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MANIQUEÍSMO

Henri-Charles Puech. Sur le manichéisme et autres essais. Paris: Flammarion, 1979.

Prefácio

  • O título geral e vago dado à obra, por necessidade, corre o risco de provocar confusão quanto ao seu alcance real.
  • O livro não se restringe ao maniqueísmo e não constitui reedição nem versão atualizada de publicações anteriores sobre o tema.
    • Obras anteriores mencionadas: monografia na Histoire générale des Religions da Librairie A. Quillet, t. III, Paris, 1945, pp. 85-116; e na Histoire des Religions da Encyclopédie de la Pléiade, t. II, Paris, Gallimard, 1972, pp. 523-646.
    • Obra rejeitada como modelo: Le manichéisme. Son fondateur, sa doctrine, Paris, Civilisations du Sud, 1949.
    • O presente livro é continuação e complemento de dois volumes mais recentes: Em busca da Gnose, Paris, Gallimard, 1978.
    • Trata-se de uma coletânea de trabalhos distintos — artigos, conferências, relatórios, resumos ou registros de aulas, notas e breves ensaios — publicados entre 1930 e 1972 em revistas e coleções frequentemente pouco acessíveis.
  • Cada estudo reunido possui objeto próprio, mas a maioria forma um conjunto relativamente coerente por pertencer ao mesmo campo de pesquisa, tendo o maniqueísmo como tema central examinado sob diferentes aspectos e problemas particulares.
    • O detalhe não se desvincula do conjunto, e nenhuma visão geral ou global fica excluída.
    • A questão angustiante e capital da Salvação — como ela se colocava para os maniqueístas e como era por eles resolvida em teoria e prática — recebe uma exposição quase completa do sistema inteiro na primeira parte.
    • A figura do Príncipe das Trevas e a descrição minuciosa de seu Reino são examinadas, revelando a imagem mítica que Mani e seus discípulos faziam do Mal, um dos dois Princípios fundamentais da doutrina.
    • O mito do Homem Primordial — descido ao Abismo para combater a Obscuridade, derrotado e degradado, depois salvo e reconduzido à sua Pátria celeste, ao mundo da Luz — é analisado detalhadamente ao longo de três séries de resumos de cursos, pp. 359-379, relativos aos cinco mistérios que nele encontram justificação e modelos.
  • Na maioria dos casos, o maniqueísmo é estudado sobretudo sob um de seus aspectos parciais — frequentemente negligenciado —, que contribui de modo singular para distingui-lo de outros sistemas religiosos do mesmo tipo.
    • Esse aspecto confere ao maniqueísmo sua fisionomia singular e o distingue por caracteres específicos de outros sistemas gnósticos.
    • Por sua essência e pelas influências exercidas em sua formação, o maniqueísmo é indubitavelmente uma Gnose — uma doutrina da Salvação obtida pelo Conhecimento, em consequência de uma iluminação interiormente vivida, que é revelação de Deus em nós mesmos e de nós mesmos em Deus, pela redescoberta e recuperação de nossa verdadeira identidade em sua plenitude, no seio de uma Realidade absoluta totalmente apreendida e compreendida.
  • Por vontade de seu fundador e ao contrário da maioria das escolas gnósticas que o precederam, o maniqueísmo não se constituiu como comunidade puramente carismática, mas como Igreja dotada de estrutura e aparelho de sociedade religiosa fortemente ordenada, hierarquizada e autoritária — fato decisivo que merece ser estudado em todas as suas modalidades e consequências.
    • Mani — fundador do maniqueísmo — deliberadamente organizou sua religião como instituição eclesiástica.
    • Os fiéis tinham sua vida, piedade e fé submetidas a quadros rígidos e regras fixas, a um cânon de Escrituras, a um código de moral e a um dogma reputados intangíveis, bem como a um culto estritamente definido.
    • A distinção entre Eleitos — categoria superior dos fiéis — e simples crentes estruturava a hierarquia interna da Igreja maniqueísta.
  • Uma longa investigação conduzida continuamente de 1952 a 1972 no Collège de France dedicou-se ao estudo da liturgia e das práticas rituais no maniqueísmo, cujas etapas sucessivas são apresentadas numa série de registros de cursos reunidos sob o título Liturgia e práticas rituais no maniqueísmo.
    • Os pontos abordados compreendem: posição e enquadramento do problema; instituições eclesiásticas e litúrgicas; composição interna da Igreja maniqueísta e de suas comunidades; lugares, objetos e instrumentos do culto; ritos ordinários como oração, jejum, esmola, penitência e confissão; ritos de iniciação; festas e solenidades.
    • Alguns pontos são retomados e desenvolvidos em outros textos: a eucaristia, a ceia e a comunhão dos Eleitos — assimilada a uma participação no corpo e no sangue de Jesus — em São Paulo entre os maniqueístas da Ásia central; a penitência em Pecado e confissão no maniqueísmo, com a questão: como o pecador poderia confessar-se e arrepender-se de uma falta da qual não é responsável?; o uso da música e do canto nas cerimônias, em Música e himnologia maniqueístas.
  • Ao grupo de escritos sobre liturgia e rituais, apenas o primeiro dos quatro textos que o seguem poderia ser associado, ainda que de maneira indireta ou artificial — na medida em que se admitisse, mais por erro do que por razão, que o bogomilismo e o catarismo medieval derivam do maniqueísmo autêntico.
    • Bogomilismo — movimento religioso dualista medieval surgido nos Bálcãs, com afinidades doutrinárias com o maniqueísmo.
    • Catarismo — movimento herético cristão medieval do sul da França e norte da Itália, também de caráter dualista.
    • Os três outros ensaios são inteiramente independentes entre si e do restante da obra.
    • O cervo e a serpente interpreta, com auxílio de testemunhos arqueológicos e literários, um tema iconográfico ilustrado por um mosaico cristão descoberto na Tunísia, estabelecendo seu sentido simbólico a partir de sacramentários e sermões que descrevem a liturgia batismal da antiga Igreja.
    • As duas Notas publicadas em revistas de vanguarda — As prisões de Jean-Baptiste Piranèse e Significação e Representação — são esboços de juventude, algo aventureiros, que devem ao interesse manifestado por Yves Bonnefoy o fato de terem sido resgatadas do esquecimento.
    • Yves Bonnefoy — poeta e crítico de arte francês, mencionado como responsável pelo resgate dessas notas.
  • A visão panorâmica apresentada não pretende apagar nem atenuar a disparidade existente entre as peças que compõem o volume, o qual só pode ser o que é: uma reunião mais ou menos fortuita de escritos variados, demasiado antigos e quase póstumos, reproduzidos tal como foram publicados em seu tempo, com apenas pequenas correções de detalhe e notas complementares entre colchetes.
    • O único texto substancialmente refeito é o da primeira das três conferências, cuja versão original subsistia apenas em parte.
    • As notas complementares entre colchetes destinam-se sobretudo a retificar ou precisar determinados pontos à luz de documentos mais recentemente conhecidos.
  • Justapor escritos de idades diversas mantidos em seu estado primitivo apresenta inconvenientes — exposição a desacordos, repetições e incoerências nas transcrições de termos gregos, coptas, semíticos, iranianos, chineses e outros, oscilando entre rigor e aproximação conforme a época e o lugar de publicação.
    • As variantes subsistentes incluem, por exemplo: Khuastvanift e Khwastwaněft — duas formas de transliteração de um mesmo texto maniqueísta de confissão em língua turca antiga; š e sh; x e kh; ou — para a letra copta ei — e e ě.
    • Todo o possível foi feito para adaptar e harmonizar as transcrições, sem que se possa considerar o resultado inteiramente bem-sucedido.
  • O modo artificial de composição da obra, as diferenças de data e de estilo dos textos e o caráter sempre inacabado de uma pesquisa continuamente enriquecida por novos documentos condenam uma coletânea desse gênero à imperfeição — tanto mais quando trata do maniqueísmo, domínio por natureza incompleto.
    • O termo maniqueísta é usado hoje de modo abusivo, banal e excessivo, simplificando o sentido até traí-lo ou falsificá-lo.
    • A doutrina maniqueísta não se reduz a operar uma divisão radical entre categorias absolutamente boas e radicalmente más.
    • No maniqueísmo propriamente dito, o Bem e o Mal, a Luz e as Trevas, o Espírito e a Matéria são tidos como duas Substâncias, duas Naturezas ou Raízes incompatíveis e antagônicas — o dogma dos Dois Princípios.
    • Esse dogma dos Dois Princípios coexiste com outro igualmente fundamental: o dos Três Momentos ou Três Tempos, segundo o qual uma dualidade tão radical prevalece em estado puro apenas no início e no término do desenvolvimento que resume e articula as fases sucessivas.
  • No primeiro Momento — o Momento inicial — a Luz e a Obscuridade permaneciam separadas, cada uma em seu domínio próprio; no terceiro Momento — o Momento final — elas serão de novo disjuntas e integralmente distintas; no intervalo, o Momento mediano ou intermediário — o tempo presente da evolução universal e da história humana — a dualidade se rompe, as duas Substâncias se confrontam e se mesclam, e uma porção da Luz, da Alma de Deus, absorvida pelas Trevas e engolida na Matéria, forma apenas uma amálgama monstruosa e confusa.
    • A pureza é ameaçada de contaminação; o absoluto é comprometido pelo relativo.
    • O mundo atual resulta de uma Mistura — misto de bem e de mal, de clareza e de sombra, de verdade e de erro — e nada nele é puro ou completo.
    • Essa condição de Mistura aplica-se igualmente à presente obra: ela não poderia ser de outra forma.
  • Uma grande dívida é reconhecida em relação a Yves Bonnefoy, que junto com Raymond Queneau foi dos primeiros a encorajar a reunião e publicação dos trabalhos antigos, organizados em duas massas — uma relativa à Gnose, outra ao maniqueísmo —, e cuja insistência amigável prevaleceu sobre a indecisão quanto ao projeto.
    • Yves Bonnefoy — poeta e crítico francês que incentivou a publicação e orientou as escolhas das peças a reunir.
    • Raymond Queneau — escritor e editor francês, cofundador da OuLiPo, também mencionado como incentivador do projeto.
    • Louis Évrard — colaborador que dedicou cuidado à composição e revisão do manuscrito, à disposição das partes entre si e à transcrição ou tradução dos textos gregos e latinos antes apenas citados.
    • Os serviços das Éditions Flammarion são igualmente reconhecidos pela ajuda eficaz e indispensável na confecção dos índices e na correção das provas.
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