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gnosticismo:orbe:aocg:cristo-preexistente
Cristo preexistente
Antonio Orbe — Cristologia Gnóstica
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O problema inicial em relação à pessoa de Cristo se coloca a partir do início da economia.
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A questão se coloca praticamente desde a primeira vontade em Deus de se revelar a outros.
O silêncio absoluto e eterno reduz—se em Deus a um ato imanente simplicíssimo, anterior a toda dualidade e superior a todo conhecimento.-
Fórmulas dos Oráculos caldaicos indicam que o Pai se subtraiu a si próprio, sem incluir sequer em sua potência intelectiva ao seu fogo.
A cristologia se inaugura quando Deus rompe o silêncio, dando subsistência à potência intelectiva e concebendo em si o Intelecto, momento em que aparece o Cristo paradigma.-
O mecanismo é análogo ao dos Oráculos caldaicos, conforme estudos sobre os valentinianos.
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As analogias com os Oráculos, Numenio e outros autores ficam à margem da rigorosa cristologia em sua dimensão salvífica.
A essência de Deus era considerada esferoidal e sem semelhança com o homem, sendo em sua totalidade intelecto, mente e eterno, segundo Jenófanes.-
A expressão da simplicidade absoluta de Deus passou a escritores eclesiásticos pouco amigáveis à filosofia pagã.
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Diógenes Laércio registra essa sentença de Jenófanes.
O Pai de todas as coisas dista muito das afeições e paixões que acometem os homens.-
Deus é simples, não composto, igual a si mesmo, todo sentido, todo espírito, todo sensibilidade, todo pensamento, todo razão, todo ouvido, todo olho, todo luz e fonte de todos os bens.
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Irineu registra essa descrição sobre a simplicidade de Deus, havendo outros testemunhos estudados em Antropologia de San Irineu.
Frente à simplicidade de Deus, estava presente, desde a sua positiva e livre aparição, a composição peculiar ao Filho.-
O Tractatus tripartitus concebe as ideias de pensamento, silêncio e graça como propriedades do Pai, derivando a complexidade para a economia gratuita.
A pessoa do Filho é integrada pela soma das perfeições na ideologia gnóstica, o que o constitui mediador entre o Pai simplicíssimo e as criaturas.-
Multidões de éons, como virtudes e formas, definem o Filho física e pessoalmente.
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Essa perspectiva era compartilhada por gnósticos do Apócrifo de João, simonianos, ofitas dos tratados Askew e Bruce, basilidianos e outros.
Os valentinianos caracterizavam a pessoa do Filho mediante os trinta éons do Pleroma, que representavam uma expressão divalente topológica e cronológica.-
Os valentinianos acentuavam a comunhão que reinava entre os éons à altura do Intelecto, sem se contentar em apenas distingui—los e enumerá—los por ordem de aparição e dignidade.
As trinta perfeições do Filho derivam do Intelecto e, por meio dele, conhecem ao Pai, orientando—se também para a criação.-
Todas as perfeições fazem unidade no Filho e comunicam mutuamente, de forma física, as suas propriedades.
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Ptolomeu chega a uma formulação que evoca a fórmula de Xenófanes.
Os éons adquiriram perfeita forma e conhecimento, correspondentes à natureza e sobrenatureza, a partir da gnose outorgada por singular providência do Pai.-
Diz—se que os éons foram constituídos iguais em forma e mente.
Os éons foram feitos todos intelecto, todos verbo, todos homem e todos Cristo.-
Igualmente, todos os éons femininos ficaram feitos verdade, todos vida, Espírito Santo e Igreja.
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Irineu e Tertuliano relatam que todos se igualavam em forma e ciência, refundindo—se em Nus, Homines, Theletos, Sigas, Zoas e Ecclesias.
O Filho vem a ser, por comunhão pessoal de éons, o que Deus Pai é em simplicidade.-
Deus não consente predicação estrita porque nada pode ser afirmado sobre Ele, nenhuma forma ou noção.
O Filho sofre tantas predicações quantas são as formas, noções ou éons de que se compõe, vindo a ser todas e cada uma delas sem confusão, por igualdade.-
O Pleroma de perfeições admite uma multidão de apelativos, incluindo o de Cristo.
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Os valentinianos contam com trinta éons, enquanto os gnósticos do Apócrifo de João e dos tratados Askew e Bruce contam com muitos mais.
Os valentinianos parecem rehuir o problema da denominação do Filho.-
Deixou—se a segunda pessoa sem apelativo especial de intento, para atribuir—lhe qualquer um dos trinta nomes, desde o filosófico Nus até o bíblico Sofia.
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Sige acolheu o esperma de Bythos e deu à luz, dentro de Deus, o intelecto chamado também de Unigênito, segundo Irineu.
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Ptolomeu e o Tractatus tripartitus empregam o termo Unigênito com parsimônia, enquanto o termo brilha por sua ausência em Heracleon, no Evangelium Veritatis, no Evangelio segundo Felipe e no Apocalipse de Tiago.
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O século I foi marcado pela filosofia do Nus, vide os dois noes de Numenio, os três dos Oráculos caldaicos e os dois impugnados por Plotino, conforme estudos de Krämer e Schmidt.
