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Marcion e o Novo Testamento
QUISPEL, Gilles; OORT, Johannes van. Gnostica, judaica, catholica: collected essays of Gilles Quispel. Leiden: Brill, 2008.
- Constatação de que duas publicações recentes reabriram o debate sobre o texto do Novo Testamento utilizado por Marcion, tema que, embora já tratado décadas atrás, jamais recebeu estudo verdadeiramente abrangente, e reconhecimento de que, no espaço limitado do artigo original, somente observações pontuais poderiam ser apresentadas, ainda que de alta relevância para iluminar aspectos frequentemente negligenciados da tradição textual paulina.
- Exame da primeira dessas publicações — a tese de Harvard de John J. Clabeaux (1983, publ. 1989) — revelando análise de número restrito de passagens do Apostolikon marcionita preservadas em Adamâncio (De recta fide), em Epifânio (Panarion 42) e nas citações de Tertuliano em Adversus Marcionem V, e demonstração de que o texto pré-marcionita de Paulo em Roma, recebido por Marcion, sofreu revisões mínimas, mantendo-se substancialmente o mesmo texto aceito pela comunidade cristã romana primitiva.
- Observação de que variantes presentes tanto nas fontes secundárias (Tertuliano) quanto terciárias (Epifânio) reaparecem também nos manuscritos latinos da Vetus Latina, indicando que tais variantes não podem ser classificadas como “corrupções tendenciosas” de Marcion, mas pertencem ao próprio estado textual romano anterior ao marcionismo.
- Inferência de que a afinidade entre o texto romano pré-marcionita e as tradições da Vetus Latina — especialmente os subgrupos “Itálico” e “Europeu”, ambos ligados ao tipo textual denominado “ocidental” — implica que o texto recebido por Marcion compartilhava leituras de caráter pré-ocidental, assim remetendo a estágio textual anterior à consolidação do tipo ocidental conhecido nos manuscritos posteriores.
- Análise da segunda publicação decisiva — a tese de Ulrich Schmid (1993; publ. 1995) — que avaliou todas as variantes atribuídas a Marcion pelos “caçadores de heresias” católicos, concluindo que Tertuliano utilizou texto grego do Apostolikon e que as supostas remoções de interpolações “judaizantes” por Marcion foram em número muito menor do que antes se supunha.
- Constatação de que variantes consideradas “marcionitas” aparecem em ampla gama de testemunhas católicas e, quando examinadas criticamente, não revelam traços tendenciosos, indicando que correntes de transmissão independentes preservavam tais leituras e que a influência marcionita no texto bíblico católico foi mínima.
- Conclusão de que o texto manejado por Marcion coincidia substancialmente com aquele em uso na Igreja de Roma na década de 140, texto que preservava tanto erros de escribas quanto correções editoriais e, não raro, variantes antigas negligenciadas pelos editores modernos.
- Discussão do estatuto do texto pré-marcionita romano como testemunho anterior até mesmo ao papiro ℘46 (c. 200), reconhecendo que, se o texto de Marcion reflete esse estágio textual, constitui documento de importância inestimável; mas advertência de que essa constatação não deve levar à conclusão precipitada de que o texto marcionita carecia completamente de intervenções doutrinárias.
- Observação de que Tertuliano nada relata acerca de variantes marcionitas em Gl 1,1, mas menção, por Jerônimo, de tradição segundo a qual no corpus paulino de Marcion faltava a expressão “e por Deus Pai” (“kai theou patros”), supressão condizente com cristologia monística em que Cristo ressuscita por si mesmo, sem auxílio de demiurgo inferior.
- Julgamento dessa tradição como fidedigna, com base na coerência da teologia marcionita, e conclusão de que a omissão deve ser considerada intervenção deliberada.
- Reflexão sobre possibilidade de que o próprio texto romano pré-marcionita já contivesse correções doutrinárias anteriores a 144 d.C., especialmente no que diz respeito a textos em que a tradição judaico-cristã enfatizava a primazia de figuras apostólicas específicas como Tiago, Pedro ou João.
- Confronto entre Gl 2,9 (“Tiago e Cefas…”) e a leitura transmitida por Tertuliano (“Pedro e Tiago e João”), mostrando inversão de ordem dos nomes, leitura preferida por Tertuliano e confirmada por manuscritos latinos e gregos de tradição ocidental; identificação de problema histórico, pois Marcion, crítico de Pedro, não teria motivo para promover seu nome; inferência de que ele simplesmente preservou leitura ocidental anterior difundida em Roma.
- Reconstrução da hipótese de que tensões entre tradições judaico-cristãs que afirmavam primado de Tiago e tradições que exaltavam primado petrino contribuíram para circulação de variantes concorrentes no corpus paulino romano primitivo.
