Cordeiro de Deus
ANTONIO ORBE — CRISTOLOGIA GNÓSTICA
CAPÍTULO 22: O CORDEIRO DE DEUS
O testemunho de João Batista (João 1,29) — “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” — teve escasso eco na primeira antiguidade cristã, mas os Testamentos dos doze patriarcas e os escritos gnósticos lhe atribuíram grande importância teológica.
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O Testamento de José afirma: “Vi que uma virgem nasceu de Judá, a qual tinha um vestido de linho. E dela saiu um cordeiro imaculado (amnos amomos); e à sua esquerda, como um leão. E todas as feras se lançaram contra ele, e o cordeiro as venceu e matou. E se alegraram nele os anjos, e os homens, e toda a terra. Isto ocorrerá em seu tempo deles, nos últimos dias. Guardai, filhos meus, os mandamentos do Senhor e honrai a Judá e Levi, porque deles se levantará para vós (anatei hymin) ‘o Cordeiro de Deus’, que com a graça salva (ho amnos tou theou chariti sozon) a todas as gentes e a Israel”
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O Testamento de Benjamim acrescenta: “Em ti se cumprirá a profecia do céu sobre ‘o Cordeiro de Deus’ e Salvador do mundo, porque será entregue em favor dos ímpios, e, sendo impecável, será morto em bem dos maus, no sangue do testamento, para saúde das gentes e de Israel, e dominará (katapysei) a Beliar e seus servidores”
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Clemente de Alexandria afirma que João, “o maior profeta entre os nascidos de mulher”, dá testemunho do Deus Logos feito homem, chamando-o “Cordeiro de Deus”, isto é, o Filho de Deus, o infante do Pai, e a Escritura chama efetivamente cordeiros (arnes) às crianças infantes (tous paides tous nepious)
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Clemente acrescenta que a mirada de João difere da dos profetas por ser imediata: aquilo que eles viam entre enigmas, João vê chegar a Jesus; João desata o laço que os continha e os dissipa, anunciando a parusia de Jesus, e ao dizer “Eis – ante vossos olhos e meus – o Cordeiro de Deus”, denuncia o colofão do Testamento Antigo dominado pelo símbolo profético
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Irineu afirma que João Bautista, divinamente iluminado, passou de profeta a “apóstolo” ou “mais que profeta” e denunciou a presença do Salvador com as palavras: “Eis o Cordeiro de Deus, que há de tirar os nossos pecados”, cumprindo-se o vaticínio de Zacarias no Benedictus sobre “dar o conhecimento da Salvação a seu povo, para remissão de seus pecados” (Lucas 1,77)
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Ptolomeu, em carta a Flora, menciona o simbolismo do cordeiro pascal (pascha) como parte simbólica da Lei de Moisés estabelecida à imagem das realidades espirituais e superiores, e cita Paulo: “Mas nosso Cordeiro pascal (to de pascha hemon), Cristo, foi imolado” (1Co 5,7)
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Tertuliano afirma que João era “lucerna ardens” (João 5,35) não só porque preparava os caminhos do Senhor no deserto, mas também porque, demonstrando o Cordeiro de Deus, iluminava as mentes dos homens com seu pregão, para que entendessem ser ele o cordeiro que Moisés anunciava que haveria de padecer
1. “EIS O CORDEIRO DE DEUS”
Heracleão, em seu comentário a João 1,29, descobre que João Batista diz “Cordeiro de Deus” a título de profeta, enquanto “o que tira o pecado do mundo” diz em quanto superior a profeta.
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Heracleão estima que “Cordeiro de Deus” se refere ao corpo do Salvador, e “o que tira o pecado do mundo” se refere ao oculto no corpo; como o cordeiro é imperfeito no gênero das ovelhas, assim também o corpo do Salvador em comparação com aquele que o habita
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Se o Bautista quisesse atribuir ao corpo de Jesus a perfeição ou madurez, teria dito “carneiro” (krion) ao destinado ao sacrifício, pois o carneiro é animal feito, de vida pujante, hábil para governar, e entraña perfeição em sua espécie: adultez e índole masculina
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O Evangelho segundo Filipe declara: “Não desprezeis (kataphronein) o Cordeiro, porque sem ele é impossível ver a porta. Ninguém poderá adiantar-se até o rei se estiver nu”; e acrescenta: “A verdade não veio nua ao mundo; veio em tipos e imagens. De outra sorte, o mundo não a receberá”
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No Tabor, quando apareceu aos discípulos na glória, não era pequeno; havia-se feito grande, e havia tornado grandes os discípulos para que fossem capazes de vê-lo grande; disse então em sua ação de graças (eucharistia): “Tu que congregaste com o Perfeito (teleios), a Luz, ao Espírito Santo, junta os anjos a nós, suas imagens (eikon)”
2. “O QUE TIRA O PECADO DO MUNDO”
João enunciou estas palavras a impulsos de Sofia, denunciando um influxo essencialmente diverso e superior ao que lhe moveu a dizer as anteriores (“Eis o Cordeiro de Deus”), porque o objeto revelado é de natureza rigorosamente divina e não animal.