Nenhum dos trinta apelativos vinculados aos éons e conhecidos por dupla via responde à eficácia estritamente salvífica do Hilho.-
Ptolomeu e a carta doctrinal de Epifânio apresentam as duas vias de conhecimento desses apelativos.
Os dois nomes que melhor respondem à eficácia salvífica são Cristo e Espírito Santo.-
Somados aos trinta éons anteriores, Cristo e Espírito Santo perfazem o número trinta e dois, característico dos deuses de Valentim.
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Apenas esses dois nomes conferem ao Pleroma a gnose em que consiste a saúde, conforme indicações em Irineu e nos Actas de Tomé.
Os trinta anos de Nazaré na vida de Jesus passarão antes que o Cristo superior e o Espírito Santo desçam sobre a sua humanidade como sizígia de éons.-
Essa descida ocorre para comunicar—lhe a gnose e habilitá—lo salvificamente.
Nenhum dos dois nomes, Cristo e Espírito Santo, constitui a pessoa do Filho da mesma forma que os trinta éons.-
Ambos são a expressão da essência ou espírito paterno de Deus, derramada a modo de unção, ou chrisma, no Filho.
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Essa unção serve para batizar o Filho em sua pessoa e capacit—lo para o batismo de espírito fora de Deus.
Qualquer um dos trinta apelativos dos éons seria mais razoável e exato para o estudo da pessoa do Filho, pois apenas estes são pessoais.-
Os termos Cristo e Espírito Santo resultam comuns ao Pai ou denunciam uma dependência Dele.
Há razões para adotar o primeiro termo e falar em cristologia.-
Deve haver um termo aplicável ao mundo da preexistência divina do Salvador e à sua existência futura no cosmos.
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Esse termo deve salvar a unidade nos dois atos fundamentais de sua vida, dentro e fora de Deus, assim como procede Arai na monografia sobre o Evangelho da Verdade.
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O termo Cristo aparece apenas duas vezes no Evangelho da Verdade, onde o termo Logos é repetido com frequência.
As denominações de Nus, Logos e Anthropos evocan ideias muito concretas e delimitam o campo a esferas determinadas.-
Logos acentua a missão criadora daquele por cujo meio Deus fez as coisas e fundou o reino dos racionais.
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Anthropos desperta o pensamento da forma ou paradigma do homem.
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Os nomes de Unigênito, Primogênito e Filho orientam a mente para o trinitário.
O nome Cristo compendia boa parte da economia do Filho, exaltando o seu destino salvífico, apesar do equívoco que o acompanha entre muitos sectários.-
O termo se avém, por sua polivalência, ao análise dos aspectos mais abigarrados da pessoa e missão do Salvador.
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Alguns sectários chamam o primeiro de Salvador superior e identificam o segundo com o Messias hebraico.
Alguns conceberam o Salvador em forma de homem, de acordo com uma hierarquia de perfeições ou membros sensibilizada pelo corpo humano.-
Irineu menciona a forma de verdade, feminina e acessível, havendo noções similares na cabala estudada por Scholem e em outros tratados descritos por Baynes.
Interessa o conteúdo do termo, especialmente agora a preexistência de Cristo, uma vez margens o problema indiferente do nome.-
O estudo de Sofia em suas variadíssimas acepções pode esclarecer pontos da preexistência, embora na prática corra o risco de complicá—los, demandando análise prévia conforme MacRae e Stead.
Formulações
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Ninguém entre os gnósticos pôs em dúvida a preexistência de Cristo.
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Entende—se por isso a sua existência pessoal antes da criação do mundo.
Nenhum gnóstico atribuiu a Cristo o eterno rigoroso, a saber, la coexistência com Deus.-
Muitos atribuíram—lhe uma existência aionios, não temporal.
Sem conceber o Filho como eterno desde sempre, como o Deus ingênito, os gnósticos também não o definiam como temporal, como o mundo sensível.-
Fizeram—no autogenes, entre o ingênito e o gênito, com vida superior à matéria e à psique.
Cristo preenche o hiato entre o Deus eterno e o mundo criado.-
Trata—se de um hiato miticamente cheio de éons intelectuais ou racionais puros, formas divinas ou teoremas de futuras espécies e indivíduos.
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Esse esquema se organiza hierarquicamente na linha da Sofia origeniana e do Logos plotiniano estudado por Graeser, Zandee e Jervell.
O esquema em sua expressão mais ingênua seria constituído por Deus, Cristo e universo ou criação.A preexistência de Cristo, imposta pela mediação entre Deus e o mundo, deve levar em conta a índole da mediação e os seus vários aspectos.-
Aqui radica a diferença de uns documentos para os outros.
Naassenos, peratas e setianos de Hipolito; ofitas de San Irineu
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Há famílias que exaltam o fato da preexistência reduzindo—lo ao mais elementar.O esquema dessas famílias é composto por Ingênito, autogenes, que equivale a Cristo, e gênito.
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A preexistência e os componentes físicos do autogenes são supostos.
