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3. Prelúdio Místico

GIUSEPPE FAGGIN. MEISTER ECKHART E LA MISTICA TEDESCA PREPROTESTANTE. MILANO: FRATELLI BOCCA, 1946

Instruções sobre o discernimento

  • A primeira obra conhecida de Meister Eckhart, atribuída pela tradição ao período de Erfurt, apresenta-se como a revelação luminosa de uma alma em posse de sua certeza interior, distanciando-se de exercícios escolares ou ensaios doutrinais repletos de distinções metafísicas.
    • O conteúdo se constitui de ensinamentos de vida moral e religiosa direcionados aos confrades da Ordem Dominicana.
    • As lições pressupõem o complexo de normas da vida associada e encontram enquadramento adequado quando concebidas em função da disciplina do claustro e de deveres precisos.
    • A doutrina inspiradora configura um misticismo qualificável como misticismo ético.
    • Uma análise atenta revela uma estrutura especulativa prenhe de elementos que consolidarão doutrinalmente a compagine das obras da maturidade de Meister Eckhart.
    • A alma cristã e mística de Meister Eckhart demonstra-se mais sequiosa de salvação espiritual do que de sistemas intelectuais.
    • As obras posteriores edificarão andaimes metafísicos ao buscar motivos e conceitos em várias correntes teológicas e filosóficas para atender à necessidade imprevista de autointerpretação racional.
    • A audácia das fórmulas futuras comprometerá dogmaticamente a singeleza da experiência religiosa fundamental.
  • A dissociação entre o aspecto especulativo da doutrina e a entonação místico-religiosa da vida de Meister Eckhart constituiria uma traição à seriedade moral do pensador.
    • O expresso configura um símbolo inadequado e impotente para traduzir o ato do espírito, que permanece interior e inefável para os místicos de todos os tempos.
    • As palavras escritas ou pronunciadas correm o risco de suscitar escândalos e condenações.
    • Embora os termos expressos pareçam a manifestação integral da alma necessária para interpretar uma personalidade, eles voam como folhas secas longe da raiz inviolável do espírito.
    • O místico leva consigo para o sepulcro o prodígio da própria existência.
    • Resta aos pósteros a árdua tarefa de reencontrar no vocábulo fóssil e morto o vestígio do esplendor apagado.
  • O apelo dirigido por Meister Eckhart à experiência mística pessoal dos ouvintes nos sermões alemães deve ser aplicado a quem se dispõe a reconstruir integralmente a completude espiritual da alma do pensador, e não o edifício de ideias expressas racional e objetivamente discutíveis.
    • A palavra precisa assumir um caráter evocativo e sugestivo para evitar a limitação de analisar o pensamento expresso como mera construção intelectualista que declara inacessível a tonalidade inviolável do indivíduo.
    • O apelo metodológico assemelha-se àquele que Plotino direcionava aos próprios ouvintes.
    • O místico não se insere no âmbito da arte nem no da filosofia por representar uma experiência peculiar e irredutível.
    • A exclusão do campo artístico justifica-se porque o místico não se resolve na obra expressa, mas demonstra amor pelo grande silêncio.
    • A exclusão do campo filosófico decorre do fato de o místico não investigar nem traduzir racionalmente o pensamento, limitando-se a oferecer uma cifra do que é irrazonável.
    • A tentativa de interpretar adequadamente por meio de vocábulos o que constitui um ato de vida profunda além da palavra configura um esforço vão.
    • A experiência mística carece de história por se resolver em uma pontualidade inexprimível.
  • O místico se define simultaneamente como uma pessoa fechada no círculo incomunicável da própria existência e como uma expressão de coexistência, comunicação e caridade que se manifesta na palavra proferida e na relação espiritual.
    • A alma mística não conhece outra relação fora daquela que se estabelece entre ela e Deus.
    • O isolamento em sua absolutez demonstra-se tão absurdo quanto a relação pura que constitui uma universalidade abstrata.
    • A relação vital com outras almas serve para o místico provar a si mesmo a pureza do próprio querer e o valor da experiência interior.
    • O místico combate e opera no mundo, escrevendo e falando a outras almas para se esclarecer e permanecer fiel a si mesmo.
    • A luz interior e imóvel correria o risco de se atenuar caso não se reconquistasse em outros homens ao acender novos corações.
    • Embora pareça dever se fechar na posse plena e autossuficiente do espírito, o místico revela-se como uma atividade desinteressada e pura que transcende perenemente as próprias operações e pertence apenas a si mesma, de modo análogo ao Deus que cultua.
  • As Instruções sobre o discernimento funcionam como a revelação de uma postura específica delineada com clareza desde o princípio, baseada na ideia de que a verdadeira dedicação supera as demais virtudes.
