Porta do Céu
ANTONIO ORBE — CRISTOLOGIA GNÓSTICA
CAPÍTULO 35: A PORTA DO CÉU
A propósito da “Exegese da Alma”, apresenta-se um esquema, facilmente adaptável a várias famílias gnósticas, em cujo centro se acha a porta, passo obrigatório para quantos vêm do Pleroma ao mundo e desde o mundo tornam ao reino da luz.
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Uma fêmea apartou-se de seu companheiro e caiu neste mundo; os arcontes a pegam e desonram, e introduzem, como em casa de prostituição, no corpo, de sorte que já não possa voltar atrás
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Ela o reconhece e o segue ao tálamo, não sem purificar-se previamente das manchas deste mundo, e então vem a reconciliação, e a alma diz jubilosa: “Esta é a verdadeira ressurreição dos mortos, esta a redenção da catividade, esta a subida ao céu, este o caminho que conduz ao Pai”
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Somente a chegada do Salvador a liberta de sua desesperada situação, pois todos os vindos antes são criminosos, adúlteros, que enganam com amor à alma, lhe são infiéis e a abandonam como “pobre solitária viúva”
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O Salvador, como porta de ingresso ao mundo dos eons, acentua sua necessária mediação ao Pai, e abaixo dele está o império dos arcontes, fechando o passo entre o Pleroma e o cosmos sensível
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O triunfo da ascensão dá relevo à vitória sobre a morte, como em Colossenses 2,15, e o Salvador declara: “E nada me resultou cerrado, pois eu havia sido o que tudo abre. E me dirigi a todos os meus, que estavam encerrados, para fazê-los livres”
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Orígenes menciona “céu imolado para que viva, e terra imolada com espada e muitos imolados para que vivam, e morte que cessa no mundo ao morrer o pecado do mundo, e descenso novamente estreito, e portas que se abrem espontaneamente (kai automatos anto gymios pylos)”
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As “portas da justiça” equivalem às portas da virtude, e se abrem prontamente (ex etoimou) a quem persegue as práticas de virtude, mas Celso e os ofitas tinham na mente algo mais concreto, talvez as portas da cadeia que espontaneamente se abriram a Simão Pedro (Atos 12,10: pylen hetis automate enoige autois)
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O Livro de Baruc substitui o salmo 23 pelo 118, quando Elohim, o demiurgo, quis subir ao mais alto do céu e, chegado ao limite superior, contemplou uma luz muito mais formosa do que a por ele fabricada e disse: “Abri-me as portas (anoixate moi pylas) para que entrando louve ao Senhor”
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Os naassenos ensinavam o mesmo ao expor a visão de Jacó: este, feito já de menino jovem e varão (Gênesis 28,7.12), admirou a porta celeste (ten ouranion pylen), dizendo: “Quão terrível é este lugar! Não é isto senão casa de Deus, e esta, a porta do céu (haute he pyle tou ouranou)”
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Por isso, acrescenta o naasseno, diz Jesus (João 10,9): “Eu sou a porta verdadeira (he pyle he alethene)”, e quem tal diz é o homem perfeito caracterizado, que vem de cima, do incaracterizável
1. A TERCEIRA PORTA
Os naassenos conhecem várias portas no céu, mas mencionam com singular relevo “a terceira” (he trite pyle), através da qual somente entram os homens viventes (logikoi) que levam a cumprimento o mistério e são ungidos com inefável crisma.