Adivinham—se, lendo entre linhas, os dois títulos de criador ou demiurgo universal do cosmos e salvador dos filhos de Deus disseminados nele.Os naassenos de Hipólito discorrem com base no mesmo esquema fundamental.-
Adicionam, contudo, notícias de interesse para definir o Cristo como Filho do Anthropos na trindade superior.
Os naassenos dão culto ao Anthropos e ao Filho do Anthropos, de acordo com a sua doutrina.-
Esse Anthropos é andrógino e chamado por eles de Adamas, sendo—lhe dedicados muitos e variados hinos.
O tipo de hino dedicado baseia—se em expressões resumidas.-
A partir de ti vem o Pai do mundo criado, e por causa de ti, a Mãe, os dois nomes imortais, engendradores de éons, ó cidadão do céu, Anthropos de grande nome.
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Hipólito registra essa passagem na Refutatio, havendo estudos de Casey, Beyschlag e Kroll sobre o tema.
Não há modo de entender as linhas anteriores sem recorrer aos ofitas de San Irineu.-
Naassenos e ofitas denunciam uma tríade superior, formada por Pai, Filho e Espírito Santo, duplamente formulada.
A segunda formulação apresenta—se como Anthropos, Filho de Anthropos e Primeira Mulher.Convém agregar a essa estrutura uma díada, traduzível de duas maneiras, sendo a primeira Cristo e Sofia ou Prunicos.A segunda maneira de traduzir a díada apresenta—se como Pai e Mãe.Para evitar equívocos, indica—se a dependência mútua dentro de um quadro geral.-
Abaixo seguem o Cristo, equivalente ao Terceiro Anthropos, e a Segunda Mulher, que é a Mãe.
A primeira tríada se une para engendrar um homem andrógino, que se divide em Cristo superior e em Sofia, pai e mãe respectivos do mundo futuro.O Cristo é uma projeção do Filho de Anthropos, e Sofia ou a Segunda Mulher é projeção da Primeira.-
Nem os naassenos nem os ofitas de Irineu explicam a lei que preside a origem ou distinção dos cinco membros, assunto a ser visto em seu lugar.
A comunhão de nome Anthropos entre o Pai, o Filho e o Cristo, e de nome Femina entre o Espírito Santo e Sofia, denota a existência de relações especiais entre seus membros.Os naassenos escondem sob o homem de Adamas ao Cristo, seja como Filho de Anthropos, seja como pai emanado do anterior.A mãe é deixada pendente pelos naassenos.-
Em vez de iluminar as relações do pai e da mãe com o Anthropos e Filho de Anthropos, eles perseguem a sorte de Adamas em sua epifania ao mundo.
Os naassenos dividem Adamas em três partes, como a Gerião.-
Este possui a sua parte intelectual, to noeron, animal, to psychikon, e de matéria, to choikon.
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Existem paralelos com os três linhagens de homens da tradição órfica segundo Proclo e os três linhagens de deuses genéticos segundo João Lido.
Os naassenos pensam que no conhecimento de Adamas reside o princípio do conhecer factível de Deus.O princípio da perfeição é o conhecimento do Anthropos, enquanto a perfeição consumada está no conhecimento de Deus Pai.-
Assim se expressam os naassenos.
Todas as coisas intelectuais, animais e materiais penetraram e desceram juntas a um homem, Jesus, engendrado de Maria.Sobre o mesmo falaram, ao mesmo tempo, esses três homens.Cada qual falou a partir das substâncias próprias, aos homens próprios.Há no universo três gêneros — angélico, animal, material — e três igrejas — angélica, animal, material.Os nomes dessas igrejas são: escolhida, chamada e cativa, significando a igreja dos escolhidos, dos chamados e dos cativos.-
Hipólito relata essas concepções na Refutatio.
Os naassenos adicionam duas tríades complementares à estrutura de peratas e setianos.-
A primeira situa o Cristo, igual ao autogenes, na trindade suprema de Pai, Anthropos e Mãe.
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A segunda projeta—o para o mundo nas dimensões intelectual, psíquica e material, de acordo com as regiões do cosmos criado.
O trinômio ingênito—autogenes—génito se enriquece mediante o desenvolvimento dos dois extremos.-
Esse enriquecimento dá—se pela presença implícita de uma Mãe e pela mediação do Cristo nas três regiões do gênito.
O novo esquema organiza—se de forma ramificada, conforme indicações de Tardieu.-
Apresenta—se a Tríade Ofítica com o Primeiro Anthropos, Segundo Anthropos e Primeira Mãe.
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Apresenta—se a Naasena com Pai, Segundo Anthropos e Mãe.
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O Ingênito equivale ao Pai, o Autogenes une Adamas e Prunicos como Segunda Mãe, e o Gênito equivale ao mundo ou universo, dividido em espiritual ou intelectual, animal e material.
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O Cristo superior atua nas esferas intelectual, animal e material.
Peratas, setianos e naassenos de Hipólito coincidem no fundo.-
Apenas os últimos introduzem subdivisões explícitas tanto na região ingênita quanto na criada.