    • A abertura da obra apresenta a seguinte citação textual: Vera e completa dedicação é virtude que supera qualquer outra virtù.
    • O trecho inicial prossegue afirmando que: Nenhuma obra importante pode ser cumprida sem ela, e por mais insignificante e de pouco relevo que seja um negócio, contudo, se feito com espírito de dedicação, rende maior proveito do que o celebrar ou o escutar a missa, rezar, contemplar ou outra coisa que se possa imaginar.
    • A citação é remetida às páginas cinco e seis da edição dos Reden sob os cuidados de E. Diederichs, publicada em Bonn no ano de 1925.
    • O conhecimento e a obra como tal perdem a primazia de valor diante dessa constatação.
    • O saber não configura renúncia nem sacrifício de si, mas sim o reconhecimento do ser e um vínculo com a realidade.
    • A ação carece de significado em si mesma caso não receba a santificação da Gelassenheit, definida como a total adesão a Deus, o desinteresse e o desapego absoluto das coisas.
    • A solidão interior atua como o princípio e o fim da vida espiritual.
    • A expressão alemã ein innerlich einöd identifica essa solidão na página doze da edição citada.
    • A solidão interior representa a nudez ou a negatividade absoluta do sujeito.
    • O indivíduo deve abdicar do próprio querer, do próprio eu, do pensamento e do desejo, libertando-se de causas e motivos exteriores.
    • Esse desapego radical constitui o motivo central do misticismo ético que inspira todas as Instruções do mestre dominicano.
  • O desenvolvimento das Instruções sobre o discernimento evoca uma vasta problemática de índole moral, especulativa e metafísica que acompanha a intuição fundamental por meio de ricos motivos implícitos e explícitos.
    • O primeiro desses motivos consiste na nítida distinção e contraposição entre o exterior e o interior, o humano e o divino, o terreno e o celeste, o múltiplo e o um.
    • As páginas trinta e quatro do texto original servem de referência para essa contraposição fundamental.
    • O místico se posiciona diante do real com um sentido originário de amargura e desgosto.
    • Os elementos negativos do mundo — o devir, o tempo, a morte, o pecado e a dor — surgem como treva e não-ser.
    • As coisas aparentemente positivas e desejáveis também são reduzidas à condição de treva e não-ser na perspectiva mística.
    • A entonação angustiada diante da exterioridade não provém de um conhecimento racionalizado, mas constitui o próprio fundo originário sobre o qual o conhecimento se forma e se determina.
    • O sentimento primordial de negatividade revela-se impensável se isolado do sentido do Divino e do Numinoso.
    • A complexa doutrina mística de Meister Eckhart possui nesse sentido originário a sua condição primeira e transcendental.
  • O misticismo de Meister Eckhart, embora sustentado por uma perene tonalidade afetiva, demonstra-se contrário a sentimentalismos e atrações estáticas, afastando-se de êxtases, visões ou fantasias mórbidas que rompam o cotidiano com aparências miraculosas.
    • Os sentimentos doces correm o risco de ser produzidos pelos sentidos, não tornando melhores as pessoas que os experimentam.
    • Aqueles que cresceram no amor de Deus possuem uma fé inabalável e aderem à divindade com a vontade fidelíssima, prescindindo de experiências especiais.
    • As referências textuais dessa postura remetem à página dezesseis do original.
    • As sensações agradáveis revelam-se caducas e transeuntes, pertencendo ao mundo exterior do qual a alma deve se conservar imune.
    • Quem possui Deus não detém uma coisa caduca, mas sim o imutável e o eterno.
    • O antisentimentalismo de Meister Eckhart não deve ser tomado como a expressão inequívoca de uma postura racionalista diante do ser.
    • A aversão ao afetivismo místico pode ter origem no ambiente dominicano-tomista em que o autor se formou.
    • O voluntarismo dominante nas Instruções pressupõe a presença da razão discriminante, equivalendo a uma posição intelectualística.
  • A comparação entre o desenvolvimento de Meister Eckhart e o de Tommaso d'Aquino evidencia caminhos inversos na estruturação do pensamento místico e racional.
    • Tommaso d'Aquino transitou de uma fase inicial profundamente perpassada por elementos neoplatônicos e misticizantes para um racionalismo rigoroso, refratário a apriorismos e afetivismos.
    • A evolução mental de Tommaso d'Aquino fundamenta-se em citações de seus comentários às Sentenças e em estudos teológicos como os indicados por G. Picard na Revue d'ascétique et de mystique de 1923 sobre a apreensão imediata de Deus.
    • Meister Eckhart permanece fiel ao espírito numinoso das Instruções sobre o discernimento.
    • O pensador alemão conduz para o centro numinoso tudo o que a especulação posterior, por mais intelectualista, lhe oferecerá.
