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Gnosis
QUISPEL, GILLES. MAKARIUS, DAS THOMASEVANGELIUM UND DAS LIED VON DER PERLE. LEIDEN: BRILL, 1967.
DAS THOMASEVANGELIUM UND DIE GNOSIS
- O Evangelho de Tomás é geralmente classificado como um escrito gnóstico que precisaria ser interpretado à luz de paralelos gnósticos.
- Para Johannes Bauer, uma preocupação gnóstica específica fundamenta a seleção dos lógia, exigindo que todos os trechos sejam compreendidos a partir da teologia gnóstica.
- Mesmo os lógia que parecem autênticos correm o risco de ser apenas reformulações ou criações gnósticas, já que o gnosticismo é um fenômeno multifacetado e bastante ramificado.
- Robert M. Grant atribuiu o Evangelho de Tomás ao gnosticismo naassênio, afirmando que seu autor não teria utilizado tradição extracanônica, apenas os evangelhos canônicos, pervertendo as realidades religiosas da Igreja.
- Gärtner também considera o Evangelho de Tomás gnóstico, mas vincula-o à escola valentiniana, enquanto Ernst Haenchen sustenta que todos os seus ditos possuem um sentido gnóstico oculto e que ele revela uma forma desconhecida de gnose sem mito.
- Todos esses pesquisadores utilizam a hipótese gnóstica para desvalorizar o Evangelho de Tomás como fonte para a pesquisa neotestamentária, alegando que ele depende apenas dos evangelhos canônicos e não tem ligação com o judaico-cristianismo.
- O Evangelho de Tomás contém uma tradição independente, e surge a questão de saber se havia gnósticos em Edessa no segundo século, pois o caráter gnóstico do escrito depende dessa pergunta histórica, não de análises fenomenológicas modernas.
- Nada se sabe sobre gnósticos em Edessa; a tese de Walter Bauer de que o cristianismo edesseno seria de origem gnóstica é simplesmente falsa, apesar de repetida inúmeras vezes.
- A Crônica Edessena do século VI narra que Marcion se separou da Igreja católica entre 137 e 138, mas isso apenas comprova a existência posterior de marcionitas em Edessa, sem provar presença gnóstica no segundo século.
- A origem do cristianismo em Edessa não é católica, mas tampouco herética; a tradição eclesiástica sobre Addai é uma memória desbotada das origens judeu-cristãs e palestinenses do cristianismo edesseno.
- O mais antigo cristianismo de Edessa era apostólico e ortodoxo, sem presença conhecida de valentinianos; Bardesanes, nascido em 154, não era gnóstico, conforme demonstra a pesquisa moderna.
- Como não se conhecem gnósticos cristãos em Edessa nessa época, o Evangelho de Tomás, se foi escrito lá, dificilmente pode ser gnóstico.
- O que é propriamente gnóstico são as correntes da Antiguidade que ensinam uma ruptura trágica na divindade, a doutrina do deus sofredor e caído, de cuja essência os espíritos humanos provêm.
- Quando o ser humano alcança o autoconhecimento pela gnose, descobre que é parte dessa divindade sofredora e, portanto, consubstancial a Deus; ao redimir o homem, Deus se redime a si mesmo.
- Os pesquisadores modernos da gnose não têm dado suficiente atenção a esse aspecto, que é o traço mais essencial do gnosticismo, ausente na índia, na Grécia, em Israel e no Irã, embora a tradição órfica conheça o mito da divisão de Zagreus.
- Zagreus é um deus dos gregos, não o Deus; é Dioniso, não Zeus, e nenhum grego afirmou que Deus se redime a si mesmo, ao contrário do que dizem os gnósticos explicitamente.
- O Evangelho de Filipe, de origem valentiniana, afirma que Cristo redimia sua própria alma desde o início do mundo, expressão que corresponde ao vocabulário técnico dos valentinianos.
- A mesma concepção escandalosa aparece em uma fórmula litúrgica valentiniana preservada por Ireneu, na qual o iniciado declara redimir sua alma no nome de Jao, que é o próprio nome de Deus.