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O fato sensível, corpóreo, do sacrifício – característico do Cristo animal – é ineficaz em ordem à purificação do mundo, enquanto a imolação do forte – do Filho de Deus – é direta e imediatamente impossível; unidos ambos, o Cristo animal (com seu corpo) e o Unigênito, um põe o sacrifício e o outro a eficácia
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O oráculo de João resume os dois aspectos, visível e invisível, do sacrifício da cruz em função dos que intervêm nele: o Messias (psíquico) e o Filho de Deus, assinalando as duas vertentes: de imolação (ou aparente fracasso) do Messias e de triunfo (invisível, mas eficaz) do Salvador sobre o pecado
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Heracleón concebe o pecado à maneira estoica como “a vida não conforme a si”, “uma existência em desacordo com a própria natureza”; e afirma que Yahvé (o régulo) diz que o homem, seu familiar, enfermava, isto é, não se achava conforme a natureza (ou kata physin echon), porque estava entre ignorância e pecados (en agnoia kai hamartemasin en)
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A ignorância é o pecado sumo, origem e fundamento dos desordenos e atos pecaminosos; afeta o psíquico, filho de Yahvé, e a toda alma vinda a este mundo em regime anterior ao Evangelho, como também afeta o pneumático – filho de Sofia – sepulto na matéria
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O Salvador (= Filho de Deus) remove o pecado do mundo: corrige as paixões de Sofia e dissocia as essências emanadas delas; emenda as paixões (metanoia) do demiurgo e determina a creatio secunda com os sete céus planetários e a formação da matéria, convertendo-se assim em Demiurgo primeiro e universal; elimina os pecados do homem (igreja psíquica e pneumática) a partir de sua aparição humilde no Jordão
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O Evangelho segundo Felipe afirma que quem possui a gnose da verdade é livre (eleutheros); mas o homem livre não peca, pois “quem comete o pecado é servo do pecado” (João 8,34); a mãe é a verdade, enquanto a gnose é a união (com a verdade), e aqueles a quem não lhes é permitido pecar, a gnose da verdade lhes erige o coração, isto é, os faz livres e os eleva por cima de todo o lugar
3. O CORDEIRO E A CRUZ
Os valentinianos itálicos desenvolvem o pensamento do evangelista com recurso a Zacarias 12,10 (citado por João 19,37) e a Êxodo 12,46 (“Não lhe quebrareis osso”), aplicado ao Cordeiro pascal.
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Em Jesus crucificado – discorrem –, como no cordeiro, cabe distinguir duas partes: a carne e o osso; a carne simboliza o visível ou aparente, o passível, ao qual se aplica o vaticínio de Zacarias 12,10 (“Verão a quem traspassaram”); o osso simboliza o invisível, o (diretamente) impassível, ao qual alude a prescrição do Êxodo 12,46 (“Não lhe quebrareis osso”)
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O visível – a “carne” do cordeiro – representava o corpo da economia, milagrosamente fabricado no seio da Virgem para ir ao sacrifício da cruz, aquilo que atravessou o soldado com a lança; o invisível – o “osso” do cordeiro – denotava a alma de Jesus, o Cristo psíquico, primogênito do criador, oculto na “carne” traspassada, inteiro por não haver sido quebrado na cruz
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O anônimo dos Excerpta ex Theodoto escreve: “O Cristo psíquico está sentado (à direita do criador) até a consumação ‘a fim que vejam a quem traspassaram’. Traspassaram, porém, ao aparente, a saber, a carne do (Cristo) psíquico. Porque – diz (Êxodo 12,46 = João 19,36) – ‘não lhe quebrareis osso’. Igual que em Adão (Gênesis 2,23), a profecia indicou alegoricamente, com o osso, a alma (do Cristo psíquico)”
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O Salvador o quis assim para acomodar-se à eficácia que em paradigma teve o Horos ao purificar os eons mediante a separação do aborto de Sofia: uma cruz – o Stauros cósmico – purificou o Pleroma, e uma cruz – a sensível do Calvário – purifica o Kenoma, removendo o pecado das duas igrejas dispersas no mundo
4. SACRIFÍCIO E SACRAMENTO
O Evangelho segundo Tomás apresenta a parábola do samaritano que levava um cordeiro e entrava em Judeia: Jesus diz aos discípulos que, enquanto o cordeiro está vivo, não o comerá, senão quando o tenha morto e feito cadáver (ptoma), e lhes ordena: “Buscai também vós um lugar (topos) para vosso descanso (anapausis), a fim de que não vos façam cadáver (ptoma) e vos comam”.