    • O centro lírico da alma eckhartiana aparece ora adombrado pelos embaraços da problemática escolástica, ora revelado em plena liberdade nas obras alemãs.
    • As obras alemãs desvinculam-se das categorias especulativas para desvelar as profundezas da vida divina e a postura mística originária diante das coisas.
    • O nexo humano primário para Tommaso d'Aquino estabelece-se entre o pensamento e o existente concreto.
    • O vínculo primordial para Meister Eckhart intercede entre a alma e Deus, manifestando-se como senso de liberdade absoluta, distanciamento interior e unidade de espírito.
    • As coordenadas da unidade espiritual constam na página vinte e cinco do texto de origem.
    • A especulação posterior de Meister Eckhart não valerá como construção objetiva e universal, mas funcionará apenas em função do Inexprimível.
    • As supostas intemperanças de linguagem, incoerências lógicas ou indisciplinas do pensamento apontadas pela crítica moderna constituem símbolos da Vida profunda, inacessível à palavra e ao raciocínio.
  • A mística de Meister Eckhart, entendida como postura volitiva e originária, sintetiza-se na tese de que o verdadeiro possesso de Deus baseia-se em um razoável direcionamento interior da vontade, e não em um pensamento contínuo sobre a divindade.
    • O mestre dominicano adverte textualmente que um contínuo e ininterrupto pensar em Deus estaria além do poder humano ou seria muito difícil, não configurando a melhor opção.
    • O trecho prossegue com a máxima: O homem não deve se contentar com um Deus pensado, pois, se passa o pensamento, passa também Deus; mas se deve possuir um Deus em ser, superior ao pensamento do homem e de todo o criado, e este Deus não passa mesmo que tu te afastes voluntariamente.
    • As linhas correspondentes a essa passagem situam-se na página onze do texto base.
    • Toda a doutrina eckhartiana orienta-se a substituir o Deus pensado — o Deus objeto do aristotelismo renovado — pelo Deus vivente, entendido como subjetividade da nossa subjetividade.
    • Essa concepção visa fornecer, em sede teológico-filosófica, o equivalente lógico menos inadequado da experiência originária do Divino.
  • A oposição entre o interior e o exterior conduz a determinações essenciais nas quais a desvalorização do mundo externo nos Reden ainda não atinge a fórmula metafísica extrema observada nas obras maduras.
    • A expressão latina omnes creaturae sunt unum purum nichil representa a fórmula extrema que será sustentada por uma consciente doutrina metafísica posterior.
    • A proposição citada figura como a vigésima sexta entre as sentenças condenadas do autor.
    • Nas Instruções iniciais, a exterioridade é considerada sob o ponto de vista moral como não-valor e indiferença.
    • A intenção e o amor que se traduz em dedicação são os únicos elementos capazes de infundir significado moral ao exterior.
    • As páginas oito, vinte e quatro, trinta e sete e trinta e oito registram essa abordagem da intenção moral.
    • O opus operatum passa a pertencer ao mundo dos acontecimentos exteriores e se torna eticamente indiferente quando desacompanhado do ato moral do presente.
    • O próprio pecado cumprido passa a integrar um passado de caráter irrevogável.
    • O homem verdadeiramente aderente à vontade divina não desejaria que o pecado cometido tivesse deixado de acontecer.
    • Essa postura radical vincula-se aos artigos condenados número dezesseis e quinze da doutrina eckhartiana.
    • A exterioridade define-se como devir, série de tempos, dispersão e negação do Divino.
    • O exterior não cumpre função positiva nem serve como ponto de partida para a ascensão da mente ao Absoluto, divergindo da tese de Tommaso d'Aquino.
    • A divindade habita exclusivamente no homem interior, fazendo da interioridade o único espaço divino.
  • Deus se caracteriza como um eterno presente, o que exige da alma a atuação no presente para que ela alcance valor espiritual.
    • O fato de ter pecado deixa de constituir pecado no instante em que se experimenta a dor da falta, pois o arrependimento renova e revigora o amor do presente.
    • Um ato de amor e dedicação possui o poder de cancelar o passado, por mais severo que tenha sido o erro.
    • Quanto pior a falta passada, mais intensos se manifestam o arrependimento que a condena e o amor que a ela se opõe.
    • A divindade costuma ferir com o mal do pecado justamente os indivíduos que destina a grandes realizações.
    • A referência a esse desígnio divino encontra-se na página vinte e um do texto examinado.
  • A colpa exerce uma função dialética na vida moral ao se constituir como o momento negativo necessário para a alma reconhecer sua miséria e vivenciar a própria condição de criatura.
    • A salvação germina nas próprias raízes do mal, pois a consciência da desolação aproxima imediatamente a alma de Deus.