- O nome Jao é o nome de Javé; segundo o Evangelium Veritatis, Cristo é o nome de Deus porque Deus lhe conferiu seu próprio nome, remetendo a especulações judaicas sobre o nome divino.
- O Evangelium Veritatis também contém essa mesma concepção ao falar do convívio oculto dos espíritos bem-aventurados com a divindade no Pleroma, pressupondo que Deus pode sofrer dano em sua alma.
- Deus está cindido em si mesmo, e a ruptura trágica na divindade se manifesta nos eventos em torno de Sofia e dos espíritos humanos; ao redimir o homem e trazê-lo à consciência de si, Deus se redime e chega à autoconsciência no homem.
- O maniqueísmo pensa de modo semelhante: o Homem Primordial é o próprio Ser de Deus, que desce para ser vencido pelas potências das trevas, conforme narram os textos maniqueus.
- Partindo da ideia de Deus na gnose, percebe-se o específico e essencial dela; quando se parte da concepção de ser humano, torna-se mais difícil, pois o autoconhecimento e as perguntas sobre a origem e o destino do homem não são exclusivamente gnósticos, aparecendo também na filosofia grega.
- A diferença permanece: o cristão considera o homem e a alma como criaturas, enquanto o gnóstico vê seu espírito como parte consubstancial da divindade e seu drama como parte da tragédia divina; além disso, o gnóstico expressa sua autoexperiência em mitos com motivos arcaicos.
- No Evangelho de Tomás não se encontra nada das figuras míticas gnósticas como Bythos, Sige, Achamoth, Jaldabaoth, Saklas e Sammael, nem a distinção entre o Deus supremo e o demiurgo inferior, nem a cristologia docetista, nem a negação da ressurreição corporal.
- O Logion 5, na versão grega original, afirma que nada há de oculto que não será revelado e nada de sepultado que não será ressuscitado, com claro sentido escatológico.
- Jesus convoca ali ao reconhecimento do Messias oculto que está no meio dos homens; quem o reconhece receberá a revelação dos segredos ocultos dos últimos tempos.
- No tempo final, também todos os que estão sepultados na terra ressuscitarão; sepulta-se o cadáver, não a alma, de modo que Tomás ensina uma ressurreição corporal ao fim dos tempos.
- Tomás não ensina um Deus cindido e disperso, nem um demiurgo inferior, nem a consubstancialidade divina do eu humano, nem o docetismo; nega a ressurreição do corpo e não proclama nenhum mito, caracterizando um gnosticismo sem as marcas do gnosticismo genuíno.
- O autor do Evangelho de Tomás pode ter sido gnóstico por ter concepções semelhantes às gnósticas, mas é necessário distinguir o encratismo do gnosticismo.
- O encratismo é um movimento cristão que se diferenciava do catolicismo essencialmente por prescrever o celibato para todos os cristãos, enquanto a Igreja apenas o privilegiava; era uma seita na Ásia Menor no século IV.
- Os encratitas utilizavam o Antigo Testamento e apócrifos apostólicos, abstinham-se de vinho e carne e chamavam Paulo de beberrão por ter aconselhado Timóteo a beber vinho, rejeitando assim as cartas pastorais.
- Inscrições da Ásia Menor confirmam que esses grupos se autodenominavam encratitas, tinham organização própria com mosteiros, sacerdotes, mártires e diaconisas, e expressavam sua hostilidade aos cristãos católicos com o insulto oiopotai, beberrões.
- O fato de alguém rejeitar o casamento, como Marcion, não o torna encratita; os encratitas honravam o Antigo Testamento, ao contrário de Marcion, e liam os atos apostólicos apócrifos, provavelmente originados em seus círculos.
- É tentador ver nos encratitas da Ásia Menor os descendentes de mestres judeus da lei que aboliram o casamento, proibiram certos alimentos e afirmaram que a ressurreição já ocorrera, como as cartas pastorais descrevem.
- Os encratitas são encontrados cedo também em Alexandria; o Evangelho dos Egípcios, provavelmente originado lá, é de espírito encratita, e os ditos encratitas de Sexto, do fim do segundo século, mostram forte influência da filosofia helenística.