O autogenes, mediador entre o Deus supremo e o mundo, não apareceu de forma espontânea.O autogenes resume, como andrógino, os dois aspectos que alguns sectários repartem entre o Cristo e Sofia, pai e mãe do mundo sensível.O termo autogenes justifica—se por duas razões não declaradas expressamente.-
A primeira é que, diferentemente do mundo gênito submetido à geração e corruptela, nasceu do Ingênito como fruto normal e espontâneo de sua ideia e vontade, possuindo qualidades desenvolvidas para a mediação.
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O termo autogenetos aplica—se a Dios nos Oráculos Sibilinos, em passagens do Pseudo—Justino, Cirilo de Alexandria, Porfírio e Eusébio.
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O Apócrifo de João cita o termo repetidas vezes, e Whittaker aduz outros testemunhos.
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As Reconhecimentos Pseudo—clementinas criticam o uso de termos como autopatora e autogeneton para o ingênito.
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Nos Oráculos caldaicos, no Comentário sobre o Parmênides, em Mário Victorino e Porfírio, representa a determinação pessoal como Inteligência da pura transcendência existencial do Pai, conforme Hadot.
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O epíteto de Adão nas Três Estelas de Sete identifica—o com o autogenes do Apócrifo de João aplicado a Cristo, segundo Schenke.
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A noção indicada por Baynes como aquele que por si só se engendra requer complemento.
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O autogenes agrega à geração espontânea duas conotações em face de Deus e da matéria, sendo concebido sem ajuda de substância alheia, conforme paralelos em Actas de Arquelau e Adamâncio.
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O gênito, ao revés, requer o concurso da matéria e é posterior a ela.
A segunda razão é que, em sua aparição, o autogenes não está sujeito a uma matéria ou mundo prévio como o gênito.Peratas, setianos e naassenos apontavam mais do que desenvolviam as suas ideias.-
A aparente confusão entre o gênito e o mundo sensível encobre uma diferença rigorosa por ser demasiado sabida, conforme passagens da Refutatio.
O mundo particular, to idikon, indica o cosmos sensível, hílico, receptáculo do gênito, enquanto o gênito, to genneton, afeta diretamente o divino engendrado no mundo.Ambos se confundem praticamente, como o continente ou receptáculo se confunde com o conteúdo mais significado, a simiente divina.O gênito é concebido e engendrado no mundo sensível como germen disseminado de cima para o seu desenvolvimento à mercê das leis da matéria e da alma.O autogenes nasceu do Ingênito com perfeita independência de meios estranhos, como espontânea projeção de sua economia internamente idealizada.O autogenes compendia as perfecciones do Filho, criador e salvador, em vésperas da criação do mundo e da implantação da Igreja divina.Bastaria analisar o autogenes para descobrir nele o Cristo histórico, que será uma projeção sensível do Cristo verdadeiro.Os ofitas de Irineu denominam—no simplesmente Cristo.As famílias heterodoxas estudaram o Cristo cada qual a seu modo.O comentário sistemático do hino a Átis, que encerra a Prédica dos naassenos, figura entre os desiderata abertos para a ciência da gnose.-
O hino encontra—se na Refutatio, com estudos de Kern e Tröger.
O comentário serviria para assinalar paralelos e apurar exegeses desconcertantes que flutuam imprecisas nos escritos hipolitianos, de Epifânio e Clemente Alexandrino.O comentário se apoiaria nos nomes naassenos de Cristo e se abriria à doutrina de outros gnósticos.Enriqueceria os aspectos salvíficos do Adamante, mediador entre o Pai e os membros da Igreja terrena.É incerto se iluminaria o campo da preexistência de Cristo.As páginas atuais naassenas contribuem pouco para o análise de suas dynameis constitutivas, destacando virtudes e aspectos sem distingui—los tecnicamente.Não bastam, consequentemente, para restituir a série de éons que integram o organismo misterioso do Filho antes de sua revelação ao mundo.A insistência sobre a atividade iluminativa do mediador descobre a orquestração dos corifeus do século II sobre a gnose do indivíduo por Cristo, com observações de Simonetti.É preciso voltar à origem do Cristo a partir da tríada superior para colher os únicos aspectos viáveis de sua preexistência.Distingue—se da Mãe ou Espírito Santo a título de emitido, como o pneuma que sustenta o Logos prolaticio se distingue do Pneuma paterno de onde saiu.Cristo denuncia a trindade que o deu à luz: o Pai que o concebeu, o Filho que se revelou nele e o Espírito Santo de quem tomou carne no divino.Convém prevenir que a tríada que deu origem ao Cristo preexistente não é uma trindade de pessoas.O esquema implícito recorda o dos Oráculos caldaicos: Pai—Dynamis—Nous.-
Desses três provém uma díada formada por Segundo Nus e Segunda Dynamis, correspondente a Cristo e Sofia, pais imediatos da economia, conforme Festugière, Theiler e Waszink.
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O fragmento 8 de Des Places descreve essa díada com a missão de dar coesão ao mundo inteligível e introduzir a sensação no mundo inferior.
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O esquema caldeo distribui—se entre a Tríade suprema com o Pai, Primeira Dynamis e Nus; a Díada média com o Segundo Nus e Segunda Dynamis; o seio de Deus; o reino inteligível e o mundo sensível.
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Essa interpretação aproxima—se da de Krämer e afasta—se de Bousset.