    • O texto traz a formulação: Quanto mais alguém se sente miserável e quanto mais numerosos são os seus pecados, tanto mais tem razão de se vincular, em uma dedicação absoluta, a Deus que não possui defeito nem pecado.
    • A passagem citada provém da página vinte e dois do texto de origem.
    • O drama da alma cumpre-se inteiramente na interioridade, e não na tensão entre o exterior e o interior.
    • O bem moral consiste na dedicação pura à vontade divina e no distanciamento da realidade externa, enquanto a culpa reside na dispersão no mundo, no desejo de posse e no apego aos bens terrenos.
    • Quem perde a consciência da interioridade divina por meio do pecado experimenta a angústia do nada, percebendo o desvalor das coisas amadas.
    • A angústia alerta o indivíduo sobre a necessidade de se reconquistar e de se recolher no próprio íntimo.
    • O círculo espiritual se restabelece quando o homem atende ao apelo da angústia e, por um ato de amor e dedicação, liberta-se dos apegos pecaminosos e dos motivos práticos para aderir à vontade de Deus.
    • O ato da vontade que instaura o presente divino na dispersão do tempo resgata a totalidade do passado, concentrando a via moral do homem.
    • O mestre afirma textualmente: Encontrando agora bem disposto o mortal, Deus não repara no que foi antes: Deus é um Deus do presente; qual te encontra tal te toma e te deixa e não pergunta o que tu foste, mas o que tu és agora.
    • As linhas desse pronunciamento localizam-se na página vinte e um do original.
  • Os sofrimentos, as desventuras e os males exteriores atuam como momentos necessários para a consolidação da vontade boa, uma vez que o ato moral exige a superação de um limite.
    • Os males constituem a exterioridade negativa cuja negação por parte da alma gera o valor moral.
    • A indicação desse princípio moral situa-se na página dezoito do texto de base.
    • Sem o confronto com o mal, a alma se enrijeceria em uma identidade vazia, permanecendo em Deus, mas não operando para Deus.
    • O exterior representa aquilo que não deveria existir e que precisa ser negado e transcendido; contudo, sem a sua existência, faltaria à alma o ponto de apoio para realizar o ato de transcendência.
    • O pecado e a dor não configuram bens em si, mas atuam como condições para o bem e para a alegria do espírito.
    • A vida moral define-se como uma atividade perene que não se isola, mas se apoia no mundo para condená-lo e redimi-lo simultaneamente.
  • A doutrina etico-religiosa de Meister Eckhart renova de modo pessoal certas vertentes do pensamento agostiniano e antecipa intuições e formalismos de pensadores posteriores, abrigando os germes de perigos especulativos futuros.
    • As antecipações estendem-se aos fragmentos de Novalis publicados por G. Prezzolini em Lanciano no ano de 1922, bem como aos paradoxos de Kierkegaard e ao formalismo ético de E. Kant e de Fichte.
    • A reflexão madura enfrentará o problema do estatuto desse mundo aparente, questionando sua origem e o motivo de surgir como sedução caso seja de fato o nada.
    • O pensamento concluirá que Deus se instala em nós e vive da nossa vida interior no próprio ato da vontade boa, dado que o amor e o arrependimento podem cancelar o passado de malvadeza.
    • A imanência divina surge como a condição indispensável para a viabilidade da salvação.
    • A doutrina da scintilla animae — ou centelha da alma —, embora não explícita nas Instruções, anuncia-se na afirmação de que Deus jaz escondido no fundo.
    • A frase em alto-alemão médio got verborgen lit in dem grund der sel documenta essa intuição na página dezesseis.
    • A realização de um Deus em ser por meio do ato moral exige uma investigação psicológica sobre as condições e o local em que se realiza a união mística.
  • O exame das faculdades da alma que realizam o divino permanece em segundo plano nas Instruções devido à ausência de interesses predominantemente especulativos, sugerindo a permanência temporária do influxo do voluntarismo agostiniano.
    • A especulação metafísica posterior enfrentará esse problema para determinar em qual elemento do espírito o Ser Eterno se atualiza e vive.
    • A investigação sobre a alma conduzirá à investigação teológica e vice-versa, com base na unidade interior vivenciada.
    • O esforço especulativo máximo de Meister Eckhart consistirá em demonstrar que a alma e Deus constituem uma alteridade que preserva o ato moral e uma unidade íntima que garante o destino espiritual.
    • Deus deixa de ser concebido como um objeto pensado para se tornar Vida e Presença operante.
  • Descrições vibrantes da vida interior ocultam perigos institucionais ao omitirem intermediários eclesiásticos tradicionais entre a alma e Deus, como a graça santificante, os sacramentos e a Igreja.