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O naasseno afirma que os frutos da árvore fecunda são unicamente os logikoi, homens viventes que entram através da terceira porta (hoi dia tes pyles eiserchomenoi tes trites)
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Os espirituais (pneumatikoi) são os que escolhem para si o próprio da água viva, do Eufrates, e se encaminham através da porta verdadeira (dia tes pyles odeuontes aletheutes), que é Jesus o bem-aventurado, e somente os cristãos levam a cumprimento na terceira porta (en te trite pyle apopitzontes) o mistério
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A terceira porta dos naassenos intrigou a crítica, e Usener já advertiu a afeição dos naassenos pelo número três, pois ensinam que quem diz que todas as coisas constam de uma só se equivoca, mas quem de três (ek trion) diz verdade e dará a prova e explicação do universo
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A tríade naasena de igrejas (angélica, psíquica, hílica) e os três homens ou corpos componentes do mítico Gérion orientariam a pensar que os homens de barro (igreja cativa) teriam sua porta (primeira), os psíquicos (igreja da vocação) a sua (segunda), e os angélicos (igreja da eleição) a sua (terceira)
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Heracleão interpreta João 2,19 em três dias pelo terceiro (dia), chamando ao terceiro dia o dia espiritual, no qual pensam os gnósticos se manifesta a ressurreição da igreja, e chama primeiro dia ao dia material, e segundo ao psíquico
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A unção na terceira porta recorda a tradição dos ofitas de Celso e dos valentinianos, presente em tratados de forte coloração hebreia e no Evangelho de Nicodemos, onde se afirma que o óleo de misericórdia é sacado da árvore da vida
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Dos três filhos de Adão, Caim simboliza os hílicos, Abel os psíquicos, e Set os espirituais (futuros gnósticos), sendo os setianos os gnósticos do terceiro, e nas séries triádicas é sempre o terceiro o preferido
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O livro do atleta Tomás afirma que se o homem voa para o ocidente, sul ou norte, o fogo o ameaça, mas não pode encontrar o caminho para o oriente a fim de voar para ali e salvar-se, e se o caminho para o oriente tivesse alguma porta, seria a quarta porta, não a terceira
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Ezequiel (44,2) escreveu: “E o Senhor me disse: ‘Esta porta permanecerá cerrada; não se abrirá e ninguém passará através dela. Porque o Senhor, Deus de Israel, entrará por ela (di’ autes) e ficará clausa’”
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Ptolomeu aplicava Êxodo 13,2 (“todo o que abre a matriz por vez primeira (prototokon) entre os filhos de Israel, desde o homem até o gado, para mim é”) à geração mesma do Logos fora do Pleroma, afirmando que o Salvador, sendo tudo (to pan), abriu a vulva da Excogitação (tes Enthymeseos) do eon passível (= Sofia)
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Os naassenos, em sua curiosa exegese de Isaías 7,14, chamam Virgem (divina) ao Espírito Santo, que no ventre tem, e concebe, e engendra um filho, não animal nem corpóreo, mas bem-aventurado eon de eons (= o Omne aperiens vulvam)
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Irineu relaciona as três moradas na casa do Pai (João 14,2) com o mérito dos que fructificam como 30, 60 e 100 (Mateus 13,8ss) e com o triclínio de Mateus 22,1ss, e os merecedores como 30 habitarão a renovada cidade de Jerusalém (primeira morada), os como 60 irão ao paraíso (segunda morada), e os como 100 irão ao céu sumo do Pai (terceira morada)
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O Evangelho segundo Filipe (§ 76) menciona três casas como lugares de oferenda (prosphora) em Jerusalém: a mansão aberta pelo ocidente (chamada o santo), a aberta pelo sul (chamada o santo do santo), e a terceira mansão aberta pelo oriente (chamada o sancta sanctorum, o lugar aonde só entra o sumo sacerdote, archiereus)
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A misteriosa “porta terceira” é a porta do sancta sanctorum, só franqueável pelo sumo sacerdote, e identifica-se, como horos e véu ao mesmo tempo, com o Salvador, sacerdote da nova lei, autor da unção suprema no Espírito Santo masculino
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Segundo a ideia naasena da Virgem transcendente (seio virginal de Deus), a “porta terceira” mira ao oriente porque se abre ao seio da Virgem divina como a batistério e região de vida divina
2. AS DUAS PORTAS: DESCENDENTE E ASCENDENTE
Os valentinianos contrapunham de modo especial o Pleroma e o Hysterema (Kenoma), o reino da luz e o das trevas, enquanto os naassenos discorriam sobre um esquema triádico (Héxada = terra, Hebdómada = alma, Ogdóada = espírito feminino), situando o horos (a terceira porta) entre o mundo criado e o incriado.
