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Cizânia (2)

Antonio OrbeParábolas Evangélicas em São Irineu

Capítulo 9 — A Cizânia (Mt 13,24—30.36—43)

Parte Segunda — Eclesiásticos imediatos

a) Tertuliano

  • Tertuliano introduz a análise da parábola em seu tratado sobre a prescrição dos heréticos como um argumento cronológico.
    • O autor amontoa preliminarmente passagens sobre a joeira e a eira para fustigar a leviandade dos apóstatas.
  • O vento das tentações opera a separação entre o trigo firme da massa e a palha leve da fé vacilante.
    • Voem quanto quiserem as palhas da fé leve a qualquer sopro de tentações; tanto mais pura será a massa de trigo recolhida nos celeiros do Senhor. Não é verdade que também do próprio Senhor alguns discípulos, escandalizados, se desviaram? Nem por isso, porém, os restantes acharam que deviam afastar-se das suas pegadas; mas aqueles que souberam que ele era o Verbo da vida e que viera de Deus, perseveraram no seu séquito até o fim, tendo ele oferecido placidamente, se também eles quisessem afastar-se…
  • O africano opõe o trigo à palha inspirando-se no sermão de João Batista e desconsiderando a figura da cizânia.
    • A prioridade da verdade divina é defendida em capítulo posterior por meio do recurso explícito ao texto de Mateus.
  • A boa semente do trigo foi semeada prioritariamente pelo Senhor, vindo o diabo em momento posterior para interpolar o erro.
    • Mas voltando do excesso à principalidade da verdade e à posterioridade da mentira a ser disputada, com o patrocínio também daquela parábola que constituiu a boa semente do trigo semeada pelo Senhor em primeiro lugar, e o adultério da aveia, erva estéril, introduzida depois pelo inimigo diabo. Pois figura propriamente a distinção das doutrinas; porque também alhures a palavra de Deus é semelhança de semente. Assim, pelo próprio ordenamento se manifesta, ser aquilo que é do Senhor e verdadeiro, o que foi primeiro transmitido, e aquilo, porém, estranho e falso, o que foi depois introduzido. Essa sentença permanecerá contra todas as heresias posteriores, que não têm constância de consciência para defenderem para si a verdade.
  • A parábola de Mateus prefigura com propriedade a distinção cronológica que separa as doutrinas evangélicas das heréticas.
    • O Verbo de Deus estabeleceu a verdade no paraíso terrestre antes que o adversário introduzisse a mentira adulterina.
  • O ordenamento do tempo atesta que o ensinamento mais antigo provém do Senhor e o mais tardio origina-se do diabo.
    • O africano desvia com habilidade o sentido literal do texto para ajustá-lo às teses jurídicas de sua obra.
  • O Salvador definira as duas sementes como os filhos do reino e os filhos do maligno no versículo trinta e oito.
    • Tertuliano prefere equiparar o trigo à palavra verdadeira e a cizânia às falsas pregações concebidas pela heresia.
  • O tratado Contra Marcião apresenta uma alusão sutil ao aparecimento do delito e da apostasia na história.
    • O anjo mau transladou-se voluntariamente para o mal ao escolher o homem como o objeto de sua rebelião contra Deus.
    • Por Deus criado no bem… e junto de Deus estabelecido, enquanto bom junto do bom. Depois, porém, por si mesmo transladado para o mal. Pois desde que — diz — 'apareceram as tuas lesões', reputando-lhe aquelas com que evidentemente lesou o homem expulso do serviço de Deus. E desde então delinquiu, desde que semeou o delito.
  • O delito foi semeado ocultamente no seio do plasma humano, determinando a queda do homem e a consumação do pecado do diabo.
    • O tratado Sobre a alma aprofunda a exegese do texto ao analisar a natureza da ira e das paixões humanas.
  • O Apóstolo concede a existência de uma indignação racional voltada para a preservação da disciplina eclesial.
    • A ira irracional que transforma o indivíduo em filho da ira provém da sementeira fraudulenta do diabo.
    • Concede também a indignação. Por que não, quando ele mesmo a assumiu? 'Oxalá fossem decepados — diz — os que vos subvertem'. Racional é a indignação que procede do afeto da disciplina. Mas quando diz: 'Fomos outrora por natureza filhos da ira', censura o indignativo irracional, que não é daquela natureza que é de Deus, mas daquela que o diabo introduziu, sendo ele também chamado senhor da sua ordem: 'Não podeis servir a dois senhores', e apelidado também pai: 'Vós sois do diabo, vosso pai', não temas atribuir-lhe também a propriedade de outra natureza, posterior e adúltera, a quem lês como sobre-semeador de aveias e interpolador noturno da seara de trigo.