    • A experiência cristã reduz-se às proporções éticas comuns às grandes tradições místicas do mundo clássico e oriental, despojando-se da estrutura dogmática do Catolicismo institucional.
    • A exaltação do recolhimento interior e da dedição absoluta nas Instruções assume o tom de uma crítica e de um remédio à mundanidade de uma Igreja presa a interesses terrenos.
    • O projeto cristão de solidão interior e solidariedade moral encontra no silêncio dos claustros o seu ambiente natural, longe do clamor do mundo e dos compromissos hipócritas.
  • O claustro representava para o espírito sequioso de pureza o único asilo acolhedor e o símbolo de uma liberdade espiritual profunda, situada à distância da escravidão dogmática da Igreja oficial e da equivocidade das seitas heréticas.
    • O monaquismo era apontado por Gioachino da Fiore como o instaurador da terceira idade, associada à liberdade e ao Espírito.
    • A batina monacal frequentemente abrigava um pensador desejoso de verdade e de pureza, e não apenas o pio cumpridor das normas claustrais.
    • O ministério sacerdotal impunha atos litúrgicos e um complexo dogmático cuja aceitação fundamentava a coerência moral do monge.
    • O frate filósofo enfrentava um conflito íntimo entre o desejo de liberdade intelectual e o sistema de sacramentos e dogmas que podiam contradizer o misticismo refinado e as exigências de especulação racional.
    • O claustro testemunhava essas tormentosas incoerências, que não podiam ser aplacadas pela vontade de esquecê-las ou pela subordinação absoluta da razão à certeza da fé.
    • As almas recorriam ao simbolismo moral para encontrar nas narrativas evangélicas, nos dogmas e nos sacramentos analogias e sinais de verdades éticas e experiências místicas.
  • O recurso ao simbolismo moral manifesta-se em Meister Eckhart desde o período das Instruções sobre o discernimento, sem que isso comprometa a sinceridade de seu espírito.
    • A convicção de que a vida divina é interior encontra amparo nas autoridades de Paulo, João e Agostinho, levando o autor a considerar os meios externos como símbolos não essenciais.
    • Os sacramentos integram essa visão simbólica, surgindo a confissão mais como um meio de dispor a alma à paz interna do que como um instrumento de libertação efetiva.
    • O mestre afirma que é vantajoso confessar-se antes, mesmo sem remorso, devido ao fruto a ser colhido do sacramento da penitência.
    • A indicação textual desse conselho localiza-se na página vinte e três do original.
    • A confissão das colpas deve ser feita primeiramente a Deus, de quem deriva o perdono ao coração arrependido.
    • O arrependimento extingue e anula os pecados no abismo divino, como se nunca tivessem ocorrido.
    • As linhas explicativas desse cancelamento constam na página vinte e dois do texto base.
  • O sacramento da Eucaristia recebe uma interpretação focada na interioridade e na posse espiritual, preterindo o momento do recebimento físico do elemento sagrado.
    • O texto estabelece que basta para a Eucaristia uma posse espiritual com desejo de renúncia e devoção.
    • A alma pode receber o sacramento com tal retidão que se torna mais rica na graça do que qualquer ser na terra.
    • O mestre declara que o homem pode cumprir esse ato mil e mais vezes por dia, em qualquer situação de doença ou saúde, desde que se disponha com compunção e absoluto fervor.
    • A passagem eucarística localiza-se na página trinta e três do texto examinado.
    • Tais afirmações não apresentam caráter herético isoladamente, pois reproduzem o ensinamento católico voltado a valorizar a piedade interior e a intenção boa.
    • As teses assumem um sentido desconcertante quando inseridas no quadro do misticismo interior eckhartiano.
    • A equivocidade resultante perturbou os juízes de Colônia e de Avinhão e divide os estudiosos contemporâneos.
    • A Igreja define-se como cristã antes de se estruturar como organismo de ritos, dogmas e sacramentos, o que permite reconduzir a doutrina do mestre às fontes genuínas do Cristianismo e ao âmbito católico.
    • A livre interioridade do espírito e da vida religiosa parecia contrastar com o valor mágico atribuído ao ato sacramental externo.
    • As referências a esse contraste distribuem-se pelas páginas seis, nove, vinte e quatro e vinte e seis do original.
  • O posicionamento de Deus como o centro absoluto do pensamento e da ação torna indiferentes os demais bens que se insiram entre a alma e a divindade, restando apenas o significado que a alma lhes atribui em sua oscilação entre a interioridade e a exterioridade.
    • Quem ama a Deus não solicita favores, mas deseja apenas o cumprimento da vontade divina por meio da fórmula fiat voluntas tua.