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O paralelo com os gnósticos distribui o Pai, Espírito Santo como Primeira Mulher, o Filho como Adã andrógino na Tríade suprema, e Prunicos como Segunda Mulher e Cristo como Adã celeste na Díada média.
Na tríada superior, o Espírito Santo é impessoal como seio de Deus ou essência do Pai, ao passo que o Pai e o Filho são pessoais.A tríada superior profere o Filho dividindo—o em dois: o Cristo masculino, síntesis dos éons, e a Mãe, princípio feminino dos homens de luz chamados a fazer o gênito.A segunda fase é de revelação fora de Deus como Cristo, Intelecto e Forma subsistente do universo, mediador entre o Pai e o mundo.A primeira fase acentua a dignidade do Filho, em quem o Pai sintetiza o seu Pensamento global sobre a economia.A história da humana saúde desenvolve o que se perfilou de golpe no Filho como Forma pessoal da criação e dispensação futuras.A segunda fase assinala o passo inicial para a mediação.-
Cristo é pessoalmente o Filho.
O Cristo apenas difere do Unigênito por sua maneira de ser: antes no seio do Pai, agora também fora Dele.-
Se no interior era andrógino e juntava as perfeições masculina e feminina do pneuma, na revelação retém a dimensão masculina como Intelecto e abandona à Mãe a dimensão feminina para que ela o engendre no mundo sensível.
O análise de Cristo em sua fase de mediação não encontra lugar nas notícias exclusivas de setianos, peratas e ofitas.-
O análise afeta a sua eficácia como Verbo Creador e como Salvador da própria Mãe, habilitando—a nos ordens físico e salvífico.
A atividade do Cristo preexistente vai sempre implícita.-
A díada Cristo—Sofia cede o posto para o demiúrgico à exegese de Gênesis 1,1ss, sem discernir as ações.
Esquema análogo se adverte no Himno de la perla, a saber: Pai—Mãe—Filho.-
O Filho aparece com um irmão que desce ao Egito, conforme passagens nos Actas de Tomé.
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À dualidade entre o irmão maior e o menor corresponde o binômio Salvador—Sofia que não aparece no Hino.
A tríada superior adquire na Triforme Protennoia variações que difuminam as fronteiras dos três espaços governados por o Logos.-
Fenômeno análogo ocorre no Evangelho dos Egípcios estudado por Böhlig.
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Ambos os escritos dão relevo à Virgem masculina, expressão da fecundidade do Pai e da perfeição do Espírito.
Se por um lado adquire dimensão masculina pela Mãe, como paradigma da Mãe dos viventes anuncia o Espírito feminino, Sabedoria do mundo e origem da Igreja terrena.-
Nenhum dos dois tratados permite definir a díada Salvador—Sofia, presumível por cotejo.
A Exegese sobre o alma e a Interpretação da gnose calam sobre a tríada superior e desenvolvem a história do divino feminino no mundo ou acentuam a divisão entre Adã e Eva.-
O drama terreno inicia—se com essa divisão.
O acréscimo desse esquema ao dos anteriores tratados restitui a pêntada clássica dos reinos divino e criado.O esquema anterior é verdadeiro, mas não o único, indicando os naassenos outro no salmo.Norma era engendradora do universo, o Intelecto primogênito, ho prototokos noos.A segunda substância que seguia o primogênito era o caos difuso, to chythen chaos.A terceira em ordem era a psique, que tomou para o seu trabalho a dupla norma.Revestida com a forma de cervo, elaphou, a psique fatiga—se dominada em seu empenho pela morte.Umas vezes a psique contempla a luz com domínio basileion echousa, outras cai em miséria e chora.Jesus disse então para o Pai olhar como ela vai errando, fora do sopro paterno, na terra em busca de males.A psique trata de fugir do caos amargo e não sabe como atravessá—lo, hopos dieleusetai.Jesus pede para ser enviado pelo Pai.Em posse dos selos, Jesus afirma que baixará, atravessará os éons, dará a conhecer os mistérios, revelará as formas dos deuses e os segredos do caminho santo evocando a gnose.O salmo discorre sobre o esquema Nus—Psyche—Chaos, ou Luz—Alma—Trevas, com paralelos em Krämer.-
Representa o drama da Psique em vésperas do advenimento do Salvador.
Colocada entre o Primogênito, lei da economia, e o caos, assento da morte, a Psique um tempo contemplou a Luz do Intelecto.A Psique foi arrastada ao amor da terra segundo mito geral entre os gentios, perdendo—se sem acertar a fuga para a Luz.O diálogo de Jesus com o Pai introduz—se no esquema devido à situação lamentable da psique.A aprovação paterna deve ter seguido o diálogo, resultando no envio de Jesus para liberar a psique.O salmo não declara as relações de Jesus com o Nus primogênito, nem da psique com os destinatários da gnose.A própria pessoa do Nus descenderá aos membros da Igreja perdida no caos para liberá—los da ignorância.Os naassenos mantêm o esquema Luz—Psique—Trevas sem sacrificar o de ingênito—autogenes—gênito, harmonizando ambos.O primeiro atende ao processo de Cristo e sublinha o duplo estádio do Cristo autogenes antes da criação e do Cristo gênito após a diáspora.O segundo olha para a sorte da Igreja na criação.O esquema global apresenta tabelas comparativas.A situação dos elementos em I é apenas prévia ao desorden da psique e posterior à ação salvífica de Cristo.A situação em II representa a conjuntura histórica em vésperas da saúde.A coexistência dos dois esquemas não pertence apenas aos naassenos.Os setianos denunciam—na em forma que recorda os basilidianos: Luz—Espírito—Trevas.-
A Luz equivale ao Filho, as Trevas ao caos e o Espírito ao meson ou intermédio, conforme passagens na Refutatio comentadas por Bousset, Krämer e Meloni.
