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Pecado e Confissão

Henri-Charles Puech. Sur le manichéisme et autres essais. Paris: Flammarion, 1979.

Pecado e confissão no maniqueísmo.

  • A confissão maniqueísta revela uma dificuldade doutrinal profunda, pois a prática penitencial parece incompatível com um dualismo radical que atribui o pecado ao corpo e à substância estrangeira misturada à alma.
    • Santo Agostinho reconhece ter explicado, em seu período maniqueísta, que o pecado não era propriamente obra sua, mas de uma natureza estranha que agia nele.
    • A fórmula agostiniana traduzida afirma: “Não somos nós que pecamos, porque o pecado não é nossa obra em nós, mas a obra operada em nós por não sei que natureza estranha.”
    • Essa justificativa permitia escapar à responsabilidade moral e recusar o reconhecimento da culpa.
    • A prática da confissão era, contudo, regular e obrigatória entre os maniqueus.
    • A confissão era exigida dos Espirituais, dos Eleitos, dos Perfeitos e dos Santos, e também, em grau inferior, dos Crentes, dos Auditores e dos Catecúmenos.
    • A existência de uma confissão obrigatória surpreende menos quando se reconhece que até os Perfeitos e Eleitos se julgavam sempre expostos ao risco de queda e impureza.
  • O dualismo maniqueísta absoluto mantém viva a ameaça do Mal e torna compreensível a necessidade contínua de vigilância, penitência e confissão.
    • O Mal é eterno, existente por si mesmo e dotado de força capaz de contrabalançar o Bem.
    • O Mal se mostra ativo, virulento e temível enquanto a morte não libertar definitivamente o homem do mundo e da carne.
    • A luta entre Bem e Mal continua em cada indivíduo.
    • O “velho homem”, ou homem carnal, combate o “homem novo”, ou homem espiritual, o Santo aprisionado no corpo.
    • Enquanto permanece neste mundo, o homem corre sempre o risco de pecar, cometer faltas e sucumbir.
    • A confissão torna-se inteligível como reconhecimento de uma ameaça interior permanente.
  • A pergunta sobre quem peca torna problemática a confissão, pois o maniqueísmo distingue no homem duas substâncias hostis, uma material e má, outra espiritual e luminosa.
    • A substância material é tenebrosa, estrangeira, hostil e integralmente má.
    • A substância espiritual é luminosa, absolutamente boa e identificada ao verdadeiro eu.
    • O homem é composto de carne, corpo e alma, mas a alma é parcela de Luz e substância de Deus.
    • O pecado parece proceder do corpo, que nasceu do pecado e carrega o mal em si mesmo.
    • A alma, sendo boa e tendendo naturalmente ao bem, só pecaria se fosse pressionada ou constrangida pela carne.
    • O pecado poderia ser atribuído, segundo essa lógica, a algo que não é o verdadeiro eu.
  • A crítica antimaniqueia acusa a doutrina de tornar incoerente a confissão, pois nem a substância má nem a substância boa pareceriam propriamente responsáveis pelo pecado.
    • Santo Agostinho, os compiladores do Denkart e os teólogos muçulmanos como al-Nazzam, al-Baghdadi e Ibn Hazm de Córdoba exploram essa dificuldade.
    • A substância material, sendo má por natureza, não poderia aspirar ao bem nem arrepender-se.
    • A substância espiritual, sendo boa por natureza, só poderia pecar por necessidade ou coerção externa.
    • Atribuir responsabilidade à matéria é inútil, pois ela só pode pecar.
    • Atribuir responsabilidade à alma luminosa parece contradizer a tese de sua bondade essencial.
    • A penitência poderia transformar-se em mentira se fizesse um inocente representar o culpado.
  • A resposta maniqueísta distingue o Mal eterno do pecado atual, pois o pecado nasce de uma falha momentânea da alma em sua condição misturada.
    • A alma não é espontaneamente inclinada ao pecado.
    • Ela é levada ao pecado por sua mistura com a carne e por habitar um corpo de pecado.
    • A condição atual da alma é uma condição de mistura, na qual ela já não é livre de si mesma.
    • O pecado não é consubstancial à alma, como o Mal é consubstancial à Matéria.
    • O Mal pertence à Matéria desde sempre, enquanto o pecado pertence ao instante da queda e da concessão ao desejo.
    • A Letra a Menoch, atribuída a Mani, afirma que todo pecado, antes de ser cometido, não está presente e, depois de cometido, subsiste somente na lembrança do pecador.
  • O pecado é tentação nascida do corpo, mas a alma pode resistir quando nela ressurge o nous, isto é, o elemento espiritual e salvador.
    • A alma abandonada a si mesma fica sem resistência por causa da fraqueza, da ignorância, da inconsciência e do engolfamento na carne.
    • O homem não é irremediavelmente condenado à passividade.
    • Acima da alma e imanente a ela está o nous, ou Espírito.
    • O nous representa a parte comum a todos os homens em sua pureza originária.
    • Quando reavivado na alma, o nous permite resistir à tentação e romper os assaltos continuamente renascentes do Mal.
    • O advento do homem novo coincide com esse despertar espiritual interior.
  • O homem novo é descrito como estrutura espiritual orgânica de faculdades e virtudes que capacitam a alma a resistir ao velho homem.
    • O nous aparece como chefe dos demais membros espirituais.
    • A pensée, a réflexion, a intention, a volonté e o raisonnement correspondem a faculdades interiores.
    • Amor, fé, perfeição, paciência, perseverança e sabedoria aparecem como virtudes do homem novo.
    • Essas faculdades e virtudes são armas contra os ataques do corpo de pecado.
    • A imagem retoma a linguagem paulina das armas espirituais.
    • O homem novo revela a alma virada para o nous, reunida a ele e fortalecida por seus dons.
  • A gnose dá à alma poder contra o homem carnal ao fazê-la recordar sua origem, conhecer sua condição e recuperar posse de si.
    • O Espírito dá à alma poder para vencer o homem exterior ao despertar a memória de sua essência divina.
    • A alma, provisoriamente esquecida, reconhece o que é em sua verdade plenária.
    • A doutrina e a ciência gnóstica revelam de onde a alma vem, onde está, por qual via caiu e por quais meios pode escapar.
    • O ensino funciona como aviso, exortação, chamado e memorial.
    • O memorial devolve a alma à própria natureza originária.
    • A gnose torna a alma luminosa e lúcida ao restituir-lhe consciência e conhecimento de si.
  • A iluminação separa interiormente a alma da Matéria e a purifica ao fazê-la discernir o Bem e o Mal.
    • A alma sabe que a Matéria e a carne lhe são estranhas.
    • A alma opera em si uma separação entre si mesma e o Mal.
    • Uma vez iluminada pelo Espírito, a alma discerne o Bem e o Mal.
    • Ela conhece a natureza da potência má e as consequências da adesão ao Mal.
    • A alma sabe seus deveres e poderes, pois conhece o que deve e pode fazer.
    • A vitória lhe é assegurada em princípio pela força de seu próprio princípio espiritual.
  • A confissão é explicada como instrumento de retorno da alma a si mesma, pois não cria a culpa, mas convoca a consciência a reconhecê-la e superá-la.
    • A confissão remete o pecador à posse de si mesmo.
    • O culpado é chamado à ordem, mas também chamado de volta a si.
    • A confissão repreende, retoma e permite ao pecador retomar-se.
    • A alma reconhece a transgressão e, ao mesmo tempo, a própria natureza verdadeira.
    • Ao confessar, a alma regressa a si, retorna sobre si e converte-se a si mesma.
    • A falta confessada deixa de persistir na memória como força ativa de culpa.
  • O pecado só permanece plenamente culpável quando há esquecimento obstinado da Luz recebida e recusa voluntária da verdade.
    • O pecado nasce depois que o esquecimento ou o velho homem mergulha a alma na inconsciência.
    • A tentação ameaça por inconsciência, e a falta é a própria inconsciência.
    • O pecado pode ser voluntário ou involuntário, aparente ou livremente consentido.
    • Secundino formula o princípio traduzido: “Se, depois de ter conhecido a mim mesma, a alma consente ao mal e não se arma contra o inimigo, ela pecou por sua própria vontade.”
    • A culpa é mais grave quando há liberdade de opção ou decisão.
    • A alma regenerada pela gnose, instruída e dotada do Espírito, deve usar os recursos colocados à sua disposição.
  • A doutrina maniqueísta preserva a possibilidade do pecado sem destruir a responsabilidade, pois a alma misturada pode cair por eclipse de consciência.
    • A iluminação não é permanente nos homens de carne.
    • Mesmo as almas mais perfeitas podem recair momentaneamente nas trevas da inconsciência.
    • O pecado torna-se quase inevitável em alguns graus, por causa da instabilidade da consciência iluminada.
    • A principal culpa não é a ação má isolada, mas a ausência de arrependimento.
    • A alma não é punida simplesmente por ter pecado, mas por não se arrepender do pecado.
    • O direito à salvação dado pela presença do nous e pela posse da gnose é suspenso enquanto o pecado atual não for confessado e superado.
  • A função capital da confissão depende da penitência entendida como metanoia e epistrophe, isto é, retorno intelectual da alma a si mesma e conversão à própria origem.
    • A confissão deve ser compreendida a partir da ideia maniqueísta de arrependimento.
    • A metanoia é assimilada a uma epistrophe, ou conversão, de ordem mais intelectual que moral.
    • A conversão é retorno da alma a seu estado próprio.
    • Esse retorno ocorre pela lembrança de sua origem, de sua dignidade e de suas faculdades naturais.
    • A alma é reconduzida à condição de puro nous, puro espírito.
    • A penitência estabelece uma separação necessária entre a alma e o Mal.
  • Sem essa teoria da alma misturada, iluminada e capaz de retorno, a prática maniqueísta da confissão permaneceria mecânica, inexplicável ou injustificável.
    • A confissão só tem sentido porque a alma pode ser culpada por esquecimento e salva por rememoração.
    • A alma não é idêntica ao Mal, mas pode consentir nele por inconsciência.
    • A confissão reativa o saber salvífico recebido pela gnose.
    • O arrependimento não é simples remorso moral, mas recuperação da identidade espiritual.
    • A separação entre a alma e a Matéria constitui o fundamento da remissão.
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