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mrf:eckhart:estudos:shah-kazemi:apofatico

Via apofática

SHAH-KAZEMI, Reza. Paths to transcendence: according to Shankara, Ibn Arabi, and Meister Eckhart. Bloomington, Ind: World Wisdom, 2006.

  • Eckhart rejeita firmemente a possibilidade de que Deus possa ser circunscrito por conceitos ou descrições, afirmando o caráter necessariamente apofático de todo enunciado sobre o Divino.
    • A via apofática sustenta que qualquer atributo positivo conferido a Deus falha inevitável e infinitamente em atingir seu objeto.
    • “O que se diz que Deus é, Ele não o é; o que não se diz d'Ele é mais real do que o que se diz que Ele é.”
  • Há aspectos da doutrina apofática que admitem comunicação, ainda que sua função principal seja preparar o terreno e ampliar a receptividade à Natureza superior e incomunicável do Divino.
    • A expressão verdadeira não provém do exterior, mas move-se a partir da forma interior que vive na parte mais íntima da alma.
    • “Tudo o que pode ser verdadeiramente expresso por palavras deve vir do interior, e mover-se por sua forma interior, não vir do exterior; é do interior que isso deve proceder para o exterior. Isso vive verdadeiramente na parte mais íntima da alma.”
  • A opinião recebida do exterior não pode ser verdadeiramente posta em palavras porque sua forma interior não está viva na alma, ou seja, não foi realizada interiormente.
    • A realização interior deve preceder a expressão verbal para que esta veicule efetivamente o aspecto comunicável da realidade em questão.
    • Formulações verbalmente exatas, sem essa realização prévia, não transmitem a realidade de que tratam.
  • A compreensão do ouvinte depende também de um grau de realização interior, sendo um determinado modo de ser o pré-requisito para a compreensão do discurso.
    • Eckhart dirige-se a seus ouvintes ao tratar do significado mais profundo da pobreza.
    • “Agora vos peço que sejais tais, para que compreendais este discurso: pois vos digo na Verdade eterna: a menos que correspondais a essa Verdade da qual queremos falar agora, não podeis compreender-me.”
    • Um elemento que “corresponde” à pobreza de que se fala funciona como abertura pela qual o significado da pobreza profunda pode entrar na alma.
  • A comunicação efetiva depende tanto da realização de quem fala quanto de quem escuta, ainda que em grau menor para este último.
    • “Aquele que abandonou totalmente sua vontade prova meu ensinamento e ouve minha palavra.”
  • Eckhart declara categoricamente que todas as concepções acerca do Absoluto, sendo incomensuráveis com sua realidade, devem ser banidas da consciência para que se alcance a mais alta realização ou o Nascimento.
    • A questão colocada é se o homem pode encontrar esse Nascimento por meio de certas coisas divinas trazidas de fora pelos sentidos, como concepções de Deus enquanto bom, sábio ou misericordioso.
    • “A questão se coloca de saber se o homem pode encontrar esse Nascimento por certas coisas que, embora divinas, são trazidas de fora pelos sentidos, como certas concepções de Deus, por exemplo que Ele é bom, sábio, misericordioso, ou o que quer que a razão possa conceber em si mesma e que é de fato igualmente divino. Minha fé, não!”
    • É Deus quem Se conhece a Si mesmo nesse Nascimento, o que implica um hiato necessário entre todas as coisas criadas — inclusive as concepções do Divino — e a realidade do Absoluto incriado.
  • As concepções humanas da Essência do Divino constituem véus que a recobrem, pois projetam categorias humanas sobre o que transcende toda atribuição limitativa.
    • Atribuir à Essência qualquer “natureza” já é não lhe fazer justiça.
    • “Sua natureza é que Ela seja sem natureza. Pensar a bondade, a sabedoria ou o poder é recobrir a Essência e obscurecê-la por esse pensamento. O simples pensamento recobre a Essência.”
    • A compreensão mental da bondade, por exemplo, vela a Essência — não porque a Essência seja incompatível com a bondade em si, mas porque o pensamento humano delimita e desfigura a verdadeira natureza dessa bondade.
  • Todo atributo particular e distintivo que se diz pertencer a Deus constitui uma especificação que é transcendida pela Essência, representando o aspecto objetivo da incomensurabilidade entre conceito e realidade.
    • “Pois a bondade e a sabedoria, assim como tudo o que pode ser atribuído a Deus, são acréscimos à Essência una de Deus: e todo acréscimo produz a alienação da Essência.”
  • Longe de postular a necessidade de uma concepção particular da Realidade divina, Eckhart sublinha que o pré-requisito essencial à mais alta realização é precisamente a ausência de toda concepção limitada, em benefício de um estado de pura receptividade ao influxo divino.
  • Seria, contudo, equivocado concluir que Eckhart preconiza uma ignorância completa de toda concepção de Deus como ponto de partida ideal, pois trata-se de uma ignorância metodicamente induzida sobre a base de uma compreensão clara de sua necessidade espiritual e de um conhecimento necessário da doutrina fundamental da religião.
    • Essa ignorância é recomendada exclusivamente àqueles que já possuem certas ideias preexistentes sobre Deus e um modo de vida correspondente.
    • O conhecimento relativo e provisório é pressuposto como base a ser transcendida pela “ignorância”.
  • A necessidade da ignorância deve ser ensinada apenas àqueles que assimilaram o “nobre ensinamento” de Cristo e que são “perfeitos” em sua vida virtuosa decorrente dessa doutrina.
    • O trecho a seguir, que sucede uma declaração de que a “união real” só pode ocorrer quando todas as imagens estão ausentes da alma, é dirigido aos “bons e perfeitos”.
    • “a vida preciosa e o nobre ensinamento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Têm a capacidade de saber que a coisa melhor e mais nobre que se pode alcançar nesta vida é guardar o silêncio e deixar Deus agir e falar.”
    • Eckhart deprecia as concepções estreitamente humanas apenas supondo que essas mesmas concepções foram compreendidas em seu nível apropriado — o do indivíduo humano confrontado com os ensinamentos revelados por Nosso Senhor Jesus Cristo.
  • A assimilação integral dos dados básicos da Revelação constitui, para Eckhart, a qualificação indispensável para iniciar a via rumo à união, sendo que a etapa seguinte reclama um não-saber e um “esquecimento” para transcender não a Revelação em si, mas a compreensão inevitavelmente limitada que dela se tem.
    • O alvo transcendente é tornar-se uno com a fonte e o conteúdo essenciais da própria Revelação — isto é, com o Verbo.
    • A união com a fonte da Revelação pressupõe esvaziar-se de todas as concepções, mesmo daquelas que derivam dos dados da própria Revelação.
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