    • O pedido de um bem determinado indicaria uma alma dominada por desejos caducos e empenhada em afirmar o próprio io diante da divindade.
    • O indivíduo que ama a Deus define-se como um espírito livre por estar imune à ação do mundo e coincidir com a liberdade absoluta da divindade.
    • A expressão em alto-alemão médio ein ledig gemüt designa esse espírito livre na página seis do texto.
    • O mestre afirma que se alguém possui Deus, apresenta-se em posse dele em qualquer local, seja na via pública, entre as pessoas, na igreja, na solidão ou na cela monástica.
    • A citação sobre a onipresença divina encontra-se na página nove do original.
    • O princípio moral-religioso conduz Meister Eckhart às consequências extremas, revelando sua eminente personalidade moral e a postura mística de sua alma, em vez de meras intemperanças de uma dialética intelectualista sem equilíbrio.
  • A elasticidade espiritual de Meister Eckhart afasta-o de falsos rigorismos e confere ao homem uma ampla liberdade na escolha dos meios práticos de ação, desde que preservada a vontade boa.
    • O único elemento necessário — a porção única ou porro unum est necessarium — consiste na vontade boa que atua por puro amor e sem um porquê.
    • A locução um kein warum identifica o agir sem porquê na página trinta e seis do original.
    • O mestre declara textualmente: Deus não vinculou a nossa salvação a um modo particular: o que um bom procedimento pode alcançar, podem-no também todos os outros.
    • As linhas dessa afirmação situam-se na página vinte e seis do texto base.
    • O princípio fundamenta a condenação do farisaísmo das obras buas e das penitências, de modo análogo aos ensinamentos de Buddha e de Cristo.
    • A postura implica a desvalorização da superestrutura hierárquica, sacramental e litúrgica da Igreja, transformando a religião em uma religiosidade que investe a totalidade da vida.
    • As seculares disputas teológicas parecem entediar o pensador diante da primazia da vontade boa.
    • A página vinte e duas do texto registra esse desinteresse pelas controvérsias intelectuais.
  • A reflexão sobre a graça em Meister Eckhart concilia a liberdade da ação humana com o ensinamento ortodoxo de que a operação divina não destrói a natureza, mas a conduz ao aperfeiçoamento.
    • O autor declara que o homem deve ser livre e senhor de todas as ações, sem sofrer turbamentos ou constrangimentos.
    • A indicação dessa liberdade senhorial encontra-se na página trinta e nove.
    • A distinção entre a obra natural e a obra sobrenatural de Deus afigura-se insignificante para os efeitos práticos da salvação.
    • O texto traz o conselho: Não te preocupes se Deus opera naturalmente ou de modo sobrenatural.
    • A lição prossegue afirmando que a natureza e a graça estão ambas nele, qualificando como erro a preocupação sobre o modo como a divindade realiza sua obra.
    • O trecho conclui com a exortação: Deixa-o puramente fazer e goza apenas a paz.
    • Os limites dessa passagem situam-se entre as páginas quarenta e quatro e quarenta e cinco do texto original.
  • Deus e a alma constituem as únicas verdades que Meister Eckhart deseja conhecer e cuja compreensão se identifica com a atividade e a realização de si, repetindo a meta de Plotino e de Agostinho.
    • A história sagrada da redenção é recordada nas Instruções apenas por meio da obra de Cristo e da anunciação da Virgem, omitindo elementos mitológicos ou fantasiosos.
    • Cristo figura como o ideal de vida e a Virgem atua como o símbolo da dedicação perfeita.
    • As páginas dezoito, vinte e quatro e vinte e sete documentam essas referências históricas e simbólicas.
    • A interpretação ética da Annunciazione aponta para um motivo especulativo caro ao autor, que se expandirá nas obras maduras por meio de uma simbologia que transforma fatos históricos em valores espirituais eternos sem história.
    • A transfiguração dos eventos históricos em símbolos eternos antecipa as interpretações religiosas transcendentais de Hegel ou de David Strauss.
    • Essa leitura simbólica radical encontrará sua expressão mais audaz na décima segunda proposição condenada pelo papa João.
  • As Instruções sobre o discernimento projetam o problema de determinar se a postura do espírito livre ou da vontade boa constitui um ponto de partida originário ou o termo final de um laborioso processo de conquista.
    • O debate retoma a questão socrático-platônica sobre a possibilidade de ensinar a virtude, reinserindo-a no campo da religiosidade.
    • O caráter pedagógico dos Reden implica o conceito de virtude como um hábito adquirível.
    • Meister Eckhart afirma a necessidade de habituar o espírito a buscar Deus em todas as coisas e a se distanciar do mundo para dispor dos bens sem sofrer danos espirituais.
    • As referências ao hábito virtuoso situam-se entre as páginas trinta e quatro e trinta e cinco do texto base.