- Clemente de Alexandria combate os encratitas em seu Stromateis III, mas isso não significa que já tivessem saído da Igreja egípcia; ao contrário, provavelmente ainda pertenciam a ela na época de Clemente.
- O encratismo era uma corrente dentro da Igreja ocidental no segundo século; textos como os Acta Petri e os Acta Andreae são escritos intraeclesiais, e Tatiano, embora encratita, foi bem recebido e não considerado herege no oriente sírio.
- A origem do encratismo está no cristianismo primitivo: Paulo já teve de enfrentar em Corinto um grupo encratita influente que considerava o casamento incompatível com a fé cristã e o recebimento do Espírito.
- Há também conexões do encratismo com o judaísmo e sua doutrina do impulso mau, bem como com a preexistência da alma no paraíso; o encratismo originou-se provavelmente entre cristãos da diáspora judaica.
- É preciso distinguir o redator do texto copta, o autor do texto grego e suas duas fontes.
a) Die judenchristliche Quelle
- Cerca de metade dos 114 lógia provém da fonte judeu-cristã, e nenhum deles seria originalmente gnóstico ou encratita.
- Dos lógia judeu-cristãos, vários não têm correspondência na tradição sinótica dos evangelhos canônicos, sendo esses os candidatos a palavras autênticas e desconhecidas de Jesus.
- Tomás preservou o ponto central do Logion 57, perdido em Mateus 13: no dia da colheita, o joio se tornará visível, pois o Lolium temulentum só pode ser distinguido do trigo quando frutifica; além disso, Tomás traduz a expressão bíblica mais literalmente do que Mateus.
- Não é possível falar em dependência de Tomás em relação a Mateus, e Hermas também apresenta uma versão relacionada à de Tomás, apontando para uma transmissão independente.
- Tomás, no entanto, é obscuro por não mencionar que o homem semeou a boa semente e por omitir a proposta dos trabalhadores de arrancar o joio, o que deve ter estado em sua fonte, como Aphraates confirma ao aludir ao mesmo paralelo.
- Essa expressão aparece no Liber Graduum sírio, o que aponta para as origens sírias do Evangelho de Tomás; o Liber Graduum conhece as duas formas do dito e prova que conhecia tanto o texto grego quanto a fonte aramaica.
- Esse lógio é de origem judeu-cristã porque os judeu-cristãos guardavam rigorosamente o sábado, ao contrário dos cristãos gentios, conforme testemunha Epifânio.
- A fonte do Evangelho de Tomás pressupõe o Antigo Testamento hebraico, não a Septuaginta, como demonstra o Logion 65, que alude a Isaías 5:1 sem os acréscimos que Marcos 12:1 tomou da Septuaginta.
- O caráter judeu-cristão da fonte se revela porque o filho na parábola é o herdeiro da vinha, ou seja, o Messias do povo de Israel, expressão ausente do Novo Testamento, mas necessária para judeu-cristãos que enfatizavam ser Cristo primeiramente o Messias do povo judeu.
- Essa tradição revela sua origem em ambiente judaico: o Logion 90 é mais breve e provavelmente mais primitivo do que Mateus 11:28-30, e o Targum de Isaías usa alternadamente jugo e domínio, apontando para proximidade com o judaísmo.
- A parábola do tesouro no campo foi transformada sob influência de um relato rabínico, mostrando que o círculo em que esse material foi transmitido vivia em ambiente judaico.
- Tendências judeu-cristãs são bem claras: o primado sobre toda a Igreja é atribuído a Tiago o Justo, reconhece-se que os fariseus receberam as chaves do conhecimento, e os pobres são proclamados bem-aventurados e identificados com os discípulos de Jesus.
- Muitos lógia mostram sua origem judeu-cristã pelo conteúdo, pelos aramaísmos e pelas conexões com a literatura judeu-cristã, especialmente com a tradição evangélica das Pseudo-Clementinas, embora as doutrinas específicas desse grupo não estejam no Evangelho de Tomás.
