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Evangelho de Tomé

QUISPEL, Gilles; OORT, Johannes van. Gnostica , judaica , catholica: collected essays of Gilles Quispel. Leiden: Brill, 2008.

  • Identificação e Datação do Evangelho de Tomé
    • O reconhecimento de que os fragmentos de papiro gregos Oxyrhynchus 1, 654 e 655, datados paleograficamente de não muito depois de 200 d.C., pertencem ao Evangelho de Tomé, conforme identificado por H.-Ch. Puech após a descoberta de Nag Hammadi.
    • A hipótese de que o texto copta encontrado em Nag Hammadi é uma tradução do grego, contendo 114 Ditos atribuídos a Jesus, compilados em Edessa por volta de 140 d.C.
    • A refutação da tese de que o texto grego seria tradução do copta, baseada em uma interpretação errônea do copta no Logion 37; a conjunção auo é frequentemente omitida e o perfeito negativo mpetūšipe traduz corretamente o subjuntivo aoristo grego mè aischynthète.
  • Fontes e Composição do Evangelho
    • A existência de duplicatas no texto (como Logion 55 e 101) evidencia o uso de duas fontes escritas distintas pelo autor, similarmente ao uso de Marcos e Q por Mateus e Lucas.
    • Uma das fontes é identificada como um evangelho apócrifo judaico-cristão (possivelmente o Evangelho dos Nazarenos ou similar), contendo tradições independentes dos evangelhos canônicos.
    • A outra fonte é o Evangelho dos Egípcios, de caráter encratita, responsável por temas como a rejeição da procriação e do mundo material.
    • A identificação de uma terceira fonte, uma gnomologia hermética, baseada na presença de máximas de sabedoria grega e hermética, como o imperativo do autoconhecimento.
  • Caráter Judaico-Cristão e Tradição Independente
    • A presença de elementos teológicos judaico-cristãos distintos da Igreja Gentílica, como a primazia de Tiago (Logion 12), a observância do sábado (Logion 27) e a valorização dos Fariseus como detentores das chaves da Gnose (Logion 39).
    • A concordância do Logion 68 com tradições sobre a fuga para Pella, conhecidas também por Clemente de Alexandria e no Apocalipse.
    • A independência da parábola dos lavradores maus (Logion 65) em relação aos sinóticos, concordando quase palavra por palavra com a reconstrução da forma primitiva feita por C.H. Dodd.
    • A preservação no Logion 107 (Ovelha Perdida) do ponto original da parábola (“Eu te amo mais que as noventa e nove”), referindo-se à eleição de Israel, sem as adições redacionais de Mateus e Lucas.
    • O Logion 89 (lavar o exterior do copo) reflete uma tradição textual judaica independente (ausente no Texto Ocidental), onde o interior permanece puro se o exterior for lavado, ou a variante “cheio de imundície” conhecida por Macarius e Pseudo-Clementinos.
  • Caráter Encratita e Origem em Edessa
    • A autoria atribuída a um Encratita de Edessa, rejeitando casamento, vinho e carne, e ensinando que apenas os solteiros (monachos) entrariam no reino.
    • O uso do termo monachos (solitário/celibatário) como tradução do siríaco ihidaja, central para o evangelho e desconhecido na literatura cristã ou gnóstica anterior.
    • A interpretação da parábola das virgens (Logion 75) no sentido de que apenas os solteiros entram na câmara nupcial, concordando com a teologia de Taciano onde o batismo exigia celibato.
    • A continuidade desta tradição encratita nos Atos de Tomé e nas Odes de Salomão, estas últimas datadas de cerca de 200 d.C. e contendo polêmicas antimarcionitas.
  • Influência Hermética e Gnomologias
    • A identificação de paralelos com a literatura hermética, como o Logion 3 (“Quem conhece a si mesmo, o encontrará”) e o Logion 67 (“Quem conhece o Todo mas falha em conhecer a si mesmo…”), derivados de sentenças herméticas conhecidas.
    • A existência de gnomologias (coleções de sentenças) pagãs adaptadas por cristãos, como as Sentenças de Sextus, servindo de modelo para a incorporação de sabedoria hermética no Evangelho de Tomé.
    • A evidência de templos dedicados aos Sete planetas perto de Edessa (Sumatar Harabesi) no século II, confirmando a presença de cultos herméticos (Sabianos) na região onde o evangelho foi escrito.
    • A conexão entre Bardaisan de Edessa e a literatura hermética, sugerindo um fundo cultural comum para Taciano, Bardaisan e o autor de Tomé.
  • Relação com o Diatessaron e o Texto Ocidental
    • A refutação da dependência de Tomé em relação ao Diatessaron ; ao contrário, Taciano utilizou a mesma fonte judaico-cristã que Tomé.
    • A ausência em Tomé de erros gráficos característicos do Texto Ocidental (como a ditografia em Lucas 6:42), provando sua independência dessa tradição textual.
    • A preservação por Taciano de variantes judaico-cristãs também encontradas em Tomé, como a presença de luz no batismo de Jesus e a fórmula “onde houver um, eu estou com ele”.
    • A sobrevivência de leituras do Diatessaron (e indiretamente da fonte judaico-cristã) em harmonias medievais como o Heliand e textos islandeses/noruegueses.
  • Conclusão sobre a Natureza do Evangelho
    • A definição do Evangelho de Tomé não como gnóstico, mas como uma antologia encratita baseada em fontes judaico-cristãs, no Evangelho dos Egípcios e em gnomologias herméticas.
    • A rejeição das abordagens reacionárias que veem apenas perversão gnóstica, e a aceitação (com reservas) da abordagem de H. Koester sobre a tradição livre, embora discordando da datação precoce e da hipótese de Q.
    • A confirmação de que Tomé contém logia autênticos de Jesus, preservados independentemente da tradição sinótica, fundamentais para a pesquisa histórica sobre Jesus.
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