    • O homem tem o dever de se tornar um buscador de Deus em todo tempo e lugar, progrediringo nesse esforço sem atingir um termo definitivo.
    • A locução ein got suchender define esse buscador na página trinta e vem do original.
    • A existência moral configura-se como uma libertação perene, uma renúncia renovada a cada instante e uma reconquista de si pela negação do não-ser.
    • O surgimento do transeunte a partir do fundo da condição de criatura atua como o momento dialético necessário para o valor do ato moral.
  • O ato da vontade assume a condição de valor espiritual e supera o mero acontecimento bruto quando cumpre a passagem dialética de morrer para o mundo a fim de nascer para Deus.
    • O falecimento para o eu e para as coisas por meio da dedicação incondicional marca o verdadeiro nascimento da alma na esfera do ser.
    • O nascimento eterno ou nascimento de Deus na alma carece de história por se realizar na instantaneidade do presente e se renovar em cada momento.
    • Meister Eckhart recorre a uma metáfora sobre o aprendizado da escrita para esclarecer o processo formativo da alma, utilizando um paralelo de origem neoplatônica.
    • O paralelo provém das Enéadas de Plotino, especificamente do livro três.
    • O aprendiz de escrita deve inicialmente exercitar-se com fadiga, pensando em cada letra individualmente e imaginando-a em si.
    • O domínio da arte permite ao indivíduo escrever e se expressar com plena liberdade, prescindindo do pensamento mecânico sobre as letras.
    • O homem deve vigiar cada ação, controlar os pensamentos e representar Deus com insistência até que a alma possua o objeto divino em seu próprio ser.
    • A página doze do texto original registra o desenvolvimento dessa metáfora da escrita.
    • A ascensão da alma é concebida nessa passagem como obra humana e processo ascendente no qual a alma aspira a Deus, parecendo afastar o ponto de partida místico tradicional.
  • A análise aprofundada demonstra que o início da busca humana já constitui posse e nascimento divino em Meister Eckhart, assemelhando-se à estrutura observada em Bonaventura.
    • O movimento inicial da vontade estabelece uma ruptura e um salto em relação ao cotidiano movido por interesses e necessidades.
    • Quem deseja morrer para a exterioridade a fim de renascer em Deus já se encontra morto para a própria miséria e nascido para a eternidade no ato do querer.
    • A virada espiritual pressupõe que a mente humana seja próxima e afim a Deus, reconhecendo em si o chamado do Absoluto.
    • As coordenadas dessa afinidade originária constam na página vinte e cinco do texto base.
    • A postura mística diante das coisas atua como a condição transcendental dos ensinamentos de Meister Eckhart.
    • A vida moral define-se como o alcance atual de uma pureza e de uma liberdade completas que conferem valor às obras e viabilizam o próprio processo.
  • A existência moral organiza-se como um ritmo incessante de busca e posse onde a atividade ganha valor sob o signo da vontade boa e livre entendida como posse imóvel de Deus.
    • A pureza conquistada carece de significado moral caso não se renove na luta diária contra o pecado, o male e a dor.
    • A liberdade reduz-se a uma palavra vazia se desvinculada de uma libertação incessante, da mesma forma que a libertação resulta em esforço estéril se não for obra de uma alma livre.
    • As páginas trinta e cinco, trinta e seis e trinta e nove oferecem o suporte textual para essa correlação.
    • Torna-se desnecessário indagar se o autor prefere a vida ativa à contemplação, ou figuras como Maria a Marta e Rachel a Lia.
    • A ação situa-se na raiz do ser, e o ser espiritual se sustenta exclusivamente como uma obra incessante.
    • Deus define-se como uma atividade criadora inesaurível que opera sem se prender às criaturas, permitindo a quem conforma a vontade a Deus instalar o próprio ser na criatividade divina.
    • A página dezoito do texto registra essa inserção do ser na atividade criadora.
    • O homem deve priorizar a ação interior caso a ação externa a perturbe, embora o ideal consista na coexistência de ambas para uma colaboração efetiva com a divindade.
    • A referência a essa colaboração mista localiza-se na página quarenta do original.
  • A união com Deus não se projeta como uma meta final destinada a imobilizar o ato da alma em uma quietude inefável, exigindo antes a renovação constante do ato para evitar a morte espiritual.
    • A alma manifesta a unidade íntima com o divino quando se renega no ato de dedicação e realiza Deus na ação, e não quando se fixa em uma visão estática que olvida a realidade.
    • O pensamento implica a alteridade irredutível entre sujeito e objeto, permanecendo distante da Unidade absoluta, enquanto o ato da vontade boa constitui uma Unidade vivente e operante.