Pistis Sophia e os Libros de Jehu (P.S. e L.J.)
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Os ofitas de San Irineu guardam muitos pontos de contato com os sectarios da Pistis Sophia.
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Haverá ocasião de comprová—lo a propósito da encarnação e do batismo, conforme notas bibliográficas.
Cabe estudar a preexistência de Cristo em Pistis Sophia e nos Libros de Jeú para descobrir o mistério que os ofitas resumem nas relações entre a tríada e a díada.-
Isso faz—se sem o compromisso de vincular as mesmas ideias aos sectários de Irineu e aos dos códices egípcios.
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Esses documentos foram analisados por outros, singularmente Schmidt, com páginas sobre o Salvador preexistente.
O autor contenta—se com breves considerações.-
Pistis Sophia, os Libros de Jeú e o tratado anônimo de Bruce explayam—se na descrição de três regiões, sendo a primeira a do Deus supremo ou região da luz.
A segunda é a região da direita, espaço também de luz, mas intermédia.-
A dextera luminis figura nos Actas de Tomé, estendendo—se entre os maniqueus ocidentais conforme Actas de Arquelau, Santo Agostinho e estudos de Decret, Bornkamm e Schlier.
A terceira é a região da esquerda ou região de kerasmos, inferior, dominada pelo diabo.-
São referidos o capítulo trinta e três, o simbolismo da direita e esquerda em Schmidt, Kroll, Lobeck, Schrage e Dibelius, e passagens de Irineu sobre o príncipe da esquerda em Valentim.
Trata—se das mesmas três partes — ingênita, autogenes, gênita — encontradas em peratas e naassenos, sob outros nomes.Registra—se uma diferença literariamente notável entre os sistemas.-
Os sectários de Hipólito extremam a sobriedade para as regiões superiores, enquanto Pistis Sophia e os Libros de Jeú trazem a atenção para elas mediante infinitas divisões.
A região suprema correspondente à tríada ofítica divide—se em dois estratos fundamentais, choremata, com multidões de lugares e ordens, taxeis.-
Essas divisões são a expressão de dynameis sublimes.
O primeiro chorema responde ao Inefável absoluto, fechado sobre si em transcendência e silêncio.O segundo chorema, ainda na região suprema, encobre o posto do Filho Unigênito e denomina—se Primer Misterio.O Primer Misterio possui duas vertientes, diferentemente do Inefável.-
Uma vertente é o Primum Mysterium introspiciens, que mira o Pai como Intelecto pessoal orientado a Deus.
A outra vertente é o Primum Mysterium prospiciens, que mira para fora como Intelecto orientado para a economia.O Primum Mysterium é o grande personagem da região suprema.-
Como o Filho de outras famílias, compendia a preistória desenvolvida na região intermédia por infindáveis éons.
O trânsito da região suprema para a média realiza—se mediante a probole do Primum Mysterium do interior para o exterior de Deus.O mesmo que antes descansava como Unigênito com preeminência do introspectivo revela—se agora como Cristo com eminência do prospectivo.Se houvesse uma chave para ler a dimensão centrífuga dos topos e taxeis do Intermédio, haveria modo de estudar as perfeições de Cristo e a sua missão.-
Tal chave talvez existiu no escrito básico em torno do qual se configurou a Pistis Sophia até a sua forma atual.
O mesmo se diz dos Libros de Jeú que completam zonas da teologia da Pistis Sophia para a região intermédia assimilável ao Cristo.Duvida—se que os atuais Libros de Jeú, Pistis Sophia e o anônimo de Bruce permitam dar com a chave.A leitura deixa a impressão de que o desenvolvimento do reino intermédio obedece a fins pouco soteriológicos ou cristológicos.O sistema adivinável nos códices Askew e Bruce orienta—se para a exaltação dos céus em fase escatológica, ao revés do Apócrifo de João ou de Ptolomeu.-
Esses últimos descrevem o Pleroma com miras na economia, antecipando os valores da mediação.
Os textos multiplicam topos, taxeis e séries de virtudes fazendo desfilar a variedade de formas que espera os devotos no mais além.O próprio Salvador indica algumas vezes o seu origem, embora faltem no primeiro livro de Jeú as folhas atinentes às relações de Jesus com o Pai, conforme Schmidt.-
Essa indicação basta para justificar o esquema anterior.
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A cristologia é considerada mais alta do que na Pistis Sophia, sendo Jesus o ser supremo imanente desde o princípio, cuja existência individual se deu pela Ennoia, mediando o processo cósmico.