- Trata-se do legado da comunidade primitiva de Jerusalém, especificamente da facção dos hebreus, os judeu-cristãos de língua aramaica, distintos dos helenistas de língua grega.
- O Evangelho Nazoreu, em versão aramaica, ainda era venerado no quarto século entre os judeu-cristãos de Beröa, e Aphraates e o Liber Graduum o conheciam, tornando provável que os judeu-cristãos o tenham levado da Palestina para a Síria oriental e Edessa.
b) Die enkratitische Quelle
- Sabe-se muito mais sobre o Evangelho dos Egípcios do que habitualmente se admite, se seus fragmentos conservados forem lidos corretamente; seu autor era um grande teólogo dominado pela ideia de que o cristianismo é a superação do apetite de vida.
- Lucas 20:34-36, em versão aramaica extra-canônica, era de grande importância para os encratitas por afirmar que na ressurreição não há casamento nem nascimento porque também não há mais morte.
- Os encratitas alexandrinos defendiam essa posição afirmando ter recebido a ressurreição e, por isso, abolindo o casamento, como confirma Clemente de Alexandria ao citar Júlio Cassiano.
- Esse dito é muito expressante: o mundo é um mundo de nascimento e morte, o amor leva à morte; quem decide abandonar esse mundo e não mais gerar já pode receber aqui e agora o Reino de Deus e a ressurreição dos mortos.
- A cristologia do Evangelho dos Egípcios era modalista, como nos evangelhos apócrifos: Jesus era idêntico a Deus, Pai, Filho e Espírito Santo sendo um e o mesmo, e o evangelho também ensinava a unidade do ser humano.
- A concepção da unidade do ser humano pressupõe uma ideologia oriunda do judaísmo alexandrino: Adão, criado à imagem de Deus, era segundo Filon incorpóreo, nem masculino nem feminino; o pecado originou-se com o feminino, e o retorno à unidade exige que o elemento feminino se torne masculino.
- Essas eram ideias existentes em Alexandria ao menos em um judeu, e aparentemente adotadas pelo autor do Evangelho dos Egípcios; o encratismo alexandrino já estava preparado em círculos judaicos.
- O Evangelho dos Egípcios pressupõe uma concepção platonizante da relação entre alma e corpo: a alma preexistia no paraíso, e o corpo é compreendido como mortalha, tal como em Filon.
- Jesus responde a Salomé que deve comer toda planta, mas não a que é amarga, aludindo a Gênesis 1:29 e 2:17; os frutos da árvore do conhecimento são amargos porque, segundo a concepção judaica, a serpente os infectou com o impulso sexual.
- O autor do Evangelho dos Egípcios conhecia o Antigo Testamento sem qualquer distorção gnóstica, era provavelmente judeu de nascimento, e pressupõe que pela abolição dos sexos o paraíso havia sido restaurado.
- Essa é uma teologia coerente que revela o gênio de um pensador original; os fragmentos mostram estilo pessoal e interpretação muito singular do cristianismo, com uso de fontes que se podem ainda em parte identificar.
- O Evangelho dos Egípcios é de origem cristã egípcia, possivelmente do início do segundo século; o evangelho judeu-cristão era difundido cedo no Egito, e o autor provavelmente conhecia tanto os quatro evangelhos canônicos quanto evangelhos judeu-cristãos.
- A influência helenística no Evangelho dos Egípcios aparece no tema do despir-se da roupa corporal e no da equiparação do masculino e do feminino; Porfírio mostra que esses temas estão interligados.
- O gnóstico valentiniano Teodoto também precisou reinterpretar o Evangelho dos Egípcios, o que prova que ele não era gnóstico; se o gnóstico precisa reinterpretá-lo para encontrar sua doutrina, fica demonstrado que o escrito não é gnóstico.
- O Evangelho dos Egípcios não é gnóstico nem católico, mas encratita, e, como os ditos encratitas de Sexto, mostra grande influência da filosofia grega, algo de se esperar em Alexandria no início do segundo século.