  • O diabo assume a condição de senhor e pai em sentido real para os homens que acolhem a sua propriedade adulterina.
    • A humanidade inteira foi criada originalmente pelo Deus Criador sob o estatuto de filhos de bênção.
  • O sobre-semeador noturno introduziu a apostasia em Adão, convertendo o trigo da eira divina em cizânia da ira.
    • O africano unifica as duas sementes da parábola na trajetória de um mesmo homem que passa da inocência ao pecado.
  • Os indivíduos nascidos no pecado transmutam-se novamente em trigo do Senhor por meio da fé na intervenção de Cristo.
    • O autor contrapõe o dinamismo das duas naturezas morais ao uso fatalista que os valentinianos faziam do versículo trinta e oito.
  • O diabo atua essencialmente como o falsificador ou interpolator encarregado de estragar o bom grão que já fora plantado.
    • A operação criminosa consome-se sob o amparo das trevas noturnas para burlar a vigilância das criaturas.
  • O tratado Contra Práxeas projeta as imagens da narrativa sobre a história interna das controvérsias monarquianas na Igreja.
    • O heresiarca Práxeas aportou a Roma para expulsar a profecia montanista e introduzir o veneno do modalismo.
  • Os erros da heresia monarquiana sobre-semearam-se no campo africano enquanto os fiéis dormiam na simplicidade da doutrina.
    • Havia frutificado a aveia de Práxeas também aqui sobre-semeada, dormindo muitos na simplicidade da doutrina; transladadas depois por quem Deus quis, pareciam até arrancadas. Finalmente, a escritura anterior acerca da sua emenda ficou e permanece o quirografo junto dos psíquicos, junto dos quais então a coisa se passou. Daí, silêncio. E nós, depois, o conhecimento do Paráclito e a defesa nos separaram dos psíquicos. Mas aquela aveia, então, por toda a parte havia sacudido a semente, assim alguma vez, por meio da hipocrisia, com astuta vivacidade, se escondeu e agora de novo irrompeu. Mas será de novo arrancada, se o Senhor quiser neste ensejo; se não, no seu dia serão recolhidos todos os frutos adúlteros e com os outros escândalos serão queimados com fogo inextinguível.
  • O africano tentou desarraigar a cizânia de Práxeas, mas as sementes do erro haviam-se espalhado secretamente por toda a comarca.
    • A retratação inicial do herético gerou um lapso de silêncio antes que a aveia eclodisse com vivacidade.
  • O autor aprova a iniciativa de extirpar imediatamente a cizânia doutrinária por não enxergar perigo para a boa semente nessa monda.
    • Os erros de Práxeas medraram entre os cristãos eclesiásticos, determinando a transição de Tertuliano para o montanismo.
  • O triunfo final sobre a heresia operar-se-á na eira do mundo ou na consumação da colheita promovida pelo Senhor.
    • As falsas pregações serão enfeixadas com os escândalos para a queima definitiva no forno de fogo inextinguível.
  • O poeta Prudêncio adota as coordenadas teológicas de Tertuliano na introdução de seu poema Apotheosis.
    • As sementes perversas da cizânia representam os desvios da fé espalhados pelo ladrão em meio à cultura de Cristo.
    • Quem nas trevas, errantes, todavia fere, arrasta e esmaga, que as sementes espalhadas na própria passada do caminho cruel devora, que os alegres campos de Cristo o ladrão adultera, acrescentando aveias rivais, as quais do leite do veneno em erva férteis deixa crescer o colono, para que a fibra vã da espiga, ao mesmo tempo arrancada, não mate. Espera, pois, enquanto a fervente maturidade cozinha as víciosas e as de farro, para que dê ao joeiro cada coisa escolhida aos celeiros, queime o refugo nos fogos. Importa, porém, conhecer aquelas que matam a messe, as sementes das cizânias.
  • O vidente da Apotheosis preserva o sentido escatológico de Mateus ao aguardar que a maturidade separe o lixo do trigo.
    • A obra Hamartigenia transfere o aparecimento da cizânia para o momento histórico da queda original de Adão.
  • O campo da criação foi inteiramente violado e inficionado pela falta cometida pelo dono e senhor do orbe.
    • Então, joio e leves labaças, por culturas adúlteras, o campo maligno ousou com glebas demasiado pingues violentar a seara triticea com aveias vãs.
  • A ação de interpolar a erva má assume o significado de violar a pureza original da seara humana.
    • O sêmen do delito propaga-se na carne dos filhos de Adão como herança do primeiro desvio edénico.
  • O bispo Cipriano de Cartago elabora uma leitura eclesiológica pioneira para solucionar os cismas puritanos de Novaciano.
    • Os confessores que haviam aderido ao cisma receberam as exortações contidas na carta cinquenta e quatro do bispo.