O problema inicial de Cristo está na Ennoia ou primeiro Pensamento com que Deus rompeu a sua quietude, não na existência ab aeterno.-
Os sectários de Pistis Sophia e dos Libros de Jeú discurriam como os outros.
A primeira Ennoia determinou com a sua aparição a do Intelecto, princípio e mediador pessoal da futura saúde.Os Libros de Jeú orquestraram com toques pessoais este primeiro passo comum.Subrinham que a essência de Deus Pai perseverou inacessível sem menoscabo de sua transcendência.Um só raio infinitesimal orientado por Deus para fora basta para construir os estratos de Luz e colmar a história da saúde humana.O raio voltará em sentido contrário para o ponto de origem no seu dia, incorporando os resplanderes à unidade da ideia de que partiu.Os textos multiplicaram as riquezas nos vários estratos contidos na ideia infinitesimal para ressaltar a majestade de Dios.-
Se a mínima ideia esconde tantos tesouros, questiona—se o que será Deus mesmo na plenitude de sua mente.
Basilides
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Sobre Basílides chegaram notícias dispares por San Irineu, Clemente, Hipólito e Hegemonio.
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As de Hegemonio nos Actas de Arquelau e as de Clemente não tocan a preexistência diretamente, ao contrário das de Irineu e Hipólito, com referências a Bousset e Hendrix.
Irineu se inspira provavelmente no Syntagma de San Justino.-
As suas notícias oferecem o resumo de fontes desconhecidas para o autor do Adversus haereses.
O Basílides ireneano discurria sobre um esquema relativamente simples.-
Tudo arranca de uma distinção não eterna entre o Deus ingênito, innatus, e o Filho, natus.
Deus inaugurou o universo criado mediante o Filho, havido em ordem à sua manifestação aos homens.-
O universo compõe—se de céu e terra, sendo o céu formado por 365 ordens de anjos governados pelo demiurgo, e a terra contendo a igreja de homens.
Importa assinalar o Natus como mediador entre Deus e o universo.-
Irineu descobre nele uma série de cinco apelativos do Filho com uma disposição sintomática.
Três apelativos apresentam—se em série lineal, como de pais para filhos: Nus—Logos—Phronesis.Os dois últimos, Dynamis e Sophia, apresentam—se como éons procedentes do último anterior, Phronesis.Essa disposição faz pensar em uma diferença entre ambas as séries.Os três primeiros denunciariam o Filho Unigênito no seio do Innatus.-
Os éons Nus—Logos—Phronesis seriam para os basilidianos cabeças de série, correspondendo ao que os trinta éons representam para os valentinianos.
A segunda série indicaria o Primogênito, nascido do Pai de acordo com duas perfeições chamadas a intervir fora.-
Essas perfeições são Dynamis, talvez como Logos prolaticio, e Sophia, como Mãe da Igreja terrena.
O binômio Dynamis—Sophia recorda dois testemunhos clássicos.-
O primeiro é 1 Coríntios 1,24, que refere a Cristo como dynamis e sophia de Deus.
O segundo testemunho é Lucas 1,35.-
A passagem refere que o Espírito Santo descerá e o Poder do Altíssimo fará sombra.
O esquema basilidiano de Irineu estrutura—se hierarquicamente.-
Irineu relata que Basílides estendeu a sua doutrina mostrando Nus nascido de Innato Patre, de onde nasceu Logos, de quem veio Phronesis, gerando Sophia e Dynamis, criadores do primeiro céu, repetindo—se o processo até 365 céus, justificando os dias do ano, conforme Krämer e Hendrix.
Convém destacar os estratos superiores no que concerne à preexistência de Cristo.O Cristo teve uma vida resumível em três fases no seio de Deus antes de se revelar como Virtude e Sabedoria.-
Essas fases deram—se como Intelecto, Verbo interno e Discurso ou Phronesis, todas em direção ao futuro universo.
O Filho já entrañava um quefazer salvífico a título de Intelecto concebido por Deus.-
Deus não tinha necessidade dele para entender—se, mas sim os homens chamados a conhecê—lo.
O Nus era a Forma pessoal em que Deus intuía a criação, além de ser Intelecto ao serviço dos homens.-
O Nus resume ambas as missões de mediação salvífica e cognoscitiva.
A primeira missão permanece imutável, embora haja de atuar—se na final consumação.-
Os escolhidos verão a Deus no Intelecto apenas nessa consumação.
A segunda missão muda quando o Pai move o Nus em ordem ao cumprimento da dispensação.-
O Nus entende profirindo um Verbo, convertendo—se em Intelecto que fala os meios de realizar a economia.
Configura—se a emissão do Logos e de Phronesis como manifestações internas orientadas ao universo.-
O mundo ainda não existe, vivendo apenas intencionalmente no Intelecto com todas as espécies e indivíduos humanos.
A história em três etapas do Filho coincide com a do mundo e da Igreja a que serve.-
A Igreja intuída no Nus prepara—se com o Logos e se consuma com a Phronesis, a ponto de revelar—se no Primogênito.