- O mesmo espírito se encontra no Evangelho de Tomás: o modalismo, a relação entre nascimento e morte, a escatologia realizada, a ênfase na unidade do ser humano, a temática de alma e corpo, a ideologia do paraíso reencontrado e a ausência de doutrinas tipicamente gnósticas.
- Assim como a fonte Q é postulada a partir dos dupletos em Mateus e Lucas, é necessário postulá-la para Tomás, cujas fontes judeu-cristã e encratita são muito mais conhecidas do que Q.
- A expressão quando fizerdes os dois um no Logion 106 aponta para o Evangelho dos Egípcios como origem desse dito; o sentido mudou profundamente: não mais a reconciliação entre pessoas, mas a unidade interior do ser humano move montanhas.
- O Logion 101 é alexandrino e encratita: afirma que é preciso odiar a mãe biológica porque ela nos deu a vida e com ela a morte, e amar a verdadeira mãe, o Espírito Santo, que nos faz renascer dando a vida eterna.
- As contradições internas do Evangelho de Tomás, como a oposição entre jejuar como pecado e a exigência de jejuar o mundo, decorrem das perspectivas distintas das duas fontes: os judeu-cristãos mantinham a lei, incluindo o jejum, enquanto o encratismo se opunha às leis alimentares judaicas para os cristãos.
- O Logion 54, tipicamente judeu-cristão, proclama bem-aventurados os pobres literais e os identifica com os discípulos de Jesus, enquanto os Lógia 2 e 29, de origem encratita, espiritualizam riqueza e pobreza referindo-as ao espírito e à carne.
- Encratitas foram os que levaram o culto de Judas Tomás a Edessa, e isso explica a enorme influência do encratismo no cristianismo sírio; mais tarde, o catolicismo edesseno adotou o túmulo de Tomás e Edessa tornou-se a cidade do apóstolo Tomás.
- O Logion 105 só se entende sabendo que os encratitas consideravam o casamento como porneia e phthora: o ser humano é gerado em prostituição, e seu nascimento leva à morte; quem ainda reconhece seus pais e não os odeia permanece preso à esfera da prostituição.
- A Logion 102 é um dupleto do judeu-cristão Logion 39 em que o autor eliminou os elementos palestinenses e substituiu a imagem bíblica pelo provérbio grego do cão na manjedoura, de Esopo; isso mostra a influência helenística na fonte encratita alexandrina.
- O Logion 67 tem contactos diretos com a tradição filosófica grega, como mostra um paralelo em Porfírio, De Abstinentia III, 27; o encratismo sofreu influência direta da tradição helenística, independentemente do gnosticismo.
- O tema da unidade do ser humano e do retorno à unidade original é o grande tema encratita: Adão era uno no paraíso, com a queda tornaram-se dois, e pelo despir-se da roupa corporal o homem retorna ao paraíso.
- A temática do homem tenebroso afasta o encratismo da antropologia gnóstica, que se baseia na identidade do ser humano com Deus, já que para os encratitas a alma é em si mesma treva, mas pode ser iluminada.
- O autoconhecimento e o si mesmo são uma descoberta dos gregos; no segundo século era o tema do dia na filosofia grega, e os cristãos o herdaram dos gregos, embora com um conceito diferente de ser humano.
- Os gnósticos, sendo mitólogos, descobriram o si mesmo inconsciente que dormita como espírito no ser humano; os encratitas tinham uma concepção mais ética, para os quais o si mesmo era o ser humano puro e indiferenciado, Adão no paraíso.
- Os encratitas conhecem plenamente o tema do autoconhecimento, como mostra Taciano em sua Oratio ad Graecos: o ser humano deve reconhecer que não pertence a este mundo dominado pelos astros, mas tem sua morada no paraíso.
- A influência helenística sobre os lógia encratitas é grande e não pode ser negada; isso se explica melhor em Alexandria do que em Edessa.
- O Logion 114 também encontra correspondência em Porfírio e em Filon, que afirmam que o progresso só é possível pela abolição do feminino transformado em masculino; esse logion provavelmente também provém do Evangelho dos Egípcios.