- Indicação, por Tertuliano, de que o corpus paulino marcionita continha glosas marginais, evidenciado pelo comentário sobre Gl 4,24–25, onde expressão “duas provas de intervenção de Deus” parece refletir explicação marginal integrada ao texto; refutação da hipótese de von Harnack de que “interpretari” significaria “traduzir”, demonstrando que o verbo pode significar simplesmente “explicar”, e que Tertuliano provavelmente menciona glossas explicativas, não traduções latinas.
- Apresentação da ordem das epístolas no Apostolikon marcionita: Gálatas; 1–2 Coríntios; Romanos; 1–2 Tessalonicenses; Efésios (como “Laodicenses”); Colossenses; Filipenses; Filemon; e constatação de ausência de Hebreus e das epístolas pastorais.
- Comparação dessa sequência com a do Kanon Sinaiticus siríaco, revelando paralelos e sugerindo que arranjo semelhante fora preservado em tradições orientais, indicando provável exportação desse corpus romano a comunidades aramaicas.
- Levantamento da possibilidade de que o corpus paulino romano pré-marcionita tenha sido levado ao Oriente por Taciano, discípulo de Justino em Roma, cujo encratismo e conhecimento das epístolas de Paulo tornariam plausível a transmissão tanto do texto quanto de interpretações anti-matrimoniais que ecoam tradições valorizadas posteriormente pelo maniqueísmo.
- Discussão da tese de que Marcion influenciou Mani em sua leitura de Paulo, seguida da demonstração de que as citações maniqueias preservadas no Códice de Colônia contêm variantes ausentes do texto marcionita, incluindo preservação de “kai theou patros”, o que exclui uso direto do Apostolikon marcionita por Mani; conclusão de que Mani e Baraies utilizaram corpus paulino oriental independente.
- Indicação de ausência de qualquer leitura tendenciosa marcionita nos textos maniqueus conhecidos, reforçando independência textual do maniqueísmo em relação ao marcionismo.
- Formulação de hipótese de que Taciano transmitiu à Síria um corpus paulino romano contendo Gálatas no início da coleção, hipótese reforçada por afinidades entre tradições católicas e maniqueias orientais no arranjo das epístolas.
- Desenvolvimento da tese de Schmid segundo a qual o texto romano pré-marcionita, constituído no final do século I ou início do século II, serviu de base ao tipo textual ocidental, formado por revisões sucessivas que removeram glosas características, consultaram outros manuscritos e acrescentaram Romanos 14 e as pastorais; dedução de que tais revisões provavelmente ocorreram em Roma.
- Consideração de que todos os tipos textuais do Novo Testamento se difundiram a partir de grandes centros urbanos — Constantinopla (texto bizantino), Alexandria (texto egípcio), Edessa (siríaco antigo), Cartago (Afra) —, levando à conclusão de que Roma dificilmente seria exceção, especialmente considerando sua intensa atividade literária e seus scriptoria cristãos; reconhecimento de que o texto pré-marcionita de Paulo, com erros e glosas, revela mão de escriba profissional romano.
- Inferência de que esse ambiente romano poderia também ter produzido o tipo textual ocidental dos evangelhos, dos Atos, onde a revisão ocidental configurou praticamente nova edição, e de outras obras, excetuadas apenas o Apocalipse e as cartas católicas.
- Identificação do caráter teológico das revisões ocidentais, especialmente nas pastorais, que reagem explicitamente a doutrinas de Valentinus, ressurreição já realizada, e do encratismo radical de Taciano, proibição de casamento, abstinência de carnes, incorporando advertências apostólicas destinadas a responder aos debates que agitavam Roma no século II.
- Análise do surgimento simultâneo, no fim do século II, de quatro estruturas que moldaram o catolicismo romano: credalismo apostólico, canon apostólico, ligado à Septuaginta, sucessão apostólica e estabelecimento do “texto ocidental” como edição autoritativa, todos compondo aparato de resistência às correntes gnósticas, encratitas e marcionitas.
- Apresentação das conclusões gerais:
- Intervenções não doutrinárias de Marcion foram mínimas.
- Texto manejado por Marcion era pré-marcionita e pré-ocidental, produzido por escriba romano competente antes de 144.
- Possibilidade de transmissão desse texto a Taciano.
- Necessidade de examinar variantes marcionitas como potenciais testemunhos do texto romano anterior.
- Influência de tradições judaico-cristãs, Evangelho de Tomé, Pseudo-Clementinas, sobre o texto pré-ocidental e, por consequência, sobre o tipo ocidental.
- Valor de semitismos e aramaísmos preservados no ocidental como indícios de estágio textual mais antigo.
- Interpretação do texto ocidental como segunda edição do Novo Testamento criada em Roma entre 144 e 200, articulada aos esforços doutrinários contra movimentos dissidentes.
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