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Amigo importuno
ANTONIO ORBE — PARÁBOLAS EVANGÉLICAS EM SÃO IRINEU
CAPÍTULO 2: O AMIGO IMPORTUNO (Lc 11,5-8)
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A análise da parábola do amigo importuno em Irineu é breve e indireta, mas sua importância reside em polarizar exegeses contemporâneas e em seu vínculo com o logion “Buscai e achareis” do terceiro evangelista.
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Irineu menciona a parábola de forma sucinta ao enumerar os traços exclusivos de São Lucas, citando “quem bate de noite à porta para tomar pães e os toma a força de importunar” (III 14,3).
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O autor ressalta que a parábola serve por duas razões: polariza exegeses contemporâneas e a cláusula “Quaerite et invenietis” está vinculada a ela pelo terceiro evangelista.
As exegeses heterodoxas da parábola, tanto marcionita quanto gnóstica, coincidem na ideia de que antes do Novo Testamento havia ignorância do verdadeiro Deus, e os “três pães” simbolizam o conhecimento trinitário.-
A exegese marcionita, reconstruída a partir de Tertuliano, via na parábola a exaltação da benignidade do Deus do NT, acessível a todos os amigos, em contraste com o Deus do AT. A “meia-noite” indicava a plenitude dos tempos, e o que bate à porta simbolizava as nações gentias.
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A exegese valentiniana, presente nos Excerpta ex Theodoto 86,2s, interpreta “os meninos que já descansam juntos no leito” (Lc 11,7) como os homens espirituais que descansam na ogdóada. Os “três pães” representam a doutrina da Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo), o verdadeiro alimento espiritual.
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O amigo que bate à porta é visto como um discípulo ou apóstolo do Salvador, que intercede pelas nações gentias para que recebam o pan da gnosis, enquanto o Salvador acede ao pedido, mas indica que o banquete definitivo ocorrerá mais tarde.
A exegese eclesiástica, representada por Tertuliano e um fragmento atribuído a Orígenes, defende que o dono dos três pães é o Criador, único Deus verdadeiro, e que os santos do AT já eram seus amigos e intercediam por seus irmãos.-
Tertuliano argumenta que o dono dos pães é o Criador (“Agnosec igitur et Patrem, quem etiam appellas Creatorem”) e que as nações lhe pertencem, batendo à sua porta como amigos, não como estranhos.
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O fragmento das Cadeias in Lucam (provavelmente Orígenes) afirma que Deus é amigo dos santos como Moisés e Abraão, e que os “três pães” representam a teologia da Trindade, desejada para alimentar aquele que veio de caminho.
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O fragmento sugere ainda que as palavras do amigo dentro de casa (“Não me incomodes”) podem ser relacionadas a Isaías 53,4 e Mateus 11,28, onde o Salvador carrega nossas enfermidades.
O LOGION “QUAERITE ET INVENIETIS” (Mt 7,7; Lc 11,9)
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O logion “Buscai e achareis” foi amplamente utilizado por gnósticos e marcionitas como lema de exegese, aplicando-o à busca do verdadeiro Deus e dos mistérios espirituais, o que gerou uma forte reação de Tertuliano, Clemente, Orígenes e Irineu.
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O Evangelho segundo Tomás (logion 2) apresenta o clímax “buscar-hallar-espantar-se-reinar”, adaptado ao processo da gnose, onde o que busca não cessa até encontrar e, então, reinará sobre o universo.
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O autor menciona que Marción e os valentinianos usaram a notícia lucana, e Hipólito, nos naassenos, relaciona a busca ao reino dos céus que está dentro do homem.
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Tertuliano, em De praescriptione, afirma que o logion foi dito no início da pregação de Jesus, quando ainda se duvidava se ele era o Cristo, e dirigia-se fundamentalmente aos judeus, que tinham a Escritura para buscar.
Tertuliano desenvolve uma exegese rigorosa do “Quaerite et invenietis”, reduzindo-o a três articulações: a coisa (res), o tempo (tempus) e o modo (modus), sempre subordinados ao que foi instituído por Cristo e à regra da fé.-
Tertuliano argumenta que o objeto da busca é “o que Cristo instituiu” (unum et certum aliquid institutum esse a Christo), não as doutrinas arbitrárias dos hereges como Marción, Valentim e Apeles.