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O samaritano simboliza o Salvador, e o cordeiro que leva (ao ombro) simboliza o corpo (humano) assumido por Ele – a favor dos homens – para ir ao sacrifício; o cordeiro não se torna manjar se primeiro não é morto, pois ao contrário do samaritano, possui sua vida, inferior à do samaritano, uma vida que, por ocasião do sacrifício, deve ceder o lugar à do próprio samaritano
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O sacrifício representa a morte à vida precedente e o início de outra: o cordeiro morre à vida de cordeiro, imperfeita (psíquica?), e começa outra, perfeita, a daquele que o come e assimila; isto vale para o “corpo psíquico” de Jesus, o qual, por ocasião do sacrifício da cruz, morre à existência animal para ressuscitar a outra superior em “lugar de descanso”
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O Evangelho segundo Filipe afirma: “A eucaristia é Jesus, porque em siríaco (Jesus) se diz Pharisatha, a saber, ‘o que está estendido’. Em efeito, Jesus veio ao mundo através da cruz”; e pergunta: “Qual é sua carne? (Sua carne é o Logos), e sua sangue o Espírito Santo. Quem os recebeu tem alimento (trophe), e bebida, e vestido”
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Heracleão, a propósito de João 2,13, escreve: “Esta (é) a grande festividade, pois era figura da paixão do Salvador; quando não só se removia do meio a ovelha, mas além disso – em manjar – outorgava descanso. (A mesma ovelha) em sacrifício indicava a paixão do Salvador, que (tem lugar) no mundo; como manjar, o descanso, que (se cumpre) no matrimônio (do Pleroma)”
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Heracleão contrapõe os dois planos: o terreno (no mundo) do sacrifício, e o celeste (no matrimônio) do manjar; a eficácia da Páscoa como manjar depende da mesma como sacrifício, pois só este torna “manducável”, sacramental, o corpo do Salvador
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O sacrifício converte o “cordeiro” em “ovelha”, e de infantil e imperfeito o faz manjar de adultos, capaz de produzir “o descanso (próprio) do matrimônio” em quem o recebe: a gnose do Pai, característica do Pleroma
5. A MODO DE CONCLUSÃO
Os valentinianos têm o segredo da palavra concisa, técnica, de inacabáveis ressonâncias, e a palavra inspirada do Precursor (João 1,29) à vista de Jesus abre aos discípulos de Valentim uma perspectiva de assombroso conteúdo tocante ao sacrifício e sacramento do corpo de Jesus.
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O grande pecado que o Filho remove na cruz reside na ignorância do verdadeiro Deus e da economia revelada por seu Filho, provocada pela divisão do Anthropos em masculino e feminino; não é, em geral, a transgressão do protoplasto, mas – apurando as cenas do Gênesis – a separação de Eva a partir do Adão andrógino
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O Evangelho segundo Filipe ensina: “Se a mulher não se tivesse apartado do homem, tampouco teria morrido com o homem. A separação dele foi princípio da morte. Por isso veio Cristo: para remediar novamente a separação que desde o início havia; para uni-los a ambos e poder vivificar e unir os que haviam morrido com a separação”
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Murió e se sacrificou “o Cordeiro de Deus”, o débil e imaturo do Salvador; fez-se manjar “o que remove o pecado (ou pecados) do mundo”, o forte e maduro de Jesus; graças ao sacrifício do Cristo animal (indumento passível do Filho) pôde este – como forma e gnose pessoal de Deus – dar-se em manjar de fortes a anjos e homens
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Fora da família de Valentim há elementos parciais, nunca um sistema que com simplicidade desenvolva tantíssimos elementos em torno do “Cordeiro” de Deus que remove o pecado do mundo