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As etapas vão implícitas nos epítetos trigenethlos e trigenis, com analogias em estudos de Baynes e Böhlig sobre as épocas do luminar no Apocalipse de Adã.
Nenhuma das perfeições do Unigénito se explica por relação pessoal necessária ao Pai.O mesmo se diga das denominações Dynamis e Sophia.-
Ambas convêm ao Primogênito melhor do que ao Unigênito, embora o Basílides ireneano o silencie.
As duas denominações supõem o nascimento do Filho extra Patrem.-
Os sectários raciocinam da mesma forma que os eclesiásticos.
Deus não poderia criar o universo com as suas formas por sua única vontade soberana.-
O querer de Deus basta para a creatio prima, chamando ao ser a matéria informe.
A presença do Filho é requerida a fim de conformar a matéria, sendo Ele a Forma de Deus e da criação.-
O Filho atua como Intelecto, Verbo e Providência definida.
A assistência do Verbo e a sua subsistência fora de si são requeridas além da mera presença.-
Apenas uma Forma divina subsistente pode imprimir formas às criaturas sem confundi—las na universal.
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Aqui reside a filosofia de Provérbios 8,27 sobre estar presente com ele, conforme denúncia de Tertuliano.
Requer—se um novo passo de eficácia como Sabedoria além da assistência ao Pai como Creador.-
Basílides não autoriza ulteriores análises em Irineu, não se recolhendo mais o termo.
A animadversão dos arcontes para os devotos e a liberação destes explicam—se atribuindo a Sophia a maternidade dos germes supraangélicos.-
Irineu relata que o Pai enviou o seu primogênito Nus, Cristo, para a liberdade dos crentes frente aos fabricadores do mundo.
Sophia equivaleria ao Espírito Santo em tal caso, como ocorre entre outros gnósticos.A preexistência de Cristo em Basílides põe de relevo a sua missão pessoal salvífica e criadora.-
Não se adiantam outras circunstâncias nem se esclarecem mistérios da história de Jesus.
O Basílides ou basilidianos de Hipólito partem de outro esquema.-
Distinguem—se três fases de acordo com eles.
A primeira fase é a eternidade do Deus solitário.-
Deus, simplicíssimo e indefinível, foi sempre o que foi antes de querer revelar—se fora, com paralelos em Krämer e Quispel.
A segunda fase iniciou—se quando Deus lançou uma simiente cósmica a partir de sua misteriosa vontade.-
A simiente é o compêndio de toda a economia e a projeção global, katabole, de tudo o que é estranho a si.
A fase traduz miticamente o que outros concebiam como Idea ou Pensamento inicial, durando o tempo da livre decisão divina.-
Irineu menciona a Ennoia progredindo, com paralelos em Beyschlag.
A terceira fase é o desenvolvimento e estratificação do universo a partir do semen mundi.-
O conteúdo do esperma vai saindo aos poucos por ordem de dignidade: o Filho de Deus, o Espírito intermédio, a substância arcôntica e a matéria.
A germinação do Filho desenvolve—se em três etapas com base em suas três dimensões ou filiedades.-
O Egipcio místico menciona as três filiedades masculinas procedendo do alto ao baixo, conforme Doresse e Böhlig.
A primeira filiedade, puríssima, abandona o semen mundi antes de qualquer elemento e se situa abaixo de Deus.A segunda filiedade, não tão pura, sai depois e sobe com a ajuda do Espírito Santo até se colocar abaixo da primeira.-
O Espírito Santo atua como asas da alma.
A terceira filiedade, menos pura, permanece longo tempo na matéria à espera de quem la redima.O Espírito Santo situa—se entre a segunda e a terceira filiedade como fronteira entre o reino da Luz e a região do Arconte ou Psyche.-
O Espírito Santo é essencialmente diverso da Luz divina e da Psyche, e a fortiori da matéria.
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Fala—se em espírito methorion em sentido análogo entre os setianos, com notas de Kroll e Kern.
Os neopitagóricos situavam no círculo infralunar a fronteira que separa os deuses dos homens.-
Denominavam—na o istmo entre a imortalidade e a geração, segundo Ocelo Lucano e Proclo citados por Cumont.
Basílides levanta a fronteira muito mais alto, acima dos sete céus, com base em um esquema oriental confirmado pela Paráfrase de Sem.-
O esquema discorre em torno de três raízes: Luz, pneuma e trevas, conforme Wisse.
A região definitiva das filiedades é la Luz.-
A terceira filiedade terá membros em transe de redimir—se das trevas até a consumação final.
Os três estados não dissimulam a sua identidade, representando o Filho como Unigênito, o Cristo Salvador e a igreja dos filhos naturais.A primeira filiedade é o Intelecto pessoal, mediador indispensável situado abaixo do Pai.A segunda filiedade é o Primogênito, engendrado extra sinum Dei, mediador para a criação e a saúde.-
Ocupa o posto outorgado pelos ofitas em Irineu ao Cristo superior, Christus allevatitius, abaixo do seio de Deus e acima da Mãe do mundo, com paralelos na Sofia Iesu Christi.
A terceira filiedade constitui a igreja dos filhos naturais disseminados à espera de redenção pela segunda filiedade.-
Pode chamar—se
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