  • A constatação da presença do mal no seio da comunidade não autoriza o abandono ou a secessão eclesial por parte dos fiéis.
    • Pois ainda que se vejam estar na Igreja cizânias, não deve, contudo, ser impedida a nossa fé ou a nossa caridade, para que, porque vemos estar cizânias na Igreja, nós mesmos saiamos da Igreja. A nós sómente nos é necessário trabalhar para que possamos ser trigo, para que, quando começar o trigo a ser guardado nos celeiros do Senhor, recolhamos fruto segundo a nossa obra e trabalho. O Apóstolo na sua epístola diz: 'Ora, numa grande casa não só há vasos de ouro e de prata, mas também de madeira e de barro; e uns, na verdade, para uso honroso, outros, porém, para uso desonroso'. Esforcemo-nos e, quanto possamos, trabalhemos para que sejamos vaso de ouro ou de prata. Quanto aos vasos de barro, ao Senhor só é concedido quebrá-los, a quem também foi dada a vara de ferro. Não pode ser o servo maior do que o seu senhor, nem alguém reivindicar para si o que só o pai concedeu ao filho, a ponto de pensar que já pode levar na mão a pá para joeirar e purificar a eira, ou separar por juízo humano toda a cizânia do trigo. Soberba é essa obstinação e sacrílega presunção, que a si assume a fúria perversa.
  • A Igreja terrena abriga simultaneamente os vasos de ouro e os de barro sob a égide do mesmo Senhor da vinha.
    • A quebra dos vasos de barro e o manuseio da pá de joeirar constituem direitos exclusivos delegados pelo Pai ao Filho único.
  • O homem que tenta efetuar a triagem humana antes do juízo incorre em soberba obstinação e sacrílega presunção.
    • As palavras de Cipriano fixaram a fórmula que define a permanência da cizânia no interior da própria Igreja.
  • O Salvador apontara o mundo como o campo da sementeira, mas o instinto do bispo acomodou o símbolo ao espaço eclesial.
    • O texto cipriano serviu de base documental para a estruturação das teses de Agostinho contra os donatistas.
  • A carta cinquenta e cinco direcionada a Antoniano reitera os mesmos argumentos teológicos para fustigar o orgulho de Novaciano.
    • Então, demais, quão grande tumor de arrogância, quão grande esquecimento da humildade e da leveza, quão grande jactância da sua arrogância, que alguém ou ouse ou creia poder fazer o que nem aos apóstolos concedeu o Senhor, que pense poder discernir as cizânias do trigo, ou, como se lhe fosse concedido levar a pá e purificar a eira, tente separar a palha do trigo; quando o Apóstolo diz: 'Ora, numa grande casa não só há vasos de ouro e de prata, mas também de madeira e de barro', e ele parece escolher os vasos de ouro e prata, e os de madeira e barro, porém, desprezar, abandonar, condenar, quando só no dia do Senhor os vasos de madeira serão queimados pelo incêndio do divino ardor, e os de barro serão quebrados por ele, quando lhe for dada a vara de ferro.
  • A união entre a parábola de Mateus e o símile da casa grande de Timóteo consolida a eclesiologia da tolerância no Ocidente.
    • Os vasos de madeira arderão no incêndio divino apenas quando despontar o dia definitivo do Senhor.
  • Agostinho de Hipona adotou integralmente as citações de Cipriano ao formular as respostas aos puritanos de sua época.
    • O mestre africano corrigiu as ambiguidades geográficas da palavra mundo sob o influxo das regras de Ticônio.

b) Alexandrinos

  • As Éclogas proféticas de Clemente de Alexandria preservam um comentário antigo de Pânteno a respeito do versículo quarenta e três.
    • A exegese articula-se a partir da leitura profética do salmo dezoito sobre a tenda disposta no sol.
  • O tempo aoristo empregado pelo salmista possui significação de futuro e projeta as imagens para a segunda parusia de Cristo.
    • O Senhor retornará na consumação da atual dispensação para restituir os justos e os crentes à unidade de seu corpo místico.
    • No futuro, porque, uma vez colmado o período da atual dispensação, virá o Senhor e restituirá os justos aos crentes, em quem como em tenda descansa a mesma unidade. Porque, nascidos todos do mesmo linho, por terem escolhido a mesma fé e justiça formam juntos um corpo. Porém, serão colocados no sol cheios de luz, uns como cabeça, outros como olhos; uns como ouvidos, outros como mãos; uns como peitos, e outros como pés. 'Resplandecentes como o sol', ou no sol; como está o anjo arconte no sol, pois foi colocado para presidir aos dias, como a lua para mandar à noite. Os anjos foram chamados dias. Junto com os anjos do sol diz estarão ordenados para no seu dia serem de alguma forma um, como o sol, cabeça de um corpo uno. Em torno também os arcontes dos dias, como aquele estando no sol olha para o mais alto, para onde passou igualmente o que o precedia. E de novo, quando subam por etapas, chegarão à primeira morada, segundo o pretérito ἔθετο, e aos anjos protóctistos, a fim de não servir já mais, conforme a providência, ao que está estabelecido, mas para viver em descanso e atentos à só contemplação de Deus. Mas os imediatos a estes progredirão até o lugar que aqueles abandonaram. E assim, por analogia, os inferiores.
  • Os crentes justos serão preenchidos de luz e assumirão posições ordenadas no corpo místico junto às dignidades angélicas.
    • A transformação física transmuta a carne escura em substância luminosa homóloga à natureza dos anjos protóctistos.
  • O estágio final cessa as atividades de serviço providencial e introduz as inteligências no descanso da contemplação direta de Deus.
    • O progresso por etapas faculta que as ordens inferiores ascendam aos postos que foram desocupados pelos arcontes superiores.
  • A Écloga cinquenta e sete estende o simbolismo do sol à união pessoal entre o Deus Filho e o Deus Pai.
    • Há, pois, segundo o Apóstolo, os primocriados, no mais alto da restituição. Quiçá os tronos, porque os primocriados são virtudes, já que neles descansa Deus, como também nos crentes. Pois cada um — segundo o seu progresso particular — tem o próprio conhecimento de Deus; no qual conhecimento descansa Deus, eternizados os que o conhecem mediante o conhecimento. E talvez aquilo de 'no sol pôs a sua tenda' se entende assim: 'Pôs no sol', isto é, Deus no Deus que está perto. Como no evangelho: 'Micôm, Micôm', em vez de 'Deus meu, Deus meu'. E aquilo: 'Acima de todo o principado e potestade e virtude, e de todo o nome que se nomeia' são os anjos em perfeição, de homens que eram, até à natureza primocriada dos anjos. Pois os que passam de homens a anjos são doutrinados durante mil anos pelos anjos restituídos à perfeição. Logo, os doutrinantes passam a potestade arcangélica; enquanto doutrinam os que, por sua vez, de homens passaram a anjos. E assim depois, com períodos determináveis, se restituem à categoria angélica própria do seu corpo.
  • Os seres humanos que alcançam a salvação passam por um período de adestramento milenar sob a tutela das potências angélicas.
    • O conhecimento de Deus opera como o fator de fixação que eterniza as inteligências na glória do Sol paterno.
  • A fusão entre o salmo e o texto de Mateus projeta o resplendor do Tabor como a medida exata da bem-aventurança dos eleitos.
    • O espírito humano encomendado ao Pai na cruz prefigura o depósito escatológico de todo o corpo da Igreja mística.
  • O líder herético Montano professava um oráculo sobre a salvação que guardava afinidade com as teses das Éclogas alexandrinas.
    • O indivíduo salvo era classificado por Montano como um super-homem dotado de categoria superior à condição terrena.
    • Porque o justo brilhará mil vezes mais que o sol, e os pequenos que entre vós se salvam resplandecerão cem vezes mais que a lua.
  • O bispo Epifânio de Salamina rebate o vaticínio montanista evocando a pureza literal do versículo quarenta e três de Mateus.
    • O Salvador não prometeu excessos numéricos e garantiu que os semblantes dos justos brilharão de forma homóloga ao sol.
    • Mas o Senhor o refuta, com o poder de brilhar que outorga aos rostos dos santos, fazendo resplandecer o rosto de Moisés, e com mudar os corpos dos santos na sua santa ressurreição, semeados em ignomínia e despertos em glória. Não despertam outros corpos dos que eram, mas os mesmos inteiramente que eram; e depois de ressuscitados recebem glória daquele, a saber, de quem outorga sem inveja a glória aos seus santos, como quem tem potestade de dar e fazer dons, enquanto Deus e Senhor. Podendo, porém, fazer dons, não os prometeu na forma que lhe atribui Montano, mas diz: 'Resplandecerão vossos rostos como o sol'. Se, pois, quem tem o poder e é verdadeiro dono e senhor nosso, Jesus Cristo, diz que os semblantes dos justos brilharão como o sol, como promete Montano cem vezes mais?
  • A ressurreição corpórea preservará a identidade da carne que fora semeada em ignomínia, revestindo-a com o resplendor do Tabor.
    • Clemente de Alexandria maneja os dados da parábola em seu tratado sobre o pedagogo para censurar o luxo nos vestidos.
  • O mestre evoca a passagem de Lucas sobre a erva do campo que é lançada ao forno para fixar o campo do mundo de Mateus.
    • Não cabe presumir razoavelmente que o dito pouco há sobre a erva se dirigia contra esses desalinhados amigos do alinhamento? 'Porque um campo é o mundo' e erva somos nós, os quais, rociados com a graça de Deus e cortados, crescemos, como se verá com mais amplitude no De resurrectione. Erva é, em alegoria, a multidão ordinária, habituada à alegria efémera, que floresce pouco tempo; amiga do ornato e da glória, tudo menos amiga da verdade, para nada melhor disposta que para cevar o fogo.
  • A Igreja de Deus é representada sob a figura da erva fina que se mantém verdejante graças ao orvalho da graça divina.
    • O feno ou erva áspera alegoriza o vulgo mundano que ostenta uma glória efémera e serve de combustível para o forno de fogo.
  • O tratado sobre a salvação do rico aduz a expressão filhos do reino para qualificar os discípulos íntimos de Jesus.
    • As coisas que ao parecer eram por Ele declaradas aos íntimos e aos mesmos que Ele chamava 'os filhos do reino', exigem ainda maior atenção que as proferidas em aparência com simplicidade e, por isso mesmo, não interrogadas pelos ouvintes…
  • O colorido escatológico do termo esvazia-se na leitura moral adotada pelo mestre alexandrino em sua obra.
    • O Stromateus compara a atividade do diabo à ação do ladrão que mistura profetas falsos em meio aos verdadeiros.
    • O diabo se diz ladrão e salteador por ter misturado falsos profetas aos verdadeiros, como a cizânia ao trigo. 'Todos os que precederam o Senhor são ladrões e salteadores'. Não todos os homens em absoluto, mas todos os profetas e todos os que não foram por Ele propriamente enviados.
  • Os valentinianos utilizavam a passagem de João para condenar a totalidade dos vates e a própria legislação do demiurgo psíquico.
    • Clemente recusa a interpretação heterodoxa e restringe o anátema evangélico exclusivamente aos falsos mestres de Israel.
  • Os autoapóstolos inspirados pelo inimigo propagavam as suas próprias reflexões fraudulentas sob o disfarce de palavras divinas.
    • Os erros de doutrina medram e se desenvolvem ao arrimo do texto escrito das Escrituras sagradas do Criador.
  • A introdução de eflúvios e vícios na psique do pecador assemelha-se à sobrevinda da cizânia descrita no versículo vinte e cinco.
    • E como, segundo nós, as energias do diabo e os espíritos imundos semeiam na alma do pecador, não tenho necessidade de expor com mais palavras se aduzo por testemunha o apostólico Barnabé…
  • O campo de batalha predileto do inimigo localiza-se na parte racional ou intelecto do homem livre.
    • O eclesiástico valoriza o livre-arbítrio humano contra as teorias heréticas sobre a fatalidade das naturezas cegas.
  • Clemente detalha o sistema dos heréticos chamados antitactas que desfiguravam a parábola para justificar o libertinismo.
    • Os antitactas professavam que o Pai do universo criou exclusivamente coisas boas, vindo um ser subalterno para semear a cizânia do mal.
    • Certos outros, aos quais também chamamos antitactas, dizem existe por natureza o Deus do universo, Pai nosso. Todas as coisas que fez são boas. Mas um, entre os feitos por Ele, sobresemeou a cizânia, engendrando a natureza do mal. No que nos envolveu a todos nós, opondo-nos ao Pai. Por isso também nós nos opomos a este para vingança do Pai, obrando contra a vontade do segundo. E pois ele disse 'não cometerás adultério', nós — dizem — adulteramos para destruir o seu mandamento.
  • O semeador de cizânia na heresia antitáctica representa o deus demiurgo Javé encarregado de promulgar o decálogo.
    • A legislação mosaica e as proibições rituais eram interpretadas como a erva ruim que alterava a liberdade original do campo.
  • Os libertinos cometiam o adultério como um ato de vingança sagrada voltado para aniquilar as barreiras erguidas por Javé.
    • A tendência antitáctica grassava em múltiplos grupos heréticos e guardava afinidade com as propostas dos carpocratianos.
  • O mestre alexandrino estende o simbolismo da cizânia para o plano das produções intelectuais da filosofia helénica.
    • Como na filosofia bárbara, assim também na grega 'foi semeada a cizânia' pelo lavrador característico da cizânia. Assim, junto com o trigo fecundo, brotaram entre nós as heresias. E os que pregam a impiedade e o prazer de Epicuro, e tudo o mais que se tem disseminado à margem da reta razão na filosofia grega, é fruto adulterino da lavoura outorgada por Deus aos gregos. O Apóstolo a denomina 'sabedoria deste século', amiga do prazer e egoísta, como que ensina as coisas deste mundo e relativas a ele só, sujeita, em consequência, ao império dos seus arcontes.
  • A filosofia de Epicuro e os pensamentos materialistas constituem frutos espúrios que confinam com a sabedoria deste século.
    • O inimigo introduz o erro e as heresias ao arrimo do próprio texto revelado das Escrituras dominicais.
  • O surgimento das divisões e seitas na Igreja cumpre o vaticínio profético deixado pelo Salvador no Evangelho.
    • Além disso, escreve o Senhor nos deixou dito em profecia que haviam de semear-se as heresias por cima da verdade, como a cizânia no trigo. E é impossível deixar de cumprir-se o predito. A razão disso é que a toda a coisa formosa lhe acompanha uma mancha…
  • O mestre assevera que a presença das seitas não deve motivar o abandono da busca pela pureza da verdade eclesial.
    • O Stromateus antecipa a recompensa do versículo quarenta e três para o estágio da vida terrena do cristão gnóstico.
  • O fiel que atinge a apatheia e exercita a beneficência adquire a condição de igual aos anjos no ambiente deste mundo.
    • Consequentemente, o que moderou primeiramente as suas paixões e se aplicou à impassibilidade, e incrementou na beneficência da perfeição gnóstica, já aqui é igual aos anjos. Luminoso já e resplandecente como o sol segundo os benefícios, se encaminha com a justa gnose, mediante o amor de Deus, para a santa mansão, como os apóstolos.
  • O gnóstico brilha derramando raios benéficos de sabedoria antes de ingressar na mansão santa para receber a luz passiva da glória.
    • Orígenes recolhe as anotações sobre o resplendor final e analisa os múltiplos sentidos da colheita bíblica.
  • O mestre evoca o versículo trinta e nove de Mateus para deslindar o alcance cronológico do fim do mundo.
    • Em Mateus, quando 'os discípulos se lhe aproximaram dizendo: Explica-nos a parábola da cizânia do campo', encontramos uma declaração do Senhor, logo de outras: 'A ceifa é o fim do mundo, e os ceifeiros são os anjos'.
  • As Homilias sobre o Gênesis aplicam a parábola ao mistério da preservação da castidade da alma racional.
    • A inteligência assemelha-se à virgem Rebeca e une-se a Cristo como ao seu legítimo e verdadeiro esposo por meio da fé.
  • O diabo atua como o homem inimigo que busca desposar a alma por meio da perfídia e do engano intelectual.
    • Assim como Cristo se diz varão da alma, com quem se casa a alma quando chega à fé, assim também a este lhe é contrário aquele varão, com quem se casa a alma quando declina para a perfídia. Ele mesmo, aquele que se chama também Homem inimigo, quando sobre-semeia o joio ao trigo. Não lhes basta, pois, à alma ser casta no corpo, é necessário que também este péssimo varão a não tenha conhecido. Pode acontecer que alguém tenha no corpo virgindade, e conhecendo esse péssimo varão, o diabo, e dele recebendo os dardos da concupiscência no coração, tenha perdido a castidade da alma. Porque, pois, Rebeca era virgem santa no corpo e no espírito, por isso duplica o seu louvor e diz: 'Era virgem, e varão a não conhecera'.
  • O sêmen da cizânia identifica-se na leitura origeniana com as setas da concupiscência injetadas no coração do indivíduo.
    • O campo da parábola desvia-se para a interioridade anímica onde o Verbo e o adversário disputam a primazia do cultivo.
  • O mestre joanino interpreta as fadigas dos antigos profetas hebreus como a sementeira das Escrituras do Antigo Testamento.
    • Os apóstolos e os crentes cristãos recolhem o sentido espiritual profundo da Lei nos celeiros de seu próprio espírito.
    • Moisés e os profetas se fatigaram para receber e compreender os mistérios cujos vestígios nos legaram impressos nos seus escritos. À fadiga de Moisés e dos profetas entraram os apóstolos, os quais ceifam o significado profundo daqueles e o recolhem nos celeiros da própria alma com a ajuda de Jesus, iniciador dos mistérios. De contínuo o Logos manifesta a quem é verdadeiramente seu discípulo as fadigas dos antecessores, sem que deva cansar-se como os que semearam.
  • A recepção do texto sagrado por meio da fé transforma o interior do discípulo em um receptáculo da deificação divina.
    • O comentário sobre o livro dos Números deforma o campo material para enxergar nele a estrutura dos corações humanos.
  • Os anjos assumem a função de camponeses encarregados de lavrar a terra racional sob o império da tutela ministerial.
    • Julgo que segundo o Verbo do Senhor o campo se diz este mundo. E por campo não se entendem só as terras, mas os corações humanos, o qual campo os anjos de Deus receberam para cultivar. Os frutos do seu cultivo, pois, eles mesmos os possuem e têm, a saber, aqueles que vivem sob as suas procurações e agentes e ainda não chegaram até ao cume da perfeição. Se, porém, os corações de alguns foram diligentemente cultivados e levados à perfeição, estes, como eleitos e excelentes e primícias sobre os outros, oferecem ao Sumo Pontífice.
  • As potências angélicas oferecem os corações que atingiram a perfeição como primícias aceitáveis ao Sumo Pontífice Cristo.
    • O exame final na consumação do século incidirá tanto sobre a preguiça humana quanto sobre a negligência do ministro angélico.
    • Portanto, cada um dos anjos, na consumação do século, estará presente no juízo, conduzindo consigo aqueles a quem presidiu, a quem ajudou, a quem instruiu, por quem sempre viu a face do Pai que está nos céus. E creio que também ali haverá inquirição, se o anjo faltou ao cultivo dos homens, ou se à cultura angélica não respondeu de modo digno a negligência humana. Haverá, pois, também neste ponto juízo de Deus, se por negligência de algum dos espíritos ministradores que foram enviados para ministério e auxílio por causa dos que hão de herdar a salvação, ou por preguiça daqueles que são ajudados, provêm tantas quedas da vida humana…
  • Os anjos colhem e oferecem ao Criador frutos parciais de adoração ao longo do tempo da história eclesial.
    • Voltemos, pois, à razão das primícias que dissemos serem oferecidas pelos anjos, as quais são colhidas dos campos deste mundo. Os campos dos anjos, porém, são os nossos corações. Cada um deles, pois, do campo que cultiva, oferece primícias a Deus. E se eu merecesse hoje produzir algum sentido grande e digno do Sumo Pontífice, de modo que de todas estas coisas que falamos e ensinamos houvesse algo de excelente, que deveria agradar ao Sumo Sacerdote, poderia acontecer que o anjo que preside à Igreja, de todos os nossos ditos escolhesse algo, e em lugar de primícias ao Senhor oferecesse do campinho do meu coração.
  • A atividade das potências tutelares inicia-se com a própria sementeira das almas racionais nos úteros maternos de acordo com o Timeu.
    • Irineu de Lyon repudiaria a tese por considerar a animação e a deificação como obras exclusivas do Verbo divino.
  • As Homilias sobre Jeremias combinam o versículo vinte e cinco de Mateus com o mandato de desarraigar as falsas plantas.
    • Toda plantação que não provém do Pai celeste origina-se da sementeira clandestina efetuada pelo homem inimigo.
  • Os pensamentos malignos, os homicídios e as blasfêmias constituem as ervas que infeccionam o intelecto ou hegemonikón.
    • Há umas coisas dentro da alma que não plantou o Pai celestial. Porque todos os pensamentos maus, homicídios, adultérios, roubos, falsos testemunhos, blasfêmias são plantações não plantadas pelo Pai celeste. E se queres ver de quem são plantação tais pensamentos, ouve como 'o homem inimigo fez isto, o qual semeou a cizânia em meio do trigo'. Estão, pois, por cima, Deus, que tem sementes, e o diabo. Se dermos lugar ao diabo, o inimigo semeia uma plantação que não plantou o Pai celestial, chamada em absoluto a ser desarraigada. Se não dermos lugar ao diabo, e o dermos a Deus, alegremente semeia Deus as suas sementes no nosso principal.
  • O Deus bom envia profetas à história para efetuar a monda antecipada das plantas que o adversário introduziu na alma.
    • O término do processo exige o aniquilamento dos feixes de cizânia por meio da ação do fogo purificador.
  • A exegese origeniana recusa a destruição física ou o aniquilamento do ser humano no forno de fogo de Mateus.
    • O fogo profético das palavras consome a malícia e os vícios, preservando a integridade da substância racional criada.
  • O comentário sobre o Cântico dos Cânticos projeta o recolhimento dos eleitos para as comarcas elevadas dos montes divinos.
    • Os anjos da colheita buscarão os justos nas alturas da fé para separá-los da baixeza do solo material.
    • Mas também em Jeremias, os caçadores e pescadores que são enviados para apanhar os homens para a salvação, diz-se que os apanham nos montes e nos outeiros. Pois assim diz: 'Eis que envio muitos pescadores e muitos caçadores, e apanhá-los-ão sobre todo o monte e sobre todo o outeiro'. O que eu creio que se há de cumprir mais no tempo futuro, na consumação do século, para que, quando forem enviados os anjos, segundo a parábola evangélica, no tempo da ceifa, para separarem o trigo das cizânias, aquele que for de vida mais excelsa e mais eminente, esse seja achado nos montes, ou nos outeiros; não seja achado nos lugares humildes e abatidos, nem ali onde pareça estar misturado com as cizânias: mas nos sentimentos mais excelsos e na eminência da fé posto, aderindo sempre ao Verbo de Deus que salta nos montes e exulta nos outeiros.
  • O dinamismo da conduta cotidiana opera o discernimento real entre o trigo excelso e a cizânia rasteira antes do juízo.
    • O pecador arrependido purifica a sua eira por meio do pranto e das lágrimas para ascender às alturas de Deus.
  • A Homilia sobre o livro de Josué utiliza a parábola para justificar a coabitação com os jebuseus na Jerusalém eclesial.
    • Assim, pois, como no Evangelho se permitem as cizânias crescer juntamente com o trigo, do mesmo modo também aqui em Jerusalém, isto é, na Igreja, há alguns jebuseus, aqueles que levam vida ignóbil e degenerada, que são perversos na fé, nos atos e em toda a sua conversação. Pois não é possível purgar a Igreja completamente, enquanto está na terra, de modo que nela não se veja residir algum ímpio pecador, mas sejam nela todos santos e bem-aventurados e em quem não se depreenda mácula alguma de pecado.
  • É impossível alcançar a pureza absoluta ou a ausência de máculas na Igreja enquanto ela peregrina sobre a terra.
    • Os donatistas tentaram anular o alcance eclesiológico do texto na conferência de Cartago através do apego à palavra mundo.
  • Os católicos rebateram a objeção herética demonstrando que Cipriano já interpretara o campo como a própria Igreja visível.
    • Orígenes antecipara as teses agostinianas ao ordenar a expulsão exclusiva dos criminosos cujas faltas fossem públicas e evidentes.
    • Isto, pois, porque não podemos expulsar estes que nos calcam aos pés; expulsemos ao menos os que podemos, cujos pecados são manifestos. Pois onde o pecado não é evidente, não podemos expulsar ninguém da igreja, para que, talvez, arrancando as cizânias, arranquemos juntamente com elas também o trigo.
  • As manchas ocultas e os delitos duvidosos acompanharão a plantação até que os anjos consumem a separação final.
    • O mestre de Alexandria reitera que os méritos individuais brilharão em graus distintos na ressurreição dos mortos.
    • Se, com efeito, foi retamente por nós entendido que todas estas coisas que na Lei estão escritas são formas dos bens futuros, e daquele século que da ressurreição esperamos, é certo que, se na presente vida tivermos estudo dos melhores, e, segundo o exemplo do Apóstolo, esquecendo-nos das coisas que para trás ficam, nos estendermos para as que estão diante, na ressurreição dos mortos, onde assim como estrela difere de estrela em glória, assim também os méritos de cada um resplandecerão, poderemos, com efeito, dos sinais inferiores ser transferidos para os melhores e mais fulgentes, e igualarmo-nos aos mais resplandecentes astros. E tanto pode nesta vida a natureza humana progredir, que na ressurreição dos mortos não só possa igualar-se à glória das estrelas, mas também ao esplendor do sol, segundo o que está escrito, porque 'os justos resplandecerão no reino de Deus como o sol'… Se não for achado em nós nada desordenado, nada inquieto, nada desonesto, então resplandeceremos como o firmamento, e como as estrelas ou o próprio sol resplandeceremos no reino de Deus.
  • A natureza humana adquire as qualidades da luz divina e resplandece de forma análoga ao firmamento e ao sol.
    • Orígenes recusa aplicar o resplendor aos olhos e aos ouvidos da carne, transferindo os milagres para os sentidos divinos da alma.
    • Celso nos calunia escrevendo que 'esperamos ver a Deus com os olhos do corpo, e ouvir com os ouvidos a sua voz, e tocar-lhe com mãos sensíveis'. Mas as divinas Escrituras falam de olhos por analogia com os olhos do corpo, e o mesmo de ouvidos e de mãos; e — coisa mais paradoxal — de uns sentidos divinos, diversos dos habitualmente assim denominados pelo vulgo. Pois ao dizer o profeta: 'Descobre meus olhos e verei as maravilhas tuas'. E 'o mandamento do Senhor, cheio de luz, ilumina os olhos'. Ou 'ilumina meus olhos, não me deixes adormecer no sono da morte', ninguém será tão estúpido que imagine se entendam com olhos corpóreos as maravilhas da lei divina, ou que o mandamento do Senhor resplandeça aos olhos do corpo… E quando o Senhor diz: 'Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça', qualquer um compreende se referir a ouvidos de ordem divina.
  • A eclesiologia de Irineu de Lyon recusa a dissolução alegórica de Orígenes e professa a deificação real da carne humana.
    • O bispo de Lyon concede ao texto de Mateus um espaço privilegiado em sua argumentação teológica antignóstica.
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