana entre nômeno e fenômeno e de alcançar a síntese de todo o conhecimento, à maneira de Pitágoras
-
As dez Sefirot da Cabala eram consideradas os dez números dos Santos Nomes de Deus
-
Dezessete sonhos simbólicos teriam contribuído para a elaboração de seu complexo sistema aritmológico
-
A Zahlenlehre der Natur — Doutrina dos Números da Natureza — de 1794 é o testemunho mais acabado dessa pesquisa
-
A produção de Eckartshausen foi vastíssima — mais de cem obras —, destacando-se Die Wolke über dem Heiligthum — A Nuvem sobre o Santuário —, de 1802, amplamente traduzida e reeditada, e seus escritos sobre Cabala e alquimia adotados como manuais pela Sociedade Hermética de Karlsruhe.
-
Era leitor infatigável das tradições cabalísticas judaica e cristã, bem como profundo interessado na alquimia
-
A Sociedade Hermética de Karlsruhe adotou algumas de suas obras como manuais básicos
-
A correspondência de Eckartshausen foi gigantesca e abrangia uma vasta rede de pensadores, místicos e teósofos de sua época, incluindo figuras como Franz von Baader, Ivan Vladimir Lopukhin e Louis-Claude de Saint-Martin, além de revelar seu sonho de exílio voluntário na Rússia e suas afirmações de revelações angélicas.
-
Entre seus correspondentes estavam Johann Michael Sailer — ex-jesuíta e futuro bispo de Regensburg —, Conrad Schmid, Franz Joseph von Thun — mago e amigo de Johann Caspar Lavater —, Johann Heinrich Jung-Stilling, Niklaus Anton Kirchberger, Friedrich Herbort, Johann Gottfried Herder, Friedrich Nicolai, Franz von Baader e Ivan Vladimir Lopukhin
-
Com Ignaz Lindl partilhava o sonho de emigração voluntária para a Rússia, característico do Erwecktenbewegung — movimento dos despertos
-
O czar Alexandre I valorizava suas obras, o que lhe conferiu notoriedade na Rússia
-
Sua obra Kostis Reise — Viagem de Kostis —, de 1795, assemelha-se ao romance iniciático a clef de Jung-Stilling intitulado Das Heimweh — A Saudade da Pátria
-
Na correspondência com Kirchberger — entre 1793 e 1797 —, Louis-Claude de Saint-Martin é tratado como grande mestre da teosofia cristã, depois de Jakob Böhme
-
Eckartshausen afirmava ter recebido segredos e revelações teosóficas de um anjo que falava pela voz de uma jovem mulher
-
As revelações de Madame de la Vallière em Lyon são comparáveis a essas manifestações em que ilusionismo e crença sincera nas entidades angélicas se mesclam constantemente
-
Reivindicava ainda ter descoberto, por via contemplativa, o segredo de todas as invenções possíveis, com acesso aos mistérios do mundo pneumático
-
O sistema de Eckartshausen articula os três painéis do tríptico teosófico — cosmogonia, cosmologia e escatologia —, tendo por imagem central a Tabula Smaragdina atribuída a Hermes Trismegisto e por eixo doutrinal o mito das duas Quedas, que fornece a solução ao problema do mal.
-
A Tabula Smaragdina — Tábua Esmeralda — é vista como imagem das trocas permanentes entre os três mundos: divino, angélico e humano
-
Espírito e natureza são forças complementares que remetem a uma realidade superior e única
-
À maneira de Böhme, trata frequentemente de Sofia — a Sabedoria divina —, refletida em Cristo, descrito como Sal da Luz e revelação de seu esplendor
-
O sistema remete ainda às dez Sefirot da Cabala; o homem é imagem do Criador; o Verbo divino manifesta-se pelo Filho no mundo material, termo médio entre o bem e o mal
-
Lúcifer — o maior dos anjos — caiu por soberba, introduzindo a primeira catástrofe no universo
-
Adão primordial — ser espiritual de imensas virtudes criado para reconduzir os anjos rebeldes ao bom caminho — foi seduzido por eles e caiu, arrastando toda a natureza em sua queda e perdendo quase todas as faculdades espirituais
-
A humanidade permanece, contudo, capaz de desenvolvimento espiritual, pois a Natureza está repleta de assinaturas divinas a serem decifradas para alcançar a regeneração
-
A redenção operada pelo sacrifício do Filho de Deus tornou possível a Wiedergeburt — o novo nascimento espiritual — e a libertação da substância paradisíaca aprisionada na matéria desde a queda
-
Os iniciados que praticam a verdadeira ciência real e sacerdotal segundo a Ordem de Melquisedec receberão um corpo luminoso numa terra regenerada
-
Embora católico e aliado dos jesuítas, Eckartshausen professava um ecumenismo próximo à noção de Igreja Interior, compatível com sua permanência na Igreja Romana, e situava o coração humano como templo por excelência e sede da verdadeira comunidade cristã.
-
A noção de Igreja Interior era cara a Ivan Vladimir Lopukhin, com quem Eckartshausen compartilhava essa concepção
-
A religião era por ele considerada fenômeno universal, atestado pelas mitologias pagãs e pelos grandes filósofos da Antiguidade, notadamente Platão
-
A revelação bíblica e o cristianismo são, todavia, o cumprimento último da religião; Jesus veio cumprir a Lei Mosaica e remir a humanidade pelo seu sangue
-
Contra o que designava como erro protestante, exaltava o valor do catolicismo, a necessidade do culto e dos sacramentos, e uma atitude de tipo quietista próxima à de Fénelon e Madame Guyon
-
O coração do homem é o Templo por excelência; a verdadeira comunidade cristã é a Igreja Interior, sempre potencialmente presente no âmago do coração humano, sem exigir do fiel que se aparte do mundo
-
Eckartshausen partilhava com outros Naturphilosophen do período pré-romântico a concepção de uma Natureza atravessada por movimento circular resultante de duas forças antagônicas — ação e contração, estados ativo e passivo —, e afirmava que a magia verdadeira e a alquimia autêntica têm seu fundamento na harmonia dos elos invisíveis que interligam Deus, o homem e o universo.
-
Para ele não há ruptura radical entre espírito e natureza, pois ambas as forças antagônicas e complementares atuam nos quatro elementos básicos, funcionando como veículo dessas forças
-
A Luz é o órgão da Sabedoria divina — Sofia —, que engendra os elementos
-
O iniciado pode agir sobre a Natureza e passar do mundo material ao mundo dos espíritos, mediante a imaginação verdadeira no sentido paracelso do termo
-
A magia verdadeira funda-se na harmonia dos elos invisíveis que interligam Deus, o homem e o universo
-
A calcinação de certas plantas permite ao mago autêntico fazer aparecer sua essência em forma aérea e etérea
-
A transmutação é o objetivo da verdadeira alquimia, cuja base material serve a propósitos espirituais
-
O magnetismo animal — cujas teorias e práticas Eckartshausen estudou — atraía-o por basear-se na ideia de um fluido universal que percorre o cosmos inteiro
-
A influência de Eckartshausen estendeu-se por toda a Europa — especialmente na Alemanha, Inglaterra, França e Rússia —, e seu sistema, embora não inovador, revela amplitude e profundidade de visão que o tornam, ao lado de Franz von Baader, uma das figuras mais representativas da teosofia cristã nas duas últimas décadas do século XVIII alemão.
-
Franz von Baader é mencionado como o outro grande representante da teosofia cristã desse período
-
/home/mccastro/public_html/cristologia/data/pages/theosophos/eckartshausen/start.txt · Last modified: by 127.0.0.1
-
-
-
-
-
-
-
-
