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Revelação do Ser Único
Vladimir Lossky. Théologie négative et connaissance de Dieu chez Maitre Eckhart. Paris: Vrin, 1960
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Mestre Eckhart investiga extensamente, no Comentário sobre o Êxodo, a questão dos nomes divinos que podem ser predicados a partir dos efeitos criados, integrando os princípios negativos dos sábios árabes e judeus aos ensinamentos positivos dos santos e doutores da Igreja.
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O próprio livro do Êxodo apresenta o Senhor dizendo a Moisés que Ele é Aquele que é, no versículo 3, 14.
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Esse texto sagrado impõe ao exegeta cristão a abordagem do mistério de um nome que Deus atribui a Si mesmo.
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A iniciativa da nomeação deixa de pertencer ao intelecto humano, o qual costuma reunir as perfeições espalhadas nas criaturas para atribuí-las à Mônada todo—poderosa que as unifica em sua perfeição única.
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A própria Mônada se nomeia nesse momento, afirmando a sua identidade em um retorno completo.
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Essa reflexão sobre si mesmo, na afirmação duplicada do Ego sum qui sum, é aproximada por Eckhart da máxima hermética sobre a mônada que engendra a mônada e reflete sobre si mesma o seu ardor.
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O texto do Êxodo recebe, dessa forma, um sentido trinitário que não poderia existir para o Rabino Moisés.
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O Mestre dominicano concorda com o teólogo judeu ao enxergar nessa afirmação, que reproduz o sujeito no predicado, um nome único pelo qual Deus se designou a Si mesmo, revelando—se como Ser.
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Eckhart interpreta, junto com Maimônides, o gesto de Moisés cobrindo a face diante da sarça ardente, no Êxodo 3, 6, como a atitude do intelecto humano perante a revelação divina.
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A razão natural ou o intelecto deve ser reduzido à catividade diante das profundezas secretas de Deus, consideradas sobrenaturais, para que se possa enxergá—las na luz da graça, ou seja, em Espírito, conforme a referência a São Paulo em II Coríntios 10, 5.
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Esses mistérios ocultos de Deus são designados pelas trevas sobre a face do abismo, em Gênesis 1, 2, pois superam o entendimento criado, que é incapaz de conhecê—los sem a inspiração da graça que eleva a natureza, exercendo sobre as faculdades cognitivas uma ação semelhante ao influxo da virtude que um agente superior comunica ao seu inferior.
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O homem não possui meios próprios para aprender que o nome Ser pertence singularmente a Deus, uma vez que é justamente sob a razão do ser que Deus permanece não manifestado, improdutivo e oculto em Si mesmo.
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Esse nome deve provir de Deus como sua própria afirmação reveladora em sua ação interior.
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A manifestação do Ser indeterminado e indistinto em si só é possível no supósito do Pai, no Uno, onde a emanação das Pessoas encontra o seu princípio e o seu fim, demonstrando a identidade da Essência pelo retorno da Mônada sobre si mesma.
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O ser que se revela surge como Unidade essencial, e as modalidades de sua revelação manifestam—se como Trindade de pessoas, caso o Ego sum qui sum do Êxodo seja a revelação do Ser.
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Deus se revela como Ser no processo trinitário e, como essa ação interior tem por princípio o Uno apropriado ao Pai, o primeiro nome que designa Deus mais propriamente, o nome acima de todos os nomes, será tanto o Ser quanto o Uno, que o distingue pelo próprio fato de sinalizar a sua indistinção, tornando ambígua e imprópria qualquer outra acepção das palavras ser ou ente.
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O texto em latim do Comentário sobre João indica que o próprio uno, por sua propriedade, indica distinção, pois o uno é indistinto em si e distinto dos outros, sendo, por isso, pessoal e pertencente ao supósito, ao qual cabe agir.
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O desenvolvimento dialético sobre a indistinção e a distinção do Ser—Uno encontra—se também no Comentário sobre a Sabedoria e no Comentário sobre o Êxodo.
A revelação do Êxodo assinala não apenas a unidade, mas também a unicidade do Ser que é Deus, o que significa que apenas Deus é propriamente ente.-
Parmênides e Melisso não admitiam mais do que um único Ser, estabelecendo que existe apenas um ente.
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Eckhart cita São Bernardo, na obra Da Consideração, livro V, capítulo 6, que indaga se esse ser tão singular e tão sumo não deve ser julgado, em comparação com o que ele não é, mais como não ser do que como ser, concluindo que isto é o que significa Eu sou quem sou.
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Em outra passagem, define—se Deus como aquilo sem o qual nada existe, sendo que nada existe sem Ele assim como Ele mesmo não pode ser sem Si, sendo Ele para Si e para todos, e, por isso, de certo modo, apenas Ele mesmo é o que é o ser de si mesmo e de todos.
A resposta para a pergunta sobre o que é Deus resume—se à constatação de que Deus é o Ser, visto que somente Deus é.-
A informação sobre os Eleatas provém provavelmente de passagens de Aristóteles na Física e na Metafísica, mas Eckhart se refere aqui a Avicena, que dedicou um capítulo de sua Física, intitulado Da improbação daqueles que falaram sobre os princípios do ser, à doutrina de Parmênides e Melisso.
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