    • Os limites dessa distinção situam-se entre as páginas nove e dez do texto base.
    • A união da alma com Deus revela-se mais estreita do que o vínculo com o próprio corpo, recorrendo-se a uma imagem extraída das obras de Bernardo.
    • O símile provém do tratado De diligendo Deo, capítulo dez, conforme os estudos de E. Gilson sobre Maxime, Erigène e Saint Bernard publicados em Münster no ano de 1935.
    • A metáfora descreve a união como a mistura de uma gota de água em um barril de vinho, onde ambas se transformam em um só elemento sem que as criaturas percebam a diferença.
    • A linha correspondente a essa imagem localiza-se na página trinta e um do original.
    • A unidade espiritual deve ser localizada no próprio processo moral como a alma e o significado da atividade, e não ao término do percurso em um momento excepcional.
    • O mestre declara textualmente: Se alguém estivesse em uma tal êxtase como São Paulo e soubesse que um doente necessita de um pequeno serviço de sua parte, eu consideraria muito melhor que deixasse o amor e a êxtase para servir a Deus em um amor maior.
    • A passagem conclui afirmando que por amor é possível renunciar a todos os confortos do próprio amor.
    • As páginas dezessete fornecem as referências textuais para essa priorização do serviço ao próximo.
    • A unidade e a liberdade do espírito configuram-se como unificação em ato que exige o alcance prévio da unidade da alma com Deus fora do plano externo.
    • O aforismo em alto-alemão médio wann ye lediger, ye eygner traduz a relação entre liberdade e unificação na página quarenta e dois.
  • A alma unificada e livre projeta sobre o mundo uma serenidade divina que transfigura a multiplicidade das coisas em vez de eliminá-la, intuindo o Uno e o Eterno em cada elemento singular.
    • O mundo desvincula-se do tempo e do espaço ao ser conduzido de volta à alma, unificando-se e adquirindo valor nela.
    • Um indivíduo despojado do próprio io apresenta-se de tal modo envolvido por Deus que as coisas criadas precisariam tocar a divindade antes de atingi-lo.
    • O que chega ao homem provém de Deus e recebe dele o seu sabor, tornando-se divino.
    • As páginas onze, dezenove e trinta e quatro reúnem os fragmentos textuais sobre essa recepção divina das coisas, incluindo as passagens in im blicket got alle zit e alle ding sind den inwendigen menschen ein inwendige götliche wisse.
    • A experiência mística eckhartiana transfigura o real e gera poesia de modo análogo ao verificado no Cantico delle creature de Francesco.
    • A condição transcendental da contemplação estética em Meister Eckhart e em Kant define-se como a liberdade interior do espírito frente a necessidades e interesses práticos.
    • O rigorismo ético inicial adquire as tonalidades da poesia, e a natureza transforma-se em símbolo vivente do Bem para quem olha com os olhos de Deus, repetindo o ensinamento de Cristo.
  • A estrutura metafísica latente nas Instruções morais de Meister Eckhart impõe ao pensamento novos problemas voltados a esclarecer a imanência e a identidade de Deus com a obra humana.
    • A investigação questiona se Deus se define como o ser ou se configura uma atividade superior ao ser que vive exclusivamente no ato do homem.
    • O pensamento interroga a natureza da condição de criatura finita que acompanha a existência e que precisa ser objeto de renúncia heroica.
    • Meister Eckhart não vivenciou os problemas de modo teórico na experiência ético-religiosa fundamental, mas habitou a certeza luminosa da Vida divina livre de embaraços lógicos.
    • O prodígio do ato espiritual cumpre-se no pensamento, levando a inteligência a se debruçar sobre ele para compreendê-lo e dominá-lo.
    • O místico espalha-se amorosamente em direção a outras almas através da escrita e do ensino para revelar o milagre do Espírito, recusando o isolamento estéril.
    • As Instruções sobre o discernimento constituem a primeira expressão do Inesprimível e o passo inicial de uma tarefa imensa.
    • O questionamento final indaga se o pensamento poderá traduzir com adequação lógica na pobreza da problemática escolástica o que se situa além das abstrações, ou se deverá limitar-se a sugerir por meio de símbolos audazes.
    • O acento místico eckhartiano e o espírito livre manifestar-se-ão com o mesmo fervor apenas nos sermões alemães posteriores.
    • A alma e as exigências profundas do autor permanecem ativas mesmo nas obras especificamente filosóficas e teológicas em que a espontaneidade surge sob o acúmulo de erudição.
    • Conclui-se que não é um determinado sistema intelectualista que direciona a vontade e estabelece o ideal de vida, mas sim uma postura volitiva e espiritual originária que orienta o pensamento para uma meta de pretensão universal, sendo, em seu íntimo, Vida profunda e incomunicável.
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