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Filhos enviados à vinha

Antonio OrbeParábolas Evangélicas em São Irineu

CAPÍTULO 13 – OS DOIS FILHOS ENVIADOS À VINHA (Mt 21,28-32; cf. Lc 7,29-30)

  • Preliminares sobre a parábola
    • A parábola encontra-se apenas no Evangelho de Mateus e apresenta dificuldades textuais quanto à ordem dos versículos.
    • A versão provável do texto crítico é apresentada com a citação de Mt 21,28-32: “Um homem tinha dois filhos… os publicanos e as meretrizes vos precedem no reino de Deus”.
    • A primeira antiguidade cristã raramente citou a parábola, não sendo conhecida pelos Padres Apostólicos nem pelos primeiros apologetas.
    • Taciano reteve os elementos característicos, provavelmente invertendo a ordem das respostas: o primeiro filho diz “Vou” e não vai; o segundo diz “Não quero” e vai.
    • A exegese conhecida dos naasenos oferece uma interpretação esotérica e etimologizante.
      • O texto naaseno relaciona “publicanos” (telonai) com “tributos dos éons” (tele ton aionon), vendo neles os depositários das sementes divinas.
      • As “meretrizes” recebem um significado nobre, como figuras femininas que também depositam o sêmen divino disperso no mundo material.
  • Adversus Iudaeos
    • O anônimo autor de “Adversus Iudaeos” faz alusões à parábola, opondo Israel e as nações.
      • Cita-se: “Vinde de toda parte, nações patriais, entrai na herança eterna: pois Israel não quis”.
      • Outra passagem: “Vós (Israel) recusastes cultivar o meu campo e a minha vinha… outros (as nações) a cultivarão”.
      • A referência inequívoca: “Não temais, vós que pecastes, vinde primeiros à vida… nem o publicano tema… pois para todos está estabelecida a remissão dos pecados”.
    • O anônimo traduz “o reino de Deus” por “a vida”, e Israel seria o filho chamado primeiro, sendo precedido pelo não-Israel (o publicano).
  • Hipólito
    • Um fragmento de Hipólito nas Cadeias do Gênesis aplica Gênesis 49,22 a Cristo.
      • Gênesis 49,22 (LXX): “Filho meu novíssimo, volta-te para mim”.
      • “Novíssimo” (neotatos) equivale ao “segundo homem” de 1 Coríntios 15,47, vindo do céu, em oposição ao primeiro Adão terreno.
      • No Evangelho, aquele que fez a vontade do pai (Mt 21,31) é chamado por Jesus de “o último” (eschatos).
    • Hipólito lia o texto de Mateus com ordem inversa: o primeiro filho diz “Eu, Senhor” e não vai; o segundo diz “Não quero”, arrepende-se e vai.
      • Taciano, Efrém armênio e Hipólito seguem essa leitura, onde o que faz a vontade do pai é o segundo ou o último filho, não o primeiro.
      • Jerônimo atesta as variantes, notando que em alguns exemplares verdadeiros se lê “o último” (novissimus) e em outros “o primeiro” (primus).
    • Para Hipólito, o segundo/último filho simboliza o próprio Salvador (Cristo), e o primeiro simboliza Adão, o homem terreno.
      • O pai da parábola representa o Pai celestial, com dois filhos – os dois Adão.
      • A recusa inicial de Cristo (“Não quero”) seria explicada por sua atitude no Getsêmani (Mt 26,39.42), mas ele logo se entregou à vontade do Pai.
      • O comentário a “volta-te para mim” alude à ascensão de Cristo ao Pai.
    • Procópio de Gaza reproduz posteriormente essa exegese cristológica.
      • Procópio comenta Gênesis 49,22 aplicando-o a Cristo e cita explicitamente: “No Evangelho, ele (=Cristo) é chamado de último (eschaton), que fez a vontade do pai (cf. Mt 21,31)”.
      • Tanto Hipólito quanto Procópio representam uma tradição paradigmática cristológica sobre os dois filhos da parábola, pré-hipolitiana.
    • Ambrósio e Rufino ignoram essa ideia de Hipólito e seguem outra exegese.
  • Orígenes
    • Orígenes, em suas homilias sobre Josué, vê nas meretrizes e publicanos do Evangelho (Mt 21,32) a Igreja das nações.
    • Nos comentários sobre Mateus, Orígenes oferece uma exegese desenvolvida.
      • A parábola contém o regime do Israel incrédulo a Deus e do povo vindo das nações, crente.
      • Deus tem dois filhos: o primeiro (Israel) é chamado desde o princípio, mas recusa (“Não quero”); depois, na consumação (epi synteleia), arrepende-se e vai à vinha.
      • O segundo filho (o povo das nações) diz “Eu, Senhor”, mas não vai à vinha do Verbo e ao campo do Pai.
      • Quem disse “Não quero” e depois foi, cumpriu a vontade do pai; quem prometeu de palavra e não cumpriu, negou com as obras.
    • Orígenes aplica a parábola aos gentios (filho reacio na palavra, fiel nas obras) e aos judeus (fáceis na palavra, infiéis nas obras).
      • Contudo, nota que Israel tem etapas: alguns se salvarão quando entrar a plenitude dos gentios (Rm 11,25-27).