- Abandonando a hipótese gnóstica, ganha-se muito: o Evangelho dos Egípcios torna-se mais conhecido, evidencia-se como uma tradição judeu-cristã independente é transformada em evangelho helenístico, fica claro que o cristianismo helenístico levado a Edessa tinha relações com o Egito, e compreende-se a importância disso para a mística oriental.
- Makário não apenas encerra um desenvolvimento, mas inaugura um novo: foi o primeiro místico sírio que se conhece, influenciou Isaac de Nínive e outros, e a mística sírio-cristã e islâmica forma uma unidade cujo ponto de partida está em Alexandria.
c. Der Autor des Thomasevangeliums
- O autor inicia seu escrito com palavras que lembram Jeremias 37:4 da Septuaginta, revelando que pretendia criar um análogo às palavras do Senhor em Jeremias; ele valorizava o Antigo Testamento como Escritura Sagrada.
- O autor reconhece um progresso na história da salvação: quem passa pelo Cristo vivo não deve falar de profetas mortos, e Adão era inferior aos discípulos porque morreu enquanto eles viverão eternamente.
- A direção eclesial do autor se revela por suas intervenções redacionais nas fontes, especialmente pelo acréscimo frequente da palavra monachos, que no ocidente não está atestada antes do quarto século.
- O termo monachos é a tradução grega do siríaco ihidaja, que no quarto século ainda designava os ascetas sírios; o autor utilizou monachos no sentido de ihidaja, o que aponta para sua vida no oriente de língua síria, provavelmente em Edessa.
- O autor era encratita e, como tal, por vezes alterou o sentido de sua fonte judeu-cristã, como mostra o Logion 16, onde acrescentou que pai e filho viverão solteiros, transformando completamente o sentido do dito original sobre o conflito de gerações.
- O fato de o autor ter utilizado uma fonte judeu-cristã fica claro porque todas as divergências do texto canônico se encontram nos fragmentos evangelísticos judeu-cristãos, no Diatessaron, no Texto Ocidental e na literatura síria.
- O Logion 19 pressupõe o Fédon de Platão, e tudo isso se compreende melhor em Alexandria do que em Edessa.
- O autor não era gnóstico: quem honra o Antigo Testamento, reconhece a encarnação e ensina a ressurreição corporal não é gnóstico; e suas fontes também não eram gnósticas.
- O genial do autor foi reunir o encratismo immigrant com o judaico-cristianismo nativo de herança palestinense, criando uma síntese que durou séculos até Macário e o messalianismo.
- O encratismo sírio se distingue do ocidental por ter preservado fielmente os elementos arcaicos palestinenses, como a vida itinerante dos ihidaje e a concepção do Espírito Santo como mãe, herança judeu-cristã.
- Taciano seguiu o autor do Evangelho de Tomás; ao chegar ao oriente cristão por volta de 170, trouxe os quatro evangelhos ocidentais e ao compor seu Diatessaron utilizou também o evangelho hebraico ou nazoreu como quinta fonte.
- Os messalianos, como herdeiros dos encratitas, utilizaram tanto o Diatessaron quanto o Evangelho de Tomás; a união entre judaico-cristianismo e encratismo consolidou-se na Síria.
d) Der gnostische Redaktor
- O redator gnóstico eliminou no Logion 4 a referência à ressurreição dos mortos por lhe ser escandalosa; sua mão pode ser percebida em outras passagens também.
- A questão de se o Evangelho de Tomás é gnóstico por trair as intervenções de um gnóstico, por ter sido encontrado junto a escritos gnósticos e por ser conhecido de certos gnósticos deve ser respondida negativamente.
- Uma obra deve ser interpretada segundo a intenção do autor, não segundo as concepções de seus leitores; o sentido do Evangelho de Tomás não é gnóstico, mas encratita.
- É enganoso continuar trazendo paralelos gnósticos para interpretar o Evangelho de Tomás, pois isso introduz um sentido falso e torna obscuras passagens claras; é possível que lógia gnósticos tenham sido interpolados no texto ao longo dos séculos, mas isso não pode ser provado.
- Não há no Evangelho de Tomás nenhum logion que não possa ser explicado a partir do encratismo ou do judaico-cristianismo.
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