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O perata afirma: “Eu sou a porta” (ego eimi he thyra) – transfere, como a nafta que atrai para si de todas as partes o fogo, ou como a magnete que atrai o ferro, assim atrai e atrai a si os caracteres paternos dispersos na matéria
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Os naassenos cristianizam a teoria das duas portas do sol (Câncer e Capricórnio) que Porfírio expõe comentando o antro de Ítaca, onde Homero apresenta duas portas como o caminho dos homens (de cima para baixo) e dos deuses (de baixo para cima)
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Plutarco escreve que os magos chamam Câncer à porta por onde descem as almas, e Capricórnio à porta por onde sobem; Macróbio acrescenta que estas “solis portas” os físicos chamaram, e por elas as almas do céu à terra e da terra ao céu se crê que passam
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Os naassenos descrevem o oceano como “génesis de deuses (genesi te theon) e génesis de homens (genesi t’anthropon)”, que dá voltas em iterado e contínuo fluxo, umas vezes para cima e outras para baixo; ao fluir para baixo é génesis de homens, ao fluir para cima para o muro e paliçada e rocha branca é génesis de deuses
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Os valentinianos substituem os simples “caracteres” (homens ou deuses) por “sementes superiores” (ton spermaton ton diapheronton), que chovem do céu das fixas (de Sofia) como germes divinos, imperfeitos ainda e femininos, destinados a ser configurados gnosticamente por Jesus
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Teódoto escreve que o visível de Jesus era a Sabedoria e a igreja das sementes superiores (que se revestiu mediante o sarkion), enquanto o invisível era o Nome, a saber, o Filho unigênito, e ao dizer “Eu sou a porta” (ego eimi he thyra) indica: “Vireis até o limite (mechri tou oriou) aonde eu vou os da semente superior”
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A II Apocalipse de Tiago afirma: “Abrirão a porta boa por teu meio os que desejam entrar e buscam, a fim de caminhar pela via que está diante da porta”; e o Evangelho segundo Tomás: “Muitos estão diante da porta, mas os ‘solitários’ (monachos) entrarão na câmara nupcial”
3. A PORTA DE JESUS
Hegesipo relata que alguns das sete seitas que havia no povo perguntaram a Tiago, o Justo, “tis he thyra tou Iesou” (qual é a porta de Jesus), e ele disse que este é o Salvador; então alguns creram que Jesus é o Cristo.
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Eles gritaram e disseram: “Ó justo, a quem todos devemos dar crédito! Já que todo o povo anda errante atrás de Jesus crucificado, ensina-nos tis he thyra tou Iesou”; e ele lhes contestou com grande voz: “A que me perguntais sobre Jesus, o Filho do homem? Também ele está sentado no céu à direita da magna Virtude (te dexia tes megales dynameos) e se dispõe a vir nas nuvens do céu”
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A expressão “he thyra tou Iesou” recordaria uma de Jâmblico (“porta para Deus”, “região”, “corte do Bem”: thyra pros theon… e topos… aule tou Agathou), e indicaria tanto como o céu, reino ou templo do Senhor (Jesus)
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Inácio de Antioquia escreve: “Bons são também os sacerdotes. Mas melhor o sumo sacerdote, a quem está confiado o sancta sanctorum, o único depositário dos segredos de Deus. Ele é a porta do Pai (autos on thyra tou Patros), pela qual entram Abraão, e Isaac, e Jacó, e os profetas, e os apóstolos, e a Igreja”
4. CONCLUSÃO
Sem negar importância ao mistério da ascensão, os sectários teorizaram sobre tudo menos sobre ela, orientando suas preocupações para o ato final da economia: o ingresso dos espirituais no reino de Deus.
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O paradigma da ascensão de Jesus, sumo sacerdote da nova lei, sustém-se como música de fundo, mas nunca merece desenvolvimento, nem sequer por antítese com seu descenso à terra, pois o aparato angélico com o diálogo não vai com o sesgo íntimo da vitória de Jesus
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Hoje, mediante o Evangelho segundo Filipe (§ 76), entende-se seu tecnicismo: alude à “porta oriental” de Ezequiel 44,2 em sua aplicação ao reino de Deus, paradigma do templo de Jerusalém, que dava acesso ao sancta sanctorum
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Os espirituais, segundo os naassenos, entram – por ocasião da regeneração gnóstica – pela “terceira porta”, onde, ungidos por Cristo (sumo sacerdote) com o Espírito Santo, se tornam membros de seu mesmo linhagem sacerdotal e ingressam – como o sumo sacerdote dos hebreus – ao sancta sanctorum ou seio de Deus
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Os naassenos se adiantaram à exegese mariológica de Ezequiel 44,2 e Isaías 7,14, aplicando a “porta oriental” e “Virgem que concebe e pare um filho” ao seio de Deus em sua dupla eficácia sobre o Filho (sumo sacerdote) e os espirituais (cristificados como ele e feitos sumos sacerdotes)
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As duas portas do sol (Câncer para o curso descendente ou “génesis de homens”, e Capricórnio para o curso ascendente ou “génesis de deuses”) são também portas do mesmo rio (= o magno Jordão), identificável com o Filho em seus dois aspectos complementares: “génesis de homens” (criador e semeador de igrejas) e “génesis de deuses” (mediador salvífico entre Deus e os homens)
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Tudo conflui no logion de Jesus: “Eu sou a porta verdadeira” (ego eimi he thyra he alethene), que sintetiza o ciclo do universo na economia da saúde, desde a primeira aparição dos homens espirituais na terra até seu regresso final ao Pai