      • Jesus diz que publicanos e meretrizes “vos precedem” ao reino de Deus, o que não exclui Israel do ingresso.
      • A base da salvação de Israel é “a nobreza da alma” (te eugeneia tes psyches), não a carne.
  • São Hilário
    • Hilário oferece uma exegese extensa, lendo “o último” (novissimus) ou “o mais jovem” (iunior) em Mt 21,31.
      • O pai dirige-se primeiro ao filho mais velho (senior), que diz “Não quero” e depois vai – símbolo do povo gentio.
      • O pai dirige-se depois ao mais jovem (iunior), que diz “Sim” de palavra e não vai – símbolo de Israel.
    • Hilário discute a dificuldade da resposta dos fariseus (“o último” fez a vontade do pai).
      • Critica a justificativa de que o filho mais jovem obedeceu à vontade com falsa promessa, pois a simulação não obtém o mérito da verdade perfeita.
    • A solução de Hilário distingue tempos.
      • Dias do Batista e tempos apostólicos após a morte e ressurreição de Jesus.
      • O filho mais velho (fariseus/Israel), à ordem de Deus por João e Jesus, diz “Não queremos”; mas após a ressurreição, arrepende-se e crê pelos apóstolos.
      • O filho mais jovem (publicanos e pecadores/gentios) responde “Sim” a João, mas só pode cumprir a vontade do Pai após a paixão e ressurreição de Cristo, quando o Espírito é outorgado.
      • Portanto, o último (iunior) cumpriu a vontade, não por fingimento, mas porque não podia ir antes, sendo a demora da necessidade sem crime da vontade.
  • Soluções de outros eclesiásticos
    • Pseudo-Teófilo e outros veem nos dois filhos os dois povos: o primeiro (gentios) é chamado primeiro pela lei natural, nega-se, mas depois se converte; o segundo (judeus) promete e não cumpre.
    • Jerônimo segue linha semelhante: o primeiro filho é o povo gentio, chamado pelo conhecimento da lei natural; o segundo filho é o povo judeu, que respondeu a Moisés “Faremos tudo” e não foi à vinha.
    • Jerônimo conhece outra exegese: os filhos simbolizam israelitas pecadores (que acolhem João) e justos (fariseus que se perdem).
  • Resumo sobre a parábola dos dois filhos
    • Leitura textual: a maioria dos manuscritos gregos e a Vulgata seguem a ordem normal (primeiro diz “Não”, depois vai; segundo diz “Sim”, não vai). Taciano, Hipólito e Procópio seguem a ordem inversa.
    • Exegese: generalizou-se a interpretação dos dois povos (Israel e gentios), enquanto a exegese cristológica dos dois Adão (Hipólito, Procópio) permaneceu mais isolada.
  • II. São Irineu
    • Irineu alude à parábola ao comentar Mt 21,31 (“Publicanos e meretrizes vos precedem no reino dos céus”).
      • Contrasta a atitude de Raab, a meretriz (símbolo da gentilidade), e a dos fariseus (símbolo de Israel).
      • Raab acolhe os três exploradores (símbolo da Trindade) e o sinal da escarlata (sangue de Cristo), sendo salva.
      • Fariseus, presumindo-se justos, não acolhem a Cristo e dão conteúdo nulo à Páscoa.
    • Em outro fragmento (Adv. haer. IV 36,8), Irineu trata explicitamente da parábola.
      • A tese principal: os dois filhos são de um mesmo Pai, refutando marcionitas e gnósticos que distinguiam o Deus de Israel e o Pai de Cristo.
      • O primeiro filho contradisse o pai e depois se arrependeu, quando nada lhe aproveitou o arrependimento – símbolo do povo judeu (Jerusalém que não quis acolher o Senhor).
      • O segundo filho prometeu ir, mas não foi, porque “todo homem é mentiroso” (Sal 115,2) e “o querer está ao alcance, mas não encontra como realizar” (Rm 7,18) – símbolo do povo gentil (publicanos e meretrizes).
    • Exegese de Irineu sobre o segundo filho.
      • O segundo filho disse “Sim” ao pai com nobreza e sinceridade, mas foi incapaz de ir com as obras, provando a necessidade do auxílio divino.
      • Trabalhar na vinha equivale a “obrar justiça” para a salvação.
      • A promessa sincera, mas ineficaz, demonstra que ninguém pode ir à vinha sem a ajuda do Pai que se adianta.
    • Conclusão de Irineu.
      • Deixados às suas forças naturais, nem Israel nem a gentilidade são capazes de responder ao chamamento do Pai para a salvação.
      • Tanto para o arrependimento salutar quanto para a resposta eficaz, necessita-se da graça de Deus.
      • Israel, o filho mais velho, julgava-se justo e recusou o chamamento; fez penitência tardia e inútil.
      • A gentilidade, o filho mais novo, reconheceu-se pecadora e acolheu o chamamento com fé; foi incapaz de cumprir por si só, mas após a efusão do Espírito Santo, pôde ir à vinha e obrar a justiça de Deus.
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