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O tempo para buscar dura até que se encontre o que Cristo instituiu e se acredite; uma vez encontrado e crido, buscar além disso é negar a fé.
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O modo de buscar deve ser dentro da regra da fé (“secundum regulam fidei”), entre os eclesiásticos, nunca entre os hereges, pois a curiosidade sem limites leva a um questionamento infrutífero.
Clemente de Alexandria, embora utilize o logion para incentivar a busca da verdade, critica os métodos gnósticos que partem de premissas distintas e consideram os eclesiásticos incapazes de compreender seus mistérios.-
Clemente afirma que o bem se deixa achar por quem o busca (“to gar agathon to zetounti heurisketai”), e que o Logos não quer que o crente seja imóvel ou preguiçoso diante da verdade.
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O autor alejandrino distingue a verdadeira investigação (he zetesis he alethes) que termina na gnose, dom do Pai, das falsas investigações que nunca terminam ou terminam no inchaço do conhecimento vão.
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Clemente reconhece que gnósticos e eclesiásticos se movem em planos diversos; os “espirituais” buscam a nível próprio, os “psíquicos” ao seu, e jamais se encontram, pois partem de axiomas distintos.
Orígenes recomenda que a busca do sentido das Escrituras seja feita com humildade, oração e confiança no auxílio da Sabedoria divina, e não com base no próprio engenho ou na curiosidade fria.-
Em De principiis, Orígenes afirma que, diante da variedade da criação, é preciso suplicar ao Verbo e à Sabedoria para que iluminem o que é obscuro, se formos encontrados dignos de pedir, buscar e pulsar.
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O autor alejandrino, em sua Carta a Gregório Taumaturgo, adverte contra aqueles que tomam o proveitoso do Egito (filosofia pagã) e geram pensamentos heréticos, construindo bezerros de ouro em Betel.
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Orígenes exorta seu discípulo a aplicar-se à leitura das Escrituras com fé, buscando retamente o sentido escondido, e a não se contentar em pulsar e inquirir, pois a oração é necessaríssima para entender o divino.
Irineu ataca diretamente o abuso gnóstico do logion, mostrando que os valentinianos o utilizavam para justificar sua busca de um Deus superior ao Criador, e para defender a preeminência dos “espirituais” sobre o demiurgo.-
Irineu relata que os valentinianos aplicavam Mt 7,7 para legitimar a aplicação da psicologia humana ao processo eônico do pleroma, buscando nos termos “Bythos” e “Sige” a prova de suas especulações.
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O santo de Lião denuncia a contradição entre o mito valentiniano, que proíbe os eons de buscar o Pai, e o conselho de Cristo aos homens: “Buscai e achareis”.
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Irineu argumenta que, ao contrário do que pensam os gnósticos, o logion não autoriza a busca de um outro deus, pois a regra da verdade e o testemunho público de Deus atestam claramente que só Ele é o verdadeiro Deus e Pai criador.
O autor conclui que, mais do que a liberdade de investigação, o que está em jogo na polêmica sobre o “Quaerite et invenietis” são as premissas blasfemas dos herejes, que, vazios de caridade e cheios de si, buscam um deus à medida de seus desejos.-
Irineu afirma que a verdadeira ciência teológica deve orientar-se para a investigação do mistério e da disposição do Deus que é, nunca para criar problemas sobre sua existência ou para buscar um deus superior a Ele.
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A exegese de Irineu caracteriza-se por não se permitir outra liberdade senão a de associar passagens escriturárias entre si, iluminando-as mutuamente, atento à tradição eclesial.
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O autor observa que, enquanto os gnósticos se encumbram facilmente aos mitos com a liberdade que lhes autoriza sua “parádosis”, Irineu busca e acha sem aparato, deixando cair ideias e termos com simplicidade, como se a Igreja lhos tivesse apresentado em bandeja de